Genre Ranking
Get the APP HOT

Chapter 5 No.5

Já reconciliadas do arrufo, debru?aram-se as primas no mirante da quinta dos Folhadaes, devorando com os olhos o caminho da cidade.

-E nunca mais cá veiu?-perguntava Josepha da Esperan?a.

-Nunca mais. Como se tornou esse rapaz! T?o orgulhoso como se fosse fidalgo, t?o brioso como nós!

-é o que elles dizem, que valem tanto como os nobres, que somos todos eguaes. Que te parece, prima?

-N?o percebo nem quero perceber d'isso. é bom para as caturreiras de fr. Angelico e do pae.

-Que elle é melhor que o primo Jorge, lá isso é que é.

-Achas?

-Está feito um homem. Diz coisas graves como nenhum dos nossos primos seria capaz.

-Deu-lhe para tomar a serio o que n?o devia passar de uma brincadeira.

-Mas tu n?o desgostavas d'elle.

-N?o desgostava, n?o.

-é muito sympathico.

-é um bonito rapaz, confesso.

-Aquelle lindo bu?osinho... E a covinha do queixo, e as das faces, quando se ri. é um am?r!

-Engra?as muito com elle.

-N?o fiques com ciumes.

-Eu? Toma-o para ti, que t'o agrade?o.

-Isso agradecias tu. N?o gosto de sobejos, mas lá por falta de mulher n?o deixa elle de casar.

-Como tu és! E o primo?

-N?o lhe chega aos calcanhares.

-Olha, o teu genio é que eu nunca hei de comprehender.

-Ent?o, filha, s?o feitios. Cada um é como Nosso Senhor o fez. Mas ao menos eu confesso a minha fraqueza, gosto muito, muito, de um bonito rapaz, e n?o quero meter-me a freira. E as que dizem que lhe atiram com pedras, est?o pregadas nos mirantes a vigial-os...

-Já lhe disse, prima, que n?o quero o Jo?o para namorado.

-Mas para que passa agora todas as tardes aqui, de alcateia...

-é que me irrita o procedimento d'elle. Dito e feito! Que nunca mais vinha, e nunca mais appareceu.

-E isso dá-lhe pena?

-N?o. Mas exaspera-me pelo seu atrevimento. Queria vêl-o mais uma vez, descompol-o muito, dar-lhe muita bofetada, muita bofetada, puchar-lhe pelas orelhas, e depois dizer-lhe: ?P?e-te fóra, fedelho, e vê lá para quem te atreves a levantar os olhos?.

-Pois caiste, prima, e n?o foi sem tempo. Já n?o pódes passar sem elle.

-N?o me diga isso, que até me mete raiva.

-Essas furias já passaram por mim.

-A prima é muito experiente.

-Pois sou, e por isso sinto que lhe estás nas m?os, ou nunca mais pensavas nas suas palavras.

Maria n?o lhe respondeu, e continuou a observar a estrada, na irrita??o em que ficára desde a saída de Jo?o.

N'uma crise nervosa passára os primeiros dias fechada no quarto, sem vêr ninguem, depois fatigara-se em pertinazes passeios ao longo das varandas de pedra, para cá e para lá, olhos fitos na direc??o que elle costumava trazer.

Abandonada pelo pae, sem intimidade com a m?e, que passava o tempo na cozinha fazendo doces, ou em exercicios espirituaes com fr. Angelico, vira-se for?ada a mandar chamar a prima Josepha, para ter com quem desabafar.

E apezar do que ella lhe dizia, n?o cuidava amar Jo?o. Nutria contra elle, ao contrario, um sentimento de hostilidade, de revolta. Sentia uma insurrei??o de todo o seu ser contra essa crean?a que de repente, sem lh'o ter deixado suspeitar, entendera disp?r absolutamente do seu futuro, querendo-a para sua mulher.

Continuava Maria amuada, ria á socapa Josepha da Esperan?a, quando passou o jardineiro, com um bra?ado de flores e a pod?a na m?o.

-Ora tenham muito b?as tardes, minhas meninas. Ent?o já sabem a grande novidade? Vem cá hoje o nosso homensinho.

-Quem, tio Jacintho?-perguntou Josepha, para acirrar Maria.

-Quem ha de ser? O senhor Jo?osinho.

-Ouves? Temol-o por ahi.

-Que me importa!-protestou Maria, muito córada.

-Vi-o hontem na cidade, já anda fardado de voluntario, e a farda fica-lhe a matar. Está uma fl?r! Até se parece com o av?, o capit?o Silveira, que eu vi assentar pra?a da mesma edade. E ha de ir longe como elle, ha de ir longe!

-N?o lhe disse nada?-perguntou a prima.

-N?o sejas inconveniente, Josepha, ou ficamos de mal.

E para impedir alguma inconfidencia do velho:

-Vá com Deus, tio Jacintho, e obrigada.

Mas a prima ainda o deteve:

-Diga-me cá, elle agora póde chegar a official?

-Até a brigadeiro, que é muito capaz d'isso, e as meninas ainda o h?o de vêr a cavallo a commandar batalh?es e regimentos. Eu já hei de estar debaixo da terra, mas vou consolado por deixal-o bem encaminhado, que lhe quero como se fosse meu filho.

Muito maldosa, Josepha virou-se para Maria:

-Casarás quando elle f?r brigadeiro, muito velhote como o tio Vicente.

-Quando deixarás de meter-te na minha vida, prima?

-Quando tu m'a contares como b?a amiga. Come?a lá, e confessa que te péllas pelo Jo?o.

-Se assim fosse n?o fazia mysterio, n?o tinha de quê. Mas n?o é verdade, n?o é verdade!

E sentou-se pensativa na banqueta, fronte apoiada á m?o, a olhar ao longe.

Retiraram-se porém subitamente, e foram ambas esconder-se no jardim, ao avistarem fr. Angelico. Enfadava-as a sua apologia da vida conventual, no interesse de obter para a ordem os dotes e os bens que, como ricas herdeiras, lhe trariam; repugnavam-lhes as pretendidas caricias paternaes em que o seu instinto de mulheres adivinhava desejos lubricos.

O frade, que reparara na subita desappari??o, passou rosnando amea?as por debaixo do mirante, e entrou, mesmo sem bater.

Bufando, limpando o suor, afrontado da caminhada, só deu com Martinho Vasques na adega, desabotoado, sentado em cima de um barril, observando o alambique, e provando a aguardente de vinho que mandára queimar.

Offereceu-lhe logo uma caneca cheia, que fr. Angelico esvasiou, limpando a bocca á manga do habito, e explodindo logo na senten?a que viera preparando pelo caminho.

-Malditos tempos, senhor morgado, malditos tempos!

Martinho escorropichou gulosamente, e concordou:

-N?o sei como tanta impiedade n?o provocou já um tremendo castigo! Deus porém compadeceu-se de nós, e as vinhas continuam, como nos dias de fé, a dar este saboroso nectar ... Outro, fr. Angelico, outro copinho...

Offereceu-lhe, na ancia de propaganda dos alcoolicos.

Saboreou o frade aos goles, defendendo-se:

-Senhor, preciso for?as para falar.

Acabando de beber, tornou a bradar em tom de serm?o:

-Tempo de desgra?a! Tempo perverso!

Mirou-o o morgado, surprehendido por essa gravidade, só usada quando havia gente de fóra.

-Você tem coisa, ó Angelico!

-E grave, meu senhor.

-Pois desembuche.

-Tenha V. Ex.a a bondade de subir ao escriptorio...

-Homem, subir ... essa agora!

E olhava apavorado a escada de m?o, encostada ao al?ap?o que da casa de jantar dava para a adega.

-N?o póde abrir o bico ahi mesmo?

-Trata-se de um assumpto t?o grave ... t?o grave...

Pelo ar mysterioso, ficou Martinho desconfiado:

-Se é mais dinheiro para guerrilhas acabou-se ... Quero dizer, os tempos v?o maus, os rendeiros pouco pagam ... E você bem sabe que a estas horas n?o estou em casa para taes coisas...

Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha muito o morgado que de tarde n?o fazia bons negocios, e antes de jantar fechava as gavetas do dinheiro e saía sem cinco réis, para que n?o lh'o extorquissem, com intimida??es do inferno, para missas; para que n?o lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas, invocando as complacencias de solteiras em fav?r dos maridos, dos filhos, dos netos.

-N?o se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba que a sua generosa bolsa está sempre aberta para a defeza da b?a causa.

E falando-lhe ao ouvido, insinuou:

-Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro!

Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada express?o de gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das situa??es extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos que n?o bebem por habito, e só excepcionalmente se transtornam.

-Siga-me!-ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar compungido.

Encaminhou-se para a escada de m?o, segurou-se-lhe, poz o pé no primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair.

Offegante do exfor?o, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e pairou-lhe nos labios uma contrac??o de vergonha, de nojo de si mesmo. Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo!

Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal.

Ent?o abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os punhos, arranjou as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixára contra as pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo, rastejante.

Pesadamente, no mesmo aprumo, entrou no escriptorio, foi sentar-se na solida cadeira negra, de alto espaldar, encimada pelo folhado de uma concha, e agora parecia-se com os retratos dos antepassados da sala nobre, a grave cabe?a apoiada nos hombros largos; a meza, as pennas de pato de que nem sabia usar, a gravidade do conjuncto dando lhe o ar de um ministro, de um desembargador.

-Explique-se!-ordenou-lhe, como um juiz a um reu.

De pé, nos gestos dos grandes dias, come?ou fr. Angelico:

-Senhor, esta casa acaba de ser duplamente enxovalhada. Sentou pra?a de voluntario, em refor?o ao infame batalh?o que é a vergonha e o grilh?o d'esta terra, esse rapaz que V. Ex.a protegeu, e que recebia em sua casa como a um filho...

-O Jo?o? Já tinha reparado na sua falta.

-H?o de dizer que s?o os nossos exemplos!

-Meteram-lhe isso em cabe?a, patifes! A culpa é de quem perverte a juventude, e a arrasta para os abysmos da impiedade.

-Talvez V. Ex.a n?o leve a sua generosidade a ponto de perdoar-lhe, quando o vir logo entrar fardado aqui.

-Aqui?

-Sim senhor, a titulo de pedir desculpa de n?o poder continuar com a escriptura??o, mas para nos afrontar com o maldito uniforme constitucional, porque bem sabe quaes s?o as opini?es de V. Ex.a e minhas.

-Bom é que venha, que lhe quero dizer algumas verdades, e dar-lhe pux?es de orelhas, que é o que merece.

-Perd?e-me V. Ex.a mas nem devia consentir que viesse...

-Isso é commigo.

E dirigindo ao frade um olhar severo:

-Mas que tem que vêr isso com a minha honra, a que você se atreveu a alludir?

Curvou-se mais o frade, e respondeu na voz lagrimejante dos serm?es quaresmaes:

-Já lá vamos, senhor morgado, já lá vamos, embora o que me pesa ... só Deus o saiba!

Aproximou-se da meza, e quasi ao ouvido de Martinho:

-Perd?e V. Ex.a, mas diz-se á b?cca pequena que o miseravel ousa levantar os olhos para a senhora D. Maria.

-Para minha filha?

Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cacha?o rubro, abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um turbilh?o de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de vingan?a, e os labios mexiam-se-lhe convulsos.

Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura:

-Isso póde n?o passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me avisar.

-Desculpe V. Ex.a-insistiu o frade-mas n?o se trata da infantilidade que julga. S?o os conselhos da botica, é a li??o da liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lan?ar m?o das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam!

Meditou o morgado, a cabe?a apoiada entre as m?os, e depois disse gravemente, em phrase arrastada:

-Basta, fr. Angelico. Isso póde ser um calculo d'elle, mas n?o alcan?a minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem é do nosso sangue n?o desce! Ven?a quem vencer, nós continuaremos a ser o que s?mos, e elles o que s?o. Vossa reverendissima n?o póde comprehender isto, porque é plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve sentir.

Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar.

-Póde retirar-se. O que tenho a fazer é commigo, juiz e executor em minha casa, na minha familia e na minha ra?a, como chefe de linhagem que sou!

E correspondendo ás subservientes reverencias de fr. Angelico:

-De caminho mande-me o quinteiro, fa?a fav?r.

Saíu pouco satisfeito o franciscano, procurou o quinteiro, mandou o á presen?a do fidalgo; depois chegou ao port?o da quinta, observou para fóra antes de o transp?r, e em seguida, muito cosido com o muro, partiu para os lados de S. Carlos, para voltar á cidade sem se encontrar com Jo?o.

Notaram-lhe as manobras Maria e Josepha da Esperan?a, que tinham voltado ao mirante mal elle entrara.

Satisfeitas, por se verem livres d'elle, continuaram a observar impacientes o caminho da cidade.

Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar.

Era Jo?o, vestido de guarda nacional, farda curta de sarago?a portugueza, com bot?es brancos, golla azul claro, la?o azul e branco no chapéu redondo.

Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pateo, em face ao alpendre da escada, ia vêl-o entrar e, talvez como antigamente, elle viesse falar-lhe, arrependido da imprudencia.

Pensando assim, seguia-o Maria n'um olhar de anciedade, encobrindo-se com as trepadeiras do cani?ado, para n?o lhe dar a confian?a de mostrar que o esperava.

Vinha já perto, quando notaram dentro movimento desusado.

Corria o quinteiro, e meia duzia de cavadores de enxada, batendo os pés descal?os na terra endurecida pelo cal?r, varapaus ao hombro, falando alto.

Desacorrentára o creado dois grandes c?es de fila, amarelos, rabo cortado, focinho negro, fauces amea?adoras, que de noite rondavam ganindo e uivando.

Ao chegarem ao pateo, occultaram-se na cocheira homens e c?es, e o quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quizesse fechal-o mal entrasse Jo?o.

-Que é isto, José?-perguntou Maria, suspeitando uma violencia.

-Ordens do senhor morgado-respondeu elle, rindo alvarmente-n?o quero saber!

Mas Josepha da Esperan?a, muito nervosa, nem lhe dera tempo á resposta, e ao vêr Jo?o em frente do mirante, avisou-o:

-N?o entre, que lhe querem bater!

Maria, correndo ao muro, bradou-lhe tambem:

-Foge, foge!

N'uma grande excita??o, gritava a prima:

-Aqui d'el-rei! Aqui d'el-rei!

Elle recuára ao ouvir os gritos e, vendo apparecer ao postigo a cabe?a lanzuda, comprehendeu que lhe faziam uma espera.

Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avan?ou muito pallido para a porta, que de dentro fecharam com estrondo.

Sentiu ent?o Maria que o amava, vendo-o encarnar o typo glorioso, cavalheiresco, da imagina??o das raparigas, geralmente fixado nos que teem por ferramenta a espada e a lan?a do cavalleiro andante de outras eras.

Dirigia-se-lhe com o cora??o nas m?os, como elle no pomar, n'um rubor de sangue, lavada em lagrimas, pondo as m?os:

-Jo?o, Jo?o, n?o te percas por minha causa!

Sem a attender, batia exasperado no port?o com o punho da baioneta, bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques.

Ouvindo ladrar amea?adores os c?es de guarda, virou-se Maria para o pateo.

Aos gritos de soccorro de D. Josepha, correra de dentro o jardineiro com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta á altura dos olhos, fortemente cingido ao corpo.

-Querem bater no Jo?osinho!-explicou-lhe ao vêl-o.

Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros que se fossem embora.

-Quem manda aqui é o fidalgo!-respingou o quinteiro, fazendo-se forte á frente do bando.

Mas os camponeses, receiando as furias do velho, mantinham-se indifferentes, apoiados aos bord?es, n'um riso estupido.

-Deixe-me abrir a porta!-insistia o José da Quinta, querendo deitar os c?es, segundo as ordens do amo.

-Primeiro te racho de meio a meio!-amea?ou mestre Jacintho, encostando-se ao postigo.

-Avem-te com estes!-casquinou o quinteiro, abrindo com um pontapé a porta da estrebaria.

Saíram ladrando excitados Marujo e Sult?o, mas conhecendo o jardineiro, n?o lhe pegaram.

-és peior que os c?es, que os animaes n?o teem entendimento e n?o fazem mal só porque os mandam!

E o velho rilhando o dente, na furia que o tornava terrivel, avan?ou, crendo-se em plena batalha, e fez recuar o capataz e o rancho, levando-os de rold?o até ao fundo do pateo.

Ahi, metido em brios, tentou defender-se o mandatario do morgado, mas caíu, lavado em sangue, com uma cacetada na cabe?a.

Appareceu no alpendre da escada D. Perpetua entre as creadas, attrahida pelo alarido.

Chamou a filha para casa.

-Vamos para dentro, Maria. Que vergonha!

E como ella n?o a attendesse, deu a volta e foi obrigal-a a saír do mirante.

-Isto é alguma tarde de toiros? Gostas de vêr no que d?o as bebedeiras de teu pae?

Arrastada pela m?e, envolvida no berreiro das creadas, Maria, com a cabe?a perdida, n?o viu que mestre Jacintho abrira a porta e, dando conta a Jo?o do que se passava, aconselhara-o a ir-se embora. Depois falariam.

Ao passar no pateo, para entrar em casa, afastou a cabe?a para n?o vêr a torva lividez do ferido, os olhos vidrados, a testa gotejando, os cabellos empastados em sangue, a mulher ajoelhada ao pé, clamando que o morgado lhe metera o homem em trabalhos.

Ao entrar em casa ainda poude Maria olhar para fóra, e ficou descan?ada vendo Jo?o já muito longe, a caminho da cidade, salvo de todo o risco.

Veiu do fim da quinta Martinho Vasques a vêr como tinham sido executadas as suas ordens. Ao conhecer o procedimento do veterano, partiu exasperado em busca d'elle, depois de ter mandado chamar o barbeiro para curar o ferido.

-Tu é que déste a pancada no quinteiro?-perguntou-lhe colerico, ao vêl-o deitado n'um molho de rapa, a resfolegar, muito can?ado.

Ergueu-se logo o velho, empertigou-se na rigidez do habito militar ante o superior, mas respondeu, orgulhoso da fa?anha:

-Pois quem havéra de ser? Quem ha ahi com alma para tirar fuma?as a pimp?es?

-Mas tu sabias que era ordem minha!

-E que me importava isso a mim?

-Ent?o, refinadissimo tratante, comes o meu p?o para me desobedeceres?

-Sabe que mais, patr?o, n?o venha tirar palha commigo.

Mas o morgado, que via n'elle o culpado da vergonhosa scena em que f?ra desrespeitado, e de que o rapaz saíra triumphante, irritava-se cada vez mais.

-Aquella pancada é como se fosse dada em mim mesmo.

O ex-soldado virou-se para elle, mediu-o de alto a baixo, e de esguelha, disse-lhe decidido, teimoso:

-Se o senhor se tivesse ido metter com o menino...

Arremetteu com elle Martinho Vasques. Porém a reputa??o do soldado, apesar da mesquinha attitude em que ia a retirar-se, sem fazer caso, dobrado ao meio, as m?os pacificamente atraz das costas, o pesco?o magro saíndo da colleira negra, descarapu?ado, bastou para conter n'um prudente respeito o morgado, alto, for?oso, sanguineo, armado do rijo varapau.

-Esquecestes quem sou eu?

-E o fidalgo n?o se esqueceu do que lhe deve ao av?, do que me deve a mim, para vir para aqui, vermelho como uma lagosta, impar de raiva mansa?

-Se n?o tivesse que descer a medir-me comtigo, fazia-te engulir tudo isso com os dentes que te restam.

Tremia apertando nervosamente o bord?o.

-Com bem passe, senhor Martinho-e o velho dizia-lhe adeus com a m?o, sem se voltar.-Fale-me ámanh? em jejum.

-ó bandalho, tu chamas-me bebedo?

-O patr?o é que se está chamando, nanja eu.

-Olha que eu mando-te fazer uma montaria como a lobo!

-Pois vamos a isso. Coza-a commigo, que tenho o coir?o duro, mas lá com o menino, cautela! Olhe que lhe sae do pêlo, senhor morgado.

-Pois atreves-te a amea?ar-me? A mim?

-Hoje em dia, meu amo, já n?o se póde mandar matar um homem sem se bailar n'uma forca, porque se acabaram os fidalgos e as suas patifarias.

-Até a isto se pegou a sarna jacobina!-exclamou com desdem, com desgosto.-N?o falavas assim se eu n?o te désse licen?a para te ires emborrachar com a choldra do castello.

-Aqui, senhor morgado, aqui é que ellas se apanham de caix?o á cova.

Perdendo a cabe?a, o morgado poz o pé atraz, empunhou o cacete, mas envergonhando-se, atirou com elle, e deixou-se cahir no banco de pedra como aniquilado.

Ficou para ali vendo anoitecer, n?o querendo passar pelo pateo onde a quinteira se arrepelava, bradando que lhe desgra?ára o marido.

Tinha ainda nos ouvidos os gritos de Maria, as injuriosas referencias da esposa.

Acabava de insultal-o um creado!

Sentia inteiramente desfeito o poder, a autoridade de que f?ra t?o cioso.

Todos se voltavam contra elle, todos pareciam ter raz?o contra a sua raz?o, a unica authentica, a unica verdadeira.

Perdera se a obediencia, quebrara-se o respeito, e em sua casa todos queriam mandar tanto como elle.

Estaria ent?o a sociedade t?o profundamente minada pelo mal, como dizia fr. Angelico, que a filha, uma fidalga, descesse até um misero plebeu, e todos se conspirassem contra elle, tomando partido pelo insignificante?

E atreviam-se a falar-lhe cara a cara, a elle, morgado, senhor de terras, nas novas leis que impediam a nobreza de desafrontar a sua honra a dentro do seu solar?

Invadia-o uma amarga d?r, um triste desanimo, como se a sua integridade physica fosse attingida, como se lhe tivesse quebrado a cabe?a a cacetada, como se lhe mordessem os proprios c?es.

E n'essa hora de abandono assaltava-o o remorso de muita injusti?a.

Mas pouco a pouco reconquistou-o a fé absoluta na verdade das suas ideias.

Reanimou-se, decidiu-se.

O mal crescera, chegára a invadir-lhe a casa! Pois bem, collocar-se-ia d'ahi em diante ao lado dos que mantinham a verdade do passado, a honra incorruptivel da fidalguia, a fé religiosa intransigente!

E levantou-se aprumado, disposto á lucta que a todos reclamava, e a que até ahi o subtraíra a indolencia do seu viver.

Previous
            
Next
            
Download Book

COPYRIGHT(©) 2022