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Chapter 5 No.5

Geographia portugueza

Quando se observa o retalho da Peninsula, de que a historia fez Portugal, separado do corpo geographico a que pertence, desde logo se vê como a vontade dos homens p?de sobrepujar as tendencias da natureza. Os rios e as serranias descem, perpendiculares sobre a costa occidental, proseguindo uma derrota e provindo de uma origem que se dilatam para muito além das fronteiras, até ao cora??o do corpo peninsular. As cumiadas das montanhas e os valles extensos mudam de nacionalidade n'aquelle ponto convencional que aos homens aprouve fixar.

N?o falta, porém, quem pretenda encontrar, no nosso proprio territorio, motivos determinantes da constitui??o primordial da na??o: tanto póde a obceca??o doutrinaria! Diz um que essa separa??o dos litoraes é uma regra;[22] nega outro o caracter arbitrario da linha das fronteiras de leste, affirmando que essa linha coincide com os limites extremos até onde os nossos rios s?o navegaveis. Decerto nunca os viu quem tal affirma. No Guadiana apenas se navega até Serpa, e entretanto o rio é portuguez nas duas margens até Monsarás, formando a raia d'ahi até Elvas. O Douro para cima da Regoa é t?o navegavel até Zamora como até á Barca-d'Alva. No Tejo, passando Abrantes, tanto se vae{pg. 24} até Alcantara, como até Aranjuez. Onde está pois a concordancia da fronteira com a parte navegavel dos rios? A allegada base geographica da nacionalidade desapparece pois, se é que uma tal express?o n?o quer apenas denunciar o destino maritimo, como que phenicio, da na??o.

As duas cousas n?o devem, porém, confundir-se, pois n'um caso encontramos a causa determinante da aggrega??o social, emquanto no outro se observa a consequencia do facto da existencia anterior d'essa aggrega??o, fortuitamente constituida n'um litoral. é evidente que o caracter maritimo e colonial da na??o portugueza, na segunda dynastia, n?o podia ter influido no facto já secular da independencia. é sabido que D. Affonso Henriques, o author d'ella, n?o tinha navios, servindo-se dos dos Cruzados para tomar Lisboa e Alcacer. A marinha foi uma crea??o da monarchia e um producto da na??o, depois de constituida: o caracter maritimo é historico, n?o é primitivo em um povo rural, como era o portuguez dos primeiros tempos, e ainda hoje o é o gallego. O movimento de desloca??o da capital do reino para o sul, as medidas de D. Diniz, as de D. Fernando, depois a empreza do Infante D. Henrique, s?o momentos successivos de uma historia que é o nervo intimo da vida portugueza. Desde a reuni?o das esquadras cruzadas no Tejo para a conquista de Lisboa, desde a introduc??o dos genovezes, que vieram ensinar-nos a navegar, vê-se come?ar a formar-se essa na??o cosmopolita, destinada á vida commercial, maritima e colonisadora.[23]

é essa a na??o que a historia fórma: e por isso mesmo que a vida portugueza foi maritima, e o{pg. 25} destino da sua historia o mar: por isso mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as cidades maritimas de um paiz cuja capital é um dos melhores portos do mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa n?o teria resistido á for?a absorvente do movimento de unifica??o do corpo peninsular.

Erguido em frente do mar como um amphitheatro cujos primeiros degraus as ondas constantemente aspergem, o territorio portuguez, independente, adquiriu d'esta localisa??o um caracter seu: ao mesmo tempo que nos habitantes de Portugal acaso uma diversa combina??o de sangue favorecia uma tendencia particular. Assim como, porém, as cristas das montanhas, e, pelo cora??o dos valles, o curso dos nossos rios, s?o as veias e os tend?es que nos ligam ao corpo peninsular; assim tambem no nosso sangue os elementos primitivos accusam o facto de uma origem e de uma ra?a irman.

E se temos uma phisionomia moral, distincta sem ser diversa, tambem as condi??es do nosso territorio nos d?o um genero de destino differente, mas encaminhado a um mesmo fim. As navega??es e descobertas s?o a nossa gloria e a nossa maior fa?anha. Mareando a interrogar as mudas ondas, construimos; conquistando, derrocámos. Navegadores e n?o conquistadores, desvendámos todos os segredos dos Oceanos; mas o nosso imperio no Oriente foi um desastre, para o Oriente e para nós. A bordo fomos tudo; em terra apenas podémos demonstrar o heroismo do nosso caracter e a incapacidade do nosso dominio. Fa?anhas de homens que dirigem instinctos devotos e pensamentos de cubi?a, eis ahi o que nós veremos ser o nosso imperio oriental. Epopêa do espirito indagador, audaz e paciente, as nossas navega??es, as nossas explora??es colonisadoras,{pg. 26} tornam-nos os genios d'esse elemento mysterioso, para o qual, porventura, a nossa alma celtica nos attrahia. Quando á Europa humilhada o castelhano imp?e a lei com a espada e o mosquete, nós, amarrados ao banco dos remeiros, segurando o leme, ferrando as velas, alargamos mar em fóra a nau, com o olhar perscrutador fixado nos astros que nos guiam. Vamos de manso, ao longo das costas... Ninguem nos vê: só as ondas ouvem as melopêas monotonas dos marinheiros, cujo rithmo obedece ao rithmo do quebrar da vaga contra o costado.-Elles v?o, emplumados e vestidos de a?o, arrogantes e cheios de imperio, com o seu grito stridente e tragico, ensurdecer e estontear o mundo! Ninguem diria dois povos irm?os; e s?o-no, porque ambos obedecem a um motivo identico, a um pensamento egual, que está no fundo da sua alma inconsciente, como a chamma que arde no cerne da Terra, dando origem a rochas t?o diversas no aspecto, na c?r, na rigeza, na structura, no merito.

Portugal é um amphitheatro levantado em frente do Atlantico que é uma arena. A vastid?o do circo desafia e provoca tenta??es nos espectadores, arrastando-os afinal á laboriosa empreza das navega??es, que era para elles um destino desde que a politica os destacára do corpo da Peninsula.

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Quando se percorre de norte a sul a estreita facha da na??o occidental da Hespanha, encontram-se os successivos prolongamentos das cordilheiras peninsulares, galgando uns até ao mar, terminando outros mais distante da costa. Entre elles abrem-se as bacias ou estuarios de rios parallelos que podem{pg. 27} dividir-se em dois systemas: o do norte e o do sul, delimitados pela cordilheira da Estrella-Aire-Montejunto-Cintra.

No systema do norte, o Douro é a arteria central d'uma regi?o montuosa, coroada nos limites setentrionaes e austraes pelas duas cordilheiras culminantes da Galliza e da Beira. De uma e de outra, como socalcos ou degraus successivos d'essa platéa de montanhas que se fecha áquem da fronteira portugueza, descem outras serras, entre cujas depress?es se precipitam os rios nacionaes do norte: o Minho, que delimita a Galliza, o Lima, o Cávado e o Ave, ao norte do Douro, e ao sul o Vouga e o Mondego. As serras de entre Minho e Lima s?o as do Suajo; as de entre Lima e Douro, as do Gerez e do Mar?o, separadas pelo Tamega, confluente d'este ultimo; as d'entre Douro e Vouga, Montemuro; as d'entre Vouga e Mondego, Caramullo.

No sul, as bahias do Tejo e Sado, divididas pela peninsula da Arrabida, constituem o centro de um systema de caudaes irradiantes que cortam a zona mais plana, limitada de um lado pela serra da Estrella, do opposto pela do Algarve. Ao norte, na raiz austral da primeira, corre o Tejo, desinternando-se de Castella; destacando-se d'este, para sueste, o Sorraia, em plena planicie; e, mais pronunciadamente para o sul, o Sado, que vae nascer no pendor norte das montanhas algarvias.

Se a metade norte de Portugal é fechada a leste por um systema de contrafortes avan?ados dos Pyreneus cantabricos, a metade sul, theatro das guerras castello-portuguezas, contradiz de um modo incontestavel a opini?o dos que vêem na orographia a base necessaria da delimita??o das fronteiras nacionaes.

A come?ar do sul, o Guadiana fende a cordilheira{pg. 28} andaluza penetrando no interior da Peninsula. Curvando a sua orienta??o em Badajoz, o Guadiana, depois de ter regado os nossos terrenos raianos, toma uma direc??o leste atravez das largas campinas da Estremadura hespanhola que os tratados apenas dividiram do nosso Alemtejo. N'esta metade austral da nossa fronteira de leste, as planicies e as aguas do rio que as rega mudam de na??o sem mudarem de natureza; e outro tanto succede aos contrafortes avan?ados que reunem n'um mesmo promontorio as serras de Guadalupe e a Morena, e onde em Portugal assentam Portalegre ao norte, Evora ao sul. No tro?o de fronteira ao norte d'esta como que garra lan?ada pela ossatura da Hespanha no Portugal alemtejano, corre, primeiro, o amplo valle em cujo centro deslisa o Tejo, prolongando-se com elle, Estremadura em fóra, até Toledo; e seguem, depois, as cumiadas da Guardunha que dividem o Tejo do Zezere, apertando este rio contra a serra da Estrella.

O pendor austral das serras do Algarve e a facha ou tapete de jardins sobre que pousa a sua base o throno d'esses montes, formam uma ultima e como que excepcional provincia geographica, vedeta sobre o continente fronteiro, cujo clima e produc??es partilha.

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Geognosticamente, o territorio portuguez póde dividir-se em tres regi?es principaes: a das rochas igneas e paleozoicas, a dos terrenos secundarios, e a dos terrenos terciarios.

Tracemos uma linha que, partindo de Aveiro para norte, ao longo da costa, se dobre para nascente acompanhando a fronteira marginal do Minho. D'ahi extende-se por toda a raia de leste até{pg. 29} ás serras do Algarve, baixando-a em direc??o poente, para a prolongar com a costa até Sines. Depois, interne-se a contornar a bacia do Sado, por Grandola, Cercal, Panoias, Aljustrel, Ferreira, Torr?o até Vendas-Novas; em seguida a do Sorraia, por Lavre, Mora, Ponte-de-S?r, caíndo sobre o Tejo em Abrantes, e caminhando para norte por Thomar, Alvaiazere, Anadia-e ter-se-ha encerrado em Aveiro um perimetro que abrange cerca de tres quartas partes da superficie total da na??o. é a regi?o dos terrenos primitivos.

A dos terrenos secundarios comp?e-se de dois retalhos isolados. O primeiro extende-se ao longo da margem direita do Tejo, desde Lisboa até á Barquinha; entestando d'ahi até Aveiro com a linha anteriormente tra?ada, e vindo ao longo da costa, a descer para o sul, circumscrever a serra de Cintra, chegando outra vez a Lisboa. O segundo é constituido pelo litoral do Algarve, no pendor sul das serras, até ao mar.

A terceira regi?o, finalmente, a dos terrenos terciarios, desce pela costa, desde a ponta do Bogio, ao sul do Tejo, até Sines, alargando-se pelas duas zonas divergentes dos valles do Sado e do Sorraia, contornados pela linha determinada antes ao delimitar a raia da primeira regi?o.

Esta ultima é, como se viu, a mais extensa e importante. Abrange as duas provincias ao norte do Douro, a quasi totalidade das duas Beiras e do Alemtejo, e boa metade do Algarve. A Estremadura quasi por si só comp?e as duas segundas regi?es-uma ao norte, outra ao sul do Tejo[24].{pg. 30}

Na do norte predominam os terrenos cretaceos e jurassicos, formando tambem estes ultimos a quasi totalidade do retalho algarvio da segunda regi?o. Uma pequena mancha de granitos em Cintra, os basaltos dos arredores de Lisboa, e as dunas da costa, desde a Marinha-grande até Aveiro, s?o os phenomenos esporadicos da geognosia d'esta parte de Portugal.

Na regi?o do sul do Tejo apenas a Arrabida e S. Thiago de Cacem apresentam breves nodoas de terrenos jurassicos; e estes, os terrenos modernos formados pelas alluvi?es do Tejo e Sado e que lhes bordam as margens, e os areaes da costa entre o Bogio e o cabo de Espichel, s?o as unicas excep??es do vasto len?ol da regi?o dos terrenos terciarios.

Na primeira e mais extensa das zonas geognosticas de Portugal tambem o Tejo póde dar lugar a uma divis?o em duas sub-regi?es differentemente caracterisadas. Tomadas ambas como um todo, os terrenos, schistosos quanto á structura, e primarios ou paleozoicos quanto á edade, predominam em massa, envolvendo as rochas eruptivas ou igneas. Porém ao norte do Tejo o volume d'estas rochas, exclusivamente graniticas, é proximamente egual á dos schistos; ao passo que ao sul, além d'estes ultimos predominarem, apparecem n?o só granitos mas porphyros e diorites.

Entre Castello-de-Vide, Portalegre, Niza e o Crato, inscreve-se acaso o maior e mais compacto affloramento de granitos ao sul do Tejo. Depois d'este vem o de Evora, bracejando de um modo irregular, para norte até Vimeiro, para nordeste até Lavre, e no lado opposto até Vianna, Aguiar e S. Man?os. Afinal, as pequenas nodoas de Galveas, de Santa Eulalia, de Freia, de Reguengos, da Vidigueira, e de{pg. 31} Valle-Vargo a nascente de Serpa, completam o systema de affloramentos graniticos da sub-regi?o do sul do Tejo. Os porphyros e diorites constituem um longo dorso que vem de sueste a nordeste, desde Serpa, por Beja, Alvito, Torr?o, Alca?ovas, terminar junto de Cabrella, quasi na raia da regi?o terciaria. Além d'esta forma??o principal, encontram-se destacadas as manchas sporadicas de Alter, de Bonnavilla, de Monforte, e as duas mais consideraveis de Campo-maior e de Elvas, proximo da fronteira.

Ao norte do Tejo as condi??es variam. A massa de rochas eruptivas predomina sobre a dos schistos. Depois do macisso schistoso da Guardunha, entre Castello-Branco e o Fund?o, transposto o valle do Zezere, encontra-se a base alastrada da serra da Estrella, e afinal os alicerces de Monte-muro. Os granitos vêem desde a fronteira, entre Alfaiates e a Barca d'Alva, pela Covilhan e Taboa ao sul, por Vizeu a poente, entestar no Douro, cuja margem esquerda sobe até á raia de Le?o. Pequenas s?o as nodoas schistosas na área circumscripta: S. Jo?o-da-Pesqueira e Villa-nova-da-Foscoa, na margem do Douro: Villa-da-Egreja ás origens do Vouga; Pinhel e Valhelhas no pendor sul da serra da Estrella.

Porém as abas occidentaes das serras da Guardunha, da Estrella e do Montemuro, ladeadas ao sul pelo Tejo, formam duas vastas zonas de terrenos paleozoicos, uma cortada pelo Zezere, outra pelo Mondego e pelo Vouga: s?o estas zonas que vêem raiar com a regi?o dos terrenos secundarios até Aveiro, e com o mar desde Aveiro até a foz do Douro, tendo de permeio a facha de dunas da costa.

Ao norte do Douro os schistos predominam para{pg. 32} cima da linha Regoa-Chaves, os granitos para baixo. Ao longo da costa, desde o Porto até á Povoa, encontra-se, destacado, um affloramento de rochas eruptivas; e, para leste, um outro nas serras do Gerez e do Suajo, a poente do Tamega, lan?ando junto a Braga um ramo que vae, por Barcellos, a Vianna e até Caminha.

A leste da linha Chaves-Regoa s?o irregulares e dispersos os affloramentos eruptivos: acompanham a margem portugueza do Douro desde Bemposta até Miranda; apparecem em dois pontos da extrema fronteira do norte; vêem de Montalegre, por Chaves até Valpassos e Torre-de-D. Chama; e pela serra do Mar?o, desde Mondim e Ribeira-de-Pena, por Villa-Pouca e Villa-Real, morrer junto ao Douro em Villarinho. Todo o resto, o Mar?o, da Campean a Santa Martha, as alturas á esquerda do Corgo, a maxima parte do valle do Tua, e todo o valle do Sabor, s?o formados pelos terrenos paleozoicos.{pg. 33}

[22] V. As ra?as humanas, introd., pp. XXXI-II.

[23] V. O Brasil e as colonias portuguezas (2.a ed.) pp. 1-29.

[24] V. para a geologia terciaria do Tejo, os Elem. de Anthropologia (3.a ed.), pp. 212-17, podendo cotejar-se o estudo da regi?o portugueza com o da Peninsula no seu todo na Hist. da civil. iberica (3.a ed.) pp. VII-XXI.

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