Bloqueado por temporaes de inverno, dias de chuva torrencial, grandes frios, installára-se fr. Angelico da Immaculada Concei??o de Maria na quinta dos Folhadaes, mandando como senhor, dirigindo a casa, cujo governo D. Perpetua abandonára, para se refugiar no quarto de Maria, horrorisada por adivinhal-o catechizando creadas pelo escuro dos grandes corredores.
Enclausurada voluntariamente com a filha, prohibida de sahir do quarto, comiam ali ambas depois de prévia revista do morgado ou do frade ao que recebiam, n?o fossem cartas escondidas.
Só os dois homens pois iam á meza, e ali passavam quasi de uma á outra refei??o, n?o se decidindo a arrostar a frieza da adega, nem o chavascal do campo.
Aparada em alguidares e em celhas pingava agua do tecto, alastrado de bol?r; pelas frinchas das janellas empenadas soprava um vento cortante que os fazia tiritar sob os capotes.
Desforravam-se a bebericar aguardente, quando a criada foi annunciar o senhor juiz corregedor.
-Justi?a em minha casa!-exclamou o morgado, pondo-se de pé.
Chegou á janela e olhou para fóra. N?o cessára de chover.
-Com um tempo d'estes! Deve ser coisa grave.
Voltou-se para o frade:
-Descobriria a al?ada que eu dei dinheiro para os guerrilhas?
Tranquillisou-o logo fr. Angelico:
-Quanto a isso descance v. ex.a N?o invoquei o seu nome, por causa das secretas vingan?as que os pedreiros livres costumam tirar de quem os guerreia. Lembre-se dos lentes de Condeixa.
-Sim, sim, fez bem. Má gente. Mas se n?o é por isso, que querem de mim?
-O mesmo que pretendem dos outros. Intimidar os partidarios do throno e do altar. E como as suas opini?es s?o bem conhecidas...
-Mas eu nunca as manifestei, n?o saio de casa, n?o me saliento...
Voltou-se para a criada:
-Elle vem só?
-Saberá v. ex.a que sim senhor.
-Se eu fugisse, fr. Angelico?
-N?o me parece que haja raz?o para isso.
-é exactamente por n?o saber o motivo que receio.
-Agora! Agora!-accudiu o frade, já desanuviado.-Imaginam que está por ahi alguem escondido, e como andam á procura do Jo?o Moniz e do Joaquim d'Almeida...
-Pois lembra bem, deve ser isso-concordou o morgado.-Que hei de fazer n'esse caso?
-Recebel-o ás b?as, deixal-o dar busca á sua vontade, e ficaremos livres d'elle.
-Pois hei de franquear-lhe minha casa?
-Que remedio, se pode entrar á for?a. Est?o de cima. é aguentar e cara alegre, emquanto n?o chegam melhores dias.
-Vá ent?o recebel-o em meu nome, e desculpe-me. Diga que estou doente.
-Eu, senhor! N?o sabe v. ex.a o odio que nos votam esses adeptos de Satanaz! O pobre de mim até foi na lista que elles mandaram ao nosso provincial, intimando-o a prohibir os franciscanos de defenderem a causa do throno e do altar.
-N?o posso ver gente de justi?a, e demais a mais justi?a d'esta!
-Tenha paciencia, que nos havemos de vingar de tudo. Vá attendel-o v. ex.a, ponha-se ás b?as, trate-o o melhor que puder, para n?o dar logar a que exhorbite, e tenho para mim que o ha de confundir a sua respeitabilidade. Eu ficarei rogando a Deus...
-Isso é que n?o. Ou me acompanha, ou n?o o recebo, e fa?a o que melhor lhe parecer.
Olhou irritado para os campos innundados de agua:
-Tivesse cá a gente de trabalho, e outro gallo lhe cantára. Mas assim, n?o ha com que lhe dar uma li??o, que elle com certeza n?o vem só, nem com as m?os a abanar.
E como visse retrahir-se o frade:
-Ande d'ahi, já lhe disse.
Apavorado, pediu fr. Angelico, de m?os postas:
-Só se v. ex.a me promette ser conciliador. Disse o Divino Mestre, que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a direita.
-Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos n?o!-respondeu irritado Martinho.
-Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda.
-O melhor é falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro que n?o me incommodem.
-é Deus que o illumina, senhor morgado. Assim verá que fica tudo em bem.
-Mande-o entrar para a sala dos retratos-disse o morgado á criada-pe?a desculpa da demora, e que já lá vamos.
Estremeceu o frade de novo:
-Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o esbirro já estar como uma bicha. Que carantonha que n?o vae fazer!
Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os bofes, puchou os punhos de rendas, e lan?ou a fr. Angelico um olhar de desdem:
-Você já n?o conheceu o homem de c?rte. Pois fique sabendo que me vi muita vez nos regios pa?os de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas. Verá como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles est?o de cima, lhe farei sentir a differen?a que vae de um fidalgo a um traficante de senten?as. Basta o logar onde o recebo para o envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao correr do pello...
-N?o me perca v. ex.a, por amor de Deus! Deixe-me ficar no meu cantinho!
-N?o, que você é manhoso como os que o s?o e, se eu me desmanchar, meterá a sua colherada. Beba uma pinga para cobrar animo, e vamos dar-lhe uma li??o mestra já que cá veiu meter o nariz.
Tomou novo alento ao beber, o frade, mas ainda aconselhou:
-Lembre-se v. ex.a que os demonios teem o poder na m?o, e por algum tempo. Além da victoria do Pico do Selleiro, ainda foi por elles o temporal que destro?ou a esquadra de sua magestade, depois de tomar a Madeira, quando vinha fazer o mesmo a esta desgra?ada terra. Primeiro que se arme em Lisboa outra frota para vir até cá ... N?o se esque?a v. ex.a d'isto. Agora s?o elles quem manda.
Ao entrar na sala, empertigou-se mais o morgado em respeito ao scenario aonde ultimamente só raras vezes se mostrava, télas escurecidas pelo tempo destacando nas paredes caiadas, o cadeirado de coiro e pregaria amarela, o grande buffete carregado de finos buzios rosados, de amplas conchas de madreperola, os reposteiros vermelhos onde pompeava o seu braz?o, com longes de capoeira.
Saudou o juiz n'uma pirueta cortez:
-Desculpe v. s.a a involuntaria demora. A justi?a é como se entrasse em minha casa el-rei, que vossa senhoria já representou, e em nome de quem continuará um dia a exercer o mando, como é timbre de homens d'ordem.
Mordeu os labios o magistrado ao tratamento e ao remoque, mas, contando com peior acolhimento, saudou por sua vez o morgado:
-Está v. s.a em sua casa, e sou eu que tenho de escusar-me de o vir incommodar.
Córou Martinho Vasques á falta de excellencia, e o frade, que o percebeu, muito animado pelo tom ordeiro do juiz, interveiu:
-Permitta-me v. ex.a, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, que aponte a sua senhoria os achaques...
Mas o corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo golpe á prosapia de fidalgo:
-N?o julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes perturba??es fomentadas pelos mal intencionados que exploram as disen??es de irm?os. Calcula decerto o grave motivo que me traz por semelhante tempo...
Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo a li??o projectada, e for?ando um sorriso que o tornava mais feio, respondeu:
-Quem n?o deve, n?o teme, e se eu tivesse que receiar das justi?as, ou n?o estaria á mercê d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada, com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar.
Apontou para fóra o juiz, n'um gesto amavel:
-Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brig?o, o que, para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me for?ou a vir convenientemente acompanhado, n?o por causa de v. s.a, mas por via d'elle.
Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo uma pris?o. E a referencia á cilada fazia-lhe receiar que Jo?o ou o veterano o tivessem denunciado como conspirador.
Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mêdo, e o frade adiantou-se, muito curvado:
-Perd?e v. ex.a, senhor corregedor, n?o lhe ter offerecido já alguma coisa quente, uma chavena de café, uma magnifica aguardente da lavra do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira...
Sorriu muito lhano o magistrado:
-Lembrou bem vossa reverendissima, e acceito de b?a vontade, com o que provo os meus amigaveis intuitos.
Saíu por um momento, muito lépido, o frade a dar ordens; e o morgado, fazendo um exfor?o, recalcou as offensas, e submeteu-se ao receio da escolta:
-Vejo que v. ex.a n?o me conhece, por attribuir á minha atitude intuitos diversos da justificadissima surpreza...
-Oh! De modo algum.
-E como v. ex.a n?o é da ilha, permitta-me que me apresente, fazendo-o tomar rela??es com os meus antepassados, que n?o lhe podia ter dado melhor companhia, pois n?o a ha mais escolhida n'esta terra, nem lá fóra é frequente a que se lhe possa comparar.
-Já os estive admirando assim que entrei, e conhe?o-os por tradic??o, como conhe?o a v. ex.a mais do que imagina.
Envaideceu Martinho a homenagem do tratamento e, attribuindo-o ao effeito d'essa berrante linhagem, insistiu no proposito de desenrolar os pergaminhos.
-Perde-se a minha gera??o na noite dos tempos, entroncando-se por muitas vezes no ramo da dynastia, mas a mais proxima representante é esta minha trisavó, que morreu em Odivellas em cheiro de santidade.
Apontou um retrato de moldura oval, que t?o bem ia ao rostinho envolto na toalha:
-é soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula, senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pela Melrinha, ao que allude o segundo quartel do meu braz?o, tres melrinhos de oiro sobre purpura. Era já fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos, representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo azul, mas el-rei o senhor D. Jo?o V-e curvou-se como se estivesse na presen?a do monarcha-houve por bem, ao conceder-lhe o alvará de legitima??o do filho, dar a meu bisav? o titulo de mo?o fidalgo da casa real, com servi?o no pa?o.
Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarr?o em corpo inteiro, grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do bra?o:
-é meu visav?, D. Francisco, com quem, dizem, me pare?o muito. Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular predilec??o que sempre nutriu el-rei por minha visavó, as doa??es com que se creou o nosso morgado.
Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo:
-Este é meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III, que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosámos no pa?o, deve minha irm?, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da rainha senhora D. Carlota Joaquina.
Era a dama que enchia outra grande téla, em trajo de c?rte, vestida a azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama.
Por sua vez, indicou o juiz um retrato:
-Este, que como os meninos postos de castigo está voltado para a parede, brilha para mim atravez da tela. Conhe?o-o, é D. Bernardo, o amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra cumprir a ordem de expuls?o dos jesuitas. Porque n?o honra v. ex.a as nobres tradi??es d'este seu av?? Porque n?o reconhece que as nossas ideias teem raizes bem fundadas, e que já foram defendidas por bons fidalgos, como v. ex.a classifica os da sua gera??o?
Respondeu gravemente Martinho Vasques:
-Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda assim por levar em seu fav?r os servi?os que filhos e netos teem prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha familia s?o os religiosos; nasceu e creou-se meu visav? no convento; auxiliou meu pae a restaura??o religiosa da senhora rainha D. Maria, que santa gloria haja, e foi minha irm? uma das fundadoras do culto da Senhora da Rocha.
Voltára o frade, á frente da creada com a bandeja de d?ces, a chicara do Jap?o com o café, e a garrafinha dourada com aguardente, a tempo de auxiliar a defeza dos bons principios:
-O timbre e lustre da linhagem, excellentissimo senhor, é D. Francisco, que em servi?o d'el-rei e gloria do reino, andou no cruzeiro d'Angola defendendo para a na??o os rebanhos de escravos de que os malditos estrangeiros queriam lan?ar m?o. Perseguido um dia por um negreiro hollandez refugiou-se na costa, e com tanta felicidade que poude dar auxilio a um barco portuguez que carregava ébano para o Brasil. N?o queriam obedecer os malditos pretos, e elle, n'uma patriotica decis?o, desembarcou com uma manga de arcabuzeiros. N?o intimidaram aos ferozes selvagens os elmos, as coura?as, nem as grandes armas apoiadas nas forquilhas. E quando D. Francisco, ao cravar no sólo a nossa gloriosa bandeira, viu que n?o se deitavam por terra, curvando-se ante o lábaro sagrado que levára á Africa a religi?o de Christo, mandou-lhes dar uma surriada de arcabuzes, emquanto o navio os varejava de metralha. E de toda essa multid?o bravia que nutrira a louca ideia de, com settas de cana, emplumadas de pennas de gallinha, defender mulheres e filhos, n?o ficou um para amostra. Dos nossos apenas foi ferido esse bravo dos bravos, com uma azagaiada na nadega, que toda a vida o fez sentar de banda.
Muito ancho, accrescentou o morgado:
-é o feito que commemora aquella cabe?a de negro, em fundo de prata, do meu braz?o; e a esse alto tropheu de familia corresponde aquelle outro emblema, as m?os de ouro em vermelho, como fartando-se d'esse sangue derramado em prol da na??o.
Muito risonho commentou o juiz, que tomára o café e provára um calice da justamente celebrada aguardente:
-Pois conhe?o-o t?o bem, D. Martinho, que me admiro n?o vêr-lhe sobre as armas o distinctivo dos bastardos reaes.
-V. ex.a confunde-me!
-é um direito que só lhe contestam os primos do Alemtejo, dizendo que n'esse tempo entrava em Odivellas o sequito do rei, até ao ultimo lacaio, que todas as freiras reclamavam os mesmos prazeres que a madre Paula, que as santas monjas n?o recusavam a esmola das gra?as corporaes, e que vibrava o mosteiro em alegres risos de muitas crean?as.
-Sei que meus primos falam por inveja-retorquiu o morgado-mas n?o deixam de reconhecer a superioridade do meu ramo, tanto que requestam para seu filho a m?o de minha filha.
Aproveitou o juiz o ensejo:
-Desculpe v. ex.a o meu involuntario esquecimento. Como está sua excellentissima filha?
-Bem, muito obrigado a v. ex.a
-Já que me deu o prazer de conhecer os seus antepassados, desejava ter a honra de ser apresentado á senhora D. Maria, cujos dotes de espirito tanto me elogiam.
Trocaram novo olhar o morgado e o frade, e acudiu fr. Angelico ao amo:
-Sua excellencia disse ?bem?, porque felizmente n?o é coisa de gravidade, mas a pobre menina n?o se póde levantar da cama, constipada por esta frialdade...
Estranhou o juiz n'uma inflex?o grave:
-Parece que o contrariou o meu desejo.
-De modo algum.
-N?o m'o recuse pois. O seu ligeiro incommodo n?o a impedirá de certo de vir á sala.
Interveiu de novo o frade:
-Trata-se de um caso de certa gravidade, que só para n?o assustar o senhor morgado, fingimos considerar sem importancia.
-Acho conveniente-retorquiu o juiz-que se n?o meta onde n?o é chamado. Dirigia-me ao senhor Soeiro, e creio que elle, que tanto se orgulha da sua nobreza, n?o ignora que os fidalgos dizem timbrar em n?o mentir.
-E n?o mentem, senhor!-protestou o morgado.
-Mantenha ent?o a primeira resposta, de que sua filha se encontrava de perfeita saude.
Encolhera-se o frade, e Martinho Vasques dirigiu-se ao juiz, mudando de tom:
-Antes de mais nada: Que significa semelhante insistencia?
-Sabe-o t?o bem como eu.
-Sinto apenas uma certa estranheza...
-Tratando de sua filha, calcula decerto ao que venho. Vá, um bom movimento! Ponha de parte os seus escrupulos e torne felizes aquelles que uma honesta inclina??o destinaram um ao outro.
Passou no olhar do morgado um lampejo de rancor; mordeu furioso os labios, mas conteve-se ante o receio de ser dado por cumplice dos revoltosos, e de vêr confiscados os bens.
Ainda assim entendeu dar por finda a visita:
-Se v. ex.a n?o tem outro assumpto a tratar...
Redarguiu energicamente o magistrado:
-Vejo que comprehendeu o sentido das minhas palavras. Tenho pois todo o direito a uma resposta.
Fazendo esfor?os para se n?o exceder, respondeu o morgado:
-Minha filha casará com o primo D. Luiz de Sousa, a quem está prometida ha muito.
-é essa a sua ultima palavra?
-Naturalmente.
-Desejava conhecer a resposta da senhora D. Maria.
-Lá vem outra vez com minha filha!
Accorreu de novo fr. Angelico:
-As filhas só podem ter a vontade dos paes.
Tornou a pedir o juiz:
-Satisfa?a v. ex.a o meu pedido, e retirar-me-hei com a resposta da senhora D. Maria, seja qual f?r.
-Senhor, a sua insistencia!
-N?o se exalte. Quero estabelecer a harmonia e n?o desejo usar de outros processos.
-Amea?a-me?
-N?o. Lembro-lhe apenas quem sou, e o respeito que me é devido.
-Pois lembre-se tambem em casa de quem está, diante d'estas nobres figuras, e reconhe?a que, em vez da atitude pacifica em que se disfar?a, levou a sua audacia, apoiada na escolta, a ponto de me tratar como um igual quando eu sou um fidalgo, e o senhor, apezar do seu cargo n?o passa de um plebeu.
-Assim é. Na minha familia n?o ha femeas que tivessem servido de cano de esg?to para a transfus?o do sangue real. N?o me orgulho do que envergonha gente de bem. Quanto a esses mostrengos de narizes coloridos pela aguardente, só podem interessar a Lavater, que teria muito que estudar n'aquellas physionomias. Quanto a mim nada me importam, e de grande paciencia dei provas ouvindo-lhe as historietas do braz?o.
E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que bufava, apopletico:
-Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justi?a uma queixa de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a confirma a queixa. Ora nem v. ex.a nem pessoa alguma póde encarcerar por seu arbitrio quem quer que seja.
Martinho Vasques desabafou:
-Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma escaramu?a, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na barriga, e se lan?am em desenfreadas vingan?as. Agora trazem a anarchia ao seio da familia! Já nem respeitam a santidade do lar!
-O despotismo familiar n?o o respeitamos, nem o consentimos. é da lei, que temos obriga??o de cumprir.
-Essas malditas leis constitucionaes...
-Já as ordena??es do reino o prohibiam, mas eram letra morta as medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os poderosos como v. ex.a. Hoje a lei é egual para todos, quer premeie quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado se me exceder. S?o regalias que custaram muito sangue, e h?o de custar ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou para sempre!
-Se quer que o respeite-bradou o morgado-n?o alluda mais ás intrigas tecidas por um atrevido que fui for?ado a expulsar d'esta casa.
-Saiba, senhor, que a justi?a n?o se rebaixa a intrigas. Ha uma queixa em fórma, com testemunhas, contra o seu procedimento.
-Uma queixa d'esses reles soldados...
-Foi apresentada por uma fidalga, sua parenta, a sr.a D. Victoria, digna portanto de todo o credito.
-Ah! Espertezas da menina Josepha da Esperan?a! Essa namoradeira é outra que tal! Se eu lhe tivesse arrancado as orelhas n?o era ella que ia enredar-me...
-Vem dos mesmos illustres avós que v. ex.a, essa dama que maltrata. Mas n?o me pertence apreciar se o seu procedimento é ou n?o de fidalgo.
Fazia esfor?os fr. Angelico por conter Martinho.
O juiz dirigiu-se a elle:
-Queira vossa reverendissima aconselhar o seu amigo. é conveniente evitar aparatos incommodos. N?o desejo chamar a minha gente para testemunhar o encarceramento da senhora D. Maria, o que redundaria n'um processo crime, com pena de cadeia. Basta-me que lhe possa falar livremente, e esquecerei tudo o que desagradavel se tem passado.
Arrastando-o para um canto, tentava o frade convencer o morgado, falando-lhe em voz baixa, acaloradamente mas, n?o conseguindo decidil-o a apresentar Maria, ainda pretendeu abrandar o juiz:
-Se é necessario o testemunho do ministro do Senhor, aqui estou eu prompto a jurar, pelo santo nome de Deus, que s. ex.a é incapaz de opprimir sua filha, sendo, pelo contrario, o modelo dos Paes.
Já enfadado, retorquiu-lhe o corregedor:
-Vá vossa reverendissima buscar a senhora D. Maria, ou obrigam-me a praticar uma violencia, em que tambem será envolvido.
Desculpou-se o frade para com o fidalgo, indicando-lhe o magistrado n'um gesto:
-Deus é contra o escandalo.
Dirigiu-se á porta, para ir chamal-a.
-Seja assim-disse Martinho Vasques-vá buscal-a, e este senhor reconhecerá a sem raz?o das accusa??es dirigidas contra mim.
Depois de a vir intimidando pelo corredor, apresentou Maria fr. Angelico:
-Aqui a tem, senhor.
Occupada com a pacifica??o da ilha, a captura dos guerrilheiros, a investiga??o das cumplicidades, n?o pudera a justi?a intervir mais cedo.
Estava Maria ao corrente dos seus esfor?os. Apezar da continua vigilancia, recebia cartas que o mo?o de cavallari?a lhe metia da cocheira por uma greta do sobrado, onde introduzia as respostas, depois de bater devagarinho para baixo.
Durante mezes interminaveis ambicionára esse momento, mas agora sentia-se fraquejar ao ter de queixar-se do pae, ao quebrar, ante o novo amor, a linha de obediencia, o respeito de filha, o periodo de submiss?o.
Compadeceu-se do velho, cujo rosto transtornado vira de soslaio, e sentia-se sem for?as para realisar o que planeára no seu desespero.
Mas horrorisava-a o que a m?e soffrera, captiva d'esse homem que, por se dizer seu progenitor, por um direito que era alheio ao seu consentimento, a maltratára de palavras, a magoára brutalmente, e a fechára á chave no quarto, prohibindo-lhe os passeios, os entretenimentos, a correspondencia, o convivio.
No absoluto isolamento dos primeiros dias horrorisara-se ante a annula??o da individualidade, a suppress?o da consciencia, que era a educa??o preconisada pelo pae. Ao visitar d'antes a prima Josepha envergonhava-se de n?o saber tocar cravo, de n?o conhecer os livros em que ella lhe falava, e que só a furto podia devorar, porque, no entender do morgado, a leitura pervertia a mulher. N?o sabia bordar como ella, nem fazer os pequeninos enfeites que por toda a casa lhe denotavam a educa??o e o gosto.
Depois, quando o frade lhe foi aconselhar uma submiss?o ainda mais completa, n?o só nos actos externos, mas nos seus sentimentos mais intimos, revoltou-se energicamente. E saíu corrido fr. Angelico, queixando se de que o demonio, por intermedio do jacobino, se apossára inteiramente d'ella.
Por fim a m?e, exasperada pelo abandono, vendo o frade senhor da casa, pastoreando o rebanho das creadas, passou a odial-o, como odiava o esposo, comprehendendo o baixo interesse que o ligára a ella, emquanto do sacco das despezas lhe podia ir dando suas pe?as, e tornára-se cumplice da filha, protegendo-lhe a correspondencia, avisando-a do que elles projectavam, animando-a a insurgir-se, a libertar-se d'elles.
E n'esses dias enfadonhos, n'essas infindaveis noites de inverno, contava lhe insulto a insulto, offensa a offensa, grosseria a grosseria, o seu martyrio de trinta annos.
Prohibira-lhe o marido as idas á egreja, sua unica distra??o, mandando dizer missa na capella da quinta, para lhe tirar esse pretexto de saír; impedira-a de fazer visitas; negára-a ás pessoas que a procuravam; afastára-lhe os derradeiros parentes, que ainda arrostavam com o seu mau modo para n?o a desampararem; offendera-a, humilhára-a em intimidades suspeitas com servi?aes, com rendeiras, e fizera d'ella aquelle trapo, envelhecera-a aos cincoenta annos, moera-a, tornára-a negra por dentro, matára-a lentamente: que sem punhal ou veneno tambem se mata!
Seguia o pae já com ella o systema; nunca vira com bons olhos Josepha, e por fim expulsára-a; queria entregal-a a um homem a quem recommendaria os seus processos, e tornal-a-ia uma escrava por sua vez.
Oh! Antes morrer!
Esperava dia a dia a promettida interven??o da autoridade, e tinha-a antecipadamente como o momento em que passaria a pertencer a Jo?o.
Como elle era differente! Como seria ditosa ao seu lado, no enthusiasmo d'esse amor juvenil, na meiguice do olhar, na delicadeza do seu trato, na suavidade das suas falas. Com que direito pois lhe prohibiam a sua parte de felicidade n'este mundo, se tivera a suprema ventura de a poder realisar?
Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justi?a, adivinhando-a em todos os vultos que divisava ao longe, nos carro??es que denunciava o estrepito distante, e só n'essa manh? tivera a fortuna de a vêr chegar.
Tremendo, abra?ada á m?e, a quem n'esses dias de d?r quizera mais que em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem buscar.
Parecia-lhe de mau agouro a demora.
Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente t?o aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato.
Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio.
Revoltou-se o juiz ao vêr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces pallidas, cavadas, a agita??o em que tremia.
Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communica??o.
Acobardou-se ella ante o tom grave da pergunta, e levando o len?o aos olhos, rompeu a chorar, sem responder.
-N?o preciso melhor confirma??o-disse o juiz erguendo-se, e dirigindo-se a Martinho Vasques-é o caso da lei, abuso do poder paternal. Sou pois for?ado a cumprir o que se me requer, o deposito judicial em casa do mais proximo parente.
-Protesto contra semelhante violencia, e juro que lavarei esta afronta com sangue!-bradou o morgado.
E increpou violentamente a filha:
-Basta de comedia, menina. Diga claramente se lhe fiz algum mal.
-Nenhum, senhor!-respondeu ella, abandonada de toda a energia, aniquilada pela commo??o que, sobre a longa espectativa, lhe esgotava a resistencia.
Mas D. Perpetua, que ficára entre portas a vigiar, desconfiada, entrou bradando como louca:
-Senhor juiz, minha filha tem mêdo da fera! Este perverso bateu-lhe, como me bate em mim, e a pobre ainda tem os bra?os cheios de nodoas negras. é verdade que a tem fechada como a um c?o, e manda amea?al-a todos os dias por esse frade, que já se atreveu a levantar a m?o para ella.
Por unica resposta, disse o juiz:
-Tenha a bondade, minha senhora, de mandar a sua filha o necessario para que me acompanhe immediatamente.
Saíu promptamente a velha, dirigindo a fr. Angelico um olhar de triumpho.
Olhar injectado de sangue, labios tremulos, ergueu-se o morgado em passo mal seguro, e dirigiu-se a Maria, que instinctivamente se refugiou por traz do magistrado.
Este interpoz-se, na energia da sua figurinha secca, nervosa, fronte avincada, b?cca accentuada com firmeza, olhar vivo de argumentador, o ar decidido de homem novo, habituado aos grandes lances:
-Que faz, senhor?
-Quero despedir-me de minha filha!-tartamudeou Martinho-N?o me assiste esse direito?
Replicou o corregedor com repugnancia:
-Esta senhora n?o o evitaria, se fosse um movimento sincero. Está n'essa repuls?o o seu maior castigo.
Atirou-se o fidalgo, esmagado, para uma cadeira, os olhos queimados de lagrimas de desespero, fechando os punhos em crispa??es nervosas:
-Ah! Que se eu a abra?asse, ia esta noite ceiar com Christo!
Entrou D. Perpetua, já de manto, o rebu?o deitado para traz, ajudou-a a vestir a saia de merino, atou-lhe o capuz á cintura e deitou-lh'o pela cabe?a, emquanto ella se despedia, abra?ando-a e beijando-a:
-Perd?e-me o passo que vou dar, e pe?a a Deus que me fa?a feliz.
-N?o o serás!-exclamou o pae-porque eu te amaldi??o! Permitta o Senhor, filha desnaturada, que caias t?o baixo que ainda venhas aqui de rastos, coberta de bichos, pedir uma c?dea á porta d'esta casa que deshonraste. Deus te amaldi??e, como eu te amaldi??o!
-Vamos, minha senhora, tenha coragem!-disse o juiz, dando o bra?o a Maria, e encaminhando-se para a porta, sem se despedir, indignado por semelhantes palavras.
-Eu vou comtigo, n?o fico nem mais um dia n'esta casa-murmurou-lhe ao ouvido D. Perpetua.
E cobrindo-se poz-se ao lado da filha.
De um salto, o fidalgo tomou a porta, e deteve-a, emquanto o juiz e Maria se afastavam.
-Onde vaes?
-Sigo minha filha.
-Isso é que n?o. A ti governo eu! Has de obedecer-me cegamente, has de ficar onde eu quizer, entendes bem, onde eu quizer!
Fechou a porta violentamente, e empurrou-a para dentro.
De joelhos, m?os postas, ella supplicava:
-Por am?r de Deus! Deixa-me acompanhal-a!
-N?o! Has de pagar por ella.
* * *
Já na sége, para onde se deixára arrastar atordoada, reparou Maria na falta da m?e, e pelos gritos comprehendeu o que se passava.
Pediu ao juiz que a fosse buscar, mas elle desculpou-se com a lei, que n?o o autorizava a tanto.
N'uma grande amargura, Maria exclamou sentidamente:
-Ent?o, senhor juiz, para que serve a liberdade, se ainda se pode opprimir uma mulher!