Quando se considera nos resultados a que póde dar causa o olvido de todas as conveniencias, que qualquer entidade, e mormente uma na??o, deve saber guardar em sua vantagem e em seu decoro; quando se analysa a maneira desastrosa como em seus procedimentos se houveram os adversarios do tratado de Louren?o Marques entre Portugal e Gran-Bretanha, destinado a regular as rela??es entre as suas possess?es na Africa Austral antepondo-se a este grande conseguimento, o attender de preferencia a receios fingidos ou banáes, ou ao mero interesse de politica partidaria, confundindo todos os elementos de hom
bridade em homenagem a vantagens eventuaes de partidos e n?o do Paiz; quando se contempla a exalta??o dos animos, a aberra??o do bom senso, as vocifera??es atrabiliarias e as diatribes violentas que d'ahi se suscitaram em prejuizo da ordem interna, e em tom desdenhoso e insultante para com uma na??o alliada e poderosa, que prestára sua annuencia a entrar de m?o dada e n?o aos repell?es, n'uma senda larga e franca para uma confraternisa??o e garantia reciproca na politica intercolonial, chega-se quasi a lamentar que a arbitragem do Marechal Mac Mahon fosse tal, que n?o tivesse cortado o mal pela raiz, tirando-nos da m?o aquillo que por estar em nossa m?o, havia de passar a ser um fóco de discordia, e transformar-se mais em elemento ruinoso do que proveitoso. Seria caso de dizer ha bens que vem para mal! é verdade que se a arbitragem nos fosse desfavoravel, perderiamos o que podia vir a ser de grande aproveitamento; mas tambem é certo que teriamos evitado males maiores, por isso que melhor é perder um diamante bruto e que nada rende, do que possuil o por lapidar, mas sujeito a fazer-nos soffrer maiores prejuizos e causar-nos mais sobresaltos do que o seu valor compensaria.
Louren?o Marques, sem o caminho de ferro para o Transvaal, e sem a garantia da pósse que o salve das preten??es dos Boers, ou permanecerá como está hoje, sem importancia, ou ficará sempre arriscado a ser por elles disputado.
Melhor seria n?o o possuir, do que mantel-o nas condi??es como até ao presente, mas isto a troco de uma situa??o desfavoravel perante aquella potencia á qual nos liga uma antiga allian?a, constituindo para a nossa independencia uma garantia da qual nunca deveriamos prescindir, e que n?o se póde facilmente substituir appellando para aquella federa??o Iberica que nos é apontada como um salvaterio, pelo partido que teme menos o le?o de Castella do que o leopardo Britannico. A esse partido e ás suas aspira??es politicas poderá convir a substitui??o. Mas, poderá esta plausivelmente ser preterida por quem vê na monarchia e nos seus sustentaculos internos e externos, um penhor mais seguro para a nossa independencia como na??o? N?o. O verdadeiro patriotismo n?o está em segregar um Estado de outros, de cujo convivio póde resultar a manuten??o de suas institui??es, em detrimento dos que aspiram a derribal-as para as substituir por outras, só a titulo, mas sem fundamento, do que aquellas s?o a causa de muitos males. Tambem o patriotismo, n?o está nas declama??es que o apregoam, afrontando os amigos de hontem e de ha mais tempo, só para captar benevolencia dos inimigos de hoje.
E traz-se para a discuss?o das pra?as, um tratado internacional, em cuja celebra??o só entra a entidade da na??o seja qual f?r a sua fórma politica de governo, e faz-se d'ahi pretexto para recommendar a republica como a sana??o dos inconvenientes ou defeitos que gratuitamente se lhe assacam?
Insulta-se em prosa e em verso a monarchia, aponta-se para a republica como um bello ideal; mas os que aspiram a esta vers?o nem ao menos se lembram de que onde a republica existe t?o festejada, passam-se as cousas de modo, que quem recorre a analogos expedientes de affrontrar quem n?o merece affronta, soffre as consequencias d'essa ousadia; ousadia que alias se torna em tibieza, quando é praticada contando com aquella impunidade que encontra, onde vigoram as institui??es por elles condemnadas.
Em 26 de mar?o ultimo, um membro do governo da republica franceza, respondia na camara a um deputado interpellante ácerca de processos instaurados ao jornalismo ?que o governo n?o podia tolerar uma linguagem compromettedora para as rela??es internacionaes?: E a camara approvou. E n'aquelle paiz t?o invocado como modelo de liberdade, só por ser republicano, foram multados fortemente varios jornaes, e condemnados e postos em pris?o sem fian?a os responsaveis, por haverem commettido aquillo que impunemente commettem sob o regimen monarchico que tanto invectivam.
Ainda assim para taes queixas poderia aqui haver facil deferimento. Bastaria para lhes fazer a vontade, sujeital-os á multa e á cadeia, como sendo a maneira de gozar uma parte, já que n?o póde ser do todo, de suas aspira??es politicas!
N'estes certamens em que as conveniencias da politica partidaria se pertendem antep?r áquellas que se devem guardar na politica internacional, certamens que no caso presente levam a dirigir ultrages á Inglaterra, e a menosprezar sua amisade, a troco de uma republica federal com a Iberia, vae t?o longe a cegueira, a ponto de que os ciumes por Louren?o Marques, n?o deixam vêr os perigos a que sujeitam a patria em sua nacionalidade. Antep?e-se um falso zêlo pela parte, ao amor do todo. Vê-se a formiga e n?o se quer vêr o elephante!
N'um tal procedimento, e em tal maneira de raciocinar, chegam alguns a impugnar o tratado com a Inglaterra, n?o porque possam mostrar a sua ruindade, mas unicamente por um sentimento rancoroso, allegando raz?es odientas, buscando recrimina??es passadas, e recorrendo aos logares communs que sempre se apresentam á m?o, aos que antep?e um odio cego, á raz?o clara e mente serena.
Querem malquistar-nos com a potencia alliada de antiga data; que economica e politicamente tem sido sempre a que mais rela??es comnosco entretem, e que a historia, por muitos factos, confirma ter sido por mais de uma vez a egide da nossa independencia! Verdades s?o estas que n?o pódem ser destruidas só porque eventualmente, e no decurso de largos periodos tenham sobrevindo atrictos nas suas rela??es comnosco, devidos principalmente a causas transitorias e faceis de sobrevir, taes como eram as difficuldades de conciliar interesses reciprocos na grande quest?o de suppress?o do trafico de escravos; conflictos em que se descobria como causa principal e excepcional, n?o tanto uma tendencia hostil da na??o d'onde provinham, mas sim a politica sobranceira de uma individualidade governativa, que á sua parte os promovia, n?o só contra nós, mas tambem como systematicamente, contra outros Estados com cuja politica n?o simpathisava.
E todavia, n'essa epoca, em que mais raz?o haveria para o nosso ressentimento, n?o foi este t?o longe e t?o infundadamente como hoje, pois até a camara dos deputados portuguezes votou uma mensagem de pezames pelo fallecimento do personagem politico que individualmente mais incitára aquelles elementos de aggravo!
A imparcialidade de quem ent?o n?o approvava taes homenagens de simpathia, é a mesma com que hoje se devem condemnar os excessos da injuria extemporanea. Esta assim é injusta, e como tal perigosa. Querem que Portugal fique sem allian?as, deixando as antigas e já provadas, para ir aventurar-se a outras, no continente europeu ou além do Atlantico, t?o faceis de imaginar como difficeis e incompativeis de serem efficaz e valiosamente mantidas? Veja se qual é o estado da politica da Europa, do Mundo, a facilidade com que se fazem e desfazem allian?as inverosimeis, como se amalgamam na??es, como se derribam monarchias, como se movem guerras por pretextos frivolos e só para dar largas a ambi??es, e finalmente como a for?a decide, mais do que o direito e a justi?a! E diga se depois, se póde um paiz pequeno e sem largos recursos, campear de sobranceiro, confiando unicamente no seu direito, sem se importar com o conceito que d'elle formem os outros, e assim queira arrostar impunemente contra as insidias ou violencias dos que o olhem com indifferen?a ou com desdem?
A Espanha, que sob a fórma monarchica, homogenisa o que antigamente eram Estados e hoje s?o suas provincias, apesar dos numerosos partidos politicos que a dividem, tem para todos estes uma bandeira commum, como os mahometanos tem no estandarte do propheta; é a uni?o Iberica. A Espanha é uma na??o militar, um povo valente e aguerrido e a sua allian?a póde ser cobi?ada e já o tem sido, e talvez ainda hoje o seja, por alguma potencia em caso de guerra Europêa. Quem negoceia com a propria for?a, fica-lhe em quinh?o o disp?r tambem d'ella em seu proveito. Todo o cuidado é pouco, e n?o basta para nos precavermos, o ouvir as philarmonicas tocar o hymno da restaura??o, nem admirar os discursos da sociedade 1.o de Dezembro.
D?o-se ás vezes factos que parecem insignificantes mas que podem ser simptomas de outros menos insignificantes. Veja-se como na Allemanha se dispensam atten??es excepcionaes, se fazem recep??es imponentes, se embandeiram quarteis, se banqueteiam entre vivas e sauda??es cordiaes, para honrar os delegados do exercito Espanhol que em seu caracter militar e officialmente v?o tomar parte na solemnidade matrimonial do principe, futuro herdeiro da cor?a imperial! Fique Portugal indifferente a tudo; pense só nos Boers e em n?o desmamar Louren?o Marques, e verá que poderoso alliado encontrará nos futuros possuidores do seu presidio e bahia, quando tiver dispensado e affrontado a allian?a da Inglaterra, e prescindido de fazer tratados para regular as rela??es das suas respectivas possess?es! Nada d'isto. A ordem é a invectiva; chamam-lhe orgulhosa, prepotente e ambiciosa, e n'isto se concentra, a isso se reduz o que entre nós se denomina patriotismo; e a quem n?o segue nem acompanha n'esta impreca??o, desde logo se atira com o epitheto de antipatriota!
N?o ha outro argumento; n?o ha outra logica. Nada do tratado; n?o porque Louren?o Marques nos aproveite sem elle, mas porque a Inglaterra é prepotente! é por isso que o tratado é infame, e antipatrioticos todos que o defendem, apesar de que bem poderiam applicar a si o bene est pro patria mori. Será commoda, n?o exige grande esfor?o intellectual uma tal maneira de discorrer. Mas quem d'ella se aproveita, é porque n?o tem repugnancia de ficar em divorcio com a justi?a, com o bom senso e com a verdade.
Invectivar de prepotente a potencia que aceita a arbitragem submettendo-se a ella e cumprindo lealmente a sua decis?o, e largando de m?o o territorio disputado, é pelo menos t?o extemporaneo e t?o iniquo como insinuar de traidor á patria, e de doador subserviente de uma provincia, aquelle a cujos esfor?os se deveu a sua reivindica??o.
N?o cabe bem o epitheto de prepotente a quem, se quizesse usar da for?a, n?o se curaria de respeitar o direito. N?o é merecida a accusa??o, a quem ao tratar do assumpto no campo das conven??es, n?o lhe imp?e o cumprimento peremptorio, e pelo contrario atura a pachorrenta maneira, a discordante opposi??o, e a insultante linguagem com que se retribue á sua hombridade.
N'esta ordem de assumptos, nem sempre predomina a mesma fei??o. Ha quem se engasgue hoje com um mosquito, tendo hontem tragado uma caravana de camellos!
Passaram desapercebidos, ou olhados com frieza estoica alguns factos, onde certamente se podiam ver maiores elementos e pretextos para dar pasto ás exalta??es do espirito e á indigna??o dos paladinos do pundonor nacional. Ha exemplos e bastantes que assim o confirmam. Vejamos.