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Chapter 3 No.3

Os lusitanos

?O povo desde o qual os historiadores têem tecido a genealogia portugueza está achado: é o dos lusitanos. Na opini?o d'esses escriptores, atravez de todas as phases politicas e sociaes da Hespanha, durante mais de tres mil annos, aquella ra?a de celtas soube sempre, como Anteu, erguer-se viva e forte: reproduzir-se, immortal na sua essencia; e nós os portuguezes do seculo XIX temos a honra de ser os seus legitimos herdeiros e representantes.?

Com esta ironia encoberta mas grave, fustigava Alexandre Herculano[2] os seus predecessores, historiographos nacionaes, e, segurando com valor a{pg. 2} férula magistral, castigava o povo culpado de acreditar n'uma tradi??o que tem para o erudito, além de outros defeitos, o de ser recente. Só desde o fim do XV seculo o nome de lusitani come?a a substituir o do portugalenses, nos livros; mas essa innova??o, perpetuando-se entre os eruditos, torna-se por fim uma cren?a nacional e quasi popular.

Que valor merece a innova??o? Nenhum; e por varios motivos. ?Tudo falta: a conveniencia de limites territoriaes, a identidade da ra?a, a filia??o da lingua, para estabelecermos uma transi??o natural entre os povos barbaros e nós.? Ora estes argumentos, decisivos para o sabio historiador, n?o nos parece a nós-perdoe-se-nos o atrevimento-que o sejam. Outro tanto succede com todas as na??es, ou quasi todas, desde que procuramos estabelecer a arvore genealogica, indo aos arcanos de um passado ignoto reconhecer a phisionomia dos mortos de muitos seculos e determinar d'entre elles os primeiros avós de uma na??o. Seria absurdo exigir conveniencia de limites territoriaes, ou por outra, identidade de fronteiras, entre a localisa??o de uma tribu primitiva, e a de uma na??o moderna: nem aos povos que hoje mais indiscutivelmente representam, pura, uma ra?a, poderia fazer-se tal exigencia. Se ha ou n?o identidade de ra?a, é exactamente o problema que deveria agitar-se; e, sem isso, negal-o é proceder dogmatica e n?o scientificamente.

Allega-se que s?o indecisas as no??es de Strab?o com respeito ás fronteiras dos lusitanos; diz-se mais que n?o coincidem com as que Augusto deu á provincia da Lusitania.[3] O geographo antigo,{pg. 3} ora parece incluir os callaicos nos lusitanos, entendendo as fronteiras d'estes ultimos até á costa do norte da Peninsula; ora os separa, dando-lhes o Douro como divisoria. A demarca??o de Augusto adoptou esta segunda vers?o. As fronteiras orientaes extendiam-se, quer para o geographo, quer, depois, para a administra??o romana, muito além da raia portugueza, incluindo Salamanca, e subindo quasi até proximo de Toledo. D'alli para o sul, e depois para o nascente, seguindo o curso angular do Guadiana, os lusitanos de Strab?o e a Lusitania de Augusto tinham como limite este rio, quasi desde as suas fontes, e até á sua foz, na costa do nosso Algarve.

Se ligassemos, pois, um valor positivo ás resenhas dos antigos geographos, e um alcance social-historico á identidade das fronteiras primitivas e actuaes, parece-nos que poucas na??es poderiam com melhores motivos achar na etimologia dos antigos o fundamento da sua vida moderna. Alargue-se a fronteira do norte ao Minho (conquista da Lusitania sobre a Gallecia) retráia-se a fronteira de leste ao Douro (conquista da Tarraconense sobre a Lusitania) e teremos feito coincidir os antigos com as actuaes limites. Qual é, dos primitivos, o povo que no decurso da sua vida historica deixou de conquistar e de ser conquistado? qual é o que n?o ganhou ou n?o perdeu, de um lado ou d'outro, sobre ou para os visinhos?

Se a maneira porque, a partir do seculo XV ou XVI, os historiographos nacionaes filiam o Portugal moderno na antiga Lusitania justifica as fundadas ironias do nosso grande historiador, n?o nos parece que o processo por elle seguido para negar a doutrina, seja conveniente, nem até verdadeira a opini?o de que entre portugueses e lusitanos nada{pg. 4} haja de commum. Quando hoje vimos renascer de um modo erudito, e d'alli affirmar-se no espirito popular, a tradi??o nacional germanica, a italiana e até a romania: que valor tem o facto da tradi??o lusitana ter estado obliterada por seculos, para só resurgir n'uma epocha relativamente proxima e de um modo erudito? Se os portuguezes da Edade-media n?o sabiam de seus avós lusitanos, acaso saberiam de seus avós, italos, romanos ou teutonicos, os piemonteses, os vallacos, ou os prussianos até ao XVIII seculo? Acaso, tambem, ser-lhes-ha mais possivel do que a nós estabelecer uma transi??o natural e uma historia ininterrupta desde as primeiras edades até ás modernas? N?o, decerto. Se a erudi??o podesse demonstrar a unidade da ra?a iberica, ent?o os lusitanos baixariam á condi??o de uma variedade sem autonomia; facto é, porém, que pouco ou nada sabemos, nem de iberos em geral, nem de lusitanos em particular, e por isso as fabulas dos velhos antiquarios n?o merecem a atten??o moderna. N?o haverá, porém, acaso outro caminho para atacar este problema? á falta de monumentos escriptos, nada poderá valer-nos? Entre a fabula ingenua dos antiquarios e as exigencias seccas e formaes dos eruditos modernos, n?o estará outra via? Affigura-se-nos que sim.[4]

Todos reconhecem hoje a indestructivel tenacidade das popula??es primitivas. Raizes profundas que nenhuma charrua destroe apesar de revolta a leiva pelo ferro das conquistas, depois de esmagadas as folhas e troncos pelo tropear dos cavallos de guerra, depois de queimados e reduzidos a cinzas pelos incendios das invas?es: embora{pg. 5} se lancem novas sementes á terra e nas?am vegeta??es novas, essas raizes profundas tornam a reverdecer, crescem, dominam um ch?o que é seu, e afinal convertem ou esmagam, transformam ou exterminam, de um modo obscuro, lento, mas invencivel as plantas intrusas.

A permanencia dos caracteres primitivos dos povos, facto hoje indiscutivel, permitte fazer-consinta-se-nos a express?o-a historia ao inverso: julgar de hoje para hontem, inferir do actual para o passado. A quest?o da ra?a lusitana apresenta-se-nos pois n'estes termos: ha uma originalidade collectiva no povo portuguez, em frente dos demais povos da Peninsula? Crêmos que a ha circumscripta porém a tra?os secundarios. Crêmos que as diversas popula??es da Hespanha, individualisadas sim, formam, comtudo, no seu conjuncto, um corpo ethnologico dotado de caracteres geraes communs a todas. A unidade da historia peninsular, apesar do dualismo politico dos tempos modernos, é a prova mais patente d'esta opini?o.[5]

Esse dualismo, porém, leva-nos tambem a crêr que entre as diversas tribus ibericas, a lusitana era, sen?o a mais, uma das mais individualmente caracterisadas. N?o esquecemos, decerto, a influencia posterior dos successos da historia particular portugueza: mas elles, por si só, n?o bastam para explicar o feitio diverso com que cousas identicas se representam ao nosso espirito nacional. Ha no genio portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma nobreza que differe da furia dos nossos visinhos; ha nas nossas letras e no nosso pensamento uma nota{pg. 6} profunda ou sentimental, ironica ou meiga, que em v?o se buscaria na historia da civilisa??o castelhana, violenta sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnanima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a entestar com as féras. Tragica e ardente sempre, a historia hespanhola differe da portugueza que é mais propriamente epica; e as differen?as da historia traduzem as dessimilhan?as do caracter.

Poderemos regressar agora ao passado, e perguntar-lhe a causa primaria d'este phenomeno? Decerto n?o. Ou sombras impenetraveis o encobrem, ou a escassez do nosso saber nos n?o deixou ainda desvendal-o. Como hypothese-e do nosso atrevimento será escusa a nossa modestia-somos levados a crêr que a individualidade do caracter dos lusitanos (quer n'elles incluamos os callaicos, quer n?o) provém de uma dose maior de sangue celtico ou celta (questionou-se outr'ora sobre isto) que gira em nossas veias, de mistura com o nosso sangue iberico. Os nomes proprios de logares, os nomes de pessoas e divindades, tirados das inscrip??es latinas da Lusitania e da Tarraconense, que constituem o nosso Portugal, provam a preponderancia de um elemento celtico. As vagas indica??es dos antigos falam-nos dos celtas das margens do Guadiana, e d?o-nol-os na costa Occidental da Peninsula. Vale porém mais do que isso a analogia evidente entre as manifesta??es particulares dos lusitanos e dos gallegos, e aquella phisionomia que os estudos eruditos sobre os celtas da Fran?a e da Irlanda teem determinado a estes ultimos.[6] Tentámos{pg. 7} ha pouco esbo?ar a nossa phisionomia differencial: escusado é tornar agora ao assumpto. Se a idéa de uma filia??o dos lusitanos foi expressa de um modo ridiculo pelos antiquarios classicos, a idéa de uma filia??o celtica ou celta teve já a mesma sorte quando, quasi em nossos dias, houve quem pretendesse filiar directamente o portuguez na lingua dos bardos. Paz do esquecimento a todas as chimeras!{pg. 8}

[2] V. o seu retrato no Portugal Contemporaneo (2.a ed.) II, pp. 283 a 327.

[3] V. Hist. da civil. iberica (3.a ed.) pp. 11-15 e Taboas de chronol., pp. 256-7.

[4] V. ácerca dos lusitanos. As ra?as humanas, I, pp. 198-201, e 209-11, nota.

[5] V. Hist. da civil. iberica (3.a ed.) pp. XXXIV-XLIV.

[6] V. As ra?as humanas, liv. II, p. 4.

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