Segundo o costume, mal se levantára, f?ra logo o morgado para a casa de jantar e, com a cabe?a apoiada entre as m?os, os olhos fitos nos montes de rapa, nos picos de esterco do pateo interior, onde fossavam porcos e depenicavam gallinhas, reconstituia por partes a scena da vespera, illuminando se-lhe successivamente zonas da memoria, mas sem continuidade nos acontecimentos, como se uma palavra do frade lhe ficasse menos gravada, como se um insulto do veterano se marcasse mais fundo; e depois colligiu tudo, e poz-se a ligar os factos aos antecedentes e a preparar-lhes, por sua iniciativa, a nec
essaria conclus?o.
Batiam alto na cosinha as galochas de sola de cedro da morgada, ao passar na parte do lagedo raspada pelo rachar da lenha; em sons abafados, surdos, ao calcar as cr?stas de lama negra e luzente, terra da horta, caldeada ás escorrencias da amassaria.
Come?ou a chiar a frigideira na trempe, ao fogo das achas ati?adas pelo borralho do forno, onde acabava de cozer o p?o da semana.
Ao cheiro da gordura e da lingui?a com ovos, desabaram moscas do tecto de maceira, onde jaziam mortas gera??es e gera??es, o ventre inchado, avivado de cintas brancas, presas umas nas bambinelas de teias de aranha, suspensas outras pela tromba á cal do forro, que sustentava a telha, apoiando-se ás pernas de asna, firmadas por sua vez no friso onde amadureciam ma??s, e nas grandes traves em que curavam aboboras.
Esbarraram algumas, desvairadas, nos vidros poeirentos, grudados aqui e ali por miolo de p?o, no centro das rachas estrelladas; mas depois precipitaram-se todas na cosinha, d'onde d'ali a pouco vieram pairando por cima da pratada, quando os pés descal?os da creada batiam pancadas seccas nos degraus de pedra, da cosinha para a casa de jantar.
Entraram zumbindo pelas janellas as varejeiras dos chiqueiros e da esterqueira, cujas emana??es azedas azotadas e amoniacaes, abafavam o cheiro da lingui?a temperada a oreg?os e da banha de vinha d'alhos.
Distraíu-o momentaneamente a lucta com os insectos, muitos dos quaes iam morrer na fervente gordura em que boiava a fritada.
Para comer em socego mandou fechar as janelas, e cessou a baforada da estrumeira, onde se enthesoiravam os despejos da casa, para riqueza das terras; mas pela do pateo da entrada, aberta para arejar, veiu o fed?r a bêsta das estrebarias que ficavam por baixo dos quartos de cama, onde pelas gretas do sobrado insinuavam ninhadas de pulgas.
Coube a vez ás moscas de cavallo, tardas, pegajosas, expulsas ás rabanadas pelas alimarias que, n'um luctar irritante, continuo, escarvavam o ch?o cal?ado de pedra roli?a como amendoa, boleada pelo rolar das marés, pelo limar da areia.
Postos diante d'elle os torresmos frios, conservados em banha, e o p?o de cabe?a ainda quente, levantou-se o morgado e, tomando o cangir?o de barro, de aza partida, cintado por dentro de sarro, foi-se ao barril cuidadosamente encanteirado, tirou-lhe o espicho e o vinho esguichou alourado, espumante, tornando a tapar por suas m?os, tanto cuidado lhe merecia o trato, tanta habilidade considerava necessaria para saber encher, sem deixar turvar.
Atestou o grande copo de crystal floreado de meia canada, difficil de abarcar na grande m?o, ergueu-o á altura dos olhos, observou o vinho contra a luz, sorriu vendo mosquitos sepultos no fundo pelo jacto, e sobrenadando em redemoinho, prova de que continuava excellente o verdelho.
Esvasiou-o, excedendo a receita da sabedoria conventual ?antes da sopa molha-se a bocca?, ?depois da sopa lava-se a bocca?; e quedou-se a admirar o vidro, seu unico luxo, a que ligava o valor estimativo dos reis testando em especial a ta?a ?porque bebiam?; por onde só elle bebia, e bebia sempre, a n?o ser o vinho novo que, como entendedor, tomava por tijelinhas de barro.
Subiu da cosinha, afadigada, D. Perpetua, batendo nos degraus as galochas.
Volumosa pelas muitas saias de estopa e de panno da terra, como as creadas e as camponezas, trazia á cinta a bolsa de velludo preto, bordada a vidrilhos, onde tiniam grossos patacos de bronze e mólhos de chaves, pura ostenta??o, ante a dispensa escancarada, com a esbei?ada bexiga da gordura, onde se espetava a colher de pau.
Baixa, grossa, trigueira, olhar lubrico, bei?os carnudos, olheiras em papos, pelle encarquilhada nas fontes, grandes rugas atravessando a testa de lado a lado, despenteada ainda como saíra da cama, as m?os sujas, de unhas negras como olhos de fava, desinteressava-se de tudo que n?o fosse fazer d?ces, como aprendera no convento, e entregar-se a exercicios espirituaes com fr. Angelico, a cuja intimidade se agarrara n'um desespero de abandonada.
Era o symbolo da desordem que Jo?o sentia pairar n'essa casa, orgulhando-se de que a sua valia mais, porque n'ella transparecia a solida uni?o que os elevára, emquanto a embriaguez, a pregui?a, o desmazelo dissolviam aquella.
Sentou-se perto da cabeceira occupada pelo marido, e os dois pareciam degredados no isolamento da grande meza deserta, onde nos grandes dias se ostentava a baixella de prata guardada no fundo da arca e se alinhavam os grandes beberr?es dos primos dando-lhe cresta na adega, por dias de annos, pelas festas; onde em quinta-feira santa jantava a creadagem com os amos, celebrando a ceia dos apostolos.
Faltava Maria, e a m?e perguntou á creada:
-A menina?
-Mandou ir o almo?o ao quarto.
-Estará doente?
Interpoz-se o morgado:
-N?o sabe o que ella tem? Sei eu. é que vae saindo á senhora, herda-lhe as boas prendas, porque n?o tem outras que herdar.
Respondeu em furia de hysterica D. Perpetua, envidra?ando os olhos que só para o frade se enterneciam:
-Vejo que o senhor ainda está com os destemperos de hontem. Já nem sequer o dormir lh'as coze.
N?o se escandalisou o morgado, acostumado a essas violencias, e continuou:
-Por causa de sua filha houve hontem n'esta casa um escandalo. N?o quero que se repitam, nem que ella fa?a o que a senhora toda a sua vida fez.
-O que eu fiz? Mas o que é que eu fiz, sen?o caír nas bocas do mundo por causa dos atrevidos do seu jaez. Por ter sido sua victima sou culpada? E ent?o que nome merece o senhor, que com a sua brutalidade abusou da minha innocencia?
Riu Martinho estrondosamente:
-A innocencia de uma menina de vinte e quatro annos, creada n'um convento de freiras, acostumada ás denguices das grades, á intimidade dos primos, sabida em poucas vergonhas de namoros. Innocente, a senhora!
-Ria-se, ria-se. Mas n?o se riu quando o pae que Deus tem, que o conhecia por dentro e por fóra, o agarrou pelas orelhas: ?Has-de casar, maroto, ou mato-te como a c?o damnado, porque me enxovalhastes a filha?. E o senhor tudo eram escrupulos do que se dizia, porque torna porque deixa, só por eu ser filha segunda, e andar á cata de herdeiras ricas. Quando viu sacos de cruzados n?o quiz saber de famas, de ditos nem mexericos. Meteu-me aqui dentro, tratou-me sempre como uma escrava, fez de mim esta desgra?ada, mas plantou novas cepas para se emborrachar á vontade, e concertou este pardieiro onde chovia como na rua.
E n'um gesto longo abrangeu as paredes de cantaria de onde a cal despegava, o forro do tecto embarrigado pelo peso da telha, com l?stras de amarelo sujo, escuras ao centro, esbatidas para os bordos, da agua da chuva represada pelos coiceis, nascidos nas toi?as de terra entre os regos; vertida pelas telhas rachadas por garotos que varejavam á funda os altos alamos, á ca?a de melros.
-Mente!-protestou o morgado contra a insinua??o de interesseiro.-Cumpri apenas um dever de honra.
Riu convulsamente D. Perpetua, tendo perdido na intimidade o respeito á importancia que elle se arrogava ante os estranhos, impressionados pelo traje de c?rte, á antiga, que o marcava como homem de outros tempos, tornado respeitavel á for?a de velho.
-A sua honra! Deixa-me rir! Quando o chamaram a Lisboa para a guerra com os franceses, o senhor, apesar da sua patente de capit?o, n?o quiz saber de palavras bonitas, e deixou-se ficar no quartel de saude, como diz mestre Jacintho.
Iam comendo e insultando-se, na rotina de trinta annos de rancor.
-Como ha-de comprehender escrupulos de honra quem nunca os teve!-commentou o morgado.
Insistia D. Perpetua, muito teimosa, desabafando o odio ao longo captiveiro em que a mantivera:
-A sua honra, a sua embofia de fidalgo, que n?o o impediu de explorar como um judeu o primo Chico, pondo-o ao descimento da cruz com os seus contractos de avarento.
-Se a senhora n?o havia de defender esse reles picador de toiros!
-Que quer dizer com isso?
-Bem sabe o que fez, mesmo depois de casada, sua descaradona!
-N?o tem sen?o lingua! N?o lhe dar um estup?r que lh'a puzesse lesa!
-Tambem tenho m?os!-explodiu elle n'uma amea?a, dando um murro na meza, mostrando o punho fechado.-N?o queira tornar a conhecel-as!
Sentindo reviver a offensa dos bofet?es que a atiravam ao ch?o, replicou arripiando-se como uma gata:
-Conhe?o-lhe as m?os, covarde, mas o primo conhece-lhe a cara. Ainda o estou a vêr, quando cá veiu, muito enfiado, por causa da quinta do Pico da Urze: ?Tu ficaste-me com as terras, pois ent?o fica-me lá tambem com esta?. E traz! Emplastou-lhe os cinco dedos nas bochechas!
Terminára o almo?o, e ambos se ergueram de m?os postas, dando gra?as a Deus.
Vendo ainda vinho no fundo do jarro, deitou-o Martinho no copazio, atirou-o á bocca e chamou a mulher:
-Oi?a as minhas ordens.
Voltou-se D. Perpetua no habito de servid?o adquirido n'uma vida inteira de obediencia, em que apenas havia a revolta das más palavras, que para o isolamento de ambos se tornára n'uma necessidade.
Ditava o morgado, sobrancelhas contrahidas, carrancudo, como absoluto senhor:
-Maria n?o tornará a saír do quarto sem minha ordem!
-Ah! Ent?o fica encarcerada?
-Cale-se e obede?a!
-N?o, que me sóbe uma coisa á garganta, e rebento se n?o lhe digo as verdades! Quer fazer-lhe o que me fez a mim, que me fechou como a um c?o, para se meter com as creadas e com as mulheres do monte, vindas de proposito pagar as rendas em vez dos homens, para levarem sua pataca amarrada na ponta do len?o!
-Já acabou? Ent?o oi?a, e veja se tem a imprudencia de me desobedecer. Já sabe o que lhe custa!
-Quere-a para freira?
-D'aqui em deante n?o a deixe só, n?o lhe consinta cartas. N?o a perca de vista, tome cautella. Eu vigiarei ambas.
E confirmando a ordem n'um gesto de amea?a, saíu em passos largos, bord?o em punho, caminho da adega, a visitar o alambique.
Muito irritada, porque a vigilancia da filha ia alterar-lhe os habitos, entrou-lhe D. Perpetua com mau modo pelo quarto dentro:
-Venho aqui esfogueteada por sua causa. Ouvi a seu pae o bom e o bonito! A menina precisa ter muito juizo. Lembre-se de quem é! Seu pae n?o quer que saia do quarto sem licen?a, e olhe que se ateima no namoro, é capaz de lhe pregar as janelas.
Recebeu Maria com indifferen?a a reprimenda, levantou-se e encaminhou-se para a porta.
-Que faz?!
-Que tenho eu que se ponham a disputar á meza, e depois queiram exercitar o genio commigo? N?o fiz mal nenhum, n?o quero ficar presa! N?o quero! N?o quero!
-A menina está doida!
E saíndo para o corredor, apezar da m?e lhe querer tomar a porta:
-Vou mandar chamar a prima Josepha e o primo Jorge. Com gente de fóra h?o de ter mais vergonha.
-Olhe, eu é que n?o estou para me incommodar. Préso muito o meu socego. Vou fazer queixa a seu pae, vou p?r-lhe tudo em pratos limpos.
-Pois vá, que n?o tenho medo do pap?o.
Embrenhou-se na quinta, e foi para o sitio onde ouvira o que tinha alterado o seu viver.
Longe de todos, repetia as suas palavras, recordava como ellas o iam transformando.
Ao principio era ainda o pequeno de escola com quem brincava; o humilde dependente d'esse frade, que viam passear ao longo da janela do escriptorio, c?r de papoila, dedo no ar, ditando com voz de serm?o.
Ao affirmar que a amava n?o parecia o mesmo; grave, offendido, dizendo retirar-se para sempre, decidido talvez a morrer n'essas luctas onde tantos caíam crivados de balas.
Na sua imagina??o de rapariga apparecia Jo?o envolto no prestigio do sacrificio, via-o galhardamente na estrada brandindo uma lamina, arrostando com as amea?as, t?o differente do tempo em que córava ao fingir-se ella convencida de que fr. Angelico lhe dava puch?es de orelhas.
Parecia outro, mais esbelto, mais homem assim fardado; e agora lembrava com desvanecimento que elle lhe chamára bonita e dissera ter o futuro nos seus bellos olhos, a esperan?a de felicidade nos seus labios.
Queria-a para mulher. E poderia ser? Elle n?o era nobre, o que diziam n?o ser já preciso para nada. Mas o pae, só por uma desconfian?a fizera o que fizera! N?o quereria ouvir falar em semelhante casamento. Que haviam de fazer?
Jo?o o diria. Decidido como se mostrára, levaria tudo a bom caminho.
E se casassem?
Era bem differente do pae; delicado, fino! N?o seria desgra?ada como a m?e.
Que alegria a d'elle se a escutasse. Ah! mas teria vergonha de lh'o confessar. Da sua bocca nunca o ouviria. Dar-lho ia a saber pela prima. Oh! pela prima n?o. Achava-o t?o lindo, era capaz de roubar-lho. Mas Jo?o amava-a muito para fazer caso de outra mulher. Portanto n?o lho mandaria dizer por pessoa nenhuma, havia de repetir-lho ella propria.
Habituar-se-ia, pouco a pouco, um bocadinho de cada vez, dando-lhe a perceber nos olhos...
Pois se casassem haviam de ter segredos?
Affligia-a o remorso. Porque n?o lhe falara assim quando elle, t?o pallido, se arriscára a desabafar? N?o sentaria pra?a, n?o passaria pelo desgosto de o quererem espancar, e ella n?o estaria agora amea?ada pelo pae e pela m?e. Sempre o estimára, é certo, mas deixara-a fria esse inesperado desabafo, tanto estava longe de pensar n'elle para marido, quando desdenhava morgados, e julgava tudo merecer.
Elevara-o a delibera??o, a coragem, o firme bem querer manifestado no rompimento com a situa??o de inferior.
Agora sim! Agora comprehendia-o e queria-lhe bem.
No enlevo d'essa commo??o, n?o pensou mais nas amea?as, e apresentou-se á hora do jantar, como se nada tivesse havido.
Quando D. Perpetua lhe foi participar a desobediencia da filha, ficou muito offendido o morgado, mas n?o se ergueu do barril, n?o desamparou a destilla??o, nem sequer deu por entendido o recado.
Reconhecendo a mulher, em intima alegria, quanto o pungia essa noticia, voltou-lhe costas e foi-se.
Quando ao jantar, Maria lhe tomou a ben??o, estremeceu Martinho Vasques. Creára-a mimosa, votára-lhe certa affei??o, embora o seu genio sêcco n?o o deixasse transparecer.
Ante o seu ar alegre, de desafio, n?o se atreveu a censural-a, e durante o jantar n?o se trocou palavra a respeito da vespera.
Saíram as mulheres após as gra?as a Deus, e ficcou o morgado, meditando e bebendo, até á chegada de fr. Angelico.
N?o libaram n'esse dia.
Tomando a serio o papel de dono de casa, de senhor absoluto, desfechou-lhe o morgado, á queima roupa, a ordem de fazer contas ao jardineiro, e de o p?r fóra immediatamente:
-N?o lhe consinta lamurias nem alcovitices.
Partiu o frade, humilhado da seccura e passando pelo escriptorio para levar a pataca do mez, foi procurar mestre Jacintho ao casinhoto.
Voltou á adega o morgado, encarando com mais clareza a situa??o. Livre do veterano, n?o poderia a filha corresponder-se com Jo?o, e esquecer-lhe-ia a perrice.
E na primeira aberta que lhe permittissem as quest?es da ilha, toca para Lisboa!
Tencionava o frade descarregar no velho o despeito pelo tom imperioso do fidalgo, quando o viu saír, muito escovada a antiga farda; posto á banda o boné, n'uma reminiscencia da passada elegancia; cal?a de linho, de pastor, de onde rompiam, pesados e bolorentos, os butes do uniforme; saco de chita debaixo do bra?o; cacetinho na m?o.
Disse-lhe n'um amargo sorriso:
-Bem vê que já estava em ordem de marcha. Ao que houve, n?o contava com outra coisa.
Olhou em torno, e como n?o visse o fidalgo:
-Admira-me que o senhor morgado n?o venha p?r-se a arrotar contra mim.
E n'um risinho de triumpho:
-Tem mêdo cá do ginja! Pois n?o lhe comia nenhum bocado. Palavra que tenho pena, queria dizer-lhe duas verdades. E d'ahi, n?o. Aquillo n?o tem emenda. é falar ás paredes.
Ouvia-se rir, ao longe, Maria com a prima Josepha da Esperan?a.
-ó aquella sim, tenho pena! Andei com ella ás cavallotas, quando me saltava nos canteiros atraz das borboletas, estragando-me as fl?res, a traquinas.
Abrangeu a casa e a quinta n'um olhar de saudade:
-Cá fica, a pobre, para ter a sorte da m?e! Mas ella, que ri tanto, é porque n?o tem mêdo das parlapatices d'aquella b?a alma do pae. Faz bem rir, é uma crean?a!
E dando uma palmada irrespeitosa no ventre de fr. Angelico:
-Por mais amea?as que lhe fa?a, ha de o morgado ir adiante d'ella, é lei do mundo! Por mais intrigas que forge vossa reverendissima, tambem irá comer hervas pela raiz, e ella ha de cá ficar, e gostará de quem lhe der na veneta. Até eu, que n?o sou nenhum rato de sacristia, hei de ir á missa de costas, e ella ainda estará em edade de casar com o menino Jo?o.
-Vocemecê nada mais tem que fazer aqui. Está pago e satisfeito...
-P?e-me na rua? N?o quer que me despe?a da D. Mariquinhas? Pois é melhor para me n?o saltarem as lagrimas, e vossa reverendissima n?o se rir depois á minha custa, quando f?r á lambujem do alambique.
-Avie-se, que eu tenho mais que fazer.
-Pois vá-se embora, que n?o lhe pego. Ah! Fica de sentinella a mim! Quem tal havia de dizer! Fr. Angelico da Immaculada Concei??o de Maria a governar esta casa! Olhe que eu nunca lhe gosei da carantonha, e agora comprehendo que vocemecê, e os outros da sucia, como os mosquitos de roda do vinho bom, andam á espreita das casas ricas, para apanharem freiras com bons dotes, e quintas onde se refocillem. Mas esta n?o apanham, juro-lh'o eu, porque a minha menina n?o é para gra?as. N?o vae com cantigas. Aquella ha de fazer sempre o que muito bem quizer, que a isso a costumaram desde pequena. Era o nosso ?Sant'antoninho, onde te porei?!
Limpou uma lagrima ao canh?o vermelho da jaleca, e virou-se contra o frade, que já n?o estava nada satisfeito:
-Ha de se lhe acabar o governo aqui dentro, como já se lhe acabou lá fóra!
Deu alguns passos para a porta, mas ainda se voltou para traz:
-Vou para o castello. H?o de precisar lá de soldados velhos para ensinar a recruta á galuchada.
Passou o postigo que o frade lhe fechou nas costas, de pancada, indo depois vigial-o para o alpendre.
Voltara-se mestre Jacintho ao estoiro, e n?o poude represar as lagrimas vendo-se expulso d'essa casa, que considerava como a sua.
Deu alguns passos, vergado ao peso do saco, penosamente apoiado ao bord?o, mas tirara-lhe as pernas a sensibilidade e veiu sentar-se na banqueta, a refazer-se.
Descendo para as bandas de S. Jorge, illuminava o sol as vidra?as dos quarteis da fortaleza.
Abrangeu o velho toda a cortina que vem da bateria de S?o Diogo, cintando á beira-mar o Monte Brasil, varejando a bahia do Fanal; depois os grandes pannos da muralha do Caminho Novo, o torre?o e a ponte levadi?a.
Estava agora ali dentro Jo?o, o seu derradeiro affecto, e a velha espingarda com que fizera a campanha, e que tanto chorara ao abandonar ao quarteleiro.
Tinha a proteger essa crean?a, a reivindicar essa arma, a punir os aggravos do morgado e do frade.
Meteu-o em brios o espirito da classe. Ergueu-se, poz o saco no poial, abaixou-se-lhe, passou os cord?es aos hombros e atou-os atraz das costas, á laia de mochila. Levantou-se com elle e o peso, puxando-o para traz, fez lhe perder a curvatura senil.
Deu uns passos amparando-se ao bord?o, mas desempenou-o o automatismo profissional. P?l-o ao hombro á guisa de espingarda, deu a si proprio uma voz de commando:
-Ordinario, marche!
E a passo cadenciado avan?ou estrada fóra, rejuvenescido pela esperan?a.