O incendio da eschola polytechnica, acontecimento triste em si, mais triste pelas suas consequencias em rela??o ao ensino público, tristissimo pelas difficuldades que a pobreza do erario opp?e á restaura??o desse estabelecimento, foi uma verdadeira calamidade para a instruc??o nacional. No estado de má organisa??o e de abandono em que esta se acha, a eschola polytechnica era uma brilhante excep??o.
Naquella fonte de conhecimentos úteis: naquelle foco de luz intellectual se haviam de encontrar algum dia os elementos mais essenciaes para a crea??o do ensino geral, quando os homens que presidissem aos destinos da nossa terra comprehendessem as verdadeiras condi??es de uma lei d'instruc??o pública. Como a eschola polytechnica seria a principal alavanca para esta regenera??o n?o o direi aqui, porque nem esse é o meu intento, nem o tempo presente me parece proprio para tractar similhantes materias.
Convertido o edificio da eschola num mont?o de ruinas, e perdidos no meio destas parte dos objectos preciosos para a sciencia que ahi se encerravam, o primeiro pensamento, que naturalmente occorreu, foi o de buscar um meio para reparar t?o fatal damno. Em milhares de espiritos surgíu simultaneamente uma idéa grande e generosa, e com rapidez incrivel essa idéa se converteu em opini?o geral. A raz?o pública, sempre mais illustrada e segura que a dos individuos, perfilhou o pensamento de applicar as sommas colligidas para a crea??o do monumento com estátua, á restaura??o da eschola polytechnica. A imprensa periodica, sem distinc??o de parcialidades, fez sentir as conveniencias, n?o da nova applica??o que se propunha para aquellas sommas, mas da nova fórma da mesma applica??o. A imprensa fez o que devia; este negócio pertencia-lhe essencialmente porque era uma quest?o de intellectualidade. O alvitre, que ninguem dera, por que todos o tinham dado, parecia n?o encerrar difficuldades. Era quasi um axioma de civilisa??o e patriotismo; era a express?o da doutrina de Jesus-o converter pedras em p?o-o convertê-las em alimento da intelligencia, em vez de passatempo dos olhos. Era emfim uma raridade em Portugal, uma cousa pública feita com bom juizo.
Todavia a materia n?o era tanto de primeira intui??o como geralmente parecera. Em muitos animos suscitaram-se dúvidas e escrupulos sobre a legitimidade da nova forma que se pretendia dar ao monumento de D. Pedro. Estas dúvidas a principio fracas, envergonhadas, incertas, tomaram vulto e acharam órg?o na imprensa: o que parecera axioma converteu-se em these disputavel e disputada. Agora ahi anda na téla da discuss?o, e quem sabe qual será o seu destino? Quem sabe se os que podem promover a realisa??o do pensamento público se inclinar?o para um ou para outro lado? Uma cousa sei eu; e é, que todos os homens de boa e sincera vontade, a quem Deus concedeu alguma por??o de intendimento, devem descer á arena do combate; porque o resultado delle n?o só será grave e importante em si, mas servirá de padr?o por onde estrangeiros affiram o grau da nossa civilisa??o.
Os que contrastam a opini?o geral neste negócio n?o teem por certo nenhum pensamento reservado, nenhum destes motivos mesquinhos, que tantas vezes nas quest?es de interesse público transviam os melhores espiritos. Devo e quero crêr, que os seus receios nascem todos de uma delicadeza excessiva de consciencia, de um erro de raciocinio causado por um sentimento puro e nobre. Seria monstruoso e incrivel que as suas palavras nascessem de outra origem; porque nenhum português haveria ahi t?o corrupto, que por capricho, por antipathia ou por qualquer outro motivo abjecto, guerreasse a educa??o da mocidade, e quisesse converter o monumento de um principe liberal e illustrado em monumento de uma fa?anha de vándalos, que nos deshonraria aos olhos da Europa inteira.
Quando se tracta de uma quest?o que involve a memoria de um homem como o Duque de Bragan?a, e da existencia do único instituto d'instruc??o superior nascido á sombra da liberdade, nós, gera??o pobre de gloria; nós, que fortes em derribar as cousas dos tempos que foram, nos temos mostrado tardos e débeis em reconstruir para o futuro, devemos debatê-la sem chólera, e com animo desassombrado de paix?es, como o requerem a memoria de um grande principe e a importancia desse instituto.
As objec??es capitaes a que se reduz tudo o que se tem dicto, tudo o que se póde dizer por parte dos defensores da pedra contra o p?o, s?o três: 1.^a, a falta de fé pública a respeito de uma somma destinada para certo e determinado fim pelos contribuintes, applicada para fins diversos, sejam elles quaes forem: 2.^a, que representando o monumento de D. Pedro uma ordem de idéas exclusivamente moraes, quanto se ponderar ácerca da utilidade de reconstruir a eschola polytechnica n?o vem ao intento, porque todas essas pondera??es pertencem a uma ordem de idéas differentes: 3.^a, que essas duas ordens de considera??es s?o como duas linhas indefinitas parallelas, que caminham ao lado uma da outra, sem que seja possivel encontrarem-se jamais.
Eis o que era substáncia se tem dicto, escripto e repetido por parte dos defensores do monumento da pra?a pública; tudo o mais s?o accessorios; s?o considera??es que tendem a refor?ar estes três argumentos principaes. Examinemos a sua for?a. Se na verdade s?o solidos, é necessario seguir a opini?o quasi singular, e abandonar as ruinas da eschola polytechnica, para que esta seja reconstruida quando e como se podér. Se o n?o s?o, é preciso que o monumento de D. Pedro seja digno delle: é preciso respeitar a opini?o do país.
Pela minha parte intendo que o primeiro argumento é incontrastavel. Sincera e lealmente o confesso. Quem contribuiu para qualquer obra determinada, tem direito de exigir que essa obra se execute. Fosse ella o maior dos absurdos, fosse a vergonha da arte e do senso commum, uma vez que n?o offendesse a moral e as leis, a vontade dos contribuintes devia ser respeitada. No caso presente havia um programma, bom ou mau, para a feitura do monumento do Imperador; estava até escolhido o logar onde se havia de erigir quando a subscrip??o se abriu. Os subscriptores acceitaram aquellas condi??es: fez-se um verdadeiro contracto. A todas as raz?es de conveniencia, que se fa?am, o menor dos contribuintes pode responder:-?N?o vos importe se é uma imprudencia, uma loucura, uma brutalidade. As condi??es do meu contracto s?o estas: cumpri-as, e n?o cureis dos meus êrros.?
E teria raz?o. O transviar o dinheiro do monumento para o mais útil fim, sem consentimento daquelles que o deram, seria uma falta de fé pública; mais: um verdadeiro latrocinio.
Mas n?o haverá algum meio de resolver a difficuldade? Ha, e muito simples. Que as auctoridades propostas a este negócio declarem que é lícito a todo e qualquer subscriptor retirar a somma que offereceu, se intender que o monumento intellectual n?o satisfaz as condi??es da sua gratid?o. Depois disto abra-se uma subscrip??o sem limite no quantum para os que n?o se offendem de ver a memoria de D. Pedro ligada a um estabelecimento litterario. Parece-me que posso com certeza affirmar que mais bolsas se h?o-de descerrar para contribuir de novo, que para receber o já offerecido.
Sem esta medida prévia intendo que é moralmente impossivel mudar as condi??es capitaes da feitura do monumento, e por consequencia impossivel satisfazer as exigencias da opini?o pública.
Consideremos agora os outros argumentos que pertencem á cousa em si, e em rela??o á moralidade, n?o de um contracto, mas de um pensamento nacional que reune e formula por certo modo três idéas distinctas-a de um grande homem, a de um povo e a da posteridade.
Tracta-se de um monumento. Por onde se devia come?ar? Por definir bem claramente aquillo de que se tractava. Fez-se isso? N?o.
Sabemos o que significa essa palavra:-dir-se-ha. Pode ser; mas ahi se imprimiu já-?que um monumento é um ponto de contacto entre a gloria e a admira??o.? - E porque se disse isto? Porque se tomou uma hypothese por uma these; partiu-se do singular para o universal, do condicional para o absoluto. A defini??o é falsa, e da sua falsidade nasceu talvez a multid?o de paralogismos intoleraveis, que todos temos lido e ouvido.
Um monumento é um meio de transmittir ao futuro uma lembran?a do passado. Essencialmente é só isto. Accidentalmente mil condi??es podem variar o seu modo de existir, mas a condi??o unicamente absoluta deste existir é o lembrar. Onde houver isto ha monumento: o livro e o templo, o obelisco e a estátua, o palacio e a campa; a arvore e até o ch?o defeso e condemnado a perpétua esterilidade podem ser monumentos. O objecto lembrado, repito, é a condi??o exclusivamente absoluta de um monumento.
A columna erguida em uma das praias do nosso Téjo em monumento do supplício de alguns regicidas, e o templo vizinho della, edificado no sítio em que se perpetrou o delicto, ser?o pontos de contacto entre a gloria e a admira??o? Sê-lo-ha a cruz plantada no caminho deserto em memoria do assassino que ahi despojou da vida o seu similhante? Responda-se.
Posto isto, venhamos á hypothese.
Que pretendemos nós? Edificar um monumento a D. Pedro. E para quê? Para lembrar á posteridade o que lhe deve Portugal-nós e os vindouros.-O monumento é para elle; é para a sua memoria.
Quaes s?o os elementos deste pensamento? S?o a grandeza moral do individuo, transmittida ao futuro, e a gratid?o especialmente nossa, se quiserem. Eis a sua express?o mais simples. S?o duas idéas. Dellas se deve partir para resolver a segunda e terceira objec??es capitaes que os adversarios nos fazem.
Das duas idéas qual é a causa final do monumento, qual a sua condi??o absoluta? A primeira. Qual o accidente? A segunda.
Em transtornar estas duas idéas, em lhes trocar os valores é que está principalmente o êrro.
é á nossa gratid?o que levantaes o monumento, ou á lembran?a de D. Pedro? Se é á primeira, afastai da vossa obra a menor sombra de utilidade; porque proveito proprio e agradecimento annullam-se: este será destruido, e o que n?o existiu n?o pode ser lembrado: se é a D. Pedro, embora o monumento seja útil, utilissimo, a condi??o moral necessaria fica satisfeita; o que varia é o que pode variar e ser modificado, o accidente.
Engana o cora??o aquelles que vêem o egoismo na opini?o geral sobre a judiciosa transforma??o do intentado monumento. Logo mostrarei quanto é vasia de sentido similhante accusa??o. Entretanto seja-me lícito lembrar-lhes que involuntariamente s?o elles os egoístas, além de egoístas orgulhosos. N?o será mais egoísmo substituir como idéa principal a da propria gratid?o á da memoria de D. Pedro? Levantando um monumento de que nenhum proveito resulta ao país, estes homens generosos crêem pagar ao Libertador a dívida nacional! Pagam com o seu dinheiro a liberdade que elle nos deu, e as esperan?as de nossos filhos! Elles, homens obscuros como nós, saldam contas com o grande Principe, atirando alguns cruzados para se converterem em pedras que lhe sejam consagradas! Se essas pedras fossem úteis havia um saldo contra elles: era uma vergonha para esta gera??o, sim pobre, mas fidalga. Nós cremos outra cousa. Cremos que a nossa divida é insoluvel, insoluvel a dívida das gera??es que vierem após nós: cremos que o monumento de D. Pedro n?o deve ser um só; que n?o é unicamente no fronstipicio da eschola polytechnica restaurada que se ha-de escrever o seu nome em lettras cubitaes de bronze. Multiplicai os institutos de civilisa??o e de progresso, e consagrai-lh'os; porque o primeiro élo da cadeia da nossa regenera??o moral e material parte do meio das suas cinzas, está sumido na noute do seu ataúde. Que por toda a parte o nome de D. Pedro surja entre nós como o de Tell entre os suissos, symbolo de liberdade: que por toda a parte as gera??es infantes tenham de perguntar ás gera??es adultas a significa??o deste nome, e ellas lhes possam relatar as tradi??es de saudade que já ouviram recontar a seus paes. Se um beneficio, incalculavel, porque os seus resultados pertencem a um futuro indefinito e desconhecido, se retribue com meia duzia de pedras de Pero-Pinheiro, digo-vos que tendes lá riqueza com que comprar para a na??o portuguesa n?o só a felicidade terrena, mas as proprias chaves do paraiso.
Pelo amor de Deus n?o pagueis a D. Pedro! Despi a vossa vaidade de pigmeus diante da sua memoria. O vulto do grande Principe é um vulto gigante. Por muito que fa?ais podeis estar certos de que a posteridade n?o vos enxergará sequer, na penumbra immensa desse vulto, que se alevanta sobranceiro no meio das nossas miserias como o cedro no meio das ?ar?as rasteiras.
Sede gratos, porque cumpris um dever: mas n?o queiraes associar a vossa gratid?o como idéa principal ao monumento do homem illustre, porque isto é um orgulho ridiculo. Que importa ao futuro o vosso nome, ou, o que ainda é menos, um de vossos affectos? N?o mancheis o que é sublime e sancto com o que seria trivial e burlesco-uma pequenina vaidade.
Vaidade-n?o cessarei de o repetir-só vaidade anda nesta guerra que se faz ao pensamento público: é ella quem offusca o intendimento dos que o combatem. A prova ahi está: deu-se como raz?o suprema-que ninguem acreditaria que a erec??o dum monumento f?sse um signal do nosso respeito a D. Pedro, se aquella opini?o se realisasse. O monumento é pois consagrado, n?o a D. Pedro, mas a um sentimento nosso, a nós. Se elle lembrar só o Imperador nada lembra; perde a sua significa??o de monumento, porque ninguem acreditará que tivemos tal ou tal affecto. Os nossos nomes, as nossas virtudes n?o chegar?o á posteridade com gravissimo detrimento dos vindouros! Oh miseria das miserias humanas!
Talvez eu n?o intenda bem a quest?o. Digam-me se é um recibo de pedra, que pretendemos fazer passar authenticamente, e em público, de que pagámos cm admira??o até o último ceitil do que deviamos a D. Pedro. Se é isso, tendes raz?o. Concluido este negócio estamos quites e livres. Depois elle, se podér, que guarde do sepulchro o cabedal que lhe entregámos. Podemos esquecer-nos delle. Se as revolu??es da natureza ou dos homens destruirem o monumento, nada temos com isso. Que a sombra de D. Pedro conservasse melhor a sua propriedade.
De que lado estará o egoísmo, o cálculo mesquinho, a ingratid?o até? Parece-me que n?o é do lado da opini?o do país. As vossas doutrinas conduzir-vos-h?o ao absurdo e á blasphemia moral: basta que tenhaes logica.
Vós dizeis que um monumento for?osamente ha-de ser inútil. Esta condi??o absoluta tinheis obriga??o de demonstrá-la. Havia de levar-vos algum tempo. Devieis come?ar por destruir metade dos monumentos do passado, que vos desmentem. Achastes mais facil attribuir aos adversarios a proposi??o diametralmente opposta, de que todo o monumento deve necessariamente ser útil. Crestes que a defens?o de um absurdo estava em combater outro absurdo. Enganaste-vos. Nenhuma das duas proposi??es é verdadeira, porque as idéas que representam n?o se conteem na de monumento: nenhuma por isso destroe a outra. Pode haver considera??es que movam a erigir um monumento útil ou inútil; mas essas considera??es s?o alheias á essencia do objecto. Se todavia a vossa doutrina é que só a inutilidade pode ser monumental, limitai-vos a prová-lo. Epigrammas, que ferem em v?o, convertem-se em semsaborias.
Parece-me ficar demonstrado que em rela??o á idéa de monumento e em rela??o a perpetuar a memoria do Duque de Bragan?a a quest?o da utilidade ou inutilidade de qualquer edifica??o, que se haja de fazer com o intuito monumental, é uma quest?o ociosa. Vejamos agora o negócio sob outro aspecto: vejamo-lo em rela??o a nós.
Quando surge um pensamento público; quando uma na??o se congrega em volta de uma idéa para a reduzir a um facto, ella deve considerar bem attentamente o seu desenho antes de o executar. Uma na??o é responsavel perante as outras na??es, como o indivíduo perante a sociedade a que pertence. Esta responsabilidade, postoque exclusivamente moral, tem na Europa um juizo inexhoravel onde será julgada; a senten?a formula-a a imprensa: a opini?o é o tribunal que ha-de confirmar esta, e a historia o registo onde para a perpetuidade se lan?ará o julgamento. Graves e meditadas devem por isso ser as ac??es que pertencem ao corpo social; é preciso que levem o cunho da moralidade, da decencia, da sabedoria. Sem isto a condemna??o é certa. Poderiamos na verdade affrontá-la, se as gera??es n?o fossem solidarias; se uma sociedade n?o fosse um indivíduo cuja vida se prolonga através dos seculos, e que em cada um delles tem direito a gloriar-se das suas boas ac??es passadas, como os outros povos teem direito a lan?ar-lhe em rosto os êrros ou crimes que commetteu em anteriores épochas da sua existencia. Uma gera??o n?o pertence unicamente a si, pertence ao preterito cuja herdeira é, ao futuro, cuja testadora será.
Esta doutrina nunca devera esquecer ás na??es: nunca devera ser desprezada pelos que as dirigem. Muitos arrependimentos tardios se haveriam poupado: muitas maldic??es teriam deixado de cair sobre as cinzas de homens eminentes; muitas mais memorias virtuosas achariam os povos no thesouro das suas recorda??es, e muito menos bétas negras sulcariam as paginas dos annaes do género-humano.
Se considerado na sua essencia o monumento pode indifferentemente ser uma columna ou uma eschola, um túmulo ou um hospital, uma pyramide ou um sarcóphago: se o seu destino lhe n?o determina os accidentes como por uma deploravel confus?o d'idéas se tem pretendido, cumpre examinar quaes condi??es lhe possa imp?r a circumstancia de ser n?o só um monumento, mas um monumento nacional; de ser uma edifica??o pública levantada á memoria de um homem illustre. Aqui uma nova ordem de considera??es se apresenta: s?o umas de conveniencia, outras de decencia, outras emfim de moralidade, e até de poesia, porque se ha-de attender a sentimentos, tradi??es e affectos; porque uma na??o que se esquece de tudo isto n?o é só corrompida, é uma na??o gangrenada.
A esta luz, em rela??o a nós, como povo livre, aos motivos que tornaram illustre a memoria do Duque de Bragan?a, ás tradi??es humanas, e sobretudo ás tradi??es domésticas, parece-me n?o só estar resolvida a quest?o a favor da opini?o pública sobre esta materia, mas até provar-se que é moral e poeticamente impossivel o consagrar ás recorda??es de D. Pedro o já proverbial Monumento com estatua, o mote architectonico de classico abbadessado.
Pelo lado da conveniencia quasi é escusado dizer uma palavra entre a pedra e o livro; entre o luxo de uma pra?a pública, e o alimento intellectual da juventude; entre o obelisco que desaba ao rugir do volc?o subterraneo, ou do volc?o popular ainda mais estupidamente assolador, e o monumento prolífico da sciencia, que, uma vez derramada, n?o destroem nem as revolu??es dos homens nem as da natureza: n?o é possivel discutir preferencias, tanto porque a discuss?o f?ra ridicula, como porque responsaveis para com o futuro, elle teria direito de condemnar-nos por lhe havermos legado em logar de um instrumento de civilisa??o para todo o país, uma pública-fórma de um velho dixe romano, para adornar ou obstruir uma pra?a da capital.
E aqui vem a ponto repellir a infundada accusa??o de egoísmo que se nos faz, porque preferimos o monumento-eschola ao monumento-columna. O que é o egoísmo? é o amor exclusivo de si, o curar unicamente dos proprios interesses sem considerar os de mais ninguem. O egoísmo é essencialmente individual. Mas para quem pode a eschola polytechnica produzir fructos de ben?am? Para nós os homens feitos, para nós os que pretendemos que ella seja o monumento de D. Pedro? Certo que n?o. Rudes ou cultivados, ignorantes ou sabios, já n?o vamos assentar-nos a esse banquete d'illustra??o. é a mocidade que lá tem seu logar, é o futuro que ha-de saciar-se nessa fonte caudal de civilisa??o e de verdadeiro progresso. Onde está pois o egoismo?-Se alguma cousa do cora??o entra nisto, é exactamente o contrário; é a abnega??o.
Attribuirmos aos adversarios motivos maus numa quest?o de similhante natureza, para tornarmos odiosa a opini?o que impugnamos, é confessar indirectamente que sentimos a fraqueza das nossas doutrinas. Estas armas s?o faceis de menear, e n?o faltaria bastimento dellas aos que pelejando com raciocinios s?o accommettidos no sanctuario da sua consciencia. N?o as empregarei eu, porque nada provaria esse esgrimir insensato. Deixando o egoísmo, os interesses mesquinhos, as causas occultas a quem de direito pertencerem, tractarei de considera??es mais graves.
Um monumento n?o é uma inven??o moderna: desde a origem das sociedades a arvore solitaria se plantou para a recorda??o dos homens, para as recorda??es se amontoaram as pedras á borda das torrentes ou sobre os visos dos outeiros. Todos os tempos e todas as gentes deixaram mais ou menos subtilmente escriptas, mais ou menos completas estas memorias de si. Os monumentos teem portanto uma historia, e logo uma philosophia. Vós os que vos alcunhaes de grandes philosophos, e nos olhaes com sobrecenho de superioridade, indagastes acaso os resultados dessa historia buscando por tal modo alguma luz para das normas geraes deduzir as condi??es da hypothese? N?o!-é que isto era apenas consultar a raz?o do genero humano, cousa bem escusada tendo vós a vossa raz?o t?o logica, t?o fina, t?o profunda como fica provado.
Que nos diz em resumo a historia dos monumentos? O que nos dizem todas as cousas; todos os aspectos do passado:-que a idéa caracteristica de qualquer épocha, o facto capital e íntimo de qualquer sociedade se reproduz em todos os seus modos d'existir. Entre os monumentos de um país e cada uma das suas épochas ha sempre uma harmonia, harmonia a que por via de regra se ajuncta a do aspecto moral do indivíduo eminente cuja memoria se quis transmittir á posteridade, ou, tractando-se de um sucesso, a da natureza deste. De similhante verdade, sentida, mas ainda n?o raciocinada e talvez unicamente della, nasceu a applica??o da alegoria ás edifica??es monumentaes.
Seria longo, daria um livro, o voltar desta synthese á anályse miuda dos factos que a comprovam em todos os logares, em todos os tempos e nos monumentos cuja data é conhecida, e conhecida a historia da gera??o que os alevantou. N?o cabe aqui esse vastissimo trabalho: contentar-me-hei com algumas observa??es mais notaveis e de mais immediata applica??o ao negócio que hoje se ventila entre a opini?o pública, e esses espiritos que se crêem mais illustrados do que ella.
Muitos monumentos como o que se pretende dedicar a D. Pedro, muitas columnas com estátuas e sem ellas alevantaram os romanos aos seus homens eminentes: duas apenas se conhecem que precedessem o estabelecimento do imperio, a de Menio e a de Decillio, monumentos obscuros de que só faz men??o Plinio. Com o progresso do decair romano multiplicou-se esta especie de padr?es, que marcam, ou a servid?o dos romanos como os que profusamente espalharam os primeiros césares, ou tristes victorias que ao desmoronar-se aquelle colosso da civilisa??o antiga, unicamente serviam para tornar mais tormentosa a sua lenta agonia.
Alguns dos principes a quem essas memorias foram consagradas, como os Antoninos tiveram uma triste illustra??o: foram nobres e virtuosos no meio da corrup??o e vileza do seu povo de escravos. Outros a tiveram ainda mais triste, porque deshonrosa aos olhos da philosophia; porque foram apenas ambiciosos de gloria militar, que cubriram a terra de estragos e sangue, como de Trajano com tanta raz?o observa Gibbon. Outros finalmente as tiveram no meio dos ultimos transes do imperio, como Phocas, tyranno estúpido e feroz, a quem o exarcha Smaragdo p?s tambem uma columna com estátua n?o sei em que pra?a da velha Roma, que baqueava já, e se desfazia em pó entre as m?os robustas dos barbaros.
Taes monumentos eram na verdade um symbolo da épocha e da sociedade que os erigia: symbolo morto de um povo que se dissolvia; existencia infecunda para o bem moral ou material dos homens, e por isso em harmonia com a velhice horrenda de um imperio que se aniquilava: memoria, emfim, de individuos que n?o faziam outra cousa sen?o presidir mais ou menos vergonhosamente ao desfazer de uma grande ruina.
Mas que foi D. Pedro? Foi o homem da liberdade; foi o homem da regenera??o; foi o homem do pensamento vivificador; foi o homem que nos acordou do lethargo da servid?o e do opprobrio para nos p?r no caminho da vida social e da esperan?a. Que somos nós? Uma na??o que renasce, que espera, que tem futuro, se n?o esquecermos os exemplos e as doutrinas que o Duque de Bragan?a nos herdou. Se D. Pedro n?o foi um conquistador como Trajano, que chorava por n?o poder imitar o grande mentecapto chamado Alexandre o grande; se o ingenho de D. Pedro era energico, activo, creador, bem differente do de Antonino, o Pio, cuja vida se escoou no repouso da sua villa Lanuvia; se f?ra atrocidade infame comparar D. Pedro com o brutal e hediondo Phocas, porque insistis em macaquear para seu monumento a columna de Trajano, de Antonino ou de Phocas? Porque subis ao vosso balc?o, e continuaes a deitar o mote monumento com estatua, como o exarcha Smaragdo o deitava a um povo agonisante do balc?o do senado de Roma? Se crêdes, e esperaes da patria, porque quereis que nossas m?os de homens livres v?o desenterrar ao grande cemiterio romano-A Antiguidade Explicada de Montfaucon-um dixe de antigos déspotas pag?os, para o dedicar por cópia a um rei liberal e christ?o? Se tendes a furia das imita??es, ao menos n?o exijaes que imitemos a obra de uma na??o serva e moribunda.
Venhamos já aos tempos modernos. S?o as tradi??es humanas mais proximas de nós; s?o principalmente os exemplos domesticos que condemnam a vossa pretens?o de consagrar ao Duque de Bragan?a um monumento improprio do indivíduo a quem é dedicado e da sociedade que lh'o dedica.
No ber?o, na infancia e na juventude das na??es modernas a idéa predominante e caracteristica da vida social foi o pensamento religioso. E com raz?o. O christianismo era para essas épochas a civilisa??o, pelas doutrinas moraes; a for?a, pelo enthusiasmo da fé. Assim a religi?o determinou o accidental dos monumentos. Os templos foram os padr?es postos á memoria dos individuos eminentes e dos successos gloriosos. O egoísmo tinha sido o sentimento que absorvera todos os sentimentos e idéas da vida decadente, ou antes do lento morrer do imperio, e por consequencia os seus monumentos haviam sido tambem essencialmente egoístas, isto é, essencialmente inúteis. Modificados pela idéa capital da sociedade os da idade média foram prolíficos e civilisadores: a cathedral e o mosteiro correspondiam como symbolo e como realidade á eschola moderna; como symbolo, porque a religi?o foi nessas eras quasi o único instrumento do progresso moral; como realidade, porque no mosteiro e na cathedral progrediu a intelligencia humana até que appareceu a imprensa. A utilidade social aggregou-se por esse modo á execu??o dos monumentos. é isto o que nos diz a historia da Europa nesse período, e em especial a historia do nosso país.
Depois as na??es envelheceram, e á lucta do povo e dos nobres, do clero e dos reis, que era vida, crescimento e liberdade, seguiu-se o pacífico triumphar da monarchia, a somnolencia do repouso doméstico, que era decadencia. Ent?o come?aram a surgir de novo os motes do exarcha, os monumentos com estátua. Luiz XIV que completou o absolutismo em Fran?a teve a sua glosa áquelle mote: teve-a D. José I, que completou o absolutismo em Portugal.
Após isto veiu a renova??o. A Providéncia, que transformara o mundo antigo pelas invas?es do septemtri?o, vai transformando as na??es modernas pelas agita??es intestinas. Lá empregou o ferro e as trévas: cá as revolu??es e a discuss?o. A lei providencial é a mesma; só a fórma da applica??o é diversa.
A analogia entre a nossa épocha e a meia-idade é maravilhosa e completa sob o aspecto da transforma??o social. Para ver isto é preciso saber achar a philosophia da historia. Os elementos mudaram, mas a sua ac??o é identica.
A eschola tem hoje a preencher a miss?o que o templo desempenhava ha quatro para cinco séculos. O ferro e a barbaria que mataram a dissolu??o, e amputaram a gangrena romana, abriram fundas feridas no seio da civilisa??o: o bálsamo do evangelho veiu curá-las. As revolu??es e as doutrinas que v?o dissolvendo organisa??es sociaes carunchosas e impossiveis na actualidade, deixam ahi avultado fermento de desordem e de licen?a: quem ha-de annullar este fermento é a illustra??o. Para isso a eschola tem de substituir o templo.
Qual é o maximo vulto da idade media portuguesa?-é D. Jo?o I. O seu monumento é a Batalha. Qual é o gigante da nossa regenera??o social? D. Pedro.
N?o serei eu: sejam todos os cora??es que comprehendem a gravidade dos nossos novos destinos de povo livre; todos os que crêem e esperam, todos os que sabem quanta poesia pode haver nos testemunhos de gratid?o popular: todos os que respeitam as tradi??es nacionaes; todos os que buscam na historia do passado doutrina para o presente; todos os que intendem que a memoria de D. Pedro é uma cousa pura, sancta e sublime;-sejam elles que digam se o monumento do Libertador deve ser a eschola polytechnica ou o mote sedi?o do Sátrapa de Phocas; ser um symbolo de progresso e de vida, ou um symbolo de decadencia e de morte.