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Chapter 10 No.10

O Infante D. Henrique

Desde o miado do XII seculo que se propagára na Europa a noticia da existencia de um imperio christ?o no extremo Oriente. O nuncio da Egreja da Armenia falára ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado Jo?o, cujos dominios estavam situados para além da Armenia e da Persia, e que reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera numerosas conquistas, o Preste-Joham.[58] Esta lenda, espalhada na Europa,{pg. 164} excitava tanto mais a pia curiosidade dos christ?os, quanto essas distantes regi?es se pintavam como paraizos carregados de ouro e encantos.

Durante a Edade-média, vogavam tambem extravagantes lendas ácerca do Atlantico.[59] As tradi??es obliteradas pela ignorancia davam caracteres phantasticos ás antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas d'Africa, e ás ilhas do mar atlantico.[60] Esse infinito de aguas, onde mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas barcas tinham descido desde os mares gelados do pólo a piratear nas costas da Fran?a, foram caindo para o sul; e já no XV seculo tinham chegado ás Canarias, já commerciavam ao longo da costa africana, para cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra, chegavam os berberes de Marrocos.[61]

As tradi??es dos geographos antigos, idealisadas pela imagina??o bretan, tinham dado logar á forma??o de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, ?ainda que os mareantes, diz Ibn-Khaldún, conhe?am os rumos dos ventos, n?o havendo, para além, paiz algum habitado, perder-se-h?o irremediavelmente,{pg. 165} porque o limite do oceano n?o é outro, sen?o o proprio oceano?.

Além d'estas tenta??es maritimas, havia a ambi??o do Oriente e do seu commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupa??o arabe a puzera com os monopolisadores d'esse commercio, durante a Edade-média. Hormuz[62] era o emporio mercantil de todos os mercadas do oceano indico. D'ahi as carrega??es se dirigiam para a Europa e para a Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cáfilas, caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da Europa, ou vinham por mar a Suês, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.

Tinha, porém, no come?o do XV seculo, a empreza encetada com tamanho vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de chegar por mar-como veiu a chegar-se-ao imperio do Preste-Joham das Indias? Parece-nos que n?o. Devassar o mar tenebroso em demanda das ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir occupando gradualmente a costa occidental da Africa-parecem ter sido emprezas ainda n?o ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, n?o occupava menos o espirito do principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por terra. A conquista de Ceuta prende-se{pg. 166} directa e principalmente a este pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da Africa até Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e, porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em todo o caso a terra offerecia um campo de explora??o mais definido do que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.

No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para garantir o monopolio do commercio do Sud?o;[63] e ao mesmo tempo conquistar ás trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e até duro de caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem o dobram as lagrimas do irm?o infeliz sacrificado em Tanger, nem as supplicas do outro irm?o, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto em Alfarrobeira. ás conquistas da Africa immola os dois principes; ás navega??es os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta amplid?o dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, é deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique está ao lado do primeiro Affonso e de Jo?o II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe{pg. 167} pertinaz e duro, a cuja for?a Portugal deveu a honra de preceder as na??es da Europa na obra do reconhecimento e vassallagem de todo o globo.

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A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do gr?o-doctor Jo?o das Regras, a explos?o da for?a nacional, tinham feito de D. Jo?o I quasi um heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes. Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa virtuosa e nobre na princeza, cuja li??o e cujo exemplo p?em a semente das suas grandes ac??es no cora??o dos infantes-D. Pedro, acaso o typo mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os destinos futuros de Portugal. é uma pleiade de homens celebres, presidindo a uma na??o constituida e robusta. Com taes elementos consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros, á antiga, os infantes n?o se parecem, comtudo, já com os antigos personagens. A c?rte apresenta uma phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em cousas sábias, escreve o seu Leal conselheiro. D. Pedro, cujas dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta li??o, muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irm?o primogenito o seu tratado da Virtuosa benfeitoria. á noute, nos ser?es, lêem-se, pouco, passo, e bem apontado, como D. Duarte manda na sua obra, as historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Trist?o. N?o é{pg. 168} uma c?rte da Edade-média, é já uma c?rte da Renascen?a, cheia de idéas novas e de uma cultura eminente. A educa??o transforma a politica, e as theorias monarchicas da Italia s?o applaudidas e adoptadas. Bole-se na legisla??o, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes, adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes, valentes e sabios, s?o estadistas, no moderno sentido da palavra; e o rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, ás li??es de Jo?o das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar Ceuta-primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha, orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, já moribunda, ainda obriga o marido a partir. D. Jo?o I, passivo agora e sempre, obedece; e, do principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha porém a habilidade propria dos homens de juizo-a de pesar, vêr, e julgar com rectid?o.

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Os planos de D. Henrique mereciam a plena approva??o do rei, que lhe dava ampla liberdade para proseguir; e até o incitaria, se o infante carecesse de estimulo. Já no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa da Africa.

Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente m?os á obra, e estabeleceu-se em Sagres.{pg. 169} Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a academia do infante parecia uma náu, em que vogavam os destinos ainda ignotos da na??o. Os antigos tinham chamado sacrum, sagrado, a esse promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na linguagem, a passada denomina??o. Sagres ia ser no XV seculo, como f?ra nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos celtas, do Guadiana espalhados até á costa,[64] que no templo circular do promontorio sacro, se reuniam ás noutes os deuses, em mysteriosas conversas com esse mar cheio de enganos e tenta??es, aberto ao capricho dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem ás noutes, n?o deuses, mas homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regi?es desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religi?o era outra:-era a da Renascen?a-a sciencia, a tenta??o irresistivel que arrastava os homens para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: ?quantas vezes estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e para que parte endere?avam os canaes!?

Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que ent?o dispunham a cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens o manuscripto das peregrina??es de Marco Paolo. Esses livros, os mappas de Valseca, as narrativas{pg. 170} e roteiros dos pilotos, as rudes cartas maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu cosmographo, Jayme de Mayorca, ent?o celebre, rodeado de discipulos, passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as drogas e retortas do seu laboratório se extenuava a buscar o principio da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.

Essa paix?o naturalista da Renascen?a nos seus primeiros tempos, essa tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo religioso da Edade-média, eivado de phantasias kabbalisticas, e da ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem já preferia a sciencia á imagina??o: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos meios positivos. ?Ora manifesto é, diz, um seculo depois, Pedro Nunes, que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes n?o se fizeram indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que s?o as cousas de que os cosmographos h?o de andar apercebidos. Levavam cartas mui particularmente rumadas, e n?o já as que os antigos usavam, que n?o tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha.? A bussola, o astrolabio e o quadrante já guiavam as expedi??es maritimas enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os A?ores foram por esta fórma arrancadas{pg. 171} ás trevas do mar.[65] Mas, apesar das successivas investidas, n?o se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador, limite extremo até onde a costa era conhecida: havia doze annos que os navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a um muro de terrores phantasticos.

Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo n?o acabava alli, sabia-se já; mas seria possivel ir além d'esse finis-terrae da Africa? Gil Eannes voltou para responder affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guiné, onde, cheios de satisfa??o, os mareantes aprisionam os primeiros negros-os azenegues do Senegal.[66]

Era um antegosto das horrorosas fa?anhas a que as tenta??es do mar os haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, já sensiveis, o dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o enthusiasmo do principio. N?o acabava, jámais, a costa da Africa! e o Preste-Joham e os encantos do Oriente traduziam-se apenas pela malagueta da Guiné.[67]

O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das navega??es. A empreza, primeiro esbo?ada, parecia colossal de mais para as for?as da na??o: n?o podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos, desanimava, e fazia sentir cansa?o.{pg. 172}

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Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de registrar brevemente a da forma??o das for?as navaes portuguezas, indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das expedi??es militares á costa da Berberia.

Póde dizer-se que, até ao fim do XII seculo, n?o ha marinha na Hespanha occidental. As luctas da reconquista, ent?o feridas, eram-no por terra exclusivamente; e a impericia maritima dos christ?os, junta aos relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a conserva??o das pra?as litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de muni??es e gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de talar os campos dos christ?os e captivar os tardivagos ou indefesos. Já, porém, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova pilotos, sob cuja inspec??o construiu duas galés que foram ás costas do Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.

Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o imperio no mar, jámais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do reino. á empreza de Silves, no tempo de Sancho I, v?o já navios portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crêr que d'ahi deve datar-se a funda??o da marinha militar{pg. 173} portugueza. Com effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III, como o provam as expedi??es maritimas que terminaram pela conquista definitiva do Algarve, e as fa?anhas do lendario Fuas Roupinho. Havia ent?o já um corpo de tropas especiaes de embarque.

Que eram esses navios, porém? O leitor de certo viu alguma vez, de tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construc??o e os typos d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos seus tripulantes: eis ahi uma esquadra do XIII seculo.[68] Vel-a-ha, real e verdadeiramente, se, com a imagina??o, substituir por armas os utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida, descarregaram-hoje o peixe, ent?o as presas, os mantimentos e a gente-homens e mulheres, fincadas as m?os sobre os joelhos, curvados, com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle, impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar sobre toros até ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa scena repetia-se para p?r a enxuto, e para p?r a nado as embarca??es; e Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas praias de pescadores: mandou construir debadoyras (cabrestantes) para encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III já o poder maritimo portuguez é de tal ordem, que os nossos navios v?o em soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do norte á Cruzada.

O reinado de D. Diniz marca uma segunda éra{pg. 174} na historia da marinha nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar, os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a Inglaterra, accusa. Além d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo andára, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna. Nacionalizada, a familia dos Pe?anhas tem por largos tempos o condado do mar, ou almirantado, como já, á moda arabe, se dizia ent?o.

Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos, com que, no seguinte, o infante D. Henrique póde levar de frente as duas emprezas a que votára a sua existencia. D. Fernando, o amavioso e infeliz rei, merece n'esta historia uma men??o condigna. Apesar das chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a sabedoria e o alcance economico da sua legisla??o d?o-lhe o direito de preeminencia na historia da forma??o do poder naval dos portuguezes. Já ent?o a alfandega de Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil dobras:[69] o que demonstra{pg. 175} o progresso commercial do reino, e comprova a opini?o expressa no livro anterior, da desloca??o do centro de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia adquirida depois do antigo caso da separa??o do condado portuguez do corpo da monarchia leoneza.

O rei que pretendia, com justi?a, impedir aos proprietarios a deten??o improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e fomentava o commercio maritimo de Lisboa, já ent?o uma cidade cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos, milanezes, corsos, biscainhos, gentes de t?o variadas partes-de toda a Hespanha e das costas circum-mediterraneas-fixavam-se em Lisboa a commerciar. Pelo Tejo saíam cada anno para cima de doze mil tonneis de vinho, sem contar o dos navios da segunda carrega??o, em mar?o. Os navios eram já maiores e tinham coberta. O chronista chama á capital ?grande cidade de muitas e desvairadas gentes?. Era uma Veneza que se formava para succeder á antiga; e, como nas cidades republicanas da Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fóra do porto-franco de Lisboa.

O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de certos generos exclusivos.{pg. 176} Creou bolsas de seguros maritimos, mutuos, em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lan?ada sobre o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a metade os direitos de importa??o dos generos trazidos por navios nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses. Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construc??o naval, e os navios construidos fóra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu á exporta??o dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por sobre esta protec??o efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.

N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando f?ra um cesarísmo, e com effeito o foi de todos os modos: na sábia protec??o dada ao fomento material da na??o, na violencia das medidas de salva??o publica, na desordem dos costumes da c?rte, e no caracter bondoso e ingenuamente devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-média preparava o caminho á na??o, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento individual dos governantes autocratas, mais do que á for?a espontanea de um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de institui??es e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos os fundadores do Portugal maritimo D.{pg. 177} Fernando é o maior; e se as queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem raz?o absoluta-a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Cam?es fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lan?ado os athenienses no caminho das emprezas maritimas.

Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. N?o tivesse a Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jámais se teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de nós. N?o tivessemos alargado pelo mar um nome sem raz?o de ser na Europa, e, jungidos á Galliza virente e á Castella farta, teriamos tido menos fome e menos d?res, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O proprio nome de Portugal n?o teria existido, sen?o como lembran?a erudita de um certo condado, que, nas m?os de principes astutos e atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da na??o hespanhola.

Traduzirá isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? N?o, decerto. Infeliz de quem n?o viveu; e viver, para os homens e para as na??es, differe de absorver, digerir e segregar, porque é mais do que satisfazer as necessidades organicas. Além d'isto, o destino, fatalidade, providencia, determina??o, ou como se queira dizer-traduzido com as successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio eterno-elege ou condemna-escolham tambem os sectarios entre as duas express?es-os homens e as na??es a uma determinada{pg. 178} obra. Nós fomos elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que o enchia de vagas ambi??es ou de funebres terrores.

Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento ácerca da empreza nacional, do seu destino, da sua miss?o, ou como aprouver melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar-descrevendo previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela consolida??o do poder cesarêo dos reis-necessitava ser julgada: agora que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se n?o desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.

Essa esquadra, que fundeia no Tejo, era já poderosa ao tempo de D. Fernando. Os cuidados do rei em favor da marinha mercante abra?avam tambem a marinha de guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372) era, no dizer do chronista, formosa campanha de ver. Mice Lan?arote Pe?anha, da linhagem do genovez, ia de almirante; e o cosmopolitismo da nova patria portugueza vê-se bem no nome dos capit?es: um Jo?o Focin castelhano, um Badasal de Spinola, um Brancaleon. Como Roma, Lisboa recebia no seu seio e nacionalisava gentes de toda a parte; e d'este agglomerado de caracteres, naturalmente inorganico, sairá, no momento culminante do XVI seculo, um espirito superior ao espirito nacional-natural e a no??o de uma patria moral ou ideal, como foi a patria de Virgilio.

A esquadra de Sevilha contava trinta e duas galés, trinta náus redondas, afóra as que vieram per ella da costa do mar. Vinte e tres mezes teve bloqueado o Guadalquivir, e retirou com a paz. Outra frota, quasi t?o poderosa como esta, foi ainda{pg. 179} ao Mediterraneo, na seguinte guerra de Castella, para soffrer o desastre de Saltes (1381) consequencia da temeridade do fanfarr?o Affonso Tello.

Agora, fundeada no Tejo, a armada, espera o rei e os principes para ir conquistar Ceuta, em Africa.{pg. 180}

[58] V. As ra?as humanas, I, pp. 96-9.

[59] V. Hist. da civil. iberica (3.a ed.) pp. VII-VIII e Elem. de Anthropol. (3.a ed.) pp. 126-7 e 215-17.

[60] V. As ra?as humanas, liv. IV, 2.

[61] Ibid., pp. 111-18.

[62] Seguiremos em geral a orthographia de Kiepert nos seus Atlas, com referencia aos nomes geographicos do Oriente, traduzidos nas nossas chronicas pelo ouvido dos soldados da India.

[63] V. As ra?as humanas, I, pp, 94-6 e O Brazil e as colon. port., (2.a ed.), pp. 244-8.

[64] V. As ra?as humanas, I, p. 184.

[65] V. A chronologia particular das viagens de descoberta no Brazil e as colonias portuguezas (2.a ed.) pp. 2-3.

[66] V. As ra?as humanas, I, pp. 116-7.

[67] V. O Brazil e as colon. port., (2.a ed.), pp. 14-5.

[68] V. no Regimen das riquezas, pp. 81-8, a evolu??o dos vehiculos maritimos.

[69] A dobra continha 4 libras e 2 soldos; 50 dobras compunha o marco de ouro cojo valor moderno é de 120$000 rs; a dobra equivaleria pois a 2$400 rs.; e o rendimento da Alfandega a de 84 a 96 contos. Havendo no porto, como diz o chronista, ?400 a 500 navios de carrega??o? e em Sacavem e no Montijo, a carga do vinho e do sal, 60 ou 70 em cada logar, suppondo que esses navios se substituissem quatro vezes, fazendo quatro viagens n'um anno, e sabendo nós que a sua lota??o média regularia por 100 toneladas-vemos que o movimento do porto attingia mais de 200:000 toneladas de generos diversos. Comparando-a com o rendimento da alfandega, faremos idéa do grau de franquia do porto.

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