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Chapter 7 No.7

Na melancholia do entardecer, em que as trindades p?em o echo de um solu?o, impregnado da tristeza do esmorecer do sol, fitava Jo?o o mirante da quinta, quasi totalmente esbatido na folhagem dos pomares.

Representava-se-lhe a scena da emboscada, revia-se na galharda atitude em que provocára os adversarios, baioneta em punho; fixára na retina o rosto transformado de Maria, a ardencia refulgindo-lhe no olhar; e vibrava-lhe ainda nos ouvidos a commo??o dos gritos afflictivos.

Amava-o! Denunciara-a a surpreza.

Se estivesse contra elle, riria ao vêl-o corrido pelos c?es, ou ter-se-ia retirado indignada pela sua audacia.

Mas n?o! Manifestára-se claramente a seu fav?r, e só á for?a deixára o torre?o.

Amava-o pois! Era o essencial.

Sempre contára como hostil o pae. Haviam de vencer com persistencia, confiando um no outro, certos da mutua fidelidade. E, t?o novos, pertencia-lhes o futuro.

Como haviam de entender-se? Precisavam apoiar-se, trocar esperan?as, animar-se na penosa separa??o.

Iria pela quinta a cavallo, para vêr para dentro, onde o muro era mais baixo, e poder resistir melhor ás ciladas. Levaria pistolas nos coldres, e ai de quem se lhe atrevesse!

Turbavam-o impetos de vingan?a, deslumbramentos de sangue, ferido pelo insulto.

Como concretizar a desforra?

Indicavam os preparativos que era esperado. Mas quem o denunciára?

Ao lusco-fusco assoprou a creada o borralho para o corno da isca, accendeu a candeia da cozinha, e foi levar-lhe, com as b?as noites, o candieiro de lat?o de tres bicos, e a branda luz do azeite alagou o polido do bufete, projectada pelo reflector.

Illuminado o quarto, deixou de vêr na penumbra o tenue esbo?o dos Folhadaes, mas quedou-se no mesmo sitio, esperando que o pontear de luzes lhe f?sse dando referencias para o reencontrar.

Gritou lhe de baixo a tia Dorotheia:

-Ahi vae uma visita.

Descontente por irem perturbal-o, n?o acertava com quem f?sse, nem conhecia os passos pesados, vagarosos e tropegos, subindo para a torre.

-Dá licen?a, camarada?-disseram da porta.

Era a voz do veterano, rouca da bronchite chronica adquirida nas noites ao relento.

-Vocemecê por aqui, mestre Jacintho?

E mandou-o sentar, no alvoro?o de noticias.

-Como tem passado? Como vae a menina Mariquinhas?

Acanhou-se, sob o olhar magano do velho.

-N?o se fa?a vermelho, senhor Jo?osinho.

E batendo palmadas nos joelhos:

-Ent?o logo a uma morgada, hein? Sim senhor, sim senhor!

Jo?o sentia o sangue rebentar-lhe pela cara, mas a anciedade impelliu-o:

-Conte-me que se passou depois que a m?e a levou para dentro.

-Que se havia de passar? Mais era com ella!

-Reprehenderam-a?

-N?o é para gra?as, n?o tem mêdo.

-Ent?o o morgado...

-Commigo, commigo é que foi o bom e o bonito!

-Coitado! Comprometter-se por minha causa.

-N?o me coite, que n?o me fui abaixo das pernas.

-Na sua edade!...

Ergueu-se o veterano, desvanecido pelo rasgo:

-Foi-se p?r o morgado a crescer para mim, mas eu, como quem diz, fingi que n?o era commigo, que aquillo n?o tem sen?o lingua, mas tambem é como um lavadoiro!

-Perd?e-me ter sido a causa de tal desgosto.

-Espere, que elle n?o se foi sem resposta.

E possuindo-se da paix?o com que falára:

-Disse-lhe tudo que me veiu á b?cca, deitei-lhe á cara a negra ingratid?o com que nos pagou termos-lhe salvo a pelle, eu e seu av?; e o matreiro embuchou e ficou-se a assoprar, a roer...

Jo?o pediu-lhe, compungido:

-N?o tome mais o meu partido, n?o se inquiete por mim...

-A b?as horas. Hoje o intriguista do frade poz-me na rua.

-O quê? Pois está despedido?

-N?o se assuste, menino, n?o hei de morrer á mingua. Aveso algumas patacas para p?o de milho, e n'aquelle castello cabe muita gente. Já lá fui p?r os trapicalhos e marcar poleiro.

-Tem a nossa casa, mestre Jacintho.

-Bem sei, mas obrigado. Se mesmo o menino á escolheu aquella, queria que eu ficasse a rezar n'umas contas?

-Vocemecê precisa de socego.

-Depois, depois. Agora ninguem é de mais ali dentro, que cá por fóra os patifes s?o muitos.

-Desarrumar-se dos seus commodos por m?r das minhas creancices!

-N?o se afflija, que eu por mim n?o tenho pena nenhuma. Só me custa n?o ter dado uma afoga??o em fr. Angelico, que me tratou como a um negro.

Mostrava o punho cerrado:

-Mas n?o as perde. S?o favas contadas!

-Socegue, deixe-o lá. Essa agita??o faz-lhe mal.

-Hei de escalal-o, como a um chicharro, para lhe enforcar o Miguel nas tripas.

E como Jo?o sorrisse:

-Ah! Sim? Pois elle chegou muito estugado á quinta antes do menino, e n?o se me tira da cabe?a que foi armar a tratantada.

-Elle?

-Sim senhor. E depois vi arrebentar muito depressa pela porta fóra aquella cára de condemnado, com estes dois que a terra ha de comer. Tenho para mim que ia com ella fisgada.

-N?o seria simples coincidencia?

-é má rez, como todo o homem que veste saias. Sucia de mandri?es!

-E Maria?

-N?o ha mal que lhe chegue.

-Viu-a hoje?

-O patife do frade n?o me deixou, e eu n?o teimei porque a ouvi rir a bom rir.

-Pois ella estava alegre?

-Eu lhe conto. A senhora D. Perpetua foi muito prognostica dar-lhe o recado do pae, que ao almo?o esteve como uma bicha, ouvia-se-lhe ao longe a préga??o. Mas ella o caso que fez das prohibi??es foi escapulir-se logo para a quinta. Rapariga de uma cana!

Reparou que Jo?o entristecera.

-N?o se me ponha a malucar, que se ella estava de risota com a senhora D. Josepha da Esperan?a era decerto para n?o dar o bra?o a torcer.

Depois de luctar comsigo mesmo, aventurou-se a perguntar:

-Manda-me dizer alguma coisa?

Riu-se muito Jacintho, meneou a cabe?a, e respondeu:

-Estou velho, mas n?o ando de capote e capello.

Arrependeu-se Jo?o:

-Desculpe, n?o foi por menos considera??o.

-Desculpar o quê? Tivesse falado com ella, que eu mesmo lhe perguntava se queria alguma coisa para o menino.

-Como lhe hei de agradecer tanta dedica??o!

-é vicio velho em mim, n?o me caíam os parentes em deshonra.

E vigiando que n?o f?sse ouvido:

-Já n'esse particular servi de muito ao seu av?sinho.

Bateu-lhe familiarmente nas costas:

-Ainda assim, elle n?o come?ou t?o cêdo, verdade seja dita.

Desvaneceu-se o rapaz pela admira??o implicita n'aquellas palavras, e animou-se a aproveitar a b?a vontade:

-Preciso falar-lhe, ou escrever-lhe, comprehende bem. Tenho muito que lhe dizer, e quero saber o que ella pensa de mim.

-O que ahi vae, o que ahi vae.

-Aconselhe-me, mestre Jacintho. Como ha de ser?

-Dê tempo ao tempo!

-Hei de desamparal-a quando todos a amea?am?

-N?o tenha mêdo, que aquillo é taboa que n?o joga. Teimosa! Que o diga eu, que muito lhe soffri em mais pequena.

-Que quer dizer na sua?

-Espere, espere, que ha de chegar-lhe tempo para tudo.

-Esperar? Isso n?o. Quero entender me francamente com ella, por palavra ou por escripto. E se me quizer como eu lhe quero, como hontem me pareceu...

-Casa immediatamente, n?o é verdade?

-é claro.

Recreiou-se o veterano com a resposta:

-E havia de casar n'essa edade, com dezaseis annos?

-Que tem que vêr a edade com o am?r?

-Ora vá-se crear, menino. Isso até lhe fazia mal á saude.

Córou Jo?o até ás orelhas.

-N?o me fique amuado, que isto é brincar.

-Bem. Ent?o falemos a serio.

-N?o se zangue. Que geniosinho!

Jo?o f?ra respirar á janella, a cabe?a em fogo, e puzera-se a olhar ao longe, na direc??o das raras luzes das casas de campo, em meio das quaes reconhecia a d'ella.

Chegou o velho á janela, abrangendo n'um gesto a cidade e o castello:

-Sabe que mais? Ponhamos as coisas a direito, que ella lhe ha de ir parar ás m?os.

-N?o póde ser. E d'aqui até lá ha de ficar abandonada ao pae e á m?e, sem contar commigo, sem me sentir a seu lado?

-Tem raz?o, nanja que eu lha tire. Mas deixe acabar a desconfian?a do morgado, que agora anda tudo de olho em cima d'ella...

-Será assim, mas n?o posso esperar.

-Largos dias tem cem annos.

Entendeu Jo?o p?r-lhe termo aos conselhos, e proceder por sua conta.

-Pois mestre Jacintho, muito obrigado pelo que por mim fez. E n?o o incommodarei mais por esta causa, que agora já n?o é como no seu tempo, que só pela altura dos trinta annos é que se julgava uma senhora em edade casar. Agora vae tudo muito mais depressa. Se até ha barcos que andam a fogo!

Queixou-se amargamente o veterano:

-Foi sempre assim. A mocidade n?o quer saber da velhice para cousa nenhuma.

-N?o diga isso. Sabe como o estimo. Só me refiro a estas coisas de am?r, de que mostra n?o perceber nada, pois quer que um namorado se cale, depois de acontecimentos como os de hontem.

N'uma saudade do passado, da juventude, do am?r, do prazer, remo?ou-lhe o rosto engelhado:

-Isso é que percebo! Lá por me vêr agora um velh?o, olhe que já passei pela sua edade, e até fui de mama! é o que lhe digo, n?o se me ponha a rir nas minhas barbas. No seu tempo, porém, ainda me entretinha a deitar o pi?o, n?o sabia o que fosse o bicho mulher. Mais tarde, sim; fui desempenado, bonitóte, e antes de me darem as bexigas, pellavam-se b?as mo?as por mim. Já vê que percebo, e tive bom mestre, olé se tive.

Aproximou-se muito o veterano, e num ar de confidencia, um sorriso bonacheir?o, disse-lhe baixinho:

-Li??es de seu av?, que foi das pontas! Elle atirava-se ás patr?as, e eu ás creadas. Uma vez...

Mas arrependeu-se.

-Nada. Nada. Suas tias podem desconfiar de que estou para aqui a perdel-o...

-Ellas n?o ouvem. Conte, conte.

-Uma vez que elle foi de castigo para a Graciosa ... N?o digo nada, sen?o que muitos primos fidalgos tem por ahi, sem imaginar.

-Quem? Quem?

-Ora. V?o lá saber.

Deliciava-se na evoca??o:

-Só se atirava ao fino, o maroto. Deus lhe fale n'alma!

Entristeceu-o a ideia da morte, mas desanuviou-se rapidamente:

-O menino vae pelo mesmo caminho. Atirou-se logo a uma rica herdeira...

-Oh! N?o julgue que foi por isso.

Continuou o velho, sem dar tento na interrup??o:

-Fidalga como as melhores, bonita sem sen?o, os olhos de todos n'aquelle palminho de cara, e o morgado crente de que nenhum a valia, a ponto de a querer levar a um primo do reino.

-Fosse ella uma pobre de Christo, queria-lhe da mesma maneira, acredite-me.

-Pois sim, pois sim; mas ella é o que eu disse, isso é que é a verdade. Se f?sse uma pobre sem eira, nem beira, nem ramo de figueira, n?o lhe a?ulavam os c?es. Tratavam logo de o encambulhar com ella ... Agora sendo o que é, n?o espere conseguir d'ali nada ao bem. Ha de ser á má cara, e é se f?r.

-Estou resolvido a tudo.

-N?o digo menos d'isso. Quem sae aos seus n?o degenera.

-Maria ha de ser minha mulher, ao bem ou ao mal!

-Que a coisa come?a torta, bem vejo eu. O menino já tem chorado lagrima gorda por causa d'ella. Mas n?o deve desanimar. A farda sempre deu sorte em coisas de mulheres. Lá por ella ser morgada, n?o é mais do que a imperatriz da Russia, que dava o cavaquinho pelo general Gomes Freire, com quem andámos no Russilh?o. Pois eu n?o conheci um corneta, um rapag?o como um turco, o menino bonito da rainha nossa senhora que se perdia a ouvir-lhe repetir os toques? E n?o vieram todos desvanecidos os soldados do dezaseis de infantaria de um destacamento em Queluz quando a Senhora D. Carlota Joaquina estava presa? Até um granadeiro, alto como uma torre, valha a verdade, trazia duas cartas de pess?a de dentro!

E reparando na surpreza de Jo?o:

-O menino ficou vermelho como uma malagueta. Mas olhe que é tudo verdade. Pergunte lá no castello, que lh'o h?o de trocar em miudos.

Concentrou-se Jo?o, e depois perguntou:

-Em resumo, mestre Jacintho. Está, ou n?o disposto a auxiliar-me?

-Com alma e vida.

-N?o podia esperar de si outra coisa. Muito obrigado. Agora diga-me lá, que lhe parece: devo procural-a ou escrever-lhe?

-Por emquanto n?o se podem levar as coisas ás do cabo. O menino ainda está com os dentes com que mamou, e já quer casar. Valha-o Deus!

-Lá volta aos gracejos.

-Mas n?o torno mais. Olhe, por agora basta que lhe escreva.

-Tambem me parece.

-Se a sua firmeza f?r tal como diz, o tempo que levarem separados ha de fazel-os quererem-se mais um ao outro.

-Juro-te que é.

-Ninguem lucra mais com o seu casamento do que eu. Voltar aos meus canteiros, ao meu buraquinho, fazer de enxota c?es quando lá f?r fr. Angelico ou os collegas, a vêr se pilham alguma coisa.

-Como lhe hei de mandar a carta, sem a comprometter?

Meditou um pouco o soldado, e respondeu:

-O melhor, e o mais seguro de tudo, é falar á senhora D. Josepha. é muito capaz d'isso, porque gosta muito do menino. Até parecia uma gata assanhada quando foi da patifaria do quinteiro, que por signal lá anda com a cabe?a amarrada, para n?o cair n'outra.

-E como ha de ser para lhe falar?

-Descance. Eu sei de uns atalhos, por entre as terras, que v?o lá sair mesmo ao pé do canavial ao fim do pomar.

-Tem a certeza de que n?o nos podem vêr?

-Conto que n?o.

-Pois ent?o vamos lá amanh? mesmo, visto que n?o ha nada a receiar.

-Amanh?? Deus te livre! Andam á espreita d'ella para ganharem o d?ce. Davam-nos logo com o rasto, e o morgado mandava alevantar o muro. Nada! Nada! Deixe ao meu cuidado saber o que se passa lá dentro, e em elles andando desprevenidos, damos-lhe a saltada.

Jo?o, por fim, rendeu-se á evidencia:

-Pois seja assim. Mas vê lá o que promettes.

-Descance, que n?o me esquecerei. N?o tenho menos vontade n'isso, creia, para o vêr feliz, e para ajustar as minhas contas. Onde se fazem, lá se pagam. Ali aonde me desfeitearam é que quero entrar de cabe?a levantada, a deitar foguetes, no dia do casamento.

-Oxalá!

-E com esta me vou, senhor Jo?osinho.

Já de pé, sacou do mólhinho de folhas de milho, das mais tenues camisas que na sóca protegem o gr?o tenro, leitoso; alisou-a com a navalha, acamou-lhe o picado de tabaco negro, da terra, accendeu ao candieiro o cigarro grosso e despediu-se:

-Com bem passe.

Ainda Jo?o tentou retel-o:

-Porque n?o quer ficar? A casa é grande, cabemos todos.

-Obrigado, menino. Ali é que é o meu poiso. Antes eu de lá nunca houvesse saído, para ver o que tenho visto.

E já na escada recommendou ainda, muito baixinho, o dedo na bocca:

-Deixe esquecer a coisa por estes dias, olhe que o morgado anda com a pedra no sapato.

* * *

Ao ficar só, sentou-se ao bufete e poz-se a escrever. N?o se recusaria D. Josepha a p?l-os em rela??es.

Acceitava esse alvitre do velho, mas lá deixar de vêl-a, isso é que n?o.

Perguntava-lhe a melhor maneira de o fazerem, e se mestre Jacintho n?o accedesse, iria sósinho.

Com espanto, sentiu perdida, ao escrever-lhe, a timidez em que só por meias palavras se lhe declarára. Enthusiasmava-se como se a tivesse diante de si, mas dirigia-se-lhe em termos que, face a face, nunca arriscaria.

Era o seu primeiro amor. Sentira bem como á amea?a de um ciume, ao receiar que a entregassem a outro homem, a amisade de irm?os se transformára na paix?o em que esquecera a sua inferioridade ante a riqueza e a nobreza da mulher para quem se atrevera a levantar os olhos. Mas n'estes tempos de liberdade podia aspirar a ella, erguer-se até á sua grandeza, porque d'ora ávante as posi??es, os cargos, a considera??o publica ganhar-se-iam com o trabalho, n?o se obteriam só por heran?a.

E n'uma grande ternura comparava o viver de ambos, t?o semelhante; elle sem pae nem m?e, ella como se os n?o tivesse, isolada no ermo casar?o onde pairava a sombra da tristeza.

* * *

Restituiu essa carta a Maria a tranquillidade que lhe roubára o conflicto, e quando esperava alegremente a prima, e se perdia com ella pela quinta, nas travessuras de outros tempos, chegava o pae a suspeitar que recebesse noticias d'elle.

N?o desconfiava, porém, de D. Josepha da Esperan?a, e toda a vigilancia era na porta e nos muros, receiando temeridades do veterano ou algum arrojo de Jo?o.

Tendo como militares garantida a impunidade, cria-os capazes de irem lá, com algum bando de camaradas, a desforrarem-se da cilada da sua gente.

Passaram-se dias, e parecia completamente esquecido o caso. Era, porém, caprichosa de mais a filha para n?o querer, ao menos por despeito, entender-se com Jo?o.

No seu tempo já teria liquidado tudo á valentona. Hoje usava-se de astucia, e n'esse terreno reconhecia-se inhabil.

Eram assumptos mais para fr. Angelico, manhoso como frade, batido em argucias de confessor habituado a lêr no intimo das almas.

Deixára de apparecer, e fazia lhe falta. Offendera-o a sua sobranceria. Puzera-se nas suas tamanquinhas, e mandar chamal-o era uma satisfa??o. Mas antes dar o bra?o a torcer, que deixar fazer o ninho atraz da orelha. Só o frade seria capaz de desenredar a meada, e de trazer Maria a bom caminho.

* * *

Resfolegou triumphante fr. Angelico ao receber o recado do morgado.

Dar-lhe ordens como a um feitor? Era lá coisa que lhe permittisse? Agora o passado, passado; mas faria render a reconcilia??o. N?o voltaria da quinta sem grosso donativo a pretexto do levantamento de guerrilhas; sem algumas das pe?as que D. Perpetua, na inten??o de salvar a alma, forrava, em demencias de usura, ás despezas da casa, e escondia no colch?o.

Servia-lhe de pretexto a atitude do fidalgo para acabar com a intimidade da dona da casa. Fatigava-o já a paix?o senil a que ella se apegára durante vinte annos, desde que succedera na capellania da casa ao seu mestre, de quem decerto herdára a affectuosidade da morgada, a sua predilec??o pelo lubrico contacto do aspero burel.

Parecendo-lhe nos primeiros tempos uma antecipa??o do paraiso, tornára-se depois o automatismo de um habito, e liquidára por fim nas repugnancias da obriga??o.

Ia todos os dias a creada saber da saude de sua reverendissima e falava-lhe da afflic??o da senhora, t?o sequiosa das suas bemfeitorias espirituaes.

Mostrava-se elle theatralmente, no seu palco, ao fundo do sanctuario onde se armazenavam as imagens sem capella propria, cujos olhos de vidro brilhavam nas meias tintas do escuro armazem.

Os grandes pés descal?os no lagedo, sem habito, a camisa desabotoada, empunhando disciplinas de grossa corda e nós nas pontas, simulava fr. Angelico o soffrimento de terriveis expia??es.

Respondia n'uma voz sumida:

-Diga a sua ama a grande penitencia que estou cumprindo, a p?o e agua. Que rese por este pobre peccador, para que lhe sejam perdoadas as fraquezas.

Regressou um dia a creada com a nova de que reappareceria o frade chamado do senhor; e D. Perpetua n?o desamparou o mirante e a varanda, passeando inquieta, aconchegando ao peito o embrulhinho com que faria esquecer ao penitente as vis?es do inferno.

Mal transpuzéra a porta da saleta, puxou-o para um canto, e meteu-lhe na m?o o saquinho de sêda carmezim, onde elle pelo tacto reconhecia as pe?as de oiro.

-Angelicosinho da minha alma, para que me deixaste, ingrato? Que mal te fez a tua Perpetua?

Elle simulava um terror sagrado:

-Deixa-me, filha, tenho esta alma mais negra que um ti??o. Já estou a arder nas penas do inferno, sinto o fogo aqui dentro.

E comprimia o estomago, onde as penosas digest?es de toucinho e presunto, servido em grandes postas no refeitorio, fermentavam em dolorosas azias, que afogava a b?a aguardente do fidalgo.

-é assim que me pagas os sacrificios que tenho feito por ti? S?o desculpas como das outras vezes. Nova confessada, descarado. Ha de ser a tal Joaquinina do ó, de quem me chegaram uns zum-zuns.

Elle erguia o olhar ao tecto, n'um ar compungido:

-Ai filha, que perdeste a minha rica alminha! E n?o ha remiss?o para o peccado da carne, de si mesmo mortal, aggravado ainda em cima com o disfarce de coisas de religi?o.

Forcejava por desprender-se:

-Nunca mais! Acabou-se!

Perpetua agarrou-o na angustia do desamparo. Ia-se com elle o ultimo vislumbre de mocidade, o sonho em que se emancipava da trivialidade do seu viver. Era a morte aquelle rompimento!

N'um desespero articulou surdamente:

-Assim é que se perde a minha alma!

-Tem paciencia, irm?. Procura a consola??o espiritual na penitencia. Verás como é bom, que gosos celestiaes d?o os cilicios e as disciplinas. Pede á Senhora da Rocha que te ajude a conformar. Tem dado vista aos cegos e movimento aos paralyticos, fará o milagre de te dar resigna??o.

E aproveitando o desanimo em que ella se amparava ao archibanco, enfiou pelo corredor em demanda de Martinho.

Lavando na aguardente o mau sab?r dos bei?os de D. Perpetua, desculpou-se fr. Angelico da Immaculada Concei??o de Maria com a doen?a, que o impedira de ir receber as ordens do seu bemfeitor.

E emquanto passavam da casa de jantar á adega, sumindo-se um atraz do outro pelo al?ap?o, ia o frade lamentando a incredulidade dos tempos, e a audacia do governo provisorio.

Assentado no tampo do barril, o dorso apoiado ás frescas aduelas das pipas cheias, emquanto lá fóra escaldava o sol, desabafava o morgado, sentindo-se sem testemunhas:

-Estou muito isolado, fr. Angelico, desconfio de todos. Hoje só conto com a sua amisade sincera e desinteressada.

Agarrou logo o frade a occasi?o, que vinha preparando:

-E desinteressada, senhor Martinho Vasques! Permitta-me v. ex.a que accentue essa palavra, ao ser for?ado a appellar mais uma vez para a sua inexgotavel caridade, para a sua nunca desmentida dedica??o ao throno e ao altar!

Simulava n?o reparar nos gestos de contrariedade do morgado:

-N'estes perversos tempos retraem-se os donativos, e o nosso convento quasi n?o tem para a sua pobre meza. Pe?o, pois, uma esmolinha para os frades de S?o Francisco, certo de que n?o recorro em v?o á boa e generosa alma de v. ex.a

Tartamudeou o morgado:

-ámanh?, ámanh?...

Continuava, porém, infatigavel o frade:

-Tudo se prepara para nos vermos livres d'essa liberdade de má morte. Apparecer?o guerrilhas no concelho da Praia, para restabelecerem os inauferiveis direitos do nosso legitimo rei, e auxiliarem o desembarque da esquadra que se espera a todo o momento. Ha muitos fieis alistados, mas faltam armas e polvora. Todos os defensores da ordem tem auxiliado a boa causa. Espera-se que v. ex.a n?o deixe de concorrer...

-ámanh?, ámanh?...

-é de tamanha urgencia...

-Bem sabe o costume. Só mexo em dinheiro antes do jantar. E cada vez me sinto peior para contractos, porque o desgosto de minha filha poz-me muito fraca esta pobre cabe?a.

-Isto n?o é negocio, senhor D. Martinho, ou antes, grande negocio é que elle é. Quem dá aos pobres empresta a Deus, recebendo-se no ceu o principal e os juros. Emquanto á esmola para meus irm?os em Christo. Que do auxilio aos partidarios do senhor D. Miguel tira logo v. ex.a o lucro, em n?o ter a sua casa amea?ada de confiscos...

Tocado na corda sensivel, sobresaltou-se o morgado:

-E elles ir?o de vez a terra?

-Quem o póde duvidar? Em todo o Portugal governa sua magestade. Falta só este palmo de terra, por vergonha de todos nós! Dá-se a m?o aos que vem pelo mar, e acaba-se com elles n'um instante.

-Deus o permitta, que n?o posso ir descan?ado para Lisboa deixando-os em cima. S?o capazes de me darem cabo de tudo.

-Haja com que comprar espingardas, polvora e bala, e nem ter?o tempo de dizer Jesus! Com quanto póde concorrer v. ex.a?

-Já lhe disse que ámanh?. Venha jantar, e antes de nos sentarmos á meza...

-Muito obrigado, senhor Martinho Vasques. Vou já annunciar o valioso auxilio de v. ex.a aos amigos da religi?o.

-Preciso-o cá, e até o tomaria para sempre como commensal, para alivio da sua pobre meza, se lh'o consentissem os seus labores.

-Que honra, senhor morgado.

-E sabe porque? Preciso da sua influencia junto de minha filha. Se podesse ganhar n'ella o ascendente que tem em minha mulher...

-Quizesse-o ella-respondeu o frade n'um suspiro-e eu seria o mais feliz dos homens!

Continuou n'um arroubo ascetico:

-Trazel-a ao bom caminho! Afastal-a d'esses herejes que lhe h?o-de perder a alma!

-Era isso mesmo que queria que lhe dissesse, porque eu n?o sou capaz de a levar ao bem, e n?o usarei da for?a sen?o na ultima extremidade. Fa?a o possivel por demovel-a, fr. Angelico.

E n'uma amea?a, para o lado do pomar, onde a sabia em colloquio com a prima:

-Mas ai d'ella se n?o obedecer!

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