-Alvi?aras, senhor morgado, alvi?aras! Deus amerceiou-se de nós, e deu por terminada a expia??o com que quiz provar os seus servos!
Olhou-o um tanto desconfiado Martinho, pela falta de fundamento de semelhantes boatos.
Mas o frade confirmou, enthusiasmado:
-Victoria! Victoria! E gra?as sejam dadas ao ceu!
-é ent?o verdade o que para ahi dizem?
-Est?o reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados por Jo?o Moniz C?rte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de outras freguesias, e v?o acclamar el-rei na villa da Praia, e facilitar ali o desembarque á esquadra do senhor D. Miguel, que saíu contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra!
-E a tropa que marchou hontem contra elles?
-Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados liberaes. Que vergonha para esses fanfarr?es!
-E que vergonha para mim, fr. Angelico-exclamou o morgado, n'um impeto guerreiro.-Devia estar ao lado d'elles, como me imp?e o nome, a linhagem, o servi?o do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles.
-N?o posso, senhor Martinho Vasques; a minha miss?o é toda de paz!
-Sei de muitos frades que se teem batido pela b?a causa.
-Sempre houve meus irm?os em Christo que usassem a cruz e a espada. Eu porém sou mais destro no manejo das armas espirituaes...
-Pois irei eu só. N?o quero que notem a minha falta...
-Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias que tanto o tem impossibilitado. O melhor servi?o que póde prestar ao senhor D. Miguel é dar mais alguma quantia...
-Tem raz?o, estou já muito velho para essas dan?as-concordou o morgado, procurando eximir-se á nova contribui??o.
-Será tido na devida conta o seu soccorro, e Deus reconhecerá n'elle a sua b?a vontade.
-Se venceram, como diz, para que precisam elles mais dinheiro?
-Sempre s?o mil e quinhentas b?cas a comer...
-Tomem á for?a o que precisarem, como fizémos no Roussillon.
-N?o diria o mesmo V. Ex.a se esses valentes realistas andassem cá pelas visinhan?as.
-Tem raz?o, tem. Mas que isto se decida por uma vez. Acabe-se com a choldra, para que eu possa embarcar descansado.
-Ainda persiste em ir para Lisboa?
-E conto que vossa reverendissima prepare o espirito de minha filha, para que de todo esque?a esse disparatado namorico, e se disponha a desposar o primo D. Luiz de Sousa, que dará á minha casa a t?o desejada success?o.
-Perd?e V. Ex.a a minha extranheza. Depois do que se tem passado ainda pensa em t?o honrosa allian?a?
-E porque n?o?
-Póde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa peccaminosa aventura...
-Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por ventura alguma coisa?
-Sei o bastante, senhor morgado. Elle é um perverso, um hereje, um liberal; em conclus?o: um depravado capaz de tudo.
-Mas minha filha é uma fidalga, e as fidalgas est?o muito acima d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa.
-Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, é-me permitido manifestar as indica??es que faz o Creador ás creaturas servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei que uma voz occulta brada em meu peito: ?Quero-a para mim! Quero-a para mim!? Significa isto que está indicada a clausura como penitencia da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes que se arrojaram a cubi?ar os bens de V. Ex.a para as suas obras de Satanaz.
-Se f?sse uma filha segunda já lá estava. Mas é uma morgada, n?o a hei de meter freira.
-N?o digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como resposta á seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a voca??o, ver-se-ia. A verdade é que fazendo-a passar pelo claustro, ficava quite V. Ex.a para com seu genro. Creio que a senhora D. Maria só foi attingida na sua b?a fama. De mais graves estragos, porém, tem ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos.
Meditou um pouco o morgado, e respondeu:
-N?o posso deshabituar-me da ideia de que hei de vêr um neto var?o, já que Deus n?o me deixou vingar um filho, que succedesse no meu appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, n?o tenha receio. Minha filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficará bem. O primo, que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande nome, terá toda a conveniencia em n?o dar ouvidos ás intrigas.
-E a senhora D. Maria quererá casar com elle?
-Cumprirá o que lhe ordenar, como deve.
-Assim é em theoria, meu senhor, mas lembro que n'estes malditos tempos nem fica incolume a propria obediencia filial. Foram por certo os conselhos d'esse perverso que a fizeram má filha, como a h?o-de fazer má esposa.
-Entregue-a eu ao marido, e o mais é com elle. Bem sabe a fama de leviandade que minha mulher teve, e a seriedade com que tem procedido desde casada. Feche-a, como eu fa?o, tire-lhe as occasi?es, e será esposa exemplar como as outras.
-Como a senhora D. Perpetua-exclamou fr. Angelico, pondo a m?o no peito-apesar das más linguas a quem irrita o exemplo da virtude! Que até em demasia pratíca a minha senhora os seus deveres religiosos. Appelle V. Ex.a para a sua autoridade de marido, e fa?a-a limitar a frequencia ao tribunal da penitencia. Ella é insaciavel de mortifica??es, e receio que acabe por lhe fazer mal. Imponha-lhe parcimonia, porque o meu ministerio n?o é o mais proprio para a arrancar a excessos de devo??o.
-N?o se lhe preste vossa reverendissima ás rabujices de beata. Agora todo o seu tempo será para corrigir minha filha. Sou o primeiro a sentir a sua desobediencia e a reconhecer a culpa que n'ella tenho, pelo mimo de que a rodeei. Por isso recorro ás suas luzes. Repita-lhe as confiss?es, meta-lhe medo com o inferno e fale-me, á meza, dos sacrilegios d'esses patifes.
-Cumprirei a minha miss?o de pastor, chamando ao redil a desgarrada ovelha ... Mas o mais seguro de tudo é a ca?a aos lobos. é preciso offerecer a esta nossa terra o espectaculo do desaggravo da religi?o e de el-rei, encher as casamatas do castello e dar que fazer á forca!
-Sim, diz bem.
-Pois lembre-se V. Ex.a dos nossos amigos que já come?aram a batida.
Receioso da incerteza dos tempos, precavia-se d'essa fórma fr. Angelico, enchendo o seu pé de meia antes que o morgado abalasse para Lisboa.
Deu-lhe Martinho, voltando a cara, novo saquitel de dinheiro, fechando cuidadosamente o contador e, sem mais palavras, foram para a meza.
Tirou o morgado o vinho, examinaram-o, provaram-o e aguardaram o comer.
Para affligir Maria, repetiu o frade ao jantar as noticias da revolta miguelista, dirigindo-se a D. Perpetua, grande partidaria de Carlota Joaquina, hostil aos liberaes pelo seu odio aos conventos.
-Pois minha querida senhora D. Perpetua, vae V. Ex.a sentir desafogada a sua alma pela grande desafronta que na nossa terra vae haver. Teremos carne fresca, salutares espectaculos a este povo t?o offendido, e estou certo que o senhor morgado n?o deixará de mandar p?r o seu carro??o para dar ás festas o prestigio da sua presen?a, e á menina Mariquinhas, como é de lei, a li??o do castigo dos criminosos.
Muito nervosa, cravou Maria os olhos no prato, n?o respondeu ás solicita??es directas do frade, e sempre conseguiu reprimir os impetos de o descomp?r.
Impacientava-a a demora d'esse jantar interminavel.
Aterrada pelo perigo de vida em que se encontravam os constitucionaes, anciava vêr Josepha da Esperan?a que lhe devia contar a verdade.
Procurava convencer-se de que eram tudo exageros do frade, encommenda do pae para a fazer abandonar Jo?o.
Contava agora fr. Angelico os desacatos dos liberaes, o desabafo do povo de Lisboa em 1820, invadindo o palacio da inquisi??o, e despeda?ando a estatua da Fé, da frontaria; e as inven??es fradescas de Christos servindo de alvo, de imagens arrastadas pelos cabellos em prociss?es ma?onicas.
Assustavam esses horrores a inconsciente credulidade de Maria, e quando o frade lhe falou do milagre de Setubal, dois anjos a cavallo n'uma nuvem, com a legenda de vivas a D. Miguel, temeu viver em peccado mortal pela affei??o votada a um adepto de Satanaz.
Mas chocava-a a inverosimilhan?a de que esse pobre rapazinho, t?o meigo, t?o ingenuo, t?o respeitador, bebesse vinho por caveiras, e escarrasse nas cruzes, como o frade ia insinuando, cada vez mais excitado pelo verdelho.
Mal se levantou a m?e, ergueu-se logo, e foi para o mirante esperar a prima, deixando o frade no relato dos castigos celestes, provocados pelo peccado da liberdade, os tremores de terra, as perdas de colheitas, a febre amarela que flagellára a Hespanha por causa das suas c?rtes constitucionaes.
Confirmou-lhe Josepha a appari??o da guerrilha, e a derrota dos dois destacamentos, mas tranquillisou-a, que aquillo n?o tinha importancia nenhuma.
F?ra pedir-lhe Jo?o que a animasse.
N'essa mesma tarde estaria a revolta acabada, porque saíra toda a tropa do castello para ir afugentar os miguelistas.
-Por isso ouvi tantos toques de cornetas, que o vento estava de lá.
-Passaram-me pela porta. Olha que ia bonito! Nunca vi tanta soldadesca junta, carretas com pe?as, officiaes a cavallo, a musica a tocar o hymno constitucional, a garotada dan?ando á frente, e povo como bichos atraz. Ao passar, o Jo?o abaixou-me a cabe?a...
-Pois elle tambem foi?
E Maria abra?ou-se á prima a chorar.
-Elle, Josepha, uma crean?a, metido n'isso por minha causa. Sim, porque se n?o fosse dar lhe para gostar de mim, n?o tinha ido sentar pra?a, n?o se via agora envolvido n'essas guerras, em risco de lá ficar.
-Ent?o, filha, aquillo n?o vale nada. Se tu visses como elle ia contente, risonho! Parecia um passeio. Se prenderam as outras for?as é porque eram só de vinte homens, e foi cada qual por seu caminho.
-Mas h?o de dar tiros, e se algum acerta n'elle? é capaz d'isso, que eu sou muito desgra?ada, e nunca vae por diante aquillo a que quero bem. Elle é as flores da minha estima, os canarios das minhas gaiolas. Credo! Credo!
-Acredita que n?o tem perigo. O mestre Jacintho, que lá ia sentado n'uma carreta, porque percebe muito de pe?as, a rir-se como um tolinho, disse ao meu creado que ao primeiro tiro fugir?o como bando de estorninhos.
-A minha desgra?a, Josepha!-continuava Maria, inconsolavel-é como se já o visse morto! Ao que eu ouvi a fr. Angelico, elles teem tudo como feito, e já falam de enforcar os liberaes. No que se vae vêr aquelle pobrinho!
-Agora vejo que te esteve a meter mêdo, o sujo. N?o sei o que me contem, que n?o diga um dia ao tio porque vem elle aqui tanta vez, a exercicios espirituaes. Mas se o maldito continua a fazer-te chorar, olé se o desmascaro. Hypocrita! é tudo mentira, filha, acredita-me.
Maria encarou-a mais esperan?ada.
-Olha, se o visses, em vez de chorar, rias-te como eu me ri. Elle ia de mochila, capote, bornal, correias por cima de correias, espingarda ao hombro, t?o carregado de coisas que nem sei como se podia mecher. Pois apezar d'isso andava t?o depressa que desapparecia. Os ca?adores v?o desesperados por causa dos paisanos lhe terem prendido os camaradas. Olha que elles s?o soldados de fama! Onde chegam, vencem tudo.
-Estou mais descan?ada por ir o mestre Jacintho, que ha de tomar conta n'elle.
-Ora vê lá esse velhote, o que tem passado, as guerras em que entrou, e como ahi está s?o e escorreito. Teu pae mesmo por lá andou, o av? do Jo?o veiu morrer á sua cama, e quantos e quantos! Até me parece que elles inventam os perigos, para se darem ares, e que no fundo é tudo uma santa historia.
-Deus te oi?a, Josepha!
-O que te posso dizer é que elles iam t?o assustados que encaravam com todas as janelas. E que olhares, filha, parece que queimavam, tanto calor me subia á cara! Era t?o bonito vêl-os marchar, os officiaes muito empertigados, a retorcerem o bigode, que se me foram os olhos n'elles.
Desanuviou-a um pouco a vivacidade de Josepha:
-Ainda vens a namorar um militar.
-Cuidas que todas gostam de soldados, como tu?
Maria acabou por sorrir, e enxugou as ultimas lagrimas.
-Sabes quem é para ter dó?-continuou Josepha.-é o primo Jorge. Anda com os guerrilhas, o grande maluco. Foi-se-me mostrar, todo pimp?o, com uma aguilhada de carreiro para imitar o senhor D. Miguel. No que elle se engana é que aqui os liberaes est?o armados, e em Lisboa andavam com as m?os a abanar, por isso el-rei os perseguia a pampilho. O que vale é que, como anda a cavallo, e ha-de ser dos primeiros a fugir, antes que o apanhe alguma bala, p?e-se a salvo.
-Que malditas quest?es!-suspirou Maria, tornando a commover-se.-Succeda o que succeder, pelo menos uma de nós ha-de chorar, se n?o chorarmos ambas.
-Lá d'elle vir corrido n?o me importa nada. Até gosto, se queres que te diga, porque o Jo?o deu-me volta ao miolo. Se isto é ser constitucional e fica feio, n?o sei nem quero saber, mas lá em querer acabar com os conventos teem elles carradas de raz?o. Para que é aquillo bom? Para fazer d?ces? Pois em nossa casa fazem-se muito melhores, e n?o s?o lambidos por aquellas fufias, crédo, que até me repugnam os seus beijos repenicados.
Por fim, ao despedirem-se, combinou Josepha como havia de dar-lhe noticia certa do que se passasse. Mandaria pelo creado pedir-lhe qualquer coisa, e isso seria o signal de que Jo?o estava incólume.
Ficando só, entregue ao seu desgosto, poz-se Maria a contemplar as grandes serras do interior da ilha, a querer descortinar o que atraz d'ellas se estava passando.
* * *
Para além das escuras cumeadas marchava Jo?o entre as cento e cincoenta pra?as da columna, pensando amargamente na abominavel escravid?o mental em que jazia o povo, a ponto de reunir-se em armas hostilisando os libertadores.
Tinham que levar pela violencia os proprios a quem emancipavam, erguendo-os á concep??o de uma patria, á realisa??o de um pais independente, entregando-lhes a posse dos seus destinos.
Eram for?ados a armarem-se de espingardas contra esses cujo soffrimento interpretavam, emancipando o individuo, o trabalho, a terra; abrangendo na mesma redemp??o o camponês dobrado sobre a enxada, o plebeu asphyxiado pelo preconceito do nascimento, a mulher escravisada na clausura.
Reclamavam para si o logar a que lhes davam direito as faculdades intellectuaes, mas n?o esqueciam o cavador, o pescador, o artifice, formulando as reclama??es que elles eram incapazes de conceber, analphabetos, desmoralisados por castigos corporaes, intimidados pelo inferno, esperando apenas a felicidade depois de mortos a troco da completa submiss?o.
Por si e por esses que pretendiam elevar pelo ensino obrigatorio, pela suppress?o do direito dos senhores ao producto do trabalho, expropriaram as classes privilegiadas: funccionarios monopolisadores das rendas publicas; desembargadores vendilh?es da justi?a; militares insaciaveis de promo??o e de soldos; capit?es-móres que dispensavam de soldado a troco da honra das mulheres, da virgindade das raparigas; fidalgos possuidores da terra, do exclusivo dos altos cargos, do privilegio da venda do vinho, dos moinhos, dos lagares de azeite, da agua para regas, das pescas nos rios e no mar, das coutadas que por si sós eram a ruina da agricultura; padres, frades e freiras que, como proprietarios, usufruiam todos os privilegios da nobreza e exerciam a maior industria, quasi a unica industria, a explora??o da credulidade publica, pesando terrivelmente, pelas communidades ricas e pelas ordens mendicantes sobre todo o trabalho nacional.
E mais uma vez a inconsciencia dos opprimidos, guiada pelos semeadores do mal, desejava-lhes a morte, e reclamava-a cantando, em córos de vozes avinhadas:
Rebenta ma??o
Remoe liberal,
Livre é Portugal
Da constitui??o.
ó Virgem da B?a Morte,
Senhora dae-lhes consumo
Para que os pedreiros levem
A volta que leva o fumo.
A f?rca em bolandas
Andando apressada
Da atroz pedreirada
Acabe as demandas.
Estavam convencidos os desgra?ados populares, arrancados á familia para derramarem sangue pelos seus parasitas, de que se batiam pela religi?o, de que, combatendo os soldados de D. Pedro, esse rei estrangeiro, liberal e pedreiro livre, que declarára guerra a Portugal, e lhe arrancára o Brasil, calcando aos pés emblemas nacionaes, obedeciam aos designios de Deus, que mandara á terra o archanjo S. Miguel, incarnado no infante, para restabelecer no seu antigo explendor a fé catholica.
Tinham-o ante os olhos, resplandecente, prestigioso, n'esses retratos postos nos altares, como os de santos, ante os quaes se rezava e se diziam missas; n'essas gravuras que o mostravam pujante de juventude, na sympathia dos vinte annos, no vigor dos amplos gestos, na rijeza da musculatura, largo de hombros, amplo arcaboi?o, express?o de firmeza no rosto comprido e trigueiro, lampejos de energia no olhar vivo, a figura dominadora a cavallo, chapéo de dois bicos vistoso de plumagens, esmaltado de crachás, espada em punho mandando avan?ar.
E murmuravam na unc??o de ora??es, as cantigas em que elle apparecia como representante do ceu:
Senhora da Concei??o
Madrinha de D. Miguel.
D. Miguel vae p'r'ó altar
Com dois palmitos aos lados.
é Miguel anjo de paz
Que Deus tem por general.
Chegára á villa da Praia, onde celebrou a acclama??o de D. Miguel, lavrando o respectivo auto na camara, a grande guerrilha que já reunia cinco mil homens, mas retrocedeu ao Pico do Selleiro a esperar a columna liberal, e ahi rompeu o combate, avan?ando os soldados em atiradores até duzentos metros da eleva??o onde tomara posi??es.
Empallideceu Jo?o ao vêr esses homens em attitude aggressiva, apontando-lhe espingardas.
Jurára morrer pela liberdade, mas estremecia á ideia de ter de matar em nome d'ella.
Para que a nova ideia triumphasse era preciso reduzir a um mont?o de mortos e de feridos aquelles homens, seus patricios, seus irm?os ante a no??o da fraternidade.
Era a ignorancia o seu unico crime, e por isso iam ser dizimados pelas pe?as, pelas espingardas dos ca?adores, pela sua propria arma, que d'essa fórma ia estrear.
Mas se até para o bem d'elles era preciso!
E á voz de fogo, na passividade da disciplina que o tornava uma simples pe?a d'essa machina de morte, poz a espingarda á cara e, fechando os olhos, disparou.
Atordoou-o a descarga geral, a seca detona??o da fuzilaria, o sonoro estampido dos canh?es e, cambaleante do coice, os olhos a arderem da explos?o da carga, a face magoada pela pancada da coronha, alagado em suor frio, mais morto que vivo, sentiu-se agarrado pelo veterano que, mal pudéra, f?ra reunir-se a elle.
-Ent?o, menino, isto n?o vale nada! Anime-se, que até parece mal. Está amarelo como um defunto!
-Ah! és tu, meu amigo!
Recobrando-se, explicou:
-O tiro rebentou-me mesmo na cara, ia-me deitando ao ch?o.
E segurou a espingarda pela bandoleira:
-Escalda, nem sei por onde lhe hei-de pegar.
-N?o tiveram tempo para lhe ensinar o officio. Pois bem fiz eu em vir ser seu padrinho no baptismo de fogo, como seu av? foi para mim. Olhe, pegue-lhe por aqui, pelo delgado do fuste, agarre-a bem, n?o a encoste á cara, e n?o lhe succede mal nenhum.
Emquanto lhe explicava os manejos d'arma, continuava o combate; estremecia Jo?o ao vêr caír gente do seu lado, sem que parecesse attingida, e baixava instinctivamente a cabe?a ao tiroteio do inimigo.
-Deixe-os lá-continuou mestre Jacintho-estenderem-se no ch?o para fazerem fogo deitado. N?o me fa?a cortesias, menino, que n?o serve de nada, e olhe bem direito para a frente, se quer vêr o enxame de moscas azues e vermelhas que andam a zumbir por entre a gente.
Fez ajoelhar Jo?o, collocou-se ao lado, e poz-se tambem a fazer fogo.
-Lá vae uma para aquelle patife de desertor do Cinco, que por lá anda envergonhando a farda Pum! Prompto! Ah! Já fostes escutar a cavallaria? Ande com elles, Jo?osinho, aponte aos fardados, que s?o quem nos faz mal, e nos mandam cada ameixa! A paizanada, estar ali ou n?o estar, é tudo o mesmo. Mire os que andam a cavallo, que s?o os chefes, e ferre-me com elles em terra.
Aqueceu Jo?o, enthusiasmou-se, agora carregava a arma febrilmente e, t?o sereno como se n?o o visassem as duzentas espingardas da guerrilha, apontava segundo as indica??es do veterano, e disparava, de olhos bem abertos, observando se attingia o alvo.
-Agora sim! Está um homem, um bravo como seu av?! Pode servir de exemplo aos mais velhos! Vejam este camarada, rapazes, vocês que andaram na guerra, mas que s?o galuchos á minha vista!
E abra?ou-o entre os applausos da sua esquadra.
-Cá o deixo, já n?o precisa de mim. Filho de peixe sabe nadar! Temos homem para ir longe. E agora deixe-me chegar até ás pe?as, a vêr se me deixam apontar uma á minha vontade, que já é tempo de varrer aquella malta.
Partiu, fazendo-se muito baixinho, dobrado ao meio, descendo aos regos do terreno para offerecer menos alvo, occultando-se com pedregulhos, arvores, restos de paredes derrubadas, como soldado afeito á guerra.
E Jo?o continuou muito senhor de si, lembrando-se de que a illus?o da fraternidade perdera o governo constitucional, e depois a revolu??o do Porto.
Só pela violencia se dissolveriam as castas; só pelas armas se imporiam as medidas liberaes; nunca o progresso se realisaria sem sangue!
Após hora e meia de fogo, flanqueou uma for?a liberal a posi??o miguelista, e a guerrilha debandou ao vêr despeda?ar pela metralha o ca?ador, do Porto Judeu.
-Victoria! Victoria!
E o veterano voltou a abra?al-o, e pegou-lhe ao collo, como se fosse a crian?a que amimára, envaidecendo-se do seu recruta, recordando enternecido a bravura do seu antigo official.
Respirava Jo?o amplamente, na alegria dos vivas, no orgulho do triumpho, e queria apparecer por encanto na quinta, mostrar a Maria que ficára illeso, beijal-a, chorar e rir abra?ado a ella, affirmar-lhe que estava salva a causa, garantida a ventura de ambos.
-Pois havemos de lá ir, que o mereceu, galucho de uma cana! Que sustos n?o ter?o pregado á pobre menina!
E a essa evoca??o do receio dos que ficaram, lembrou-se da affli??o das pobres tias, que tinham ido logo ajoelhar diante do oratorio, a pedirem por elle ás imagens da sua devo??o: Santa Rita, dos impossiveis; S. José, que tinha ao lado uma palma benta em dia de Ramos, maior do que elle; o Christo de prata n'uma cruz de ébano; um cora??o com tampa de vidro, e dentro um menino entre fl?res; um outro menino Jesus barrigudo, córado, vestido de boneca, com a bola do mundo na m?o; e ainda outro n'um ber?o c?r de rosa, com uma almofadinha bordada: menino Jesus nusinho para os beijos devotos, em que as beatas bemdiziam a sua santa virilidade.
Na manh? seguinte recebeu Maria o recado de Josepha. Mandava pedir fl?res. E ao ir ao jardim dal-as ao creado, soube da b?cca d'elle que os liberaes tinham vencido facilmente; que Jo?o n?o soffrera nem uma arranhadura, e que as fl?res eram para as visinhas deitarem por cima dos soldados, que n'essa tarde entrariam triumphantes.
N'uma explos?o de jubilo colheu quanto havia e ao deitar para o cesto o pouco que lhe dava outubro: ?rosas do Jap?o? vermelhas e brancas, ?esporas de cavalleiro? azul escuras, cheirosas baunilhas, a vermelha ?fl?r do la?o?, a ?cor?a de rei? azul-claro, misturadas com ramos de alecrim, era como se das janellas tambem as atirasse para cima de Jo?o, inebriada pela sua victoria.
Foi o jantar a antithese da vespera; desabafando o frade em improperios contra os liberaes que vira passar ao som de repiques, com ramos de louro nas espingardas, sob uma chuva de petalas, e Maria finava-se de rir pela parte que tivera na festa.
Veiu á tarde Josepha da Esperan?a, e contou-lhe que o vira radiante. Dissera-lhe ?até logo?, e era capaz de apparecer.
Foram ambas, alvoro?adas, esperal-o do lado da canada, aonde vinham dar os atalhos.
* * *
Mal debandou a for?a no quartel, correu Jo?o a casa, a socegar as velhas.
Ao vel-o a creada, a tia Maria da Assump??o, persignou se de uma maneira especial:
Eu me benzo
Co'o sangue de Christo
Co'o o leite da Virgem
Co'o a fl?r da luz
Para sempre amen Jesus.
Foram mostrar-lhe a tia Dorotheia e a tia Pulcheria o oratorio a que ardiam velas em promessa. Proclamavam o milagre, e esperavam que elle se rendesse, caíndo de joelhos, agradecendo o dom do ceu. Mas só a ellas se mostrou grato, beijando-as, tornando-se de novo a creancinha em que n?o podiam adivinhar o rude soldado da vespera.
Debatiam-se agora as tres velhas n'um grave caso de consciencia.
Para que tinham for?ado ao milagre a senhora Santa Rita dos Impossiveis? F?ra um pedido sacrilego! Vinha Jo?o mais hereje do que f?ra, sem sequer agradecer aos santinhos que se amerceiaram d'elle. Salvando-o d'essa forma, talvez se tivessem perdido com elle!
* * *
O mal disfar?ado riso com que Maria offendera á meza o seu despeito, encolerizára o morgado e o frade.
A indifferen?a da vespera, a certeza com que ella n'esse dia se mostrava ao facto da victoria, aggravou a Martinho as suspeitas de que se correspondia com Jo?o.
E depois da indispensavel visita ao alambique, foram emboscar-se a vigial-a.
Avistaram-os ellas, e reconheceram-se alvo da sua vigilancia, mas por coisa alguma se resignava Maria a deixar de vêr o namorado. Far-lhe-ia signal para que n?o parasse, e defender-se-ia do pae mostrando-se extranha a essa mera coincidencia.
Avistaram por fim ao longe o veterano e Jo?o, cosendo-se com as paredes dos cerrados.
Ao reconhecel-os, quiz o morgado lan?ar-se n'um impeto, mas conteve-lhe o frade o mau genio.
Esperava o momento compromettedor, em que a filha n?o podesse negar a leviandade e, confundida, ao vêr-se descoberta, pedisse perd?o da afronta, e se entregasse a um sincero arrependimento.
Cedeu n?o sem custo, e quando tornou a olhar por entre as faias, notou com surpreza que já tinham desapparecido.
Percebendo os signaes para se afastarem, tinham os dois saltado á canada.
Rente com o muro, correra Jo?o a atirar-lhe para cima, enrolado a uma pedra, o bilhete que levava para a hypothese de n?o poder falar-lhe, e indo ter com mestre Jacintho saíram ao Caminho de Cima, por entre quintas.
Desconfiados, precipitaram-se fr. Angelico e o morgado, ao tempo que Maria devorava as quatro palavras de Jo?o.
-Dê-me essa carta, senhora!-bradou o frade, que chegára primeiro.
Sem responder, amarrotou o papel, e com elle fechado na m?o, voltou-lhe as costas n'um olhar de desprezo, e afastou-se de bra?o com a prima.
Deteve-a o pae, exigindo-lhe o bilhete, que Josepha já occultára no seio, e Maria respondeu que nada tinha.
-Vi-lh'a eu, senhor, a carta d'esse hereje, d'esse pedreiro livre, que para deshonra de V. Ex.a perdeu a alma da senhora D. Maria!
E fr. Angelico apoiou a denuncia agarrando-lhe a m?o em que a amarrotára.
Soltou-se ella violentamente, e o frade, cambaleando com a sacudidela de Maria e um indignado empurr?o de Josepha, caíu contra um renque de vasos, esfarrapando-se e partindo-os.
Ent?o o pae cresceu para ella:
-A menina estava esperando um homem, a quem eu repelli da minha porta. Além de me desobedecer, offendeu-me agora, resistindo a uma ordem minha. Repare bem, sou eu quem lh'o exijo! Dê-me a carta.
-N?o tenho carta nenhuma, senhor. Deixe-me passar.
-Isso é que n?o. Iria escondel-a.
E detendo-a:
-Dê-me esse papel ao bem, ou arrepende-se!
-Senhor, já lhe disse que n?o tenho. E se tivese n?o devia dal-o, nem o pae m'o devia pedir.
-Ah! N?o tem? é o que vamos vêr.
E segurando-a, o morgado apalpou-lhe o corpete, rebuscou-lhe a algibeira da saia, apertando-lhe brutalmente os pulsos emquanto ella se debatia, e como tudo fosse inutil, atirou-a rudemente contra o muro.
-A menina ha-de ficar sabendo que n?o se zomba d'um pae, e n?o se emporcalha um nome fidalgo namorando soldados.
N'um choro convulso Maria bradava, caída na banqueta:
-O pae bateu-me! Mas foi a ultima vez. Está enganado commigo. N?o quero ter a sorte da m?e!
E para Josepha da Esperan?a, que os dois levavam adiante de si, tratando-a de encobridora, de enredeadeira:
-N?o me desampares, Josepha! Conta o que vistes, e n?o te esque?as de que me bateram, e de que esse frade me magoou! é preciso que elle o saiba!
* * *
Tornara-se Jo?o tudo para ella!