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Chapter 10 No.10

Agora viam-se, falavam-se, estavam ali juntos um do outro, no v?o da janela, um degrau acima do sobrado, como n'um nicho, sentados nos poiaes de pedra, os joelhos tocando-se, as m?os dadas, t?o perto os labios, que só os impedia de passarem a tarde n'um longo beijo o olhar vigilante da tia Victorina, a m?e de Josepha da Esperan?a, enterrada na poltrona, roca á cinta, fiando massarocas para a Francisca da Bica, grande tecedeira, que as lan?ava no tear em guardanapos, len?oes e colchas, a trinta reis a vara.

Para impedir o escandalo de se falarem da janela abaixo, permittia-lhes, aos domingos, a dona da casa, esse curto desabafo em que pesava com a sua presidencia, impassivel, entre a commoda negra, de pés recurvos, e a porta de vidra?a da escura alcova onde dormiam as raparigas.

Nos outros dias, ao passar para o castello e para casa, via-a Jo?o ao postigo do grande ralo, de riscas em diagonal pintadas a verde, com remates de pinhas nos rectangulos divididos pelos columnellos, manchas rubras de cravos nos recantos, no alto gaiolas de cana onde saltitavam canarios.

Dominava-os a tristeza da casa, em que pairava a viuvez de D. Victoria, entristecendo a propria filha a quem faltava a distra??o das tardes na quinta, para onde, mal acabava de jantar, partia sentada na burrinha, que o mo?o tangia, escudeirando-a.

Maria, olheirenta, emmagrecida, definhada pela vida t?o differente que ali levava, fechada n'uma casa pequena, acostumada como estava a passar ao ar livre o dia inteiro, queixou-se, dominada por uma inconsolavel melancholia:

-Jo?o, desde que saí de casa só tenho chorado. Foi praga que me rogaram. Ha de ser a maldi??o do pae!

Em v?o pretendia elle reagir contra o desanimo que tambem o ganhára:

-N?o penses n'isso. Temos que passar por este tributo. A nossa felicidade fará esquecer estas horas amargas, e até teu pae se can?ará da sua teima, e ha de aben?oar-te e querer-te ditosa.

-Oh! O pae! N?o o conheces bem. Mas ainda elle me queira sempre mal, paciencia. O que mais me custa é a m?e.

-Está costumada, n?o soffre tanto como tu.

-Deu-lhe volta ao juizo a minha saída, ficou a emprehender n'aquillo, e como lhe fechassem as portas atirou-se da janella abaixo para me vir vêr.

-Coitada.

-Tem estado á morte, e eu receio que morra sem a tornar a vêr.

Sobresaltou-se Jo?o:

-Acautela-te! Póde ser um estratagema para te obrigarem a voltar a casa.

-N?o. Infelizmente é verdade.

-E como o soubeste?

-Está por ahi tudo cheio.

-Sim. Eu tambem o ouvi, mas tive-o por maroteira de fr. Angelico.

Encarou-o Maria aterrada:

-Foi a tua funesta hostilidade á religi?o que te inspirou esse falso testemunho, pois o frade nunca mais voltou á quinta desde que eu vim para aqui.

Elle ficou mais receioso ainda:

-Pois tu defendes esse homem, que tanto mal nos fez, que denunciou a minha visita, para que me espancassem, e se atreveu a p?r-te as m?os?

-N?o o defendo, n?o; mas temo por mim e por ti essa tua inclina??o contra tudo o que respeita á egreja. Ainda te póde dar de rosto.

-Agora, Maria, é que tenho raz?o para estar triste porque já me n?o pareces a mesma!

-N?o sei porquê-retorquiu offendida.

Atalhou Jo?o, para n?o a desgostar mais:

-Mas o que ha de tua m?e?

-Assim que soube que o Malaquias, o mulato, mo?o do sineiro da Sé, f?ra encanelar-lhe a perna, mandei-o chamar, e só depois de lhe acenar com uma pataca é que aquelle recancha se decidiu a vir coxeando até cá, pois tinha ordem de n?o dizer nada.

-Era ent?o verdade?

-Sim. Esteve mais de um mez sem se virar, abandonada de todos, e até foi despedida uma creada porque a tratava caridosamente.

-Pobre senhora!

-Essa veiu cá, e contou-me horrores. Vive no meu quarto, fechada como eu, arrastando-se pegada a um pausinho. E d?o-lhe convuls?es que fica de b?ca á banda, tomada de um lado. Para ali vive como um m?cho, a penar, a penar, que antes o Senhor se lembrasse d'ella, Deus me perd?e!

Elle tomou uma decis?o:

-Pois meu am?r, em vez de a lamentarmos, o que n?o lhe serve de nada, tratemos de a arrancar d'essa maldita casa. Requer-se uma ac??o de separa??o, prova-se com o testemunho da creada e do mulato o carcere privado, vae lá a justi?a, e...

-Exactamente como a mim. Mas de que me serviu, se sou t?o infeliz como d'antes ... talvez ainda mais? De que servem essas leis, de que vocês fazem tantos escarceus, se me tiraram de uma pris?o para me meterem n'outra, n?o nos deixando casar, como desejamos, sen?o quando eu tiver vinte e cinco annos; se permittem que uma pobre mulher esteja encerrada, pela vontade do marido, embora um juiz ouvisse que ella n?o queria viver em casa? N?o, a felicidade n?o depende da al?ada das leis, nem da vontade dos homens; a felicidade está na m?o de Deus, e os que, como nós, o teem offendido, n?o a podem esperar nem n'este mundo, nem no outro!

Encarou-a Jo?o, como a lêr-lhe no olhar, e depois respondeu commovido:

-Dizes bem, dizes, n?o depende das leis a felicidade, nem de nós proprios, mas dos que nos educaram, dos que nos formaram o espirito, e que governam sempre dentro em nós. O que os principios porque nos batemos h?o-de impedir d'aqui em diante, é a sementeira do mal, o obscurecimento dos cerebros, a aniquila??o das consciencias.

E sobresaltado por uma desconfian?a, que como um relampago o esclareceu:

-Por mais que negues, anda frade n'isto! N?o é assim?

Accentuou-lhe a suspeita a confus?o d'ella:

-Dize-me tudo. N?o pódes ter segredos para mim! Sou como teu marido, desde que por minha causa abandonaste teu pae. Falaste com algum religioso?

Negou ella, frouxamente:

-N?o, n?o falei.

-Perd?a, mas n?o te acredito. Veiu aqui alguma d'essas aves de mau agouro!

-Como me custa ouvir-te falar assim!

-Mas veiu ou n?o veiu algum santo ministro do Senhor?

-O padre mestre, confessor de minha tia, sim. Vem cá muitas vezes esse santo homem: que eu distingo bem fr. Angelico d'elle, mas nem me falou, nem eu ouvi o que diziam.

-Ent?o é intriga tecida por elle! Tem cá entrada. Mas que admira??o, se em cada rua ha um convento, se a cidade é d'elles mais que dos moradores!

E aproximando-se muito, tomando-lhe as m?os, n'uma voz grave, mas baixa como um murmurio, para que n?o o ouvisse D. Victoria:

-Ah, minha querida Maria, que te querem roubar-me! Por amor de Deus desvia-te d'elles, n?o lhes dês ouvidos, considera antecipadamente como envenenadas as suas palavras! Querem separar-te de mim, pretendem desforrar-se do meu triumpho. E se ainda me queres bem, como o provaste, recusa-te a ouvil-os, quer falem em nome de tua m?e, que desgra?aram, porque foram elles que a inutilisaram, pergunta-lh'o um dia, se puderes; quer te falem em nome de Deus, que trazem sempre nos labios, tendo o demonio no cora??o!

Maria respondeu com lagrimas na voz:

-Pois pódes duvidar de mim, ao passo que dei! Eu, uma morgada, esquecer-me do respeito que devo ao meu nome, por amor de ti! Eu, uma fidalga, exp?r-me a commentarios vergonhosos...

E n?o poude mais. Afogada n'um choro convulso, que disfar?ava tapando a bocca com o len?o, virando para as gelosias os olhos requeimados.

Ent?o confessou-lhe tudo.

A convite do padre mestre, resolvera ir D. Victoria a uma festa em S. Francisco. Quizera leval-a comsigo, e aos favores que lhe devia n?o se pudera recusar. Como ia de manto, ninguem a conheceria. N?o tencionava confessar-lh'o, para o n?o desgostar.

Houve missa cantada, distrahiu-se com a cantoria e com as ceremonias, que n?o via ha tantos annos, mas ao serm?o cuidou morrer de vergonha.

Bradára um frade contra os desacatos, falára de Christo crivado de tiros, calices profanados em orgias, altares escolhidos para sentinas; indicára horriveis castigos para os constitucionaes e para as mulheres que os seguissem, alvejando intencionalmente as desgra?adas que abandonavam os paes para seguirem soldados, arrastadas por baixos apetites, tratando-as a todas por furias e prostitutas, indignas de se aproximarem da mêsa da communh?o.

Chorára a dentro do bi?co, parecendo-lhe que, como bofetadas, a escaldavam esses insultos, e que todos se voltavam para ella, como se o seu peccado fosse visivel através do manto, e a fulminassem os crentes em piedosa indigna??o.

-Trahiram-te, meu pobre amor! Ah! que cobardes! Pois n?o comprehendes que tudo isso foi forjado para te intimidar! Tua prima decerto n?o chorou, tenho a certeza.

-Até se levantou para se ir embora em meio do serm?o, e já se zangou com o padre mestre pela linda festa para que nos convidára. Elle desculpou-se, coitado, que todos os serm?es eram assim, que se tornava necessario combater o erro, responder com a guerra aos inimigos da fé!

-Hypocrita! Mas Christo prégou uma religi?o de paz e de am?r, e elles querem o odio e a vingan?a! Christo foi o primeiro liberal, apontando a egualdade e a fraternidade. Christo prégou a pobreza e a humildade, e elles s?o ricos e poderosos. Acredita-me, os verdadeiros christ?os somos nós!

Pelo bem que lhe queria, dava-lhe Jo?o a ingenua interpreta??o do tempo, porque só gradualmente a poderia emancipar.

Ella sentia-se desafogada com as explica??es, porque tambem a chocára a grossaria, o baixo espirito interesseiro dos industriaes da fé.

-Mas se vocês s?o assim, e eu acredito que, pelo menos tu, és como dizes, para que horrorisam os crentes com esses aggravos?

-Que lucravamos com isso, tontinha! S?o elles que os inventam e praticam, e mostram depois as cruzes derrubadas, para incitarem contra nós esse pobre povo que queremos emancipar.

Por fim Maria resignou-se. Tinha de ser d'elle. Estava escripto que para o conseguir haveria de passar todos aquelles tragos. Pois que remedio. E Jo?o confiava mais n'aquelle fatalismo, na teimosia d'ella em levar a sua ávante, que em a ter convencido das artimanhas fradescas.

Parecia-lhe que mal tinham come?ado a falar, e já os interrompia a tosse pontual de D. Victoria.

-Josepha, fecha-me aquella janela, filha. Em caíndo a tarde, come?a a peitogueira ás voltas commigo.

Era da praxe n'esta altura interessar-se Jo?o pela saude d'ella, n?o o fazendo ao principio para n?o cercear o tempo da entrevista, e poder demorar-se depois, um pouco mais, junto de Maria.

Deixara-se sempre illudir a velha.

-Aquelle peito era uma panela a ferver, a referver, á tardinha principalmente. Bastante gastára em promessas a S. Braz e Santa Margarida, advogados contra o mal da garganta, e a S. Tude, protector contra a tosse, mas cada vez se sentia peior.

Trazia Jo?o engatilhado um repertorio de drogas e esvasiava as algibeiras de uma provis?o de papeis e embrulhinhos.

-Aquella era a receita de um xarope, inven??o da tia Pulcheria, que lhe tirára uma tosse convulsa, depois de já ter sido chamado o Craca para lhe tomar medida do caix?o; estas pastilhas fizera-as o senhor Juvencio de encommenda, com tudo quanto havia de melhor e mais approvado.

E emquanto se prolongava o colloquio, deliciando-se D. Victoria em queixar se de todos os seus males, Maria e Josepha, como na quinta, riam enla?adas ao fim do corredor, desafiando Jo?o.

Pingavam trindades, erguia-se a velha com esfor?o e benzia-se unctuosamente, murmurando as ave-marias e a gloria-patri; e Jo?o, emancipado em casa, transigia ali, imitando-lhe os gestos e mexendo os labios em furtadelas de olhos para o corredor, no que Maria julgava, enternecida, vêr uma satisfa??o aos seus escrupulos, embora a maldosa Josepha a desiludisse, elogiando as inexgotaveis manhas do namorado.

For?ava-o o lusco-fusco a despedir-se, e ent?o seguia pelo corredor, já escuro, emquanto Josepha avan?ava á sala a fazer-lhes costas, entretendo a m?e, e a sua verdadeira entrevista era quando elle a beijava apaixonadamente, ao propositado ruido de abrir a porta da rua.

Dissipavam-se os receios de Maria, defendendo-se inhabilmente dos beijos:

-Mas como tu estás atrevido. é da farda! Olha que te fica a matar! E porque é que nunca me beijaste quando estavamos juntos?

-N?o sabia se gostavas de mim.

-E agora sabes?

-Percebe-se.

-E porque n?o percebias ent?o?

-Nem tu mesmo o sabias.

-Isso sabia. Mas que fosse tanto, n?o; confesso!

Echoavam estrondos de catarrho. Descia elle, corrido, e ella voltava de olhos baixos, para ir ao ralo vêl-o sahir.

Ent?o D. Victoria chamava pela filha, que era o mesmo que chamar por ella:

-Venha para dentro, menina, n?o seja janeleira, que n?o foi essa a sua crea??o. é uma maia, sempre impeirada á janela. Muito perdeu a menina em seu pae, Deus lhe fale n'alma, que a havia de sopear.

Meteram-se para dentro, fechou-se a casa, e no escuro da alcova o terror reconquistou Maria.

Queria desfazer-lhe Josepha a impress?o das reprimendas da m?e:

-N?o fa?as caso, é genio. Sempre assim foi, mas n?o julgues que te quer mal. Olha que foi ella quem, a meu pedido, requereu o teu deposito e fez a queixa.

-Antes o n?o fizesse.

-Porque? N?o estás contente em minha casa? Ligas importancia a rabugices?

-N?o é a tua casa, filha, é a minha situa??o que me afflige. Se soubesse que havia de estar tanto tempo á espera de edade, n?o saía de casa, n?o desgostava a m?e, n?o offendia o pae.

-é o que dizes agora. Mas n?o podias aturar aquella vida.

-Nem posso supportar esta! Se tivesse casado, tapava a b?ca a essa má gente. Mas assim, fóra de casa, vendo Jo?o, recebendo-o, é ser esbandalhada por essas linguas perversas. E hei-de passar cinco annos assim? Oh! n?o posso, n?o posso!

-ó filha, mas se tu n?o casas com elle é porque n?o queres. V?o juntos á missa, e quando o padre estiver quasi quasi a deitar a ben??o digam, de m?os dadas, as palavras sacramentaes, que se recebem por marido e mulher, e o padre, que n?o pode parar a reza por nada d'este mundo, tem por for?a de deitar a ben??o, deita-a, está deitada, vocês casados, com toda a egreja por testemunha, e salta logo para casa d'elle. E se teu pae quizer melhor que se ponha ás b?as e fa?a boda de estad?o. E até o Jo?o pode combinar-se com o padre, que os ha muito constitucionaes, e é dito e feito.

-Uma mulher como eu n?o dá semelhante passo-protestou Maria-Por ter saído de casa n?o deixo de ser quem sou, e nunca praticarei um acto de que se possa fazer pouco.

-Ent?o queixa-te de ti.

-Hei de casar com elle, espere quanto tempo esperar, que n?o sou das que se esquecem, nem das que se can?am. Mas ou hade ser como deve ser, ou nunca; ainda que estale de saudade. Se eu sou assim!

-Mas n?o vejo que te resignes, te disponhas a esperar com paciencia. Afinal que queres tu?

-O que quero? Nem eu sei, Josepha, nem eu sei!

* * *

Assim passaram longos dias, até que a assustaram boatos de nova esquadra.

Falavam com orgulho os miguelistas do seu grande poder: vinte e um navios, com trezentas e quarenta pe?as e seis mil homens, entre soldados e marinheiros; uma al?ada para julgar summariamente os constitucionaes, e um carrasco para os despachar com promptid?o.

Bem sabiam os liberaes o que succederia se fosse tomada a ilha.

Figuravam-se-lhes os autos de fé do miguelismo: prociss?es de condemnados, descal?os, entre frades, levando horas da cadeia á forca, a entoar o miserere deante das capellas do percurso; depois enforcados no longo ceremonial que com cada um absorvia uma hora, aggravando a tortura moral dos que esperavam, e divertindo mais damas e frades que davam vivas a D. Miguel e á religi?o, acenando com len?os, applaudindo as execu??es.

Estremeciam de horror ao recordar a viuva de um enforcado morrendo de affli??o; o pae de um rapaz, assassinado pela lei, suicidando-se de desespero; uma pobre m?e affrontada pela exposi??o da cabe?a do filho, espetada n'um poste deante da vidra?a!

Era uma persegui??o em massa que degradára mil e seiscentas pessoas, for?ára a esconderem-se cinco mil, arrastára á emigra??o treze mil e setecentas, mantinha vinte mil sob a vigilancia de suspeitos, tinha a dentro dos carceres mais de vinte e seis mil pessoas de ambos os sexos, e sequestrára os bens de oitenta e duas mil familias!

Longe de os acobardar, incitavam-os esses terriveis exemplos a combaterem com desespero.

O conego Ferraz, sabendo bem o que o esperava se triumphassem os miguelistas, trazia comsigo um frasquinho de veneno, para n?o caír vivo em poder do carrasco.

Jo?o procurava tranquilisar Maria, ácêrca dos resultados da lucta. Assim como se tornára a ilha, agora elevada á cathegoria de reino, o alvo do odio absolutista, tambem f?ra o ponto de concentra??o dos liberaes, e assim já tinham para se opp?r ás for?as inimigas alguns refor?os de emigrados, armas e muni??es vindas de Inglaterra, e um general como Villa-Fl?r para dirigir a defeza.

Todo o littoral estava defendido, nos poucos pontos onde a costa permittia a abordagem.

Uma manh? foi Jo?o precipitadamente despedir-se, porque ia para a villa da Praia com os Voluntarios da Rainha.

* * *

Enthusiasmado com a vinda da esquadra, contando como certa a victoria, t?o grandes os recursos accumulados, arrancou-se o morgado do isolamento da quinta, onde cada vez bebia mais, para esquecer a offensa de Maria, para n?o ouvir os gritos da mulher, e montando a cavallo dirigiu-se ao convento de S?o Francisco.

Ha muito que fr. Angelico n?o ia á quinta.

Quando lá f?ra a justi?a, ao sentir o chocalhar de ferragens da traquitana, voltára-se desesperada D. Perpetua para o frade:

-Se n?o me defendes, Angelico, eu confesso-me a meu marido e ent?o acabou-se tudo!

N?o permittiam illus?es o rosto congestionado, a b?ca espumante, o olhar desvairado, de louca. F?ra logo despedir-se de Martinho Vasques o franciscano, pretextando o receio da denuncia do juiz e das queixas de Maria.

Era bom que n'esse mesmo dia o vissem no templo, votado ao culto, para desmentir a accusa??o tanto de temer.

E sem consentir que o morgado mandasse p?r o carro??o, arrega?ou o habito, deitou o capuz pela cabe?a, e fugiu debaixo d'agua ás pernadas, até se abrigar n'um portal.

Que lhe quereria o morgado? perguntava a si proprio, ao ir recebel-o.

Dissipou-lhe porém todo o receio a attitude de Martinho, ainda na grande paix?o da desfeita recebida:

-Deixe-me desabafar, fr. Angelico, que ha tanto tempo n?o o fa?o. Já n?o ha religi?o, já n?o ha respeito filial, já n?o ha Deus!

M?os postas, olhos em alvo, voz de cana rachada, exclamou o frade, simulando um devoto horror:

-N?o blasfemes, creatura, contra o teu Creador! Curva-te á vontade do Altissimo, que a tua expia??o está terminada!

E mudando de tom:

-Alegrar, senhor morgado, que ha grandes novas!

-Por isso vim, fr. Angelico. é ent?o certo que voltaremos aos bons tempos?

-Só podiam duvidar gentes de pouca fé.

-Pois eu julguei-me abandonado do céo!

-Espere em Deus, que é pae da misericordia! Sempre ha de haver frades, sempre ha de haver religi?o! Vae em dezanove seculos! Havia de acabar assim, quando já resistiu ao proprio demonio, na pessoa de Luthero; ao anti-christo encarnado em Bonaparte? Estes pandilhas n?o valem nem um nem outro.

-E agora?

-Será for?ada á obediencia paterna sua infeliz filha...

-Já n?o tenho filha!

Era essa a phrase feita que desde ent?o tivera para todos, mas n?o correspondia sinceramente ao seu sentir.

Queria-a em casa, como desaggravo, como affirma??o do poder paternal, como homenagem á sua categoria.

-Responde v. ex.a como quem é, mas eu procedi como devia, de que lhe pe?o perd?o, caso n?o appoie os meus passos.

-Que quer dizer?

-Nunca abandonei a sua causa, comquanto os deveres do meu ministerio, que me imp?e a cega obediencia ao poder constituido, me impedissem de ir receber as suas ordens...

E aqui, já seguro de que n?o f?ra descoberto, perguntou:

-Como está a senhora D. Perpetua, depois d'aquella triste fatalidade? Pobre senhora!

-N?o sei nem quero saber. Nunca mais verei nem uma nem outra.

Tinha porém, curiosidade de conhecer o que fizera o frade:

-Ia dizendo...

-Que n?o me dei por vencido pelos inimigos de Deus. Pratiquei n'esta egreja uma das obras de caridade, ensinando os ignorantes, castigando os que erram, e a filha desobediente ouviu n'um terrivel serm?o...

-Já sei.

-Mas n?o foi só isso! Os miseraveis julgam que com garatujas n'um peda?o de papel governam tudo, e afinal somos nós quem governamos e havemos de governar sempre. O nosso reino n?o é d'este mundo, as nossas armas s?o espirituaes, e as cren?as religiosas ligam-nos para sempre os cordeirinhos embora desgarrados, promptos a voltarem ao aprisco mal os amea?a o lobo da heresia.

-Acabe!-pedia o morgado impaciente.

-Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas, o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o peccado que commetteu. Ella, que é uma mulher de vergonha...

-Uma descarada!-protestou Martinho Vasques-Fazer-me o que me fez! Mas n?o admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de frades...

Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico:

-Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz. N?o ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que n?o tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. Até sei pelas suas creadas que a senhora D. Perpetua, n'aquellas terriveis convuls?es em que parece possessa do inimigo, diz contra mim coisas de se abrir o ch?o, decerto inspiradas pelo proprio demonio, como vingan?a contra o var?o forte que por tanto tempo lh'a defendeu das garras.

E n'um suspiro, como n?o obtivesse resposta, voltou a D. Victoria:

-Ella tem feito todo o possivel para a desgostar, e n?o se opporá a que lh'a tirem d'ali.

Atrai?oou-se o morgado, pondo de parte a rigidez apparente:

-Dava metade do que possuo para a fazer voltar a casa, sem que, pelo triumpho dos nossos, a for?assemos, por forma a fazer rebentar a castanha na b?ca aos que se regosijavam com a minha vergonha.

-Pois dê v. ex.a com que eu possa mover o ceu a nosso favor, e tentarei o milagre.

Sabendo-lhe as manhas, ia Martinho Vasques prevenido de dinheiro, a vêr se, a troco de alguma esmola para o convento, lhe deixavam levar o indispensavel commensal.

-Pois aqui tem para principio. E quanto mais depressa, melhor.

-é agora propicia a occasi?o. Está o seductor seguro na Praia. Mas pretendem recolher-se ao castello, com as familias, se forem derrotados á beira-mar, e se lá a metem, ent?o, meu senhor, é que é fazer-lhe uma cruz. Ficaria perdida a senhora D. Maria, entre semelhante malta. Da mesma sorte se os nossos desembarcarem rapidamente, como ha de permtir o ceu, tomando-a por liberal, violental-a-h?o, e á prima, como é do seu dever, para exemplo das malditas mulheres que preferem as creaturas de Satanaz aos amigos da religi?o. Portanto, se podermos recolher desde já a filha prodiga, teremos mais socego para os ver esganar, pois virá por ahi quem saiba da póda.

-Que tenciona fazer?

-O que Deus me inspirar.

-Mas quando, quando?

-Elle o determinará em sua divina sabedoria.

E como o morgado, apesar de devoto, n?o ficasse muito satisfeito:

-Olhe, vá v. ex.a a pé por essa cidade, mande a besta esperal-o fóra dos port?es, e a todos que lhe perguntarem por sua esposa dê-a como perdida, que poucos dias lhe restam de vida, para que a senhora D. Maria o saiba. Ensinarei o recado ao padre mestre, para dizer a D. Victoria que é um caso de consciencia encobrir por mais tempo a uma filha a agonia da m?e. Depois eu darei conta de mim.

* * *

Uma tarde, tendo ensaiado fr. Angelico um ar compungido, certo da afflic??o de Maria pelas más noticias da m?e, foi a casa de D. Victoria.

Mal o viu, atirou-lhe Josepha com a porta, mas o frade insistiu, percebendo que a m?e a reprehendia, ao saber quem era.

Em voz de prédica, perguntou da escada se a senhora D. Maria estava em carcere privado, e se era contra a Carta Constitucional levar a uma filha noticias de sua m?e.

Foram abrir-lhe, e Maria, apezar dos exfor?os de Josepha para a fechar na alcova, pediu por amor de Deus novas de D. Joanna.

Elle, n'uma suavidade melada, ergueu os olhos, e declamou:

-Deus manda perdoar as injurias, esquecer as fraquezas do proximo, e consolar os afflictos! Fiz ideia como estaria a sua alma, e arrisquei-me a este passo, que pode ser t?o mal apreciado...

-Diga-me a verdade!-implorou Maria, atterrada pelo exordio.

-Pe?o-lhe que n?o se assuste. A senhora D. Perpetua está gravemente doente, mas ainda ha esperan?as de a salvar.

Maria recriminou a prima:

-Ou haverá ou n?o! Eu bem t'o dizia, Josepha, eu bem t'o dizia.

Mas ella continuava a disputal-a:

-N?o te deixes enredar!

-E com isto n?o enfado mais-disse o frade, cumprimentando muito correcto, um ar de beatitude a escorrer-lhe pela face alvar-Vim só trazer esta palavra de consola??o, como é dever do meu ministerio. Sua m?e n?o está na agonia, como para ahi espalharam, o que me for?ou a vir tranquilisal-a. Eu ainda confio n'um milagre!

Quiz demoral-o D. Victoria:

-Ent?o, nem sequer se senta! Fa?a-me um bocadinho de companhia...

-Muito obrigado, minha querida senhora, mas a minha presen?a n?o agrada...

-Pe?o-lhe perd?o pelo que toca a minha filha. Se ella tivesse um pae que a castigasse...

Aproveitou o frade o pretexto, e pegaram-se n'uma interminavel palestra, emquanto Josepha conseguia arrastar a prima para dentro.

Mas ahi Maria respondeu-lhe frenetica:

-Que mau sestro tomaram todos de me governar. Foi o pae, a m?e, depois o Jo?o, tua m?e, e agora tu! Pois eu tenho mais juizo que vocês todos, n?o preciso de tut?res.

-Estás sendo muito enganada!-repetiu Josepha.

-Deixa-me! Deixa-me!

E refugiou-se na torre, a meditar, sentada n'um bahu, a cabe?a apoiada nas m?os, os olhos vidrados muito abertos, as fontes latejando.

Depois ergueu-se, enxugou os olhos, e foi direita á sala.

-Que vaes fazer!-perguntou Josepha, interpondo-se:

-O que devo! Larga-me.

E arrependendo-se:

-Bem sei que me queres bem, mas perd?a. Oh! Ninguem se veja como eu me vejo!

No estoicismo da resolu??o, dirigiu-se a fr. Angelico da Immaculada:

-Muito obrigada a vossa reverendissima pelas suas noticias. O meu desejo era ver a m?e...

-N?o esperava menos do seu cora??o de filha!-exclamou radiante o frade-é esse effectivamente o seu dever.

-Ai, Maria, que caiste no la?o!-bradou Josepha,-Estás doida? Estás doida?

Mas ella, sem a attender, dizia ao frade:

-Se pudesse ser...

-Hei de fazer o possivel, alma santa!-respondia fr. Angelico, revirando os olhos.

-O pae n?o ha de querer ...-continuava Maria, emquanto D. Victoria continha a filha.

-Oh! N?o conhece a grandeza do seu cora??o! Foi muito offendido, realmente, mas é pae, é pae!

-Aconselhe-me ent?o o que devo fazer.

-Foi Deus que a inspirou. Fa?a o que disse. Venha vêr sua m?e. Eu acompanho-a, e respondo pela licen?a do senhor morgado.

-E quando? quando?

-Quanto mais depressa melhor, que a vida e a morte est?o nas m?os de Deus!

Josepha ainda irrompeu, avan?ando para o frade:

-O que falta aqui é um homem para o esbofatear!

Mas nada poude demover Maria, muito tremula, batendo os dentes, convulsa, á ideia de ir vêr a m?e.

Ao saír, com a tia e o frade, ainda Josepha a puchou para dentro:

-ó doida! E ao Jo?o, que lhe hei de dizer?

E como ella balbuciasse que ia só vêl-a, e que voltava, tapando a b?cca, abafando-se no bi?co do manto para n?o a ouvirem solu?ar, gritou-lhe do alto da escada:

-Mal empregado rapaz! Tu n?o o mereces!

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