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Chapter 4 No.4

Saíram para a pra?a, repleta de gente.

N?o queriam voltar para as freguesias ruraes, sem saberem a decis?o, os homens do monte, as mulheres com o cabello de risca ao meio a luzir de unto, saia pela cabe?a, entufadas de saias sobre saias, os pés metidos em galochas de cedro, com pálas de coiro verde, avivadas a vermelho, luzentes de ilhós, cravejadas de pregos de a?o.

Nos grupos da gente da cidade graves artistas independentes, carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, marceneiros, alfaiates, trabalhando na propria casa, e para si, auxiliados pelos filhos, ou por apprendizes e officiaes, que sentavam á sua meza.

Esperavam n'um grande ar de solemnidade, orgulhosos dos capotes de bom panno azul ou castanho, presos por fechos trabalhados de lat?o ou de prata.

Commerciantes de chapeu alto, grande casaca, no rigor do trajo constitucional, ostentando bigodes, afadigavam-se por entre os grupos de artifices e camponezes, achando todo o apoio n'aquelles, e n'estes uma desconfian?a hostil.

Sentia nas novas leis o seu advento a burguesia liberal, e defrontava por toda a parte o fidalgo e o convento, senhores da terra, parasitas do trabalho, e queria oppor aos monopolios a liberdade commercial.

Mulheres do povo, de capote berneo, n'uma explos?o de escarlate; burguesas e fidalgas de manto negro, reunidas em pequenos grupos, parentas, amigas; viravam incessantes os bi?cos mal saía uma pessoa da camara, e atravessava a pra?a illaqueada pela anciedade da decis?o.

A dentro dos capotes e dos mantos, por sob as pregas apparentemente uniformes, adivinhavam-se no esguio, no flexivel da cintura, no irrequieto do bico de passaro, no adejar de v?o dos largos pannos, as noivas do batalh?o, as apaixonadas d'essa juventude que, no prestigio da farda, na vivacidade de lisboetas, no seu falar cantado, endoidecia as raparigas, com grave ciume dos patricios offuscados.

Reconhecia-se o abandono das quarentonas sem futuro, gordanchudas, afogadas em seios já inuteis, semeadas por entre os grupos como escolhos, em torno dos quaes esvoa?avam os bandos de gar?as.

Havia vendedeiras de capello deitado para traz, suffocadas pelo calor e pelo medo de perderem o rosario de dividas deixadas pelas tropas ao levantarem campo.

Tapavam rebu?os os rostos lacrimosos das namoradas e amantes dos soldados, dos officiaes e dos sargentos; mas carpiam-se, por todas as saudosas, as mulheres da Rocha, len?o de seda na cuia, chaile ter?ado, rosetas de vermelh?o nas faces, labios pintados, arrepelando-se, bradando contra a saída d'esses divertidos rapazes, cujas guitarras trinavam melhor que as enfadonhas violas de arame da terra, d'esses bons fregueses, t?o generosos e t?o pandegos.

Capitaneado pela Joaquinina do ó, estava o rancho das beatas encoberto com o canto da rua da Sé.

De atalaya á botica, destacava alvi?areiras para o convento dos franciscanos; era um constante borboletear de mantos pela ladeira de S?o Francisco, e as que voltavam falavam ás que iam, encostando n'um tremelicar nervoso os bi?cos, como antenas de formigas.

Traziam medalhas com o retrato de D. Miguel, bentas pelos frades, e que elles proprios lhes tinham posto ao peito, para ostentarem victoriosamente, mal houvesse a certeza de que retiravam os ca?adores.

á appari??o do boticario, afadigou-se nova emissaria ladeira acima, e foi adejando o enxame atraz do velho e de Jo?o, seguindo-os por entre os grupos até junto da escada de pedra, que subia exteriormente á fachada do edificio, encimado pela torre do sino onde se tocava a recolher.

Para os lados da rua do Gallo reunia-se o grupo dos mais influentes constitucionaes, que n?o tinham assento no conselho.

Por vezes distrahia a espectativa o borborinho, gritos, risadas, vindas dos arcos da cadeia.

Davam para as arcadas que sustentavam a varanda de pedra da fachada, as janellas das enxovias, onde havia cestos arvorados em canas, como apparelhos de pesca armados á compaix?o.

Ia a gente do monte agarrar-se ás grades, uns a comprarem pentes e grosas de bot?es de chifre, enfiados em agulhas de feno; outros a mirarem com olhos compassivos a nudez da pris?o, a bilha de agua, o immundo boi?o dos dejectos, a tarimba de madeira onde se mantinha acocorado o Marmanj?o, meditabundo, envolto em peda?os de colcha esfarrapada, offendido por essa profanadora curiosidade, elle, o santinho, como lhe chamavam os frades que o tinham de olho para carrasco; muito temente a Deus, notavel pela frequencia com que se confessava e commungava, e indigitado para a nobre miss?o de executor pela limpeza com que em S. Bartholomeu demolira com uma só paulada o homemzarr?o de um vizinho.

Regateava em voz fanhosa gaiolas de cana com melros pretos de bico amarelo, grandes cantores, o Mujinha, baixo, olhinhos de bisnau, pondo um tra?o de intrigante na cara rugosa; gatuno, fachina da cadeia e afilhado de chrisma do carcereiro que lhe levava caridosamente á porta as gaiolas, em ademanes de sacrist?o.

Com a pronunciada queda commercial d'esse, contrastava a do seu visinho de janela, o Zica, muito correcto e limpo, cantarolando á moda da ilha de S. Miguel, vendendo pentes de baleia, cumprindo resignado a pena imposta por uma desforra tirada á má cara, n'uma noitada de vinho.

Este era constitucional, e arvoráva sempre, provocadoramente, as guias do grande bigode, sem sequer as deitar abaixo, apesar das denuncias do santarr?o pretendente a carrasco, e das intrigas do gaioleiro, durante o tempo em que a ilha acatára a usurpa??o.

Logo na grade contigua outro miguelista, o Roseiro, um velhinho sem dentes, deprimido como uma fava escoada, alegrava os curiosos com inexgotaveis historias de toiradas, em que era uma auctoridade, e recebia em troca peda?os de p?o de milho, e algum grande pataco com a effigie do senhor D. Jo?o VI, em premio á fidelidade e á coragem com que descrevia o ?senhor D. Miguel? rejoneando toiros desembolados, e o seu confessor, fr. José da Rocha, saltando á pra?a e pegando á unha.

Apoiado aos fortes var?es que de seculos de afflictivas despedidas tinham as quinas amolgadas, como que derretidas pela ardencia em que se lhes crispavam as m?os dos desgra?ados, falava com a familia e os visinhos do Raminho, um camponez alto, magro, rosto ossudo, enorme nariz, gago, dentes p?dres, grandes pés descal?os espalmados, por alcunha o Lindinho, condemnado por morte d'homem ás Pedras Negras.

Contava com esse a fradaria para ajudante de carrasco, pois a faina promettia, e só lamentava que n?o houvesse n'elle a necessaria unc??o do Marmanj?o, e que ambos, apesar de já afeitos, n?o tivessem a comprovada pericia de carrasco de officio, nem o aspecto, que só por si fazia chorar as crean?as, obrigadas por lei a presencearem as execu??es, de um celebre preto a quem f?ra commutada em pris?o perpetua a pena de morte, para fazer pernear condemnados na forca, de saco pela cabe?a, ante a bandeira da misericordia.

Que falta lhes fazia ali, para a restaura??o do governo do throno e do altar, um patriota como o Camba?as, que se offerecera para enforcar os liberaes; ou um preso como o Fitas, ladr?o celebre, grande partidista de D. Miguel; que até os ladr?es eram por el-rei contra a immunda canalha jacobina!

Sentado de lado, contra a grade, sem encarar os ouvintes, o Ferrabrás, faquista, contava historias, que n?o provocavam gargalhadas como as do Roseiro. Eram de bruxas, de almas do outro mundo, e o olhar em extasis, e a barba inculta na cara descarnada, impressionavam, tornando mais horrorosas as appari??es de phantasmas de incorrigiveis constitucionaes, como o illustre general Araujo, o diabo, assassinado pelos reaccionarios, com repiques e illumina??es das freiras de S. Gon?alo, e que ao bater da ultima badalada da meia noite arrastava correntes pelo Caminho Novo, vendo-se-lhe pelas costas abertas o fogo do inferno que o consummia.

Abaladas pelos medonhos pavores caiam mulheres com faniquitos, e ent?o descia uma ordenan?a tinindo ferros, a prohibir os choros de uns e as berratas torreiras de outros.

Puxava o carcereiro os presos para dentro, n'um ar compungido, mas severo; obediente ás ordens, mas doendo-se da sua execu??o; injuriando os renitentes entre abundancias de ?valha-me Deus?; e só n?o levava o seu rigor ao ponto de fechar as janelas, porque n?o tinham portas, bastando á justi?a o gradeamento para que n?o fugissem os presos, e convindo-lhe que a chuva molhasse o lagedo, afim de que ao saírem os condemnados, expiada a pena, se tornasse mais salutar o seu exemplo por irem tolhidos para o trabalho.

Cumprida a ordem, ia entregar-se Benicio ao formal desempenho da sua miss?o de chaveiro, vigiar a porta chapeada de ferro; e sentava-se junto d'ella a untar de azeite as chaves do postigo, dos cadeados, do segredo, do al?ap?o por onde se despejava cal para aplacar as desordens, fechando por calculo os olhos ao negocio e os ouvidos ao falatorio, para que ?os pobres de Christo?, coitados, podessem fazer o seu vintem, tanta gente juntára o Senhor n'aquella pra?a; que elles afinal n?o eram maus rapazes no seu fadario, ?valha-os Deus?, s?o sortes, e até no fundo eram generosos, recompensando-lhe a caridade com que os deixava fazer pela vida.

Voltavam os presos pouco a pouco ás grades, metia-se á formiga o povoleu pelas arcarias, e recome?ava a cantilena do ?eu te requeiro da parte de Deus e da Virgem Maria?, efficaz para desembruxar almas penadas; o pittoresco do ?e vae o senhor D. Miguel ferra-lhe com o roj?o mesmo no sitio?; a ?Chamarrita, chamarrita, chamarrita, chama Rosa? das cantigas do baleeiro; e a giria commercial do Mujinha ?ó meu rico freguez, perco n'esta gaiola metade do que dei ao homem que me foi apanhar os cani?os?, o chamariz com que ganhava perdendo sempre.

N'aquella mesma pra?a, com essa mesma gente, recordava Jo?o, f?ra celebrado ha dois mezes, em 22 de junho, o triumpho da liberdade e da Carta, a revolu??o liberal do Porto de 18 de maio.

Agora, em vez da alegria d'essa manifesta??o, o receio de que tudo se desfizesse n'um momento. Estremeceu ao lembrar-se como ent?o, de subito, ficára o ch?o regado de sangue do povo, no tumulto provocado pela malvadez de um padre, e em que a cobardia da soldadesca, disparando para intimidar, matara quatro indefesos homens.

Mas tranquilisou-se observando melhor. N?o se via nem padres nem soldados: n?o havia perigo.

Fez a impaciencia de Juvencio extravasar a dos mais.

Se por si só o conselho n?o tinha for?a para demover o commandante, era tempo de intervirem.

Acharam-lhe raz?o, e do grupo separou-se logo, sem dizer palavra, Cypriano da Costa Pessoa, um negociante alquebrado pela doen?a e pela edade.

Subiu alguns degraus da escada de pedra, amparou-se ao corrim?o, e voltando-se para o povo descobriu a cabe?a embranque?ida e dispoz-se a falar:

?Concidad?os!?

Custou a fazer silencio e, apesar de restabelecida a ordem nos grupos mais proximos, ainda da arcada dos carceres, de onde se n?o via o orador, vinham echos desencontrados, provocando um sussurro de protesto.

?Concidad?os!?

E a voz cava de Cypriano repetiu a invoca??o, procurando o volume preciso para se fazer ouvir até ao extremo.

Que queria ali aquelle homem?

Cravavam-lhe olhos esbugalhados os camponezes, pasmados de que alguem se atrevesse a levantar a voz em publico, sem ser um clerigo, sem ter que contar milagres de santos.

N'um grande esfor?o, conseguira o orador fazer retumbar até ao canto da pra?a, onde costumavam juntar-se os mariólas, como um grito de alarme:

?Nas actuaes circumstancias mais vale morrer com as armas na m?o do que soffrer os insultos dos satélites do usurpador!?

A convic??o das suas palavras fez estremecer os proprios que estranhavam esse secular imitando padres, fazendo pulpito da escadaria municipal.

Continuava trovejando a voz de Cypriano, modelada pela entoa??o dos prégadores, pois n?o tivera a li??o civica da oratoria constitucional.

N'um fremito de terror echoava aos ouvintes a amea?a, correspondente á absoluta verdade:

?N?o tardará o massacre de quantos liberaes elles puderem colher ás m?os!?

Ante os olhos apavorados dos que se viam, d'um momento para o outro, sob a al?ada do carrasco, passava o rosario de crimes absolutistas, as persegui??es de Stokler ali na ilha, a pris?o e deporta??o dos deputados ás c?rtes constitucionaes, a captura em massa operada pessoalmente por D. Miguel, de aguilhada em punho, os nove estudantes enforcados no Caes do Tojo, as covas abertas em Portalegre á porta dos liberaes, a tortura de Renduffe, o envenenamento de D. Jo?o VI, o assassinio de Loulé.

Iam ficar sujeitos a taes horrores se ca?adores 5 abandonasse a ilha.

E nas faces consternadas reappareceram as lagrimas.

Mas nem Cypriano da Costa, nem os liberaes do seu grupo se mostravam desanimados.

Cheios de fé, queriam luctar e appellavam para o auxilio de todos.

Por essa pra?a, t?o divertida em tardes de toiros e cavalhadas, resoava a mesma voz grave, sentida:

?Para desviar este mal t?o imminente, poupar a nós e a nossas familias, amigos e parentes, convém que já, já, os amantes da patria e da boa ordem v?o offerecer-se ao governo, alistando-se voluntariamente para servirem debaixo das armas!?

Ficou abalada a concorrencia, e a ideia emittida do alto agitou por camadas a turba, enthusiasmou os liberaes mais proximos, perturbou os mestres de officios, entonteceu as cabecinhas de capuz escarlate, revoluteiou as dos amplos capellos, e por fim saccudiu em tardas negativas os barretinhos de borla, de malha amarela e vermelha, e as carapucinhas de panno preto, em forma de tijela, talhadas em quartos como barretes de clerigo, dos camponios.

Insistiu no convite:

?N'esse momento, e desde já, n?o cuidava mais de outros negocios, nem entendia haver occasi?o mais conveniente de prestar melhor servi?o á sua patria e a tantas familias,?-e aqui a voz vibrava vergastadas-?sob pena de serem considerados como pusilanimes e ingratos!?

Só lhe restavam for?as para offerecer o exemplo do seu sacrificio:

?Emfim, n?o ha tempo a perder! Todos os que quizerem seguir t?o brioso partido que me sigam a mim!?

Agitando o chapeu, abrangendo a pra?a n'um olhar de convite, subiu com firmeza as escadas, até ao alto da varanda de pedra.

Foi Juvencio o primeiro a seguil-o, agitando o chapeu alto e erguendo vivas á Carta e a D. Pedro.

Responderam acclama??es, agitou-se a pra?a inteira, e á medida que se aplacou o vozear, perceberam-se gritos, brados de afflic??o.

Das janelas por cima da botica, adivinhando-lhe a inten??o, gritavam as filhas de Juvencio, mas elle, na embriaguez do rasgo, continuava a subir.

Arrancando-se aos bra?os de mulheres que se estorcem, debatem-se homens enthusiasmados, olhos fitos nos voluntarios que, do alto da varanda, agradecem as palmas e sauda??es.

E correm por fim, vencendo a resistencia das que choram desgrenhadas, indo sacrificar-se para lhes pouparem mais amargas lagrimas.

S?o já quarenta, dos mais distinctos, os voluntarios, mal cabendo na varanda de pedra, e Jo?o encontra-se entre elles, sem ter raciocinado, sem se lembrar das velhas, do estudo, nem da ida para Coimbra, na impuls?o geral, na ancia de defender a liberdade, na ambi??o de apparecer aos olhos de Maria como um homem, aos de Jorge e do frade como um altivo adversario, aos do morgado como um convicto de que é egual a elle, e de que vae affirmar, com risco da propria vida, o direito a erguer os olhos para as pompas do seu braz?o.

No impeto em que se haviam manifestado, logo outro negociante, Jo?o Antonio Bacellar, entrou á frente dos companheiros na sala do conselho e, offerecendo o servi?o voluntario de todos, falou em termos taes que obrigou o governo a declarar mantidos os principios de legalidade contra a usurpa??o de D. Miguel.

Manifestaram-se no mesmo sentido o secretario da junta Manuel Joaquim Nogueira, o tenente Lob?o, o doutor Antonio da Silveira e Theotonio de Ornellas que, no enthusiasmo pela obra de 22 de junho, para que tanto concorrera, chegou a precipitar-se de espada em punho contra o juiz Calheiros, contrario ao movimento.

Accede por fim a correr a sorte da ilha o commandante do batalh?o, e na emo??o d'essa boa nova o ajudante de ordens vem agradecer e acceitar, em nome do governo, a offerta dos terceirenses, que ficam constituindo a companhia de voluntarios reaes, sob o commando do capit?o de milicianos Theotonio de Ornellas, devendo eleger entre si os outros officiaes.

Ent?o saem todos para, como em 22 de junho, irem ao castello. No desafogo do perigo afastado sauda o povo o governo e os voluntarios. O velho dr. Jo?o José da Cunha Ferraz, provisor do bispado, thesoureiro-mór da Sé, e presidente do cabido, o melhor advogado da ilha, palpita, apesar dos setenta e tantos, no delirio da juventude, e vae atirando o barrete ao ar e correspondendo aos vivas na voz tremula, emperrada pela gaguez.

Arrebanham-se as beatas, corridas, pela ladeira de S. Francisco, atravancando-a, alastram pela escadaria do adro, e somem-se pelas tres grandes portas da egreja do convento, ávidas de consolarem as almas t?o opprimidas, com os exercicios espirituaes dos santos frades, que n?o deixar?o, decerto, de dar-lhes o prazer de um retumbante serm?o de desabafo, de protesto ao ceu, e de algum desaggravo lithurgico á affronta feita áquella hora ao seu querido rei, essa encarna??o do archanjo S. Miguel.

E ali dentro, na protec??o do templo, poderiam ostentar as medalhas dos retratos, em que o rosto do rei apparecia córado, n'uma vermelhid?o de sangue, ostentando-o sem medo nos abundantes peitos de amas de clerigos.

Seguiam triumphantes o cortejo as que choravam pelos militares, mas tanta gente corria ás adufas e acudia ás portas, que o novo bando, escarlate e negro, escoava-se pela rua de S. Jo?o, para se adiantar pela rua da Rosa, Quatro Cantos e B?a Nova, indo esperal-o ás alturas do Relv?o, aonde já a curiosidade n?o macularia de suspeitas o seu enthusiasmo.

Assentadas no muro do campo de manobras da fortaleza, entre esse mar de relva requeimado do sol, onde a primavera semeia papoulas, borboletas e malmequeres; em face á vi?osa explanada que, com as baterias e banquetas, mascara os caminhos cobertos e os fossos; deitaram para traz os capellos, offegantes da correria, n'uma exposi??o de lindas caras que confirmava aos militares o credito de invenciveis nas mais frequentes das suas campanhas.

Transfundira-se na mais pura ra?a portuguesa do seculo XV o sangue flamengo que dera o typo esbelto, a frescura de tez, a transparencia do olhar ás delicadas louras; dotára-a o Brasil da exhuberancia dolente das creoulas, cabello de azeviche, dentes miudinhos, fundas olheiras; trouxera-lhe a domina??o hespanhola o galante requebro da andaluza e o preto dos seus olhos seductores; e o dos hebreus fugidos déra, á sadia carna??o das morenas, olhos apaixonados de judia onde esvoa?a a nuvem da saudade.

Amando-as olvidaram emigrados penas do exilio, e finda a guerra voltaram, a tornar definitiva a patria em que os adoptara a meiga ternura.

Ouvia-se já perto o vivorio; vinha passando o cortejo por baixo das gelosias do convento de S. Gon?alo, de onde as freiras constitucionaes acenavam com len?os, gritando no falsete do c?ro: ?Ou Constitui??o ou morte!?, transportadas pelo fremito de liberdade, acclamando os que haviam de arrancal-as a essas grades, profanadoras da sua virgindade, asphyxiantes da sua juventude, e restituil-as á vida, ao amor a que tinham sido sequestradas.

Mal as raparigas casadoiras avistaram len?os de c?res de mulheres do fado voejando entre o povo, escabrearam ladeira acima, para entrarem pelo port?o dos carros, seguidas a custo pelas m?es e tias que as pastoreavam, lingua de fóra.

Já dominavam a pra?a do castello, da rua que dá para as baterias, quando resoou na tropeada a ponte de pedra, por sobre o fosso.

Sentiu-se ranger a ponte levadi?a, nos seus engenhos de correntes e contrapesos de pedra, ao echoarem as passadas na madeira; retiniu n'uma brilhante extens?o de voz um alegre brado de ?ás armas?; e sob o abobadado das portas bateram as pancadas seccas das bandoleiras ao apresentar armas.

Nos quarteis vibravam toques de corneta, vozes de commando: Ca?adores cinco que reunia na sua parada, e avan?ou depois até á pra?a do castello.

Atraz das companhias vinha de dentro, com ranchadas de filhos, outro grupo de mulheres que as lindas raparigas e as gastas rameiras olhavam com respeito e compaix?o.

Ficaram-se entre a egreja e o palacio as companheiras do batalh?o, fieis como c?es, inconscientes no perigo como os soldados, firmes como se as sujeitasse a mesma disciplina; lavadeiras das esquadras, mulheres ou amantes de soldados, seguindo como vivandeiras a tropa; lisboetas baixinhas, pesco?o curto, sombras de bu?o, de uma viva petulancia no len?o engomado, em pontas, que usavam na cabe?a, com o capote, com grave offensa dos capellos ilheus; airosas varinas, leves, saia curta, pé descal?o, collete affirmando-lhe o busto e erguendo-lhe o seio, chapeu de velludo, cora??o de ouro e grandes argolas.

Tinham atada a minguada roupa, promptas a partirem, como as escunas inglezas que por baixo das muralhas se baloi?avam nas ancoras, sem um protesto, como ao virem por mar com os seus degredados; na mesma firmeza de outras bravas mulheres, que de trouxa á cabe?a acompanharam pela Galliza a divis?o emigrada, e de lá seguiram com ella para as miserias de Inglaterra.

Desembrulhavam os trapos ao tempo em que os navios, desimpedidos, se abarrotavam de caixas de laranja, e agora desabafavam contra ?o Miguel?, em gestos de regateiras, em palavradas de tarimba.

Formára Theotonio d'Ornellas a companhia de voluntarios á esquerda dos ca?adores, e Jo?o, que ficara entre Juvencio e o seu professor de latinidade, aprumava-se como um verdadeiro soldado.

Da escadaria do palacio do governador do castello, que servira de pris?o a Affonso VI, discursou o secretario do governo affirmando a delibera??o de se manter a causa.

Respondeu-lhe o major Quintino Dias declarando-se, elle e todo o batalh?o, dispostos a ?derramarem a ultima gota de sangue?.

Avan?ou a bandeira até á frente dos Reaes Voluntarios, e estes, estendendo a m?o direita, juraram ?guardar e fazer guardar a constitui??o politica da monarchia portugueza?.

Tocou a banda o hymno constitucional composto pelo imperador em 21, ergueram-se os vivas da praxe á Santa Religi?o, á Carta, e a D. Pedro, e n'essa fraternisa??o de povo e tropa, gente da terra e de fóra, viu Jo?o estabelecer-se a unidade do sentimento nacional na aspira??o de liberdade, e sentiu-se para sempre ligado ao destino da causa, até ao triumpho da nova ideia, ou até á morte pelo ideal.

Dissipara-se-lhe, como a todos, o terror de pela manh?.

Tinham trepidado alguns, mas eram bem melhores do que os fugidos no Belfast.

Havia uma consciente decis?o n'aquelles dos militares que sempre tinham querido ficar, communicando-se agora aos que a fraqueza dominára por um momento.

Só a aspira??o liberal reunia todas as classes da na??o.

Estavam ali, ao abrigo das muralhas, ligando-se nos mesmos protestos, a nobreza, o clero, a burguezia, o operariado; profissionaes da guerra como os officiaes, os sargentos e os velhos soldados readmittidos; populares trazidos á for?a para a fileira pelo ?Joaquim agarrador?; antigos voluntarios alistados em 23, ao perigar a causa liberal; os que se offereciam agora; e todos, fardados e á paisana, e os proprios que ainda n?o se tinham deixado arrastar, formavam uma phalange, invencivel porque era realmente a na??o armada, e offereciam-se ao sacrificio no momento em que bordejava contra elles uma forte esquadra, com o bojo cheio de juizes, de carrascos e de forcas!

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