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Ao tiro de pe?a acordou Jo?o de um inquieto somno de namorado e, apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja, prestou atten??o.
Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as aprehens?es dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao caloroso enlace dos seus bra?os, e um subito quebranto o impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?
N?o se repetiram detona??es que o tranquilisassem e, no brando rumor cantante e alegre, reconheceu o romper d'alva. Deitou pelos hombros um capote azul de cabe??o, e fechos de prata, apagou a candeia de ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava, desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de cedro da janella de peitoril.
Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa luz da manhan.
Ent?o destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial, puchou para si os dois pesados batentes e debru?ou-se com avidez.
-Muito madrugaste hoje-disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de dormir apanhando os cabellos brancos.
Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o focinho bronco farejando por cima da cancella.
-N?o ouviu uma pe?a, tia?
-Ha de ser navio de Lisboa.
Em passo miudinho, muito activa, a arrega?ada cheia de milho, acudia ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito, misturado ao chapinhar na agua de semeas.
Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim dando o signal do batalh?o, e o terno de cornetas atacou as notas baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.
Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do Pis?o.
Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva, pé descal?o, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa no pesco?o por bot?es de oiro, carapucinha preta com orelhas vermelhas, pequena como a palma da m?o, posta á banda n'um elegante equilibrio, batendo o bord?o com rendilhados na ponteira; rolhas de pasto no bico negro das caba?as defumadas, com pontos a cordel em fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao hombro esquerdo.
Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores, anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto.
Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos latidos os c?es das quintas.
Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse toque de sino, impregnado ao p?r do sol pela melancholia da tarde; seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na Sé á missa das almas.
Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia Pulcheria.
Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque, onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando vi?o aos cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros, á madresilva da janella, á abobora do telhado do forno, ao pé de vinha nascido de encontro á pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da arquinha onde se espetava a bica de ferro.
Recolheu-se, para o n?o verem faltar á ora??o matinal e, assim de pé, varejava-lhe o olhar o bra?o d'agua que dera o nome d'Angra á sua cidade.
Mas n?o avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro alarmante vinha findar-lhe os devaneios.
Saíam á pesca barcos á vela, avivando o azul n'um recorte de gar?a; vogavam outros em cadencia, como buzios deitando por banda as curvas pernas a fugirem no calhau.
Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha.
Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos, cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse el-rei D. Sebasti?o no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a que arrastára os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes sem fim, até ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, á inextricavel vegeta??o de sarga?os d'esse mar de inferno.
Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar largo, essas terras onde tudo se decidia: a Fran?a, m?e da liberdade, regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as institui??es de Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolu??o de 24 de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisi??o; a Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e decerto auxiliaria a revolu??o de 18 de maio contra a usurpa??o de D. Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda n?o havia um mez; o Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos; Lisboa, de onde uma embarca??o traria um primo para lhe arrebatar a mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.
Annullado na absorp??o do mar largo e das terras aonde conduzia, surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo detraz do Monte Brasil, a fragata Princesa Real, mostrando no balan?o a bateria rasa, cintada de pe?as negras em carretas vermelhas abocadas ás portinholas.
Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem lanchas e escaleres.
Tudo acabaria assim?
Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que trazia no forte bojo, e espica?ava-o o impeto de sair d'essa dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas esperan?as, por fórma a terem que contar com elle.
Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma, adivinhando, no palpitar de um len?o, a noiva perdida para sempre?
Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.
Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo, verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casar?o onde um pae lha defendia.
Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e o carro??o de coiro bolorento, baloi?ando-se nas grossas correias, de largas fivellas areiadas, arrastado á for?a da aguilhada por duas juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando ferrugentas ferragens.
Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte apoiada na m?o esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado, anediando o ligeiro bu?o, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes, pensando no que devia fazer.
Ao tocarem matinas na Sé, come?ou a preparar-se para saír.
Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.
Estava prompto o almo?o, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem para Lisboa.
Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da lou?a da India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado armario de madeira do Brasil, com guarni??es tremidas e remates arrendados.
Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o av? presidiam á grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia, esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia.
Amolentara-o a educa??o mulherenga, creado entre rabos de saias, adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.
Pobres velhas! Morreriam de d?r se lhes faltasse.
E as ambi??es de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se no resignado aniquilamento, na tendencia para a medita??o, de que o haviam adoecido os dias abafadi?os e humidos.
-Já saes?-perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de tartaruga.
Dorotheia accrescentou que n?o era dia de li??o, e o dominio das velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de lagrimas quando voltava tarde ?do caminho da perdi??o!?
N?o resistia, n?o se insurgia, n?o protestava, mas nem por isso deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros da sua edade, ao recolherem fóra d'horas.
-Nem que fosse dia de li??o irias hoje ao padre Jeronymo.
Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do navio de Lisboa, sublinhando com inten??o.
E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe:
-N?o te vás meter em trabalhos.
-N?o se fala sen?o de vingan?as, de pris?es, credo!-apoiou Pulcheria.
Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado economico das perturba??es:
-Tudo mais caro. Os ovos já est?o a quatro por um vintem, e querem uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de entrar na cidade, e n?o passam do Desterro onde a?ambarcam a manteiga, os ovos e as gallinhas os revendilh?es, que p?em tudo pela hora da morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os pre?os. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que veiu para ahi de tamancos! Já n?o se pagam fóros, ha que tempos n?o entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capit?o Toledo das Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que n?o se acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em ch?co, mas logo na noite da revolta, com os tiros dos soldados do Lob?o contra os milicianos, foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que p?em duas vezes por dia! é o que se ganha com essas fa?anhas dos constitucionaes.
-ó tia!...-interveiu sorrindo.
-Se n?o has-de defendel-os, n?o fosses todo do Juvencio!-commentou Pulcheria, mais directamente ferida pelo g?ro.
Dorotheia censurou, muito sentida:
-Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas iras, fr. Angelico da Immaculada Concei??o de Maria.
-Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabe?a.
Pulcheria reprimiu Jo?o n'um olhar.
-N?o te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles s?o do senhor D. Miguel.
-Est?o no seu direito.
Dorotheia acudiu com a quest?o do dinheiro:
-Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escriptura??o dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matan?as manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de damasco. Teu pae e teu av? foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és tratado como amigo.
E reparando na distrac??o d'elle:
-N?o comes nada? Grande coisa tens hoje!
Pulcheria observou-o tambem:
-Naturalmente os pedreiros livres est?o falados para a chegada do navio de Lisboa.
Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos contos, e Jo?o surprehendeu a creada, a velha Maria da Assump??o do Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos bra?os inchados de veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a testa encarquilhada, o nariz acavallado, os bei?os pendentes, mascando a sua maneira especial de se benzer:
Eu me benzo c'os tres cravos
Abra?ados n'uma cruz
Para que possa dizer
Santo nome de Jesus:
A cruz des?a do ceu
E se deite sobre mim
O Deus que n'ella padeceu
Elle responda por mim.
Por fim o dedo pollegar da m?o direita, tornado bento pela tarefa redemptora, foi beijado devotamente, e só depois a serva se virou para o lar.
Dorotheia commentou, compadecida:
-D?o com ella em doida as innova??es dos constitucionaes. Demora-se toda a manhan nas compras, porque vae para a Sé p?r-se de empada, a rezar, a rezar, em desaggravo ás heresias, aos desacatos.
Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos:
-é para o que servem os pedreiros livres!
Elle riu n'uma explos?o juvenil.
-Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem gra?a!
A tia confirmou:
-A senhora Joaquinina do ó vê-te sempre no falatorio da botica, e toda a gente sabe que é ali o coio dos que beijam o diabo á meia noite.
-Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o cord?o de S?o Francisco á cinta, n?o diga que tambem lá vê, a jogarem o gam?o, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do bispado.
-Esses s?o pedreir?es dos grandes!
-Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do ó.
Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que escolhia a pelle torriscada, o affonso de lapas em que o marisco guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sab?r do mar; e tomára, já levantado, o café com leite, esse delicioso café vindo directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se entretinham as tias.
De olhos no tecto e m?os postas, repetiam tres vezes as velhas, junto da meza ?Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer?, notando desgostosas que Jo?o se esquivava ultimamente á ac??o de gra?as, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o Demonio.
Despediu-se, saiu, passou ás Monicas lan?ando um olhar irritado ao convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando comprometter-se para com o morgado, n?o entrou a perguntar novidades de Lisboa.
Voltou á rua do Convento da Esperan?a, e passou por diante do collegio dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a fachada com dois grandes bra?os cruzando-se de punhos fechados contra a cidade-as armas de S. Francisco.
Virando a esquina entrou na pra?a, e foi direito á botica, ao canto do Passo onde parava a prociss?o e se cantavam motetes.
Para ir ali tinha a justifica??o de falar ao mestre, e trazia-a engatilhada para alguma pergunta do morgado.
Esbravejava o boticario, tornando a loja em club:
-Aqui n?o se recebem ordens do Miguel! Isto n?o é terra de burros nem de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos á cara o decreto, o capit?o general, mas para cá vem de carrinho! O presidente da camara convocou uma reuni?o extraordinaria, a que concorreram as principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e resolveram n?o cumprir as cartas regias por falta das formulas da carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou n?o sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma Princesa Real!
N?o iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe importava.
Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a li??o, e n?o ficaria sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o. Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da li??o de latim do conego Penedo, um alto vermelha?o, de cabello branco com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e outros por bêstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a m?o fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os érres.
Como no momento de liberta??o em que a garrida chamava os conegos á Sé, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira do c?ro, cabeceando, a remoer o ripan?o em voz roufenha, ia Jo?o na doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto.
Sentia-se t?o livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua da Sé acima, até ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas, port?es de S. Pedro em fóra, até ás quintas do Caminho do Meio, a admirarem as vinhas, n'um culto pag?o mais sincero do que aquelle em que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro.
Tinha o desejo infantil de vêr, com os proprios olhos, sair o navio, para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua situa??o para com Maria, antes que surgisse outra amea?a.
Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a quest?o politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destro?os de naufragios, pranch?es crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham colonias de pequenos seres; depois abandonou o carreiro do areal batido pelo constante perpassar, onde já plantas desafiavam o beijo da resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra.
Passou o Portinho Novo e foi até aos penedos do caes da Figueirinha, onde pescadores, perna pendente, pescavam á canna, aproveitando a fundura da rocha viva.
Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, até aos pedregulhos do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e vermelhos de peixes-reis e bode?es. Acudiam engodados, vinham em cardume á ?aga de um barco que recolhia, andavam á babugem dos navios arrastada pelo mar para o recanto da angra.
á picada no anzol correspondia a saccada lesta do cani?o; saltava um peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador adentanhando a guelra; lan?ava-o ao cesto, onde a frescura dos mais emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia.
Mas o ca??o voltava para o mar degolado, com um escarro de desprezo no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados.
Subiu a Rocha até ao Relv?o.
Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de pr?a dos barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a bordo da fragata, alando os ferros.
Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. Jo?o Baptista, encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como protegido pela poderosa fortaleza que a obrigára a retirar, por esse castello que f?ra o symbolo da oppress?o hespanhola e se tornára a unica esperan?a da liberdade portuguesa!