A conquista do Al-Gharb
Nas suas emprezas contra Le?o, Affonso Henriques, batido sempre como guerreiro, conseguira desforrar-se dos desbaratos com a astucia. Das duas faces que apresenta a historia da funda??o da monarchia, vimos a primeira: resta-nos vêr a segunda. Assistimos aos actos do politico; vamos assistir agora ás fecundas emprezas do conquistador.
O principe trazia para a guerra as manhas da c?rte, sem prejudicar a firmeza necessaria, a bravura, o sangue-frio e a audacia. Com este conjuncto de elementos dava um caracter original á guerra (novo genere pugnandi). Ia de noute, ás escondidas (furtim), como um chefe de bandidos em assalto a algum villar, fortificado, no pendor de uma serra distante (quasi per latrocinium). Assim investiu e tomou Santarem. ?Assim conquistou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha e Al-Kassr, este inimigo de Deus!? diz o chronista arabe. O ponto de ataque era de antem?o escolhido. Por uma noute escura e tempestuosa punha-se a caminho com um tro?o de homens resolutos: dir-se-hia uma quadrilha de salteadores. Galgavam rapidamente as distancias, e chegados ao destino, apeiavam-se, approximando-se caladamente dos muros. Affonso Henriques encostado á escada, era o primeiro a subir com o{pg. 80} punhal preso entre os dentes. Parava, escutava, com o olhar agudo, a respira??o suspensa: afinal pousava ancioso o pé entre as ameias, e apertando o punhal nas m?os, cozia-se com os muros. Na sombra n?o o distinguiam. Caía como um falc?o sobre a sentinella, e apunhalava-a antes que ella podesse tugir um grito. Entretanto os companheiros iam subindo. O bando reunia-se na esplanada, armado e resoluto, o ao grito de ?Santiago!? caía sobre a guarni??o adormecida e trucidava-a. ?Tal foi o modo por que este inimigo de Deus tomou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha e Al-Kassr!?
Havia porém ainda outra maneira de guerrear, cuja inven??o n?o pertence a Affonso Henriques: era o systema de álgaras, fossados ou correrias, atravez dos extensos territorios fronteiros. De um lado e de outro, n'uma zona mais ou menos larga, conforme o ordenavam a constitui??o geographica e a estrategia, desdobravam-se as charnecas periodicamente assoladas. Aqui e além, apertadas em cintos de muralhas, ficavam as povoa??es, em cuja volta, como oasis, appareciam malhas de terrenos agricultados. Confiar ao nervo e á velocidade dos cavallos o transp?r as passagens perigosas d'esses desertos onde as sortidas dos castellos podiam cortar a retirada, e cair impetuosamente sobre as searas, incendiando-as, sobre os rebanhos, roubando-os, sobre os tardivagos, matando-os; talando os campos, cortando as arvores, incendiando as casas, e voltando rapidamente com as prezas feitas: tal era o processo egualmente seguido por christ?os e sarracenos; reduzido já a um systema de invas?es annuaes na epocha das colheitas, e contado como principal recurso financeiro da rude economia do tempo.{pg. 81}
Se a tomada de Santarem (1147) é um typo da primeira especie, a batalha de Ourique, ou Orik (1139), é o typo da segunda. A fortuna accendia a audacia de Affonso Henriques, que levou o fossado por entre as fortes posi??es de Santarem e Alcacer, deixando Palmella, Cintra e Lisboa na retaguarda; atravessando o Tejo, para ir talar os campos de Chelb ou Silves, emporio sarraceno da Hespanha lusitana. Poucas vezes, porém, um fossado era apenas uma correria e um saque. As guarni??es dos castellos passavam signal, combinavam sortidas; e o episodio de uma batalha acompanhava quasi sempre a obra de depreda??o. A batalha de Ourique, qualquer que tivesse sido a importancia numerica dos combatentes, deu a Affonso Henriques uma victoria que o encheu de animo para entrar em campanhas mais regulares e fecundas.
Os primeiros nove annos do governo do principe tinham sido absorvidos pelas quest?es leonezas, quando em 1137 uma invas?o sarracena veiu destruir Leiria, que elle erguera para defender Coimbra das subitas investidas dos inimigos. Ourique desforrou-o do desastre, que o rei por outro lado remediava reconstruindo o castello, ent?o fronteiro do extremo sul dos seus Estados. Mas logo o musulmano responde, voltando como uma onda que, alastrando o territorio christ?o, vae rolando até aos altos de Trancoso, deixando pela segunda vez derrubadas as muralhas de Leiria. Affonso Henriques consegue dominar a invas?o, que retrocede ao abrigo da linha do Tejo; e retribue logo a visita com uma tentativa frustrada sobre Lisboa. Depois, alliado ao wali de Mertola contra o de Santarem, vae assolar os districtos de Merida e Beja. Nos intervallos d'estas correrias, o rei ferira{pg. 82} as batalhas do tratado de Zamora, e ganhára a victoria que lhe preparou o cardeal Guido.
O periodo de dez annos que está entre 1137 e 1147 offerece n'estas guerras o aspecto de um movimento que oscilla, como um pendulo suspenso de um ponto que é Lisboa: invas?es sarracenas para o norte, portuguesas para o sul do Tejo, instabilidade de resultado de ambas. O eixo d'este movimento era evidentemente Lisboa e o systema das suas linhas de defeza-Cintra-Almada-Palmella-Santarem. A conquista da linha do Tejo tornava-se a condi??o indeclinavel, n?o já do alargamento, mas até da conserva??o da monarchia de Affonso Henriques.
Demasiado, porém, sabia elle que os recursos militares de que dispunha, se chegavam para os fossados annuaes, se bastavam para conquistar quasi per latrocinium os castellos isolados, eram demasiado escassos para tentar empreza t?o vasta como a da conquista do systema de fortalezas que formavam o nucleo defensivo do centro do que foi depois o reino portuguez. Na tentativa frustrada que fizera sobre Lisboa em 1140 f?ra ajudado por uma esquadra de Cruzados. As suas esperan?as estribavam-se n'um auxilio d'essa ordem: até porque, sem for?as navaes para entrar no Tejo-ainda ent?o n?o havia marinha militar-seria absurdo tentar a empreza.
Entretanto, sete annos iam passados depois d'essa primeira appari??o dos Cruzados, sem que outros viessem proporcionar-lhe occasi?o para realisar os seus designios. Impaciente, orgulhoso ainda com o resultado da correria de Beja (1145), seguro do lado de Le?o pelas pazes de Zamora, forte pela confirma??o do seu titulo, confiado na protec??o papal-o sangue pula-lhe nas veias, e decide tomar{pg. 83} Santarem, (1147) á sua moda, isto é, por surpreza. Pela calada da noute appareceu á raiz das muralhas da villa. Pozeram-se escadas. Subiu um furtivamente e abafou uma vela (sentinella); depois subiu outro, depois terceiro, ?e depois que todos tres foram em cima do muro, a vela que estava em cima do caramancham, quando sentiu Mem Moniz que se ia alongando, disse-lhe: ?Manahu!? e elle respondeu-lhe em aravia e fel-o descer, e logo que foi em baixo cortou-lhe a cabe?a e deitou-o aos de fóra. E ent?o elles poseram outra escada e subiram por ambas o mais toste que poderam, e foram tantos que se apoderaram do muro e britaram as portas por onde entraram elrey e os que com elle foram. E d'esta guisa foi furtada a villa de Santarem aos mouros.? O resultado correspondeu pois ao plano, e quem sabe se a temeridade teria arrastado o rei a proseguir do mesmo modo contra Lisboa? N?o foi, porém, necessario. Esse anno vieram os Cruzados[40] por quem suspirava, e com elles metteu hombros á empreza.
A guerra toma desde ent?o um caracter regular de cercos e campanhas. Os meios correspondem aos propositos, e estes á idéa da na??o que come?ava a definir-se.
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A tomada de Lisboa lavra a acta do nascimento da na??o portugueza, até ahi envolvida nos limbos da gera??o. O cerco affigura-se-nos como o concilio internacional, uma especie de congresso guerreiro, em que a Europa baptisa o recem-vindo á luz da historia. Creado pelos actos geradores da vontade{pg. 84} de um homem, abrigado pela égide da Egreja, Portugal tem a existencia confirmada pela sanc??o dos exercitos cruzados da Europa. O caracter cosmopolita da sua vida futura, da sua ulterior phisionomia politica, parece ter-lhe sido desde logo imposto, como um baptismo, quando, em frente d'essa piscina do Tejo, onde fundeiam duzentas naus coroadas pelos pavilh?es de tantas na??es da Europa, se estende o cord?o do exercito de flamengos, lotharingios, allem?es e inglezes.
As columnas dos cavalleiros cruzados combatem ao lado das mesnadas dos bar?es portuguezes, estendendo-se em meia lua, a investir o morro de Lisboa; e com as pontas apoiadas contra o rio, formam metade do cinto que a armada, fundeada no Tejo, encerra. Com os frankos e inglezes, colossaes de estatura, rubros de sangue, herculeos de musculos, vêem italianos sagazes, mestres consummados na arte das minas ou sapas. Sobre os navios e do lado da terra a arte acorre em auxilio da for?a. Os inglezes montavam as suas manganellas ou catapultas, os frankos as suas torres; e Affonso Henriques pasmava d'esses maravilhosos instrumentos deante dos quaes a escada e o punhal do salteador nocturno pareciam miseraveis. Acaso a compara??o offendia a sua opini?o, bem fundada, de atrevido; acaso achava mais rapido e simples confiar o resultado aos seus expedientes favoritos de cond?r: o facto é que decidiu come?ar por um assalto. Foi no dia 3 de agosto que pela primeira vez rebombou a trovoada dos golpes do moganons, o stridente sibilar das settas despedidas do alto das torres, e das pedras soltas das fundas,[41] o clamor apocalyptico{pg. 85} dos combatentes, erguendo um c?ro de impreca??es ferozes, proferidas nas mais desvairadas linguas. á tormenta dos sons respondiam os relampagos do pez, do azeite, da estopa incendiada, que os muros de Lisboa vomitavam sobre os assaltantes, ajudando o sol que, illuminando a scena, congestionava as cabe?as dos filhos da algida Germania, da Britannia ou da Frankonia. ás ondas de lume, ao lume do sol, veio juntar-se um novo clar?o de chammas e de grossas voltas de fumo negro que subia cravejado de scentelhas a perder-se no ar: as torres ardiam! O assalto era repellido; a tentativa falhára.
Come?ou o cerco. Em poucos dias a voracidade feroz dos homens louros do norte destruiu quanto havia em torno de Lisboa: hortas e pomares, villas, cazaes e granjas. Dentro da cidade escasseiavam os mantimentos, e bandos de soldados fugiam com fome: do alto dos muros, os que ficavam perseguiam-nos com surriadas de pedras. Os gastadores minavam, atulhando a sapa com lenha cortada nos arredores: no dia decisivo, o fogo, consumindo esses transitorios esteios, roubaria a base ás muralhas. Os italianos construiam uma grande torre, que ficou terminada em meiado de outubro, quando a resistencia de Lisboa tocava o extremo. Queimaram-se os robles da sapa, assestaram-se os tiros, prepararam-se as columnas de soldados, e deu-se o assalto, logo que se ouviu o estrondo de um panno inteiro das muralhas que se derrocava do lado do oriente.
Lisboa capitulou. Os Cruzados cevaram o amor do ouro, da prata, e das mulheres formosas, (auri et argenti et pulcherrimarum f?minarum volupias) que os levava á Syria; e Affonso Henriques tomou posse da cidade. As fortalezas satellites de{pg. 86} Lisboa n?o podiam resistir: Cintra, Palmella, e Almada Cairam em curto espa?o nas m?os dos vencedores.
A base geographico-maritima de Portugal estava ganha para n?o mais se perder; e se o rei f?ra o author do facto da separa??o, era o rei quem todos os dias ia adiantando a obra de uma independencia positiva e formal. Lisboa n?o valia menos, para tal fim, do que a protec??o de Roma.
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Esses dias de Zamora e de Lisboa (1143 e 47) marcaram o apogeu do reinado do primeiro monarcha portuguez. Batido em Badajoz pelo genro leonez (1169), foi-o tambem nas suas novas conquistas, pelo sarraceno (1161-71). Affonso Henriques n?o era já o mesmo homem: a edade quebrára-lhe o vigor de outros annos; e o perd?o de Badajoz e as armadas dos Cruzados deviam ter quebrado tambem a cega confian?a que punha nos seus recursos e habilidades. Via que no cora??o dos homens podia haver mais do que ambi??o e manha; e na arte da guerra processos mais valiosos do que a escada e o punhal, a razzia e o assalto nocturno. Taes observa??es, acompanhadas pela ferida do joelho que o conservava tolhido roiam o velho capit?o no seu antro de Santarem (1171).
O enthusiasmo da tomada de Lisboa tinha-o impellido a proseguir, aproveitando a commo??o triste dos vencidos e o apparecimento de novas frotas que agora, christan Lisboa, demandavam o Tejo, para refrescar, nas suas viagens para a Palestina.
Al-Kassr, ou Alcacer-do-Sal, era, para além de Lisboa, o centro estrategico da linha de defeza do Alem-Tejo, que guardava Chelb ou Silves. Logo{pg. 87} depois de rendida Palmella, Affonso Henriques, confiando demasiado nas proprias for?as, investira, só e ao modo antigo, o castello de Alcacer, mas f?ra cruelmente vencido (1151). Annos depois, vale-se do auxilio de uma frota ingleza, sem conseguir render a desejada pra?a (1157), que afinal cáe perante o ataque combinado das for?as portuguezas e alliadas da Cruzada de 1158. Evora e Beja cedem tambem por essa occasi?o; e dir-se-hia que Silves, desguarnecida da sua linha de fortalezas fronteiras, ia cair rapidamente nas m?os do afortunado principe.
N?o era, porém, assim. Essas successivas conquistas das pra?as do Alemtejo n?o tinham a importancia decisiva que tivera a de Lisboa. Levantadas como pontas de rocha isoladas, no meio dos vastos campos desolados, as pra?as do Alemtejo offereciam aos guerreiros abundantes prezas; e por isto os Cruzados de t?o boa vontade paravam aqui, a preludiar na Hespanha o programma feito para a Syria. Saqueadas, incendiadas, porém, ou arrazadas, o seu valor para o reino era por certo lado pequeno ou nullo. O rei n?o dispunha de for?as bastantes para guarnecer t?o numerosos castellos e t?o dilatadas fronteiras. Já para conseguir manter a linha do Tejo, tivera de doar ás ordens monastico-militares estrangeiras (Hospital, Templo, Santiago) as pra?as rayanas de Thomar, de Palmella, de Leiria. Os territorios despovoados e nús n?o vinham augmentar-lhe o numero de soldados, nem a riqueza. Para que isso succedesse era mister que a paz e o tempo fomentassem o desenvolvimento natural das for?as economicas. Assim, desde que as armadas dos Cruzados, abarrotadas de prezas, largavam a bahia do Tejo, Affonso Henriques, tornando a achar-se a sós com{pg. 88} os seus recursos militares, era for?ado a abandonar as conquistas avan?adas do Alemtejo. Annos havia, tomára e deixára Beja: e agora (1158), das pra?as conquistadas, apenas guarnecia e conservava Alcacer.
Estas campanhas do Alemtejo est?o perante Silves como, antes, as da Estremadura perante Lisboa: emquanto o sarraceno pisar o Algarve, ser?o precarias todas as conquistas n'este largo trato de terreno devastado que n?o poderá nutrir-se e prosperar, emquanto n?o estiver ao abrigo das invas?es. Porque n?o foi Affonso Henriques cair directamente sobre Silves, aproveitando-se de alguma esquadra de Cruzados, em vez de consumir as suas for?as na empreza esteril das correrias, conquistas e saques das pra?as do Alemtejo? Porque evidentemente lhe faltava a larga vista das aguias dominadoras, tendo só o que é commum a todas as aves de rapina: o ataque fulminante, e a garra cheia de for?a e tenacidade.
Depois de saquearem Alcacer, os Cruzados tinham partido; e a noticia dos successivos desastres dos ultimos onze annos decidira os almuhades[42] a tratar seriamente de p?r cobro aos progressos de Affonso Henriques. Invadem o Alemtejo; e junto de Alcacer, seis mil portuguezes mortos, o exercito desbaratado, decidem a perda de todo o Alemtejo (1161) pondo em perigo Lisboa. Os sarracenos chegaram a tomar Palmella e Almada, mas julgaram prudente abandonar esses pontos destacados na peninsula de entre o Tejo e Sado. Desde que outras emprezas obrigaram a retirar o exercito almuhade depois de fortificar Alcacer, já Affonso Henriques, e os seus discipulos em aventuras podiam{pg. 89} á vontade recome?ar as correrias e assaltos. Effectivamente, em 1162, um tro?o de burguezes toma Beja por surpreza; e em 1166 um bando de salteadores, com Giraldo á frente, de escada ao hombro, punhal nos dentes, entra uma noute em Evora, que saqueia e atulha de cadaveres. Eram portugueses? eram sarracenos? eram de uns e d'outros; eram uma das muitas companhias de bandidos que batalhavam por conta propria, sem no??o de patria a que pertencessem, nem de religi?o que seguissem. Tinham por culto apenas a ladroagem, e adoravam o deus do estupro, do saque, da matan?a. Eram de todas as na??es; e falavam uma algaravia, mosarabe nos christ?os, most'latina nos musulmanos-uma lingua franca.
Affonso Henriques n?o podia socegar vendo essas fa?anhas. Eil-o outra vez a cavallo, Alemtejo em fóra, a correr charnecas e arremetter cidades: Moura, Serpa, Alconchel, e, internando-se pela Estremadura hespanhola, Caceres o Tordjala, ou Trujillo (1166). Essa era a sua paix?o, o seu furor. Que importa, se, apenas voltava costas, logo se erguia de novo a bandeira musulmana nas muralhas que escalára á trai??o? Elle tambem voltaria, no ver?o seguinte, a repetir a sua fa?anha. E assim, por falta do genio militar do conquistador, as scenas repetiam-se, os castellos passavam successivamente de m?o em m?o, e portuguezes e sarracenos apenas podiam chamar seu ao terreno que actualmente pisavam. Se as for?as proprias do portuguez lhe n?o consentiam outra cousa: se, sem o auxilio dos Cruzados, n?o podia abalan?ar-se á empreza de Silves, melhor f?ra sacrificar a paix?o ao interesse proprio, consolidando o dominio, do que p?r em perigo o Portugal cistagano, por consumir de um modo esteril as for?as militares do novo reino nas{pg. 90} correrias transtaganas. O rudo capit?o n?o tinha porém intelligencia para tanto: a correria arrastava-o, a presa seduzia-o, e a guerra governava-o a elle, em vez de ser elle quem governava a guerra. Sem plano fixo, á toa, á aventura, internára-se até Trujillo e queria tomar Badajoz, invadindo territorios que, apesar de sarracenos, eram vassallos do visinho monarcha de Le?o. A sua loucura teve a sorte de todas as loucuras; e já o vimos coxeando e duplamente ferido, no joelho e nos brios, caminhar a esconder a sua vergonha em Santarem (1169).
O desastre de Badajoz devia ter soado por todo o Al-gharb, onde as correrias e fa?anhas do bando de Affonso Henriques espalhavam a angustia e o terror; e o musulmano, inimigo por patria e religi?o, n?o devia ao bulhento principe a generosidade magnanima do genro leonez. Um novo e poderoso exercito transp?e o Tejo, e vem cercar o ferido em Santarem (1171). Acode-lhe Fernando II que, como verdadeiro rei, sabia calar os resentimentos pessoaes, deante de um perigo commum para todos os principes christ?os da Peninsula. Duas vezes salvo pelo genro que o vencera; humilhado, abatido, ferido e velho, Affonso Henriques já n?o é o irrequieto soldado de outros tempos. Santarem que ganhára por esfor?o proprio, escalando os muros, era o seu tumulo. Ahi n'um leito gemia dores de muitas especies: todo o Alemtejo estava perdido; e agora (1184) Jussuf, o grande émir de Marrocos, vinha em pessoa, dirigindo o exercito, cercal-o outra vez. Acudiria o genro outra vez a salval-o? Cinco annos havia que o exercito musulmano passeiava triumphante pelos seus reinos. N?o pudera entrar em Abrantes, mas tinha destruido Coruche, que era para a defeza de Lisboa e da linha{pg. 91} do Tejo, como f?ra Leiria para Coimbra e para a linha do Mondego. Evora apenas resistiria ás invas?es, que tinham levado Alcacer e Serpa, Beja, Moura, Jerumenha e todo o Alemtejo (1179-82). Como o javali, encerrado no covil e perdido, o guerreiro contava as horas, e antecipadamente sentia o penetrar das lan?as nas suas carnes abatidas pela edade, e o quebrar dos seus ossos t?o rijos ainda, mas mal governados pelos tend?es flacidos. Chorava; talvez se arrependesse dos seus erros. Feliz porém mais uma vez, os acasos imprevistos concorriam para o salvar. á magnanimidade do genro devera o n?o ter ido acabar n'alguma masmorra escondida nas montanhas das Asturias; e a esta circumstancia, verdadeiramente excepcional, de um principe generoso, devera tambem o salvar-se do primeiro cerco. Em vez de Fernando, que n?o acudiu agora, veiu em seu auxilio a sorte que matou o émir de Marrocos, e espalhou uma peste no meio do exercito almuhade.
Levantou-se o cerco, Affonso Henriques p?de respirar ainda livre os ultimos annos da sua já acabada vida.
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O pensamento que elle n?o soubera ou n?o pudera realisar, coube ao filho e herdeiro p?r em pratica. O modo serio de conquistar o Alemtejo era ir com os Cruzados, por mar, investir Silves. Logo que Sancho I herdou o reino, e desde que appareceu no Tejo a primeira armada, decidiu-se levar a cabo a empreza. Já ent?o havia uma frota portugueza; e se á constitui??o geographica do corpo da na??o faltava a metade meridional, o cora??o, Lisboa, pulsava já independente e vivo; os navios{pg. 92} da primeira expedi??o do Algarve s?o d'isso a prova. Abria-se agora uma segunda epocha; e, ou filha do genio do monarcha, ou proveniente da expans?o natural das for?as nacionaes, ou resultado das duas causas combinadas, o facto é que, entrados n'uma segunda edade, respiramos um ar diverso, observamos um typo differente e uma nova phisionomia da na??o.
Consolidam-se as conquistas, povoam-se e fortificam-se as villas, come?a a esbo?ar-se a administra??o, abandona-se a guerra de escada e punhal. Ha um pensamento na politica e uma idéa nas campanhas. Sancho I é já um rei: Affonso Henriques f?ra como um bandido, á imita??o de Pelayo.
O districto de Chenchir ou Al-faghar-assim os arabes denominavam o nosso moderno Algarve,-era o que é hoje ainda: um jardim estendido sobre a costa, e apoiado contra um muro de serras que o defendem dos ventos do norte. A guerra n?o conseguira mirral-o, como succedeu á costa da Berberia, fronteira. Retalho da Africa, scindido pelo mar do Calpe, no Algarve tinham os arabes achado um peda?o da sua patria. O clima, a flóra, n?o eram bem europeus; e quem, nos fins do XII seculo, visitasse Silves, ou Chelb, dir-se-hia transportado a uma cidade oriental. D'entre as varias ra?as que tinham vindo á Peninsula, foram os arabes do Yemen que principalmente a povoaram. Chelb ao sul, Hayrun (Faro) mais ao norte, eram as duas cidades principaes do Al-faghar; mas a primeira excedia em muito a segunda. Contava cerca de trinta mil habitantes, era opulenta em thesouros e formosa em construc??es. Davam-lhe a primazia entre as cidades da Hespanha arabe. Vestida de palacios coroados pelos terra?os de marmore, cortada de ruas{pg. 93} com bazares recheiados de preciosidades orientaes, cercada de pomares vi?osos e jardins, Chelb era a perola de Chenchir, onde os prodigos da Mauritania vinham gosar com as mulheres formosas, de puro sangue arabe, os seus ocios luxuosos. Era ao mesmo tempo uma pra?a temivelmente fortificada.
Quando pela primeira vez as armadas combinadas, dos portuguezes e dos Cruzados, appareceram na costa de Al-faghar, Chelb intimidou os guerreiros frisios e dinamarquezes, a ponto de lhes dominar a avidez com que namoravam uma preza de tamanho quilate. N?o se atreveram a atacar, limitando-se a tomar Albur (Alv?r), e retirando com um saque abundante.
Para os Cruzados, homens louros do norte que, sob a ingenuidade azul dos olhos, escondem uma crueldade fria e pratica e um desvairado appetite dos gosos vedados aos climas setentrionaes, a empreza de Chelb tinha o valor da riqueza a roubar, das bellas mulheres, d'esse Oriente mysterioso e seductor, a gozar sobre os leitos de sedas da India ou nos f?fos tapetes da Persia. Eram voluptuosidades que antegostavam; calculando ao mesmo tempo os thesouros de pedrarias, os marfins, os estofos preciosos, a myrrha, o incenso, os metaes reluzentes, com que voltariam ás suas agrestes serras, ás suas costas algidas, deslumbrar as noutes veladas á luz ba?a da candeia, de azeite de phoca. Positivos e praticos ao mesmo tempo, mediam bem o impossivel da aventura, e por isso preferiram á temeridade de atacar Chelb, a modestia de saquear Albur. Bastava-lhes o que levavam.
N?o succedia outro tanto a Sancho I. A conquista do Al-faghar tinha para elle um alcance{pg. 94} maior. E os portuguezes mais familiarisados com as seduc??es dos costumes arabes, menos sensiveis ás tenta??es da carne, mais abertos aos arrebatamentos da paix?o, como todos os homens do sul, tinham um proposito mais firme e inten??es diversas.
Logo depois da primeira tentativa frustrada no proposito essencial, appareceu no Tejo uma segunda e mais poderosa armada de guerreiros do norte. Decidiu-se ent?o a conquista de Silves. Sancho e as tropas portuguezas iriam por terra, atravez do Alemtejo, investir a cidade pelo norte, cortando os soccorros de Alcacer e das demais pra?as transtaganas: emquanto as armadas combinadas iriam por mar e, subindo a ria de Silves, poriam o cerco pelo sul, apoiando-se nos navios.
Silves, collocada n'uma eminencia e defendida por fortes muralhas, em cujo recinto, no cora??o da cidade, se erguia a almedina ou alkassba, estava ligada a uma torre albarran por uma coura?a. A torre defendia uma vasta cisterna que dava agua á cidade: conquistal-a seria, portanto, o preludio do cerco. Desembarcados, os Cruzados come?aram por assolar os arrabaldes, destruindo quintas e casaes, trucidando os tardivagos, incendiando e roubando, segundo a regra invariavelmente seguida n'estas emprezas. Quando em torno dos muros n?o havia mais do que destro?os, ruinas e cinzas, atacaram a torre albarran. Foi em 21 de julho de 1189, esta primeira tentativa frustrada. Em 29 chegou por terra el-rei Sancho, cerrou-se o cerco, e prepararam-se os meios do ataque decisivo. Os sitiados, no desespero, a?ulavam o furor e a cubi?a dos inimigos com insultos e crueldades. Nas ameias da torre albarran penduravam pelos pés os prisioneiros christ?os; e alli, em frente do exercito,{pg. 95} como exemplo e amea?a, matavam-nos ás lan?adas. Era ardente o furor, incansavel o trabalho. Estavam preparadas e promptas as machinas de guerra: come?aram os assaltos. Os allem?es tinham montado um vae-vem coberto, cujas pontas de ferro trabalhavam impunemente na derrocada dos muros: era a origa dos gregos, a testudo de Vitruvio, o ericius das guerras dos romanos, em portuguez ouri?o-uma catapulta coura?ada contra as massas de estopa a arder em azeite que sobre ella os defensores vasavam. Muitas torres, numerosos trons batiam os muros e levantavam os sitiadores á altura das ameias. A albarran caíu por fim, entulhou-se a cisterna. As fontes dos pateos ajardinados de Chelb deixaram de correr, e a sede veiu auxiliar as machinas e as armas dos christ?os. Os musulmanos, fortificados na almedina, resistiam, comtudo.
O cerco entrava desde esse momento n'uma phase nova. Os assaltos repetiam-se, infructiferos, e a alkassba parecia intomavel. Soccorreram-se ás artes dos mineiros de Italia; mas os arabes eram egualmente mestres na engenharia. As galerias subterraneas cruzavam-se, encontravam-se, rompiam-se. Fatigados de pelejar em v?o, á luz de um sol abrazador, transferiram os combates para o cora??o da terra. Os gastadores eram soldados, e rijas batalhas eccoaram n'essas galerias. A lenha accumulada ardia presa do fogo; e á luz das chammas, buscavam-se, um a um, os inimigos, ferozes como tigres, punhal ou alfange em punho, e estrangulavam-se, despeda?avam-se, como feras. O crepitar do fogo acompanhava as impreca??es roucas, e nos olhos havia mais chammas do que nos montes de troncos e ramos incendiados. O sangue corria dando á lama das galerias subterraneas{pg. 96} a c?r do barro com que em tempos mais felizes os arabes ladrilhavam os seus eirados alegres e os seus pateos ajardinados.
A furia dos combates era excitada pelos calores da sêde. Os sitiados ardiam em febres. Viam-se nús estendidos sobre as lages das ruas, sobre os ladrilhos das casas, para refrescar a pelle. Comiam o barro do ch?o. Estorciam-se, desesperados, e morriam pelas esquinas. As ruas deixavam apodrecer os cadaveres, e as m?es engeitavam os filhos, quebrando-lhes os craneos tenros contra as umbreiras das portas.
Nos sitiantes a furia era outra. Durava já um mez o cerco, o n?o f?ra para t?o demorada campanha que os Cruzados tinham vindo. A alkassba n?o caía! os perros musulmanos n?o se rendiam! Entretanto elles, Cruzados, iam morrendo de feridas, de insola??es; e o despojo promettido n?o chegava. N?o podiam perder assim o seu tempo. Isto diziam uns; outros n?o queriam abandonar o trabalho gasto, e despedir-se de uma presa meio conquistada. Sancho I, desanimado, pensou em retirar. Ent?o rebentaram as iras; porque a segunda opini?o vencera no animo dos Cruzados. Quasi chegaram ás m?os, os portuguezes e os homens louros do norte. Finalmente a alkassba rendeu-se nos primeiros dias de setembro; mas isso deu logar a novas rixas. O rei queria uma cidade, e n?o um despojo. Os Cruzados queriam o contrario. Sancho offereceu pagar-lhes o valor da presa; os Cruzados recusaram. Havia uma cousa que o rei n?o podia pagar com ouro: era o delirio do saque, a orgia das matan?as e dos estupros. Esses ferozes ca?adores de mouros queriam retoi?ar-se pelo interior das alcovas mysteriosas, e enterrar os bra?os nas arcas dos thesouros, ensopar em sangue as{pg. 97} almofadas macias sobre que iam abra?ar as morenas filhas do Yemen.
Cevados, partiram logo. Sancho pedia-lhes que acabassem a empreza, tomando Hayrun. Recusaram; n?o queriam arriscar os lucros, e estavam turgidos de goso. Só ambicionavam tornar á patria, para contar os seus feitos, e dep?r aos pés das louras e ingenuas donzellas do norte, de suas noivas e de suas filhas, os collares, os brincos, as manilhas de ouro arrendado, que tinham roubado nos leitos, com a honra e a vida, ás filhas de Mafoma.
Sancho I, n?o podendo seduzil-os, nem convencel-os, desistiu da empreza; e deixando Silves guarnecida, e occupado o oeste do Algarve, retirou para o norte. Afim de consolidar a conquista, tomou Beja. Mas, emquanto o velho Faro se conservava em poder do sarraceno, n?o devia o rei portuguez considerar seu o Al-faghar.
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Effectivamente durou pouco o primeiro dominio portuguez no extremo sul do reino. Quando o filho de Jussuf, Jacub, chegou a soccorrer Chelb, já a cidade estava perdida; e elle n?o soube ou n?o p?de retomal-a. Vingou-se irrompendo pelo reino; e, galgando o Tejo, assolou a Estremadura toda, pondo cerco a Thomar. Tampouco soube ou p?de vencer, e retirou-se; mas para voltar no anno seguinte. Ent?o Silves caíu de novo em poder do sarraceno (1191) que, victorioso, tomou Beja, e na sua gaswat fulminante, veiu amea?ar Lisboa, desde os muros de Almada, conquistada.
Portugal recuava outra vez aos limites do Tejo; porém Silves, embora perdida, indicava o futuro{pg. 98} inevitavel d'este longo e mortifero duello. O rei occupava-se em consolidar os seus Estados, povoando, e organisando a administra??o. Na impossibilidade de levar a cabo a conquista do Al-faghar, enfraquecido militarmente o reino pelas correrias, desilludido sobre a efficacia do auxilio dos Cruzados, abandonou com raz?o o systema das álgaras e surprezas, com que, sem conseguir manter-se um dominio estavel, se extenuavam as for?as vivas da na??o. O seu governo sabio preparou as decisivas emprezas posteriores.
A primeira d'essas foi a tomada de Alcacer em 1217. No tempo de Affonso II já os portuguezes se tinham achado na batalha das Navas de Tolosa (1212), em que os principes christ?os da Peninsula, tomando uma cruel desforra do desastre de Alarcos, deram o ultimo golpe no dominio sarraceno. Affonso II n?o tinha amor pela guerra. O lado organisador e administrativo do governo de seu pae imprimira-lhe paix?es pacificas. Instigava-o ainda mais a sua avareza natural, e a condi??o dura em que a fraqueza dos ultimos annos de Sancho I o collocara, por ter doado o reino inteiro, thesouros e castellos, aos nobres e ao clero. Affonso II n?o quiz tomar parte da empreza de Alcacer, porque andava occupado a reivindicar para si o reino.
Kassr-al-Fetah, Castello-da-porta ou da entrada, se dizia essa chave do Alemtejo; e sem a posse de um tal ponto estrategico, eram vans as tentativas de consolida??o do dominio portuguez ao sul do Tejo. Castello sobre todos nocivo, chamam-lhe as memorias coevas, (Castrum super omnia castra nocivum, GUSUINI CARMEN) porque d'ahi iam annualmente para Marrocos cem prisioneiros christ?os, arrebatados aos territorios fronteiros até Lisboa, nas álgaras de todos os annos.{pg. 99}
Com o auxilio de uma forte esquadra de Cruzados, Alcacer ficou definitivamente em poder dos christ?os no meiado de 1217. Nove annos depois, Sancho II, em quem renascia o espirito guerreiro dos avós, recome?ou a conquista do Algarve, caminhando ao longo da fronteira de leste, valle do Guadiana abaixo, e tomando successivamente Elvas, Serpa, Moura, Mertola, Ayamonte, Tavira e Cacella, que os arabes denominavam Hisn-Kastala (1226). As deploraveis pendencias que lhe roubaram a cor?a n?o deixaram a Sancho II consummar a conquista do Algarve, que no meiado do XIII seculo cáe por fim (1249), obscuramente, em poder do usurpador da cor?a fraterna, Affonso III.
Consolidada a separa??o, constituido geographicamente o paiz, resta-nos agora observar os movimentos internos da na??o; para vêrmos como dentro d'ella se affirma a independencia, só plena e cabalmente definida, porém, na crise que poz termo á dynastia de Borgonha.{pg. 100}
[40] V. nas Taboas de chronologia, a das Cruzadas, a p. 219.
[41] V. na Hist. da repub. romana, I, pp. 251-5, a descrip??o das machinas de guerra dos antigos, que eram as da Edade-média.
[42] Taboas de chronologia, pp. 43 e 271.
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