Commetem-se ás vezes indiscri??es, quando se deixa ao sentimentalismo o que se n?o soube ou n?o quiz subordinar á rectid?o e á justa aprecia??o das cousas. Talvez a este motivo se possa attribuir uma fei??o incidente, que embora revestida de toda a suavidade na sua forma pathetica, veio como que deitar novo combustivel no fogacho que já escandecia as iras dos impugnadores do tratado.
A sociedade de geographia de Lisboa, uma associa??o respeitavel por sua miss?o scientifica, cujo fim é contribuir para o estudo, diffus?o e adiantamento dos conhecimentos geographicos, e dar toda a amplitude e auxilio aos meios que para t?o importante conseguimento podem depender da direc??o, conselho, e pratica dos homens de sciencia e de ac??o, tomou a seu cargo manifestar-se a respeito do tratado de Louren?o Marques, n?o tanto pelo que das disposi??es e resultados d'este podiam provir de vantagem e de lustre para a sciencia geographica, ou para a civilisa??o colonial, porém mais sob um aspecto que daria raz?o aos que, illudindo se ácerca da miss?o propria d'aquelle gremio scientifico, o denominassem Sociedade de Geographia Politica.
Manifestando n'uma sua representa??o aos poderes publicos o desejo de que o tratado fosse addiado em vista da lucta empenhada no Transvaal, apoz varios considerandos formulava as suas conclus?es por esta forma:
?A sociedade espera que os poderes publicos portuguezes, mantendo como é de uso e de direito a mais escrupulosa neutralidade, meditará na conveniencia de addiar qualquer resolu??o definitiva ácerca do tratado de Louren?o Marques.?
A considera??o que merece uma associa??o t?o distinta pelos seus propositos e pela illustra??o de seus membros, n?o impede todavia, que em vista da s? e verdadeira doutrina internacional ácerca da neutralidade, haja quem avaliar possa aquellas suas aspira??es como menos bem cabidas, e de conveniencia menos meditada; já porque no caso em quest?o n?o é de uso nem de direito nem sería escrupulosa a neutralidade, já porque dá lugar á supposi??o, de que um méro sentimento de simpathia se antepoz á recta e imparcial aprecia??o das circumstancias e á considera??o das vantagens economicas e politicas, cujas o tratado é o incentivo e o instrumento.
E ainda mais é para notar o escorregadio terreno em que se collocou, desde que, passados dias e em homenagem a um delegado do comité dos boers em Londres, recebido em sess?o plena, foi feita solemne profiss?o de voto em favor d'aquelles insurgentes, augurando-lhes victoria na sua lucta, isto é, quiz-se moralmente dar alento a uma insurrei??o no territorio de uma na??o amiga, fazendo implicitamente votos contra a authoridade soberana d'essa na??o, unica reconhecida n'aquelle territorio insurrecto.
N?o é este um exemplo que sirva de li??o ou norma, para quem desejar manter a fiel observancia, n?o já da extemporaneamente recommendada neutralidade escrupulosa, mas nem mesmo de uma opportuna imparcialidade ou politica de absten??o.
Visto ser a simpathia pelos Boers a fei??o predominante nos procedimentos indicados, justo é considerar até que ponto poderia ser justificado um tal affecto, t?o excepcional e como n?o f?ra d'antes professado a pró de outros povos quando trataram de reagir contra um dominio mais oppressor e menos transigente do que aquelle contra o qual elles agora se insurgiram e tomaram a offensiva.
O que s?o os Boers? S?o os descendentes d'aquelles Hollandezes que se apoderaram do Cabo de Boa Esperan?a no seculo XVII, e que depois de haver esta possess?o passado ao dominio Inglez, já n'este seculo emigraram para o Nordeste, desgostosos de um regimen que lhes restringia a plena liberdade de pastagens, que igualava os direitos civis da popula??o, e que estabelecia leis repressivas do trafico de escravos. Augmentou o seu odio contra aquelle dominio, a quest?o da emancipa??o dos hottentotes em 1837 e a dos negros dois annos mais tarde. D'ahi resultou a emigra??o dos Boers, uns para as margens do rio Orange, outros para o territorio do Natal, d'onde depois passaram para além do Vaal, e ahi se constituiram independentes desde 1852 proclamando um governo sob a fórma republicana.
O estimulo á simpathia que elles nos merecem póde attribuir-se, ou ao seu amor pela independencia, sentimento que se n?o condemna, ou aliás pelos seus antecedentes para comnosco, ou pelas suas aspira??es actuaes, e pelas que tem em vista quanto ao seu futuro.
Pelo passado s?o elles descendentes, como se notou, dos que foram os nossos maiores inimigos no Oriente, os hollandezes; pelo presente, s?o os que teem declarado que Louren?o Marques hade ser d'elles, e que a Africa desde o Zambeze até Simon's bay é sua e só d'elles, doutrina sustentada nos seus jornaes, e proclamada pelos seus chefes, analogamente á de Monroe na America, por isso que sustentam que a Africa austral só póde pertencer aos Africanders, isto é, os indigenas brancos, descendentes dos Europeus que primeiro a colonizaram. Lá está Louren?o Marques arrolado no seu pretendido patrimonio, como um dominio do qual n?o prescindir?o.
E se essa mira de conquista n?o basta como um titulo de simpathia para os actuaes zeladores de Louren?o Marques, ainda outros se podem apresentar respectivos á primitiva origem d'aquelles pretendentes, e que a historia nos fornece para lhes n?o dar grande direito á nossa gratid?o.
Pois para estimular este sentimento, annuncia de Paris o telegrapho, em mar?o ultimo o seguinte: ?Foi publicada a mensagem das notabilidades politicas e litterarias francezas em favor dos Boers. Diz que os Boers s?o n?o sómente filhos da Hollanda, antiga alliada da Fran?a, mas descendem dos protestantes francezes expulsos pelo edito de Nantes. Que além da fraternidade de sangue, existe a fraternidade de pensamento.?
S?o pois os Boers, segundo o comité, os descendentes dos huguenotes, e como taes os recommenda á simpathia das na??es. Mas visto que a historia é registro de factos, e estudo confrontativo da vida das gera??es que se succedem, vejamos que especie de argumento é aquelle. A historia que julgue. Abram-se os Annaes da Marinha Portugueza pelo vice-almirante I. da Costa Quintella, obra publicada pela academia das sciencias em 1839. Alli se relata como em 1570, D. Luiz de Vasconcellos f?ra nomeado governador do Brazil, e saiu de Lisboa em 5 de junho com sete navios em que levava muitas familias e sacerdotes que iam estabelecer-se n'aquelle paiz. Chegando á altura da Madeira partiu adiante o navio S. Thiago, cuja viagem descreve assim
?Depois de varios contrastes de tempo que o obrigou a perder alguns dias, achou-se a 15 de julho defronte de Porto Palma, e á vista de cinco navios de corsarios da Rochella, de que era chefe Jacques de Soria, almirante da rainha de Navarra. Este com o seu navio grande, bem guarnecido e artilhado, abordou o S. Thiago, cujo capit?o e equipagem se defenderam valorosamente, animados pelas exhorta??es do veneravel padre Ignacio de Azevedo, da Companhia de Jesus, e dos seus quarenta companheiros que iam para as miss?es do Brazil; mas como era t?o desigual a contenda, foi o navio entrado, e todos os religiosos feitos em peda?os ou arrojados vivos ao mar; tanta era a raiva dos huguenotes!?
N?o pára aqui a narrativa de Quintella, que descreve como D. Luiz de Vasconcellos depois de varias tentativas de emprehender a viagem e soffrendo grandes contrariedades, arribou á Terceira, d'onde partiu em setembro para o Brazil; e a esse respeito narra, que
?Chegando á altura de Canarias, foi atacado por quatro navios francezes saidos da Rochella, cuja esquadra commandava Jo?o de Cadeville. D. Luiz ainda que n?o duvidava do resultado de uma ac??o entre for?as t?o desiguaes, determinou vender cara a sua vida. As abordagens de Cadeville foram tres vezes recha?adas, e mesmo depois de entrado o seu navio, fizeram os Portuguezes desesperada resistencia. D. Luiz atravessado de uma balla e com as pernas quebradas de outra, mas sem render-se, acabou de uma lan?ada. Os franceses mataram na peleja, ou deitaram ao mar dois dias depois, treze religiosos da Companhia, que iam de passagem para as miss?es, como os outros companheiros do padre Azevedo.?
Ora visto que o comité de Paris, promotor das simpathias pelos descendentes d'aquelles heroes, n?o esquecia de ir buscar quest?es de intolerancia ou de fraternidade, ahi fica indicado um valioso titulo, para o reconhecimento das na??es; mas n?o dos que tiveram seus compatriotas trucidados pelos antecessores dos que tanto se recommendam, em nome de t?o sanguinaria fraternidade de sangue!
N?o valem de muito argumentos d'esta especie, e postos n'este terreno. Vale porém alguma cousa n?o deixar correr á revelia a carta de recommenda??o do comité de Paris.