A terra e o homem
Conhecida a orographia e a geognosia do territorio, brevemente indicaremos o systema de caracteres agricolas e climatologicos, ambos subordinados aos anteriores, e todos solidariamente ligados para formar a phisionomia natural das diversas regi?es do territorio portuguez.
A sua antiga divis?o em provincias obedecia mais a estas condi??es naturaes do que a moderna divis?o em districtos: as causas determinantes de uma e de outra s?o o motivo d'esta differen?a. As provincias formaram-se historicamente em obediencia ás condi??es naturaes; os districtos actuaes foram creados administrativamente de um modo até certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres proprios das regi?es, e a administra??o limitára-se a reconhecer factos naturaes: outros, determinados por motivos abstractos, nasceram de principios administrativos e estatisticos (área, quantidade de popula??o, etc.), fazendo-os discordar o menos possivel dos limites naturaes, geographicos e climatologicos. Por estes motivos nós agora estudaremos por provincias, e n?o por districtos, o territorio portuguez; deixando para o lugar competente o estudo das condi??es modernas da na??o.[25]{pg. 34}
A divis?o das provincias apoiava-se em factos phisicos de um valor eminente. Come?ando pelo norte, o territorio de além-Douro inscreve duas zonas separadas pelo Tamega: a leste, Traz-os-Montes, a oeste, Entre-Douro-e-Minho. Além de obedecer, como se vê, á geographia, buscando nos rios fronteiras naturaes, a divis?o das duas provincias consagrava differen?as essenciaes: as geognosticas já por nós observadas (rochas eruptivas dominando a oeste, schistos a leste do Tamega), e além d'ellas as climatericas. Portugal, segundo já se disse n'outro lugar, é em geral um amphitheatro de montanhas, levantado em frente do Oceano. Esta circumstancia caracterisa para logo as regi?es de um modo tambem geral, dividindo-as em duas categorias: as maritimas e as interiores; as cis e as transmontanas; as que est?o directamente expostas á ac??o das brisas maritimas, e os declives orientaes, os valles interiores, e os degraus ou socalcos das serras encobertas aos bafejos do mar por cumiadas occidentaes sobranceiras.
Esta circumstancia dá caracteres inteiramente diversos ás duas provincias do Douro-Minho e de Traz-os-Montes, divididas pelas serranias do Gerez e do Mar?o, que roubam a ultima á ac??o das brisas maritimas. Quem alguma vez transpoz o Tamega, decerto observou a profunda differen?a da paizagem e do caracter e aspecto dos habitantes de áquem e de além d'esse rio. O transmontano, vivo, ágil, robusto, destaca-se para logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz, persistente e ingenuo. Além do Tamega o clima é secco (40 a 60% de humidade relativa) poucas as chuvas (500 a 1:000 millim. e no estio 70 a 80 apenas), grande o calor no fundo dos valles apertados, mas temperado nas alturas; intensos os frios hibernaes, que coroam de neve as{pg. 35} montanhas e gelam a agua pelas baixas (12 a 15° temp. média). áquem, as brisas do mar, estacadas na sua passagem pelas serras, condensam-se e produzem as chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor occidental das serras de oriente é sarjado pelos numerosos e successivos rios parallelos, cujos valles, reunindo-se junto á costa, formam ao longo d'ella a primeira das planicies litoraes de Portugal. Habita essa regi?o pingue uma popula??o abundante, activa, mas sem distinc??o de caracter, nem eleva??o de espirito: consequencia necessaria da humidade e da fertilidade. Falta essa especie de tonifica??o propria do ar secco e dos largos horizontes recortados n'um céu luminoso e puro. O Minho é uma Flandres, n?o uma Attica. As chuvas precipitam-se abundantes (1:200 a 2:000 mill. annuaes, e no estio 80 a 200) sobre um ch?o lavrado de caudaes; a humidade (70 a 100%) torna flaccidos os temperamentos e entorpece a vivacidade intellectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo faz fermentar, á maneira do que succede nas zonas genesiacas dos tropicos. Temperado o clima (12 a 15°), sem excessivos afastamentos hibernaes, a popula??o satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetaes e de ar humido, offerece a imagem de um exercito de laboriosas formigas sem cousa alguma de aládo e brilhante de um enxame dourado de abelhas.
O clima determina a paizagem. Além Tamega as louras messes do trigo, os pampanos rasteiros, o carvalho nobre e o castanheiro gigante vestem os pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de rochas, no inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento, dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que é de elevado no espirito. A natureza vive na{pg. 36} luz, e a alma sente que os elementos teem dentro em si for?as que os animam.
áquem Tamega o scenario muda: a humidade cria em toda a parte vegeta??es abundantes; n?o ha um palmo de terra d'onde n?o brote um enxame de plantas: mas como o solo é breve, como a rocha afflora por toda a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formado nas anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegeta??o é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constitui??o debil, o carvalho um pigmeu enleiado pelas varas das vides suspensas. A densidade da popula??o completa a obra da natureza n'uma regi?o onde o vinho n?o amadurece: o acido picante dá-lhe uma similhan?a das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo, caracteres tambem similhantes aos de bret?es e flamengos. A vegeta??o, de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela m?o dos homens: as necessidades implacaveis da popula??o abundante produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos, circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pigmeus, decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto formiga a familia: o pae, a m?e, os filhos, immundos, atraz d'uns boisinhos an?es que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um céu ennuveado quasi sempre, pisando um ch?o quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos, n?o podendo despegar-se da terra, como que se confunde com ella; e, com{pg. 37} os seus bois, os seus arados e enxadas, fórma um todo d'onde se n?o ergue uma voz de independencia moral, embora amiude se levante o grito de resistencia utilitaria.[26] A paizagem é rural, n?o é agricola; a poesia dos campos é naturalista, n?o é idealmente pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas espessas de arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu decerto a ausencia de um largo folego de ideal, e de uma viva inspira??o de luz. Apenas aqui e acolá, engastado na monotonia da c?r dos milhos, um canto do verde alegre do linho vem lembrar que tambem no cora??o do minhoto ha um lugar para o idyllio infantil do amor.
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Descendo para o sul do Douro, entre a Beira montanhosa e a Beira litoral, d?o-se differen?as analogas ás que distinguem o Minho e Traz-os-Montes: analogas, dizemos, e n?o identicas, porque n'esta nova regi?o come?am a sentir-se as influencias de causas geraes, como s?o as da latitude. A zona anterior estanceia entre os parallelos de 41° e 42°; as Beiras descem até 39° 30'. Portugal, inscripto entre 37° e 42°, e lan?ado como uma estreita facha norte-sul, tem na latitude das regi?es uma causa geral a concorrer sempre com as causas particulares, quaes s?o a altitude, a exposi??o e a constitui??o geognostica das montanhas, no sentido de determinar os caracteres das suas differentes provincias.{pg. 38}
N'esta de que agora nos occupamos, levanta-se ao centro a serra da Estrella, a cujo pendor maritimo se chamou Beira-alta, dando-se aos declives transmontanos oppostos, reunidos á Guardunha, o nome de Beira-baixa. Tres zonas comp?em a regi?o das duas provincias: o litoral formado pelos estuarios do Vouga e do Mondego, as serranias occidentaes ou maritimas, e as orientaes ou transmontanas.
A serra da Estrella é a mais elevada das cordilheiras portuguezas; é o prolongamento da espinha dorsal da Peninsula; é a divisoria das duas metades de Portugal, t?o diversas de phisionomia e temperamento; é finalmente como que o cora??o do paiz-e acaso nas suas quebradas e declives, pelos seus valles e encostas, demora ainda o genuino representante do lusitano antigo. Se ha um typo propriamente portuguez: se atravez dos acasos da historia permaneceu puro algum exemplar de uma ra?a ante-historica onde possamos filiar-nos, é ahi que o havemos de procurar, e n?o entre os gallegos ao norte do Douro, nem entre os turdetanos da costa do sul, nem entre as popula??es do litoral cruzadas com o sangue de muitas ra?as e com os sentimentos e costumes das mais variadas na??es.
O pastor quasi-barbaro d'essas cumiadas da serra a topetar com as nuvens (1:800 a 2:000m. de altit.), abordoado ao seu cajado, vestido de pelles, seguindo o rebanho de ovelhas louras, é talvez o descendente dos companheiros de Viriato. Por essas eminencias, tapetadas de relva no estio e de neves no inverno, nem as villas, nem as arvores se atrevem a subir: só o pastor nómada as habita. Do alto do seu throno de rochas vê gradualmente ir nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro,{pg. 39} rasteiro e roído pelo gado, circumda os altos nús; logo apparecem os piornos, as urzes brancas, os carvalhos; depois, já a meia altura da encosta, os castanheiros, as lavouras, e os enxames de aldeias; afinal, na extrema baixa, o len?ol de lagunas, tapete de esmeraldas engastadas em fios de brilhantes, que o sol faceta ao espalhar-se no labyrintho dos canaes.
A serra da Estrella, refor?ada ao norte pelo contraforte de Monte-muro, fecha, com o Mar?o e o Gerez, uma muralha natural, onde os ventos do mar estacam. Apenas cortada pelos valles do Douro e do Tua-duas fendas-essa barreira, cujos picos sobem até 2:000m., encerra e protege o Portugal do norte, sendo a principal causa das chuvas abundantes e do clima creador do litoral de além-Mondego.
O beir?o, habitante da encosta occidental onde o ar é mais humido do que em Traz-os-Montes (65 a 100%), as chuvas mais abundantes (700 a 1:200 millim.) e a temperatura identica: onde o castanheiro colossal, o cedro, o carvalho e o pinheiro bravo p?em na paizagem todos os tons e essa grandeza propria de arvores que vivem seculos: o beir?o é menos vivo, mas mais robusto. Quem divagou por essas terras admirou decerto a structura herculea dos seus homens, cuja face, n?o luzindo com os brilhantes reflexos de vida interior, accusa todavia um pleno desenvolvimento da vida animal. Ber?o dos audazes bandidos, anachronicos representantes de uma independencia de outras edades,[27] a Beira é o viveiro de musculosos trabalhadores, que v?o todos os annos, pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente vestidos com as bragas curtas de{pg. 40} linho, descal?os, com a camisola de lan agasalhando o tronco, o barrete phrigio na cabe?a, a manta e a enxada ao hombro.
Descendo ao litoral, o beir?o é amphibio: pescador e lavrador. A lavoura nasce do mar: os carros s?o barcos, adubos o molisso de algas e mariscos. Ao lado de um talh?o de milho está uma marinha de sal. O mar insinua-se pelos canaes retalhando a planicie, em cujo centro, como uma arteria, corre placidamente o Vouga. A tres leguas da costa vê-se fundeado um barco: as mulheres cozem as redes, ao lado, sobre a terra humida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre á enxada. O calor (15 a 16), a humidade permanente (65 a 80%), fazem germinar breve as sementes, multiplicam as colheitas, e as febres. Essa paizagem deliciosa e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo prazer, quando a dominamos desde os altos de Angeja á raiz das montanhas, attrahe-nos como a sombra da manzanilha, cheia de frescura e veneno. Os elementos, confundidos, vingam-se da temeridade dos homens.
A exposi??o oriental ou transmontana das abas da serra da Estrella e dos cerros subalternos da Guardunha dá á provincia da Beira-baixa um outro aspecto: ha maior seccura no ar, e as chuvas s?o menos abundantes: os olivaes medram melhor, e os hahitantes juntam á vida agricola a industrial, tecendo as lans dos rebanhos da serra com a for?a das torrentes que se despenham nas quebradas do valle do Zezere.
Já similhante por muitos lados ao alto Alemtejo, a Beira-baixa é a transi??o da metade norte para a metade sul do paiz.{pg. 41}
Caminhemos de oriente para occidente. O Alto-Alemtejo tem o clima de Traz-os-Montes; a temperatura média é mais elevada (16 a 17.), porque a menor altura das montanhas dá frios menos intensos no inverno; as chuvas estivaes s?o menores tambem (30 a 50 mill.). Fronteira aberta da Hespanha, a raia apenas convencionalmente o divide da Estremadura castelhana. As mesmas planicies onduladas, as mesmas culturas cerealiferas, as mesmas florestas de sobros e azinhos, as mesmas vinhas, os mesmos costumes, os mesmos homens, est?o de um lado e do outro da fronteira. Torrada pelo sol a face barbeada, de olhar vivo, gesto livre, porte nobre e seguro, bizarro, folgas?o, hospitaleiro e communicativo, o alemtejano exprime no seu todo a grandeza um tanto austera do ch?o sobre que vive. N?o é decerto um grego de Athenas, mas é um grego da Beocia. Os seus campos s?o um granel, os seus montados um viveiro. Quando nas longas e alinhadas estradas, entre len?oes de mattas de azinho escuro, sob o calor de um sol dardejante, divisamos ao longe uma pequena nuvem de poeira, que a luz illumina, e ouvimos o tilintar alegre das campainhas e guizos nas colleiras dos machos-é o cazeiro, que a trote largo, com a cara redonda e alegre, o ventre apertado nos seus cal??es de briche preto, vae á feira de Villa-Vi?osa em maio, ou á de Evora em junho, tratar dos negocios da lavoura. A distancia, vem o arreeiro no seu carro toldado, guiando a récua de machos carregados de odres de vinho: logo o pastor com o guarda-mato de pelle de cabra, o cajado ao hombro, conduzindo as ovelhas, a vara de porcos, gordos como texugos, ou a boiada loura de longas hastes. O sol ardente dá tom a todas as c?res, vida a todos os movimentos: suffoca-se, a poeira céga, e as bagas{pg. 42} de suor camarinham na testa. O alemtejano diz pouco, e raro canta; n?o é misanthropia, é indifferen?a. O idyllio n?o póde seduzir a quem vive em ampla communh?o com o campo largo, o céu sempre azul, o sol sempre em fogo. Apenas, de ver?o, baila ao som da guitarra nas noites calmosas, fazendo a vigilia aos seus santos favoritos, n?o para esquecer um trabalho que lhe n?o dóe, mas para dar largas aos seus amores de um momento.
Os que uma vez embarcaram abaixo de Serpa, onde as cataratas p?em ponto á navega??o, Guadiana em fóra até ao Algarve, ter?o sentido ao chegar á foz a impress?o de quem entra, de um sert?o, em um jardim: de quem deixa uma gruta escura por uma planicie luminosa. Breve é a extens?o do Algarve, desde Villa-Real até Lagos, abrigado pela ponta do cabo de S. Vicente; mas esse trajecto sombrio do Guadiana divide duas regi?es caracteristicamente accentuadas. O algarvio é um andaluz. Ao contrario do alemtejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanencia, com uma vivacidade quasi infantil. No Algarve n?o ha o silencio e a impassibilidade: ha o movimento constante, o falar, o cantar de uma popula??o como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios costeiros, ora occupados nos seus campos, que s?o jardins. Se a planicie e os longos horizontes das montanhas d?o ao espirito a placidez solemne, tambem o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debru?ado como um eirado, está o Algarve, p?e no pensamento uma agita??o permanente, meio-tonta, mas encantadora. Ao calor de um sol já africano, durante o estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios{pg. 43} o obrigam á industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para comer. Emquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando, contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os annos em fructos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos vallados, pedem apenas que lhes colham os fructos e os ramos; e o mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as trocar por dinheiro.
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No decurso da nossa viagem deixámos em claro as mortiferas baixas do Guadiana: nem vale a pena demorarmo-nos n'essa regi?o desolada; porque agora, regressando pela costa acima, o litoral do Alemtejo e a parte occidental da Estremadura transtagana partilham com ella os caracteres tristonhos e doentios. Entramos na regi?o dos terrenos terciarios: as aguas estagnam e apodrecem nas baixas; as popula??es definham. Ou torradas pelo arido su?o, que os areaes ardentes n?o podem suavisar, e sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se; ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo p?e n'uma fermenta??o permanente, as popula??es amarellecidas e magras definham, curvadas pelo trabalho mortifero das marinhas de sal, ou da cultura pantanosa do arroz. S?o o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além, copiosas chuvas e uma humidade creadora; aqui o ar secco (500 a 700 mil. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade, 30 a 80%) duro e carregado de emana??es mephiticas. Além, uma temperatura branda; aqui um calor (med. 17°) excessivo. Além, uma popula??o exuberante: aqui, as solid?es e os{pg. 44} areaes nús, matizados pela trai?oeira cevadilha, e pelo áloes orgulhoso, levantando com imperio o seu penacho c?r de fogo. Além, homens laboriosos e familias; aqui tribus esfarrapadas em choupanas, tiritando com o frio das sez?es n'uma atmosphera de lume: mulheres esqualidas, crean?as verde-negras, homens na indifferenca de desola??o, ou na vertigem do crime.
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Entre estas duas regi?es litoraes extremas está porém a central, a vingar-nos da miseria de uma e da opulencia da outra. Quem desce, de Canha e Alcacer-do-Sal até Setubal na peninsula de entre Tejo e Sado, e domina, desde o promontorio da Arrabida, a paizagem circumdante, respira afinal a longos tra?os uma plena vida e uma doce alegria. Acaso n?o ha no reino panorama nem mais bello, nem maior, nem mais nobre, nem mais variado. A nossos pés descem as anfractuosidades da serra vestidas de espessas matas: as giestas douradas, as bagas carmineas dos medronhos, o rosmaninho, a alfazema, misturando todos os seus aromas inebriantes. Sobranceiros a Palmella, vemos-lhe os muros ameiados: Setubal desenha-se no valle encastoada n'um jardim de laranjaes; no fundo quebram-se as ondas contra as rochas do Cabo; e para o lado opposto as collinas da fidalga Azeit?o ondulam por sobre o espesso tapete de pinhaes extendido até ao Tejo. Erguendo a vista, divisamos além do mar a ponta de S. Vicente e o sul; para leste, Evora de um lado, as campinas do Riba-Tejo do outro; para norte, Lisboa em amphitheatro sobre a sua bahia; além d'ella, Cintra e os montes da Estremadura cistagana, a qual, até ao Mondego, fórma a primeira{pg. 45} zona extremenha, por onde vamos entrar no exame da ultima das regi?es do nosso territorio.
O litoral do centro, entre o Mondego e o Tejo, é a parte mais benigna do paiz. Ahi o ar temperado pelas brisas maritimas mantém um grau de humidade, (60 a 85%), e as chuvas, regulares sem serem copiosas (700 a 800 mil. annuaes, e 20 a 30 no estio), uma rega, que fertilisam os terrenos sem os tornar gordos, como os do norte. Nem o calor (15 a 16°) tisna de ver?o as vegeta??es, nem o frio do inverno as atrophia. Por tudo isto, a popula??o abunda, sem exorbitar, como no Minho; e o habitante reune á laboriosidade de uma vida agricola a liberdade de uma existencia mais ampla. Por tudo isto, além dos caracteres geognosticos da regi?o, a flora é variada, reunindo o pinheiro bravo e o manso, a vinha, a oliveira e o carvalho, o trigo, o milho e o centeio. Desde os campos que o Mondego todos os annos fertiliza, por Leiria e Alcoba?a vestidas de florestas, pelas veigas do Nab?o, chegamos ao Tejo; e, transpondo-o, entramos no seu valle, que é para nós como o Nilo é para o Egypto. N'elle com effeito o campino nos traz á idéa o typo d'essas ra?as da Africa setentrional, lybios ou mouros, cujo sangue anda misturado em nossas veias. A cavallo, de pampilho ao hombro, grossos sapatos ferrados, gorro vermelho na cabe?a, o ribatejano, pastoreando os rebanhos de touros nas campinas humidas e vicejantes, é como um beduino do Nilo. A vasta planicie matizada de povoa??es e bosques de choupos, de salgueiros e de álamos, contornada ao longe pelas cumiadas das serras, tem o caracter das paizagens do Egypto, ou de Tunis, dominadas pelo esqueleto giganteo do Atlas[28].{pg. 46}
Como o beir?o, tambem o ribatejano reune á vida agricola a maritima ou fluvial: é elle quem vem nos seus barcos de agua-acima, até Lisboa, trazer o seu tributo de cereaes e fructas. Pelo Tejo, o Portugal maritimo abra?a o Portugal agricola fundindo n'uma as duas phisionomias typicas da na??o. Rio acima, o Alemtejo de um lado, a Beira do outro, por esta fórma se communicam com a popula??o maritima do litoral. Lisboa, com Sines ao sul, Aveiro ao norte, eis os pontos cardeaes d'essa costa Occidental, d'onde tantas grandes aventuras, t?o dilatadas viagens se emprehenderam. Capital geographica, Lisboa é tambem a nossa capital maritima; e se as viagens e descobertas s?o o cora??o da nossa historia particular nacional, Lisboa é tambem a nossa capital historica. As toadas plangentes que ao som da guitarra se ouvem por toda a costa do occidente; essas cantigas, monotonas como o ruido do mar, tristes como a vida dos nautas, desferidas á noute sobre o Vouga, sobre o Mondego, sobre o Tejo e sobre o Sado, traduzir?o lembran?as inconscientes de alguma antiga ra?a, que, demorando-se na nossa costa, pozesse em nós as vagas esperan?as de um futuro mundo a descobrir, de perdidas terras a conquistar ao mar?
Os sonhos cheios de encanto e melancolia, por t?o longos tempos embalados pelo incessante murmurio do mar bret?o e pelo ciciar das florestas druidicas; o carinho da natureza pelo homem, traduzido n'essas lendas piedosas em que os animaes falam, os passaros veem fazer ninhos na m?o dos santos, e a voz das fadas se mistura com o ramalhar das arvores e o murmurar das aguas: esse vaporoso e encantador bot?o da alma celtica, porventura desabrochava no espirito nacional portuguez,{pg. 47} quando a conclus?o das guerras da independencia assim o ordenou.
D. Jo?o de Castro, o marinheiro, tem, como um druida, o amor ingenuo da natureza: ?ó vergonha e grande cubi?a dos homens, que por haver as desventuras dos metaes cavam tanto a terra que lhe tiram fóra as tripas, derribam grandes outeiros, abaixam asperas e altissimas serras no andar e olivel dos campos, e n?o contentes de estragarem tanto a terra, rompem e furam pelo mar por haverem uma perla-e para esculdrinhar uma obra maravilhosa da natureza s?o timidos e pregui?osos!?{pg. 48}
[25] V. Portugal contemporaneo, pass.
[26] V. Portugal contemporaneo (2.a ed.), II, pp. 183-91.
[27] V. Portugal contemporaneo, (2.a ed.) II, pp. 51-3.
[28] V. Elem. de Anthropologia (3.a ed.) p. 232.
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