Passára Jo?o interminaveis dias de angustia, e agora apenas ia á li??o de latim, ficando a estudar noite e dia para poder entrar mais depressa na universidade.
Manter-se-ia em Coimbra com a pequena legitima paterna que, para se formar, conservava intacta, sustentado pelas tias, a quem auxiliava com os ganhos de escrevente.
Para supprir as quatro patacas pedira ao Juvencio, e ao doutor Ferraz, que o apreciava das conversas politicas da botica, alguns trabalhos de expediente da junta provisoria, que podesse fazer de tarde e á noite.
Mas a subitas abandonava o buffete, chegava á janella, e sentava-se a contemplar a quinta dos Folhadaes, evocando a derradeira visita.
Resentia-se da frieza de Maria, do desdem transparente nas censuras de D. Josepha da Esperan?a, do olhar sobranceiro de Jorge da Feteira ao corresponder friamente ao seu cumprimento.
E avaliava que tal devia ser o primo de Lisboa a quem a destinavam, por esse arrogante analphabeto, cheirando a estrebaria, orgulhoso de pegar toiros á unha á saída do curro, de picar a pé á vara larga, de farpear de dentro do caix?o a meio da pra?a, falando com desprezo da liberdade que n?o comprehendia, odiando a letra redonda que nem soletrava, copiando D. Miguel por fóra e por dentro, dizendo-se, por bravata, capaz de defender de armas na m?o o passado, que lhe dava direito de primasia sobre a parte intellectual da na??o.
Como f?ra ridiculo no seu acanhamento!
Porque n?o rompera n'um rasgo soberbo, lan?ando-lhes em rosto alguma dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquila??o fatal da fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta, indolente, corroida no sangue por heran?as de miserias e de vicios?
Precisava desafrontar-se, lan?ar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos da Carta que confirmavam a Constitui??o na extinc??o dos privilegios, no estabelecimento da egualdade.
Mas teria offendido gravemente Maria...
F?ra melhor assim!
Ella n?o podia pensar como o pae, como o primo.
Tratara-o sempre como um egual e, se manifestára aquella grande estranheza, f?ra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso proposito, sem que uma gradual prepara??o a habilitasse a encarar aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam.
Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os preconceitos?
Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio, previam a declara??o da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para escolherem o melhor, e um cora??o para estalar de d?r; e se fosse poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um formidavel protesto, os versos de Gil Vicente:
?Que el amor que aqui me trajo
Aunque yo fuese villano,
El no lo es.?
Já n?o havia porém vill?es e fidalgos; perante a lei eram todos cidad?os!
Maria agora sabia tudo e, n'esses longos dias em que se n?o viam, tinha tempo de meditar.
Julgal-o-ia no seu intimo, evocaria, talvez saudosamente, a jovialidade d'essas tardes!
Que pensaria o fidalgo em n?o o vendo?
Era for?oso ir lá dar-lhe qualquer desculpa. N?o podia desapparecer como um criminoso.
Precisava mesmo mostrar-lhe, e a todos, que n?o tinha medo.
N'esse dia despedir-se-hia d'ella cerimoniosamente.
Já n?o era dependente e, se o acolhesse, tratar-se-iam de egual para egual.
Voltaria como visita, ou falar-lhe-ia da canada, e havia de inspirar-lhe confian?a, fazendo-lhe vêr como as medidas liberaes, extinguindo distinc??es, lhe permittiam elevar-se até aspirar á sua m?o.
E assim caía de novo na preoccupa??o politica, sentindo ainda mal seguro esse estado de coisas que provocava um desdenhoso riso a Martinho Vasques, e avinhados raptos oratorios ao frade.
Como sempre que o intimidavam a tranquilla seguran?a dos adversarios, as más noticias que por toda a parte espalhavam, decidiu ir á botica avigorar a fé na convic??o enthusiastica do velho clubista.
F?ra t?o forte o abalo soffrido que adiou de dia para dia a visita ao Juvencio e, sem saír mais que para a aula do padre Jeronymo, continuou agarrado aos livros, vendo n'elles, no curso para que o preparavam, a sua melhor desforra.
Alarmou-o uma manh? o boato trazido de fóra pela creada, quando estavam almo?ando, de que se ia embora o batalh?o, e voltava a ilha á obediencia do senhor D. Miguel. A junta reunia gente armada para impedir o embarque, mas todos diziam que os ca?adores eram levados do demonio, e nenhum caso fariam da paisanada.
N?o poude encobrir o desgosto, mas n?o respondeu ás tias, n?o lhes contestou os commentarios.
D'ahi a pouco saía, muito enfiado, disposto a tudo.
-Que ha de novo, senhor Fulgencio?
Veiu do interior da loja o boticario, um velho alto, secco, ainda robusto, só divergindo dos constitucionaes na cara rapada, olhar inquieto, ardente, bocca energicamente accentuada, express?o decidida, barretinho de clerigo tapando-lhe a calva, muito correcto n'um velho traje de gala, repassado aqui e ali, casaca de seda preta, cal??o e meia, chinelos em vez dos sapatos de fivela, por causa dos callos.
Aproximou-se n'um ar mysterioso, occultando-se das beatas que iam vigial-o de manto, e disse-lhe baixinho:
-Está reunido o conselho militar. A coisa n?o ha de ir assim, estejam descan?ados.
E retirou-se, muito activo, n'um passo miudo.
Seguiu-o Jo?o, angustiado.
-Vieram más novas?
Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas:
-N?o vieram das melhores, n?o. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas, chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu avio a gente do monte, para ficar com as m?os livres, se tivermos dan?a.
Era domingo e, conforme o uso, viera ás compras muito povo do campo. Estava a botica cheia de caba?as, de alforges, de sacos de estopa. Em cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em punho, ia despejando boi?es de unguento.
Devorava Jo?o as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e ter?a de alto, a duas columnas, encimada pela cor?a portugueza, entre Gazeta e de Lisboa, do titulo.
Vinham cheias de sauda??es a D. Miguel pela ?exalta??o ao throno dos seus maiores?; da lista dos ?donativos voluntarios?, extorquidos pela policia e pelos caceteiros sob a amea?a da denuncia por liberal; de congratula??es officiaes pela victoria das tropas fieis contra as rebeldes.
Na ultima pagina do n.o 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rapé a 40 réis a duzia, em preto, a 240 illuminado; para medalhas mais pequenas respectivamente a 30 e 160 réis; para anneis e alfinetes a 20 e 120 réis.
Publicava a Gazeta n.o 182, de 2 de agosto, o ?Assento dos tres estados?, em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de haver jurado falso com essa interpreta??o do juramento, que Jo?o lia assombrado: ?irrito ou nullo quando cae sobre materia illicita, quando é extorquido pela violencia, quando da sua observancia resultaria necessariamente viola??o de direitos das pessoas e dos povos, e sobretudo a completa ruina da na??o.?
E os jornaes continuavam a bater a nota das felicita??es a D. Miguel e ás tropas.
Que significava aquillo?
N?o podia deprehendel-o das Gazetas, alheio como estava ha muitos dias ao movimento politico.
Mais aliviado de freguezes, veiu Fulgencio esclarecel-o:
-Sim, foi-se tudo por agua abaixo. Já o sabiamos desde o dia 5, mas a cara era a mesma, para que esses patifes dos miguelistas n?o se nos rissem nas barbas...
-E as noticias que o doutor Antonio da Silveira foi procurar ao Porto...
-Já nos deram a divis?o liberal em retirada para a Galliza ... mas nós: moita, carrasco!
-Pois n?o poderam manter-se todas essas tropas da junta do Porto?
-Perdeu-os a sua ingenuidade! Tu bem sabes que nós n?o queremos sangue, nem al?adas, nem persegui??es, nem confiscos. Paz e egualdade para todos! Eis como foram até cerca de Condeixa tres mil soldados liberaes, por assim dizer como chamariz a deser??es. Mandaram-se proclama??es para o campo inimigo, e ao alarme pela aproxima??o de uma for?a adversa romperam as bandas o hymno constitucional, para a arrastarem á adhes?o. Contava-se vencer sem disparar um tiro, sem derramar o sangue de irm?os!
-Como em Vinte!-exclamou Jo?o enthusiasmado.
-Eram os principios! Mas as for?as do Miguel, seis a oito mil homens, n?o quizeram ?abra?ar os irm?os d'armas?, e atacaram na Cruz dos Moroi?os, no momento em que todos os chefes, de major para cima, tinham ido assistir ao conselho militar em Coimbra. Foi a ?ac??o dos capit?es? e, como tal, as for?as sem commando que reunisse os seus esfor?os, defenderam com valentia as posi??es occupadas, mas n?o limparam de inimigos o caminho de Lisboa. Depois o nosso general Refoios, receando que Povoas passasse o Mondego, ordenou a retirada para o Porto.
-E ahi?
-N?o se poderam manter. Quando chegaram de Inglaterra os chefes emigrados já era tarde, e voltaram no mesmo vapor que os levára, emquanto a divis?o retirava para a Galliza.
-Que desgra?a!
-Ou antes, que inepcia. Essa fuga dos chefes no Belfast n?o me passa d'aqui!
E levou a m?o á garganta n'um gesto nervoso.
Sentiu Jo?o as lagrimas nos olhos, e fez exfor?os para n?o chorar.
Assim ruia n'um momento o futuro em que tanto confiára.
-Ent?o acabou-se tudo?-exclamou em voz estrangulada.
-Qual! Outros vir?o! Ha de estalar nova revolta, e o Miguel n?o levará a melhor! E agora que aprendemos á nossa custa, nada de hymnos nem de proclama??es. Ha de ser á má cara!
Dava grandes pernadas pela botica, olhando inquieto a pra?a, onde se juntava muito povo defronte da camara.
Continuou para Jo?o, que ficára aturdido:
-Assim o querem, assim o tenham! O exemplo do sangue veiu d'elles. Já come?ou a trabalhar a forca, mas os estudantes de Coimbra, longe de se intimidarem com o assassinio dos collegas condemnados pela morte dos lentes em Condeixa...
Olhou Jo?o fixamente, crendo que a sua pallidez provinha da referencia ao attentado e ás execu??es.
-Ouve lá. Tu que te fazes t?o liberal, se te coubesse em sorte executares um tyranno, um inimigo de liberdade...
-N?o me tremia a m?o, tenha a certeza!
E Jo?o ergueu-se, vibrando de enthusiasmo, na esperan?a de poder tomar parte na lucta contra a casta dominante cuja oppress?o tanto o magoára.
Parecia-lhe ha muito que o experimentavam os frequentadores da botica, e sentia-se attrahido pelo maravilhoso, pelo mysterio do subterraneo onde constava funccionar uma associa??o secreta.
Mostrava agora uma firmeza de homem feito, sentindo-se honrado por esse convite indirecto a entrar em ac??o.
Juvencio fitava n'elle o olhar prescrutador.
-Todos ser?o precisos!-disse-lhe por fim-e os rapazes mais do que os velhos. S?o vocês que teem a lucrar com a liberdade. Eu n?o chegarei a gosal-a em paz.
Commoveu-se n'uma saudade do periodo constitucional, das humanitarias illus?es em que tinham considerado a na??o livre e feliz para sempre.
Mas o gesto de amargura cedeu ante a impuls?o do inquebrantavel espirito de combatividade, e proseguiu:
-Como te ia dizendo, a estudantada n?o se intimidou, e adheriu á revolu??o, formando o batalh?o academico, que lá retirou com os emigrados.
Eram um novo contratempo para Jo?o as perturba??es da universidade.
E na obseca??o do projecto que por esses dias o absorvera, perguntou:
-Ent?o assim, talvez n?o possa matricular-me este anno?
Sorriu da ingenuidade o boticario.
-és um crean?ola! Pois n?o vês que n?o torna a haver paz sem que elles nos enforquem até ao ultimo, ou nós os desarmemos e ponhamos o Miguel pela barra fóra?
-N?o sou t?o inexperiente como julga. Mas pelo que vejo na Gazeta, D. Miguel foi proclamado rei, e tudo s?o felicita??es e offertas...
-Isso n?o quer dizer nada. é a gente d'elle, só a d'elle, porque os nossos est?o presos ou emigrados. Mas olha que os embaixadores cortaram todas as rela??es diplomaticas, em protesto contra a infamia dos juramentos falsos com que nos illudiu, com que enganou as na??es estrangeiras.
Puxou triunfante d'uma carta:
-Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer n?o. Os tres estados, como tu já ahi lêstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra fórma, dizendo que elle, ante o parlamento, n?o jurou com a m?o nos evangelhos, mas em cima dos Burros d'esse bandalho do José Agostinho de Macedo. Tu sabes as minhas opini?es, para mim tanto vale um como o outro, é tudo palavreado de frades. O crime está na má fé de bandido com que abusou da confian?a attribuida á palavra de honra de qualquer homem de bem, quanto mais de um principe!
Jo?o indicou-lhe o artigo da Gazeta.
-Dizem que elle foi coagido a jurar.
-Patife! Estava coacto, sim, é a desculpa d'esses homens que para vergonha nossa ainda governam cidad?os livres como rebanhos de carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. Jo?o sexto e D. Miguel declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as trai??es e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua ?sciencia certa e o seu poder absoluto? guardam-os esses ungidos do Senhor para p?rem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros.
Amarrotou a Gazeta furioso, batendo com as costas da m?o no artigo dos ?tres estados?, emquanto passeiava, declamando:
-Isto que ele fez agora, deitar a m?o á cor?a, já o tentou por duas vezes em vida d'esse pobre diabo de D. Jo?o VI, combinado com a porca da m?e. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a cor?a á nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condi??o de D. Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e até enviou ao irm?o regente um manifesto negando a authoridade do seu nome a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas institui??es, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um só liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos em que a applicava. E quando p?z o exercito da sua m?o, mudou a officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a quest?o da legitimidade, que nunca até hoje f?ra apresentada, e fez trabalhar o cacete e a f?rca.
-E está realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a Gazeta?-perguntou Jo?o intimidado.
Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo:
-Mas n?o o está na ilha Terceira!
Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal:
-Fala-se aqui de uma expedi??o em que vem a nau D. Jo?o VI, e mais dez navios, contra a Madeira e as outras possess?es revoltadas...
-Bem sei. E já fizeram exercicio de desembarque diante do ?seu anjo?. Pois que venham cá, e ver?o a li??o que levam!
Deslumbrava-o o orgulho patriotico:
-Tinha melhores dentes o Demonio do Meio-Dia, e por duas vezes lhe corremos com a sorte. O que a nossa terra fez ent?o, póde repetil-o agora. Até os toiros dos nossos mattos se lhe deitaram na Salga, e Vadez fugiu, apezar dos seus dois mil soldados cobertos de ferro! Para se metterem cá tiveram os hespanhoes que mandar oitenta navios e dezaseis mil homens. Onde tem o Miguel gente para isso? Pois tomára eu que mandasse muita, para que, livres d'ella, o puzessem os liberaes mais rasos do que um chinelo.
Ardia Jo?o na impaciencia de saber toda a verdade:
-Por têr mêdo da esquadra o batalh?o quer saír, como corre?
-Com mêdo, dizes bem. Eis o que valem fanfarronadas de caserna! Lingua têm elles para se darem como autores de tudo, dadores da liberdade, mantenedores da independencia. Mas vê lá se alguem os viu quando entraram os francezes! Nem ra?a de um. Foram as guerrilhas, paisanada como eu e como tu, que lhes puzeram as uvas em pisa. E quando mataram o grande general Gomes Freire? Se foram elles proprios que o fuzilaram! Havia officiaes inglezes n'esse tempo, mas só meia duzia. A soldadesca e os agaloados eram todos de cá. Que prendas! Em Vinte sahiu tudo para a rua, que duvida, se a coisa n?o cheirava a esturro. Apenas vivas e palmas! Quando se conspirava contra a Constitui??o, ainda juraram defendel-a até á ultima gota do seu sangue. Mas assim que os franceses entraram por Hespanha, e o Miguel se levantou, puzeram-se no seguro, e trahiram todos os juramentos, choramingando que a liberdade era má porque lhes deixava os soldos em atrazo, quer dizer, porque n?o lhes dava em promo??es e augmentos de soldo tudo o que pagava o pobre povo. Lá conheceram para que serviam ao atrelarem-se ao carro de D. Jo?o VI, que puxaram como bêstas, organisando até a rela??o dos nomes, e disputando aos fidalgos a honra da preferencia!
-é ent?o certo que retira?
-O major José Quintino Dias apenou os navios da laranja para o levarem a Inglaterra, onde devem ir ter os emigrados. Queria embarcar hoje mesmo, 24 de agosto! Escolheu bem a data, n?o haja duvida, quando faz oito annos que rebentou a revolu??o constitucional no Porto!
Considerou tristemente:
-Oito annos! Como o tempo corre! E estamos peior do que ao come?o.
Nada porém abatia a sua fé inabalavel:
-Mas havemos de restaurar a liberdade, embora só vocês gosem d'ella!
Jo?o commentou ainda:
-Mas ca?adores cinco foi sempre um corpo liberal!
-Pois é isso mesmo o que mais me doe. O bravo cinco! Um batalh?o degredado para aqui pela sua firmeza, quando até o famoso dezoito de infanteria, unico que n?o f?ra á Villafrancada, se bandeou, depois de ter recebido, n'essa hora tragica, um exemplar da constitui??o confiado á sua guarda, e de ter jurado morrer pela liberdade! O cinco, o bravo cinco!
E reconsiderando:
-Mas ouve lá, rapaz, se em geral a tropa n?o merece confian?a, e só pensa no venha a nós, tem tido verdadeiros heroes liberaes, embora por excep??o! Esses que emigraram, sem acceitarem as concess?es do Miguel, s?o portugueses de antes quebrar que torcer! Bem viste como se portou o nosso ?cinco? em vinte e dois de junho. Agora é que lhe deu para desmanchar-se ... Ainda tenho para mim que ha de reconsiderar.
-Tambem creio que se n?o vae.
Juvencio exclamou exaltado:
-Lá isso é que n?o vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou ao mal. N?o é só meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme. Vae por ahi uma gritaria, um desespero que é de cortar o cora??o. Bem se sabe o que o Miguel fará se entrar aqui. S?o mortes, confiscos, donzellas violentadas, crean?as insultadas nos seus lindos olhos azues, a maldita c?r constitucional. A elles póde n?o importar isso, mas nós n?o queremos a desgra?a na nossa querida terra. Se teimarem em fugir, abandonando ao carrasco mulheres e crean?as, ensinar-lhe-emos á for?a o seu dever!
Como sempre, f?ra avassallado Jo?o pela fé do velho liberal:
-Sim! Sim! Diz muito bem.
E no rosto lia-se-lhe uma formal decis?o.
Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua:
-Quando f?res pae, Jo?osinho, comprehenderás a minha d?r. Tenho aqui em cima tres filhas, e já um neto, cujos cabellos loiros s?o o meu encanto! A minha familia é a minha religi?o. Tudo quanto sou, me tornei por causa d'elles! A minha alegria é o reflexo da sua alegria, a minha vida é o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha e n'elles se perpetúa. A mulher é t?o velha como eu, mas ellas s?o novas e lindas. Queres saber o que os padres prégam do pulpito abaixo? Que é preciso matar as malhadas, as filhas de liberaes como as minhas, de preferencia as gravidas, porque as crean?as já trazem no ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada está para dar-me outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! N?o! N?o ha de ser assim!
-Na nossa terra n?o entram esses barbaros!
Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio continuou:
-é preciso que n?o entrem! Toda a esperan?a da liberdade portuguesa depende de nós. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a parte. é o que agora dir?o no conselho ao major Quintino. O futuro de Portugal está-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira póde defender-se, e ha-de defender-se! é t?o bravia a costa do mar, que faz por si só uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos as do castello. A nossa terra é t?o insignificante, estará dizendo Quintino, que n'um dia se corre toda em volta a pé. Pois quanto mais pequena f?r, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para cá o refugo dos funccionarios, o que lhes n?o serve de nada. Pois se o mal vem de lá, ha-de ir-lhe de cá a li??o! Aqui foi o reino do Prior do Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente, vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario da liberdade, que depois reviverá em Portugal!
Observou a pra?a, e ficou descontente:
-Ein? Tudo na mesma. Mau signal. Já tiveram tempo de decidir qualquer coisa. Pois vamos até lá a vêr se espertam.
Desappareceu no interior da loja.
Estremecia Jo?o n'um fremito de independencia.
Sim, resistir aos de fóra, acabar com essa escravid?o, o navio cujas noticias o amea?avam, o primo do continente a quem estava destinada a mulher amada. Queria-a para si, e havia de defendel-a com o ardor com que Juvencio pretendia bater-se pela familia.
E assim como para o velho constitucional se identificavam os dois amores, tornando-se um a amplia??o do outro, sendo o lar o mais sentido representante do maior, assim Maria se lhe tornava o symbolo da sua terra, amea?ada pelos de longe, dominada, como parte da sua popula??o, pelo preconceito, pelo fanatismo.
Percorria-o um fremito de bravura, manifestava-se-lhe, ao influxo da occasi?o, a hereditariedade guerreira; e sentia-se prompto a combater por ella e pela liberdade, já sem o triste acanhamento em que se humilhára ante a frieza do seu olhar altivo, ante o desdem de um bo?al marialva.
Veiu de dentro Juvencio, de chapeu alto, vendo-se-lhe o barretinho por baixo, emquanto, de costas, pretendia fechar a porta interior; trazia o capote preso nos fechos de prata, e debaixo d'elle um volume que lhe tolhia os movimentos.
Voltou-se, sorriu ao encarar com Jo?o, e pediu-lhe que encostasse a porta da rua.
Desembara?ou-se, poz em cima da meza uma espingarda de pederneira e o cinto de cartuchos.
Fechou ent?o a porta, metteu a grande chave n'uma gaveta, foi depois verificar a escorva, e por fim desembainhando a espada posta á cinta, mostrou a Jo?o, que assistia n'uma impassivel gravidade de homem feito, a lamina onde se lia: ?Constitui??o ou Morte?.
Tivera-a muito bem escondida como uma reliquia, e nem as persegui??es do maldito Stokler lh'a poderam arrancar.
Cingiu o cinto da polvora, enfiou no hombro a bandoleira da espingarda e deitou por cima o capote azul, encobrindo as armas.
N'uma ternura paternal poz a m?o no hombro do rapaz, ao despedir-se:
-Adeus, e mette-te em casa, Jo?osinho. Temol-a tramada!
-Em casa, eu?-protestou quasi offendido pelo conselho.-Olhe tambem para isto, senhor Juvencio.
E da alta bengala de madeira preta e cast?o de marfim, arrancou um agudo estoque, e sacou das amplas algibeiras do casaco duas pistolas de pederneira.
-Est?o carregadas!
Enternecera-se o velho:
-Pois tambem tu, pequeno! Oh! Com rapazes assim a victoria é nossa.
Muito orgulhoso, Jo?o gracejava:
-Ent?o o senhor, sósinho, é que havia de defender esta terra toda, lá por ella ser t?o pequena? Eu tambem sou terceirense, tambem tenho direito ao meu peda?o!