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Chapter 5 No.5

Telha

Tambem os ha cá por fóra!

Mansos, com falla, sem collete, passando a vida á procura do motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar com o deficit, da perfei??o no amor, do circulo bicudo...

Avista-os a gente por essas ruas,{78} sequiosos de barulho, persuadidos de que têem para cumprir uma miss?o, exercer um sacerdocio, defender uma causa, fazer tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa que, sem se saber de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais os visse entrar n'uma escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que os quiz empregar n'alguma cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente, tribunos e heroes, prégando umas celebreiras no tom de quem salva a patria!

Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de visinho-descarapu?ado e de chinellas-sem mais bagagem do que a sua{79} insolencia, altivos e petulantes, por entre a risota da multid?o.

Alguns, pobres mo?os, levados da esperan?a, vivendo mal, a?oitados pela sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva, deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella; desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja o caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito; sustentando-se de theorias; compondo maximas e conceitos d'este genero:-?é o homem que faz o titulo, e n?o o titulo que faz o homem?;-e pondo-se a caminho pela vida adiante, pé cá, pé lá, como quem vae com botas de andar leguas,{80} para ficarem estatelados na estrada sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á for?a viver de litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas que os tremo?os, e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em d?res sem grandeza, d?res que d?o riso aos mais!

Já de crean?a, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera em menino que o sol n?o tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol de dia, quando n?o é preciso, e de noite a lua dá claridade.

Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento com uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz:{81}

-é melhor n?o casar com esta.

-Porquê?

-Tem o dobro da edade que eu tenho!

-E depois?

-E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter cem!

O pae fica embuchado, e medita.

Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só palavra-supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a uma reuni?o politica, onde se discutem os maiores problemas. é n'um terceiro andar. Muito escura{82} a escada. D?o-lhe um rolinho. Aceita; desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho de r?lo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás escuras,-pensando sempre em economias...

Quantos! Quantos andam por essas ruas!...

Este, quer á for?a parecer inglez. é filho de virtuosos burguezes nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande-como qualquer de nós; mas tem a preoccupa??o constante do shoking, usa bota de duas solas, cal?a sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete inglezado, gravata de seda frouxa com{83} as pontas pendentes, ca?adeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na m?o um bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos nós... Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor, refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das pra?as a examinar os monumentos; defuma o fato com carv?o de pedra, para parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a estatua de D. José, examinando, estudando, tomando apontamentos, medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem perder tempo;-time is money! E passeia; e corta;{84} e gira; e vae indo, inglezmente, até ao alto de S. Jo?o. Est?o abertas de par em par as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as inscrip??es das campas; escolhe um tumulo que lhe pare?a commodo, e senta-se. N?o ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o Times. O Times está n'uma das algibeiras da ca?adeira. Lê o Times com imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. é noite; vae para casa,-acabou de ser inglez até ao outro dia!

Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores{85} se chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer-agua vae. Elle respondia sempre, e responde-que já n?o bebe, que lhe fazia mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que n?o vale a pena... Engana os outros, mas, o que é mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e sosinho, p?e-se á mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se fallasse com alguem:

-Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!

E, disfar?ando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si proprio:{86}

-é muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes, um copo de Collares.

-é Collares picado o que posso offerecer-te!

E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.

-Deixa-o sempre levar aos bei?os. N?o é trai?oeiro, e acompanha o queijo amavelmente.

-Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!?

-Dás-me muito gosto.

-Uma saude com um copo de Xerez generoso.

-O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos n'este...

-Mais um copo, visto isso, de{87} Collares; e passaremos ao Porto, que de certo n?o te faz nervoso como os vinhos brancos?

-Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens?

-N?o bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?!

E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer companhia á do Alemtejo e á de Collares.

-á tua saude! diz elle, enchendo dois copos.

-á tua saude! prosegue, bebendo ambos.

Ah! Quantos, quantos!

Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam{88} a parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos n?o reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, n?o vêem o tribunal da Boa Hora e têem-o diante de si;-uns exaltados ridiculos, a arder em aspira??es phantasticas;-uns pimp?es de palavra, sempre em prologo de valentia, pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos, vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir, arrazar: tutto parole, parole, parole!-Um que quer cantar sem voz, e móe os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas, concertos,{89} cantando tudo, dizendo que dá o dó, e n?o dando cousa nenhuma sen?o cabo da paciencia á gente!

O jogador ten?oeiro, que vae de queda em queda-como outros v?o de bamburrio em bamburrio-para cair no abysmo, para que se lhe devore a ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que a m?o da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...

O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como pingos de chuva da rama de um chor?o...-O que attribue tudo aos jesuitas, n?o scisma,{90} n?o dorme, n?o sonha sen?o com jesuitas. Tudo a m?o de Roma, a m?o de Roma...-O que, em apanhando piano, principia logo a tocar com um dedo horas a fio.

Os sexagenarios magan?es, que armam terceira mocidade, posti?a como a cabelleira e a dentadura, e v?o, bem retocados, em conquista...

A antithese d'esses:-velhos precoces, já enfastiados de tudo em meninos: aventuras que n?o s?o visiveis sem lente; escandalos que Plat?o consideraria ch?chos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se f?ra m?e dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias{91} de Babylonia. N?o sabe a gente, ao ouvil-os, se está no Azul se no meio do ch?o! Aos vinte annos já n?o dan?am, e usam luneta c?r de fumo nos olhos fatigados... do gaz do Martinho!

Um n?o pensa sen?o em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,-quer trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; qualquer coisa; exemplo:.-?As ginjas s?o talvez melhores á sobremesa, do que para prato de meio.? Conceitos!-Outro, leva o anno inteiro a scismar como ha de disfar?ar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a cara,{92} o que ha de p?r no nariz...-Outro, conversa muito alto, n'este estylo que lhe parece optimo:-Diga-me se n?o é anomalo, acephalo, hybrido, através da civilisa??o e do progresso, ver as na??es atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da supersti??o e da ignorancia. O meu amigo é ecletico?

E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para n?o cumprir, nunca v?o a horas-o maior dos erros, exemplo aquelle diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a rainha a fazer papelotes!-que{93} se esquecem de tudo, ou antes n?o se esquecendo-pensando n'outra coisa, diversa sempre da que est?o fazendo, da que est?o dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga; trapalh?es de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de assucar; outro cuida que está no botequim, e p?e um tost?o no pires quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já a estender o bra?o para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o n?o pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes diga como elles se chamam, e irem ent?o{94} reclamar a carta; a correr, antes que lhes esque?a o nome outra vez!..: Telha, pois que?-telha, e rija!...

Digamos o peior;-quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda a gente anda com telha...

Quem ha,-dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam tomar o pulso ao espirito, que n?o se tenha sentido em certos dias como que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de saudades da patria que perdeu... A terra parece{95} triste ent?o, embebe-se o animo na nostalgia do céu, quer a idéa voar para lá, e consegue-o ás vezes... De noite, quando n?o se póde dormir, mas está tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vêem-se brilhar as flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo ent?o chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,-a telha!...{96}

{97}

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