Os idiotas
Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confian?a que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de Rilhafolles,-é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de{42} nos formar sequito, com um molho de chaves na m?o.
Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e dotados de inexhaurivel fonte de branduras-estou persuadido; mas d?o ás vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o sentimento febril de terror-que invencivelmente se apodera de quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá-transforma em indicios de uma perfidia atroz!
Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns corredores que se me figuraram{43} mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava tempo a pensar,-um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e prociss?es pintadas, quartos, com po?os e ganchorras, para ir dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gavi?es e serpentes;-lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...
Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que me olhava elle tambem{44} de soslaio. é o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma occasi?o a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.
-Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.
-N?o, nunca vi.
-Pois has de ver. é curioso.
Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.
O sujeito olhava para elles pouco{45} á vontade, pensando de si para si no nadinha imperceptivel que separa a raz?o da loucura...
Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram-e que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e respondeu:
-N?o custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfian?a, e, t?o depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas fechadas.{46}
O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de que aquelle convite tambem fosse um la?o. á sobremesa puchou pelo relogio, pediu desculpa de n?o se poder demorar, levantou-se á pressa, despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr.
é que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgra?ados, ha uma vertigem peor ainda-é a que resulta de os ouvir.
Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo riscos na terra com o dedo. N?o lhes importa ar puro,{47} nem horisonte; que o terreno seja vasto ou n?o seja, que haja verdura ou n?o, que estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos joelhos, encostam a cara ás m?os, e v?o dando á cabe?a como os bonecos da feira, n'um movimento sempre igual.
Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no servi?o dos banhos,-um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de tiple-mas esses s?o a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, s?o modelos de cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse {48} se a gente gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que se toque a campainha em querendo que elles appare?am de novo, e estacam de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses s?o os idiotas tafues, os idiotas como se quer. N?o servem para muito; mas, bem aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,-como janotas!
O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de n?o se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue logo:
-Se gosto de musica! Mas eu{49} como musica, senhor, musica é que eu como!...
E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar faluas, larga a tocar coisas incalculaveis.
Mas isso s?o idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua portugueza de Fonseca-?Idiota, adj. es. de 2 g. ignorante, sem estudos.? E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presen?a de uma aluvi?o de desgra?ados que ha em Rilhafolles, n?o como o da flauta, que falla e toca, mas dos que n?o fallam: n?o pensam: n?o ouvem: chiam, guincham,{50} riem, e babam-se. Esses s?o um pouco mais do que ignorante e sem estudos, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a cabe?a, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe devia,-tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a ta?a do Cesar idolatra,-com a differen?a de que estes manes, que s?o as idéas e as paix?es, em se caindo em idiota... n?o voltariam nunca mais!...
Est?o para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensa??es, parados e quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do{51} nariz, capazes de ficar encostados á parede o dia todo...
Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; o horror sem lances.
Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pan?udo, bonacheir?o,-certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa.
Este, sentado no ch?o, junta um montinho de folhas, e depois disp?e-as a seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. Depois, vergando{52} a cabe?a, fica a olhar para ellas...
Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a parecer que os cadaveres s?o as almas dos tumulos, e que o sepulchro é que morre em n?o tendo ossos dentro.
Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabe?as, e parece que elles é que n?o existem já.
N?o se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o formica leo d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, e alguns n?o ouvem? se o destino{53} os seccou como o sol secca os regueiros!...
Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem cabe?a de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com cast?o figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um palha?o morto!...
Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congest?o cerebral; e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás crean?as; recommendam-lhe que n?o metta os dedos no nariz, e que n?o ande de joelhos pelo ch?o para{54} n?o estragar as cal?as. Elle ouve, e esquece-se.
Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir sosinhos...
A macaca apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. N?o tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: ?Chamem a macaca?; os guardas acenam-lhe e dizem-lhe:-?Anda cá, macaca!? Ella vem. Toda a gente que foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das portas,-pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial;{55} ali lhe tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. N?o pede de comer, nem lhe importa isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o v?o metter na boca. Quando v?o dar-lh'as, come-as,-sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanh? já n?o seja respiravel, e que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. é abrir a bocca, e lá lhe ir?o parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabe?a para vêr{56} até que ponto é molle. Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. E dahi,-talvez! Pobre macaca! Desraizada do mundo, e plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...
Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros-n?o sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles n?o fazem nada; toda a gente pensa alguma coisa, elles n?o pensam em coisa alguma; até os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:-elles n?o se lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é{57} mais do que elles! a aranha arranja a teia, elles n?o arranjam nada!... De fóra d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religi?o, a politica, a honra, o crime, as desordens da turba: elles n?o sabem nada d'isso; est?o exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos furiosos!{58}
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