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Chapter 8 No.8

Feiti?os

Feiti?o é o sortilegio, a fascina??o, o olhado. é-se victima de qualquer mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas-sem outra culpa ás vezes sen?o a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um bem:-falta, porque se aspirou a elle; receia-se{136} semsaboria: ella que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do cora??o é uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a coisa a que se quer bem. Dá a sorte p?o duro a quem tem sede, e agua a quem tem fome; vivem na abundancia os que est?o fartos, e quem for só rico de appetite-pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seáras que o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a chuva innundou já... Feiti?os! O ir boiando contra a maré pelo rio do tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da lampada, o amante acordou e fugiu...{137} Voltou-se Orpheu para ver Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feiti?o é um demonio pequeno com um grande archote nas m?os, levantando-o entre as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, dá-lhes fulgor, e, á propor??o que se está mais perto, principia o demonio a pernear, salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma appari??o scintillante! A imagina??o popular precisa de casos extraordinarios para se entreter, e n?o gosta sen?o do que f?r maravilha, do que estiver superior á{138} humanidade, do que ella n?o entender... N?o se vê na Iliada andarem sempre os deuses a fazer costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;-este as romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonan?a, de Porto Salvo ou da Guia: mas a uma d'ellas de sua fei??o, e n?o a outra, porque o que acredita na Senhora da Guia, n?o dá nada pela do Cabo; aquelle, em perdendo coisa, n?o ha fazer com que a procure sem resar um responso a Santo Antonio;-o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um espelho, por ser possivel ver-se morto,{139} ou ver outra imagem em vez da sua...

Apesar de mil precau??es, quando as pessoas menos o cuidam lá está alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feiti?o, ou a deitar-lhes uma sorte. Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feiti?o lá vae saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das ora??es, do esconjuro...

Alguidar, alguidar

Que foste feito ao luar,

Debaixo das sete estrellas,

Com cuspinhos de donzellas

Te mandei eu amassar...

As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do{140} mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a desgra?a outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, os bracinhos de fóra, e andavam de mais por este mundo. é bom ter fadas, mas com modera??o;-e era isso o que ellas n?o queriam perceber, assolando o paiz a ponto de levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia t?o desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se usassem em Lisboa nem em seu termo-?obra de feiti?os, nem de ligamento, nem de descanta??es, nem de viadeira,{141} nem de carantulas, nem outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lan?ar cal ás portas, nem furtar aguas, nem lan?ar sortes.?

Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a mania de que os astros tinham grande influencia nas ac??es, idéas, ou inclina??es humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carrega??o de petas que offerecem á gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal mez ha de morrer um grande personagem:-sempre morre, e seria um transtorno se assim n?o succedesse,{142} n'uma terra como esta em que se aponta a dedo quem n?o é conselheiro!-que no mez de tal ha de correr uma noticia falsa: que no mez d'isto h?o de nascer muitas crean?as, no mez d'aquillo haverá quest?es com o papa: no mez d'aquell'outro se fará um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, ou se dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feiti?os irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!...

Ao que os medicos ás vezes chamam ?nervoso? chama o povo feiti?os. Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a doen?a que ninguem entende,{143} chorando e rindo ao acaso, torcendo os dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo e ralando as pessoas de quem mais gostar,-tem feiti?o. As artistas, ou porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.a Emilia das Neves, pontualissima aliaz em ir aos ensaios,-ensaia todavia os papeis em casa mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala que ella calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas. Antes do Gladiador de Ravenna se representar, já as criadas da famosa actriz-por{144} espreitar ás portas e escutar-sabiam de cór o papel de Tusnelda. A sala é a grande prepara??o;-o tablado é o dever; a sala é o feiti?o. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista tem a sua invoca??o: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto.

Os feiti?os ás vezes s?o brincalh?es. Ahi está o nosso Isidoro, de quem fallamos por occasi?o dos ?Agouros?, que tambem é mimoso dos feiti?os. Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal da Gra?a, á direita o sitio chamado a Gloria,{145} e á esquerda a rua do Paraiso!...

Conhecem o Matta? Quem ha que o n?o conhe?a! O Matta cosinheiro, o Matta pastelleiro, o Matta artista,-o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam. Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. N?o sei que lhes fa?a. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem bem; assim como n?o ha nada que nos fa?a admirar dos tolos como ser incomprehensivel, assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei a quem me dirijo. Vamos.-Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. Quem uma vez na vida pelo menos n?o frigiu uns{146} ovos, n?o fez um biffe, ou n?o assou um coelho, n?o sabe dar valor a isto. Ha muito quem conhe?a os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja incapaz de uma inspira??o de espeto ou de ca?arola-por nunca haver posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos perigos do seu destino e das alternativas a que est?o sujeitos seus frageis dias,-os vapores que o carv?o exhala e que lhe v?o minando a saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de t?o perniciosos resultados para os pulm?es e para a vista. E elle sempre alli como o soldado entre as balas,-com a differen?a de{147} que para elle todos os dias que Deus dá s?o de combate, e combate que n?o dá postos nem condecora??es! E dirige e tempéra, e tira e p?e,-mas de avental; mesmo que n?o se trate sen?o de dar a voz de commando,-de avental sempre: aliás, tudo se perde, entra na comida o bispo,-unico que n?o tem nem terá partido,-agúa-se o m?lho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle por assim dizer reformou, essa querida geléa que data do paraiso,-porque a serpente n?o seduziu Eva com uma ma??, como se espalhou; ainda n?o havia ma??s: a ma?? é muito mais moderna; seduziu-a com geléa: geléa que se apanhava da rezina{148} das arvores. E n?o lhe fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,-porque o n?o tira; é ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco é o seu pae, é o seu feiti?o!...

Ha aguas beneficas, aguas que d?o virtude, e outras que transformam a gente, como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da Ciosa, de Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado que teve e possa ver como ella o recebe: ?Toma esta agua e o que vae n'ella

lava teu rosto com ella,

tornar-te-has na compostura

e fegura

do que se foi.?{149}

No mar tambem ha feiti?os, e é por causa d'elles que se parte a verga da gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz.

Dizem que ha sitios no mar,-o cabo da Boa Esperan?a, por exemplo,-em que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de feiti?o; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto é o gemido das almas dos capit?es de navios que se perderam ali e andam a cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem emfim sepultura.

Os feiti?os no mar representam{150} a attrac??o do elemento, o magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar já na vespera se p?em a dan?ar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, e mal vae ao piloto em os feiti?os dando no barco.

Até se conta que D. Sebasti?o está ainda hoje a dormir no fundo do mar, por lhe haverem dado feiti?o; que as proas dos navios que v?o passando lhe quebram de tempos a tempos um peda?o do tecto do palacio em que elle está guardado; que acorda n'essas occasi?es, estende os bra?os, quer chamar, mas lhe tapam a boca para{151} que n?o grite, e elle adormece outra vez...

As vozes do povo s?o, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto vae-se á capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que fa?a ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á escuta, repara-se se diz sim ou n?o quem vae passando.-Em Lisboa, pelas festas de junho, p?e-se a herva pinheira á meia noite ao relento na esperan?a de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se ella deita espiga.-Queimam-se cinco réis na fogueira, d?o-se depois de esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido{152} como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo no copo d'agua, é quasi inutil fallar-lhes.-Quem tiver sete filhos está em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irm?o ser padrinho,-ou nascerá defeituoso.-Enrolam-se tres papelinhos, com seu nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irm?os; deita-se um á rua: outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,-metade da casca a outra, e junta-se ás duas uma fava com casca; mettem-se as tres entre os colx?es. De manh?, tira-se uma; se{153} traz casca, vem vestida e a pessoa virá a ser rica: se n?o traz, é nua e a pessoa vem a ser pobre; se traz metade da casca, a pessoa será remediada...

O peor dos feiti?os, porém, ó leitoras! o feiti?o mais arriscado, ó morenas,-o feiti?o mais perigoso, ó loiras, é o amor,-sois vós! Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós!{154}

{155}

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