Quando a opini?o publica n?o é a express?o de um sentimento justo e sensatamente adquirido, mas a que a insciencia de uns, ou a conveniencia dos especuladores formam e incitam, n'esse caso, seguir a opini?o assim manifestada, é transigir com o erro; e transigir com o erro é um grande mal em todos os casos, mas muito maior quando influe na publica administra??o dos Estados.
N?o é mister recorrer á historia de todos os tempos e de todos os povos para encontrar exemplos que confirmem esta verdade. Abundam taes exemplos de casa, para p?r em relevo como, infelizmente a opini?o do vulgo, erronea em suas aprecia??es sobre assumptos menos vulgares, se deixa levar cegamente até ao excesso de voltar suas iras contra aquelles mesmos, que por seguirem melhor conselho e mais ajuizados alvitres que a experiencia lhes suggere, e o estudo lhes adquiriu, lhes paga a sua dedica??o com injusti?as e affrontas, chegando a tornal-os victimas de attentados criminosos.
Na primeira invas?o franceza em Portugal pelo anno de 1809, o general Junot, havia proclamado: ?Toute ville ou village, dans lesquels on aura pris les armes contre mon armée, et dont les habitantes feront feu sur la troupe fran?aise, seront livrées au pillage, détruits de fond en comble, et les habitants passés au fil de l'épée. Tout individu pris, les armes à la main, sera fusillé sur le champ.? Apesar d'isso, em seguida á batalha de Vimeiro era obrigado a capitular; mas o Reino era novamente amea?ado pela segunda invas?o, commandada por Soult, o qual pela Galliza avan?ava sobre o Norte de Portugal. Preparavam-se os elementos de resistencia e organisavam-se as for?as militares, sendo para esse fim pela Regencia nomeado general do exercito do Norte o marechal Bernardim Freire de Andrade.
Habil, e possuido dos mais patrioticos sentimentos, mas dotado da mais sensata prudencia, a par de reconhecida bravura e pericia, procurava elle com a maior solicitude cobrir as fronteiras e fazer alli toda a resistencia ao exercito francez que se dispunha a invadil-as, e isto até que podesse organisar outras for?as com que sustentasse o Porto, objectivo de Soult. Mas a prudencia que o levava a n?o arriscar uma batalha campal mas sim a distrahir as for?as inimigas fatigando-as e batendo-as em detalhe, essa prudencia e bom senso mal interpretados e inscientemente condemnados pela opini?o publica, deu logar a que o manejo da intriga assacasse ao general, o ser jacobino, attribuindo o seu procedimento a ser partidario francez. D'esta suspei??o passou-se ao insulto, e do insulto á affronta. Come?aram os gritos de trai??o como sendo o ecco da opini?o desvairada do povo ignaro e da intriga malevola. Sobranceiro a tudo proseguia o general no seu empenho, com grande exfor?o, quando acompanhado de pequena escolta foi encontrado pelas ordenan?as de Toboza. Preso por estas, por entre a vozeria e o tumulto de um povo ignaro e cobarde, foi conduzido a Braga, e ahi arrastado á cadeia, apoz os maiores insultos, foi barbaramente assassinado, partilhando de egual sorte outros officiaes do seu estado maior e pessoas respeitaveis de sua comitiva, que todos a opini?o publica apodava de traidores á Patria! Um conselho de guerra mandado formar pela regencia para investigar da conducta do infeliz general e das causas d'aquella atrocidade, veio posteriormente provar o seu zelo, actividade e patriotismo, e as difficuldades com que luctára. Era já tarde; a consequencia da insubordina??o, da falsa opini?o popular, e da affronta gratuita, foi que a anarchia facilitasse o passo aos invasores. A 29 de mar?o Soult entrava no Porto, que era o seu objectivo; e s?o conhecidas as horrorosas scenas do saque d'aquella cidade pelos francezes, e a horrivel catastrofe da ponte do Douro, onde milhares de pessoas acharam a morte por quererem fugir ao feroz inimigo, victimas dos effeitos da opini?o popular.
D'este modo foi que tal opini?o contribuiu por seus desvarios para t?o funesto desenlace, cuja sana??o já n?o era possivel, embora a verdade viesse fazer justi?a a quem no seu empenho para se opp?r a taes desvarios, f?ra victima de seus patrioticos sentimentos.
Infelizmente n?o s?o raros os casos analogos a este no seu modo de ser e nos seus effeitos.
Aproximando-nos de tempos mais recentes, está ainda na lembran?a aquella anarchia que Lisboa presenciou, quando a ignorancia de grande numero explorada pela malevolencia de alguns especuladores, levou a tal opini?o publica a pronunciar-se contra os fabricantes de p?o, pretendendo achar justo, plausivel e conducente ao fim de embaratecer aquelle artigo, o meio que adoptaram, qual foi o de atacar a propriedade e destruir a industria que o produzia, isto ao passo que por outra parte tambem a opini?o reagia contra a lei permanente sobre commercio de cereaes, e instava pela manuten??o de um systema restrictivo, que fazia depender de contingencias t?o variaveis como imprevistas, a possibilidade do abastecimento de um producto o mais essencial á vida, á alimenta??o geral e ao desenvolvimento de todas as industrias.
E a tal opini?o esteve em campo, altiva e amea?adora; faziam-se comicios, apodando de malvados egoistas aquelles a quem talvez se devia o n?o serem maiores os males, de que os exprobrava de serem causadores. E poude por acaso haver transigencia com essa opini?o assim ouca de bom senso, t?o estulta como atrevida? Seria erro mais imperdoavel o transigir com ella, do que o proprio erro dos que a manifestavam e queriam impor.
Sigamos a considerar epocas mais proximas e encontraremos uma phase bem triste nos annaes das nossas commo??es politicas, quando nos recordarmos d'aquelles lugubres dias, em que a morte ceifava as vidas preciosas de um Rei amado, e de principes queridos; e quando á d?r se seguia a anciedade, a ésta seguia-se o desvairamento e o desnorteado juizo popular, que pretendia explicar por crimes tamanhas desgra?as, só para saciar sua paix?o encontrando victimas que os expiassem. Lisboa viu que aos gritos de morras, era amea?ada a vida e pedida a morte de quem á frente do governo, n?o podia conter os impetos de uma opini?o, originada talvez n'um sentimento de justa d?r, mas depois exaltada pelas declama??es dos tribunos.
Quem poderia ir offerecer o peito ao punhal dos vociferantes, só por transigir com a tal opini?o publica, que em altos brados assim se manifestava exigente e decidida?
E ha quem diga que tudo deve obedecer á opini?o publica! Como se se houvesse de obedecer aos que em nome d'ella v?o incendiar as Tulherias e o Hotel de Ville!
E que temos nós visto nos ultimos tempos, com rela??o á opini?o publica ácerca do tratado de Louren?o Marques?
Reproduzem se scenas, que p?e identicamente em relevo o conceito que ella merece quando assim desvairada. Multiplicam-se os escriptos, os ultrajes, especula-se com as diatribes as mais audaciosas em prosa desaforada, e em verso insolente; fazem-se correr de m?o em m?o, espalham-se pelo soalheiro das pra?as, pelos portaes das officinas, e pelas explanadas dos quarteis, leem-se nas mezas das tabernas, nos balc?es das tendas, e nas casernas dos soldados, insinuando que a causa de todos os males em todos os elementos sociaes, está só na monarchia! E estas doutrinas assim propagadas por entre as massas, imbuidas por uma parte da imprensa sem outra continencia, sen?o a que lhe resulta da arrogante confian?a que tem na impunidade, poder?o taes doutrinas quando assim manifestadas, constituir a opini?o publica e tornal-a digna de ser tomada em considera??o? N?o, que ella n?o é a opini?o sensata dos competentes avaliadores das circumstancias, nem pode ser a legitima express?o das conveniencias, nem o elemento que possa intervir na solu??o de quest?es graves, nem é farol que conduza a causa publica a porto e salvamento.
A resolu??o dos problemas de que depende o bem do Estado, n?o pode nem deve ser confiada á agita??o das ruas, nem ficar subordinada á express?o dos sentimentos intolerantes e obcecados que a annunciam e que com ella especulam.
N?o ser inabalavelmente firme em pró dos dictames da verdade, querer transigir com a opini?o que se diz publica por ser formada na rua ou pra?a publica, annuir a que ella haja de influir nas quest?es do Estado, ir buscar por tal pre?o uma popularidade ephemera, sacrificando a ella os interesses do Paiz, n?o é condescendencia prudente, com as conveniencias sociaes; n?o sería regra de boa governa??o, sería erro e cobardia; no juizo dos mais austeros, sería quasi um crime.