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Chapter 2 No.2

As doidas

N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que n?o est?o abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgra?a, e a quem a familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas s?o as felizes; ainda têem lá{24} de vez em quando quem as visite, quem lhes leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para apetites-comprar marmelada quasi sempre. S?o as felizes, essas; s?o as fidalgas,-as fidalgas de Rilhafolles!...

Passam n'aquelle corredor enorme-que o espectaculo monstruoso d'ellas torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.

Esta, olha para nós com serenidade e indifferen?a, e parece dizer{25} com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que n?o ha ver n'elle nada de novo-grito melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.

Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma chimera,-cora??o ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi tudo,-odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das for?as ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.{26}

Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. é mo?a e bonita; o alguem era bonito e mo?o. Até aqui tudo é risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem n?o tinha outra riqueza sen?o ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto n?o quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas caixinhas,-t?o fechadas que ninguem as podia abrir,-que os pescadores das Mil e uma noites achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas fendas!{27}

A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colx?o: levantando-se, deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. é uma mulher esbelta, opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisa??es colossaes{28} como as que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de existencias!...

As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem ser?o...-se as doentes tambem ser?o enfermeiras?

V?o andando de chave na m?o, e apresentam ao director uma ou outra doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas, e corrigem{29} um pouco pela sua presen?a a impress?o penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.

As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcan?ar do director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que n?o podem já...

-ámanh?! respondem ellas sempre. ámanh?.

E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:-ámanh?!

Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella n?o faz sen?o costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dan?am, e ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente,{30} prudentemente, como se f?ra o sol no meio da noite, a ac??o no meio da idéa, a ras?o no meio da loucura!

Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua adora??o; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedica??o. Está á janella a olhar para os campos{31} e a farejar tormenta em tudo-no voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua custa;-a peor maneira de conhecer as coisas. ás vezes n?o é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.

Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel de todas as c?res; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. é a catita! é a janota! Pobre e desgra?ada elegante, que tem a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer ver-se nos espelhos,{32} quer que a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de tal, que tambem deu uma soirée onde estava a primeira sociedade, que a sua toilette era primorosa, que está já em vesperas de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e comp?e a manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dan?ando os Lanceiros, faz-nos a cortezia.

Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um{33} quarto onde est?o algumas mais tranquillas a costurar e a fazer crochet. Olha para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me conhece.

-Parece-me que conhe?o, responde ella.

O director diz-lhe o meu nome.

-é isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.

é da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,-o chamado Ericeira, o capit?o Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo outomno procurou-me uma manh? um homem{34} baixo, vermelho, atochado, de cabe?a grande, sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;-era o pobre capit?o. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o ver?o, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...

A pobre menina tem um parecer agradavel; n?o alegre, mas suave{35} e resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; s?o versos certos, euphonicos, mas em que n?o se percebe nunca a idéa e em que as palavras baralham tudo:

Amei, infanta e leda como a aurora

Dos sonhos d'esse infante adormecido;

Ao rei o teu gemido, o teu trovar,

Ao throno o teu sondar encanecido.

Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,

Gotejo em teu rollar mil alegrias,

E colho em cada nota que desfiro

Insomnias do porvir, crueis magias.{36}

Felizmente ellas n?o teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; e v?o vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.

A que, de todas, me produziu mais viva impress?o foi uma formosa rapariga que n?o quer fallar, e que tem levado a teima por diante atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um canto; parecendo n?o reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos no ch?o, com a cabe?a encostada ás m?os, ar de recolhimento profundo e invencivel. é o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe n?o sei o quê na esperan?a de que{37} ella responderia. O director, que se prestou com a mais amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe:

-Vamos; levante-se; est?o fallando comsigo!

Ella poz-se de pé. é uma rapariga alta, bem feita, de cabe?a lindissima, a mais bonita cabe?a de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello negro e farto, fei??es accentuadas, express?o dominadora; certa gra?a aspera; o que quer que seja de ca?a brava; a bellesa crua, como fructa verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca!{38}

Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcan?ar d'ella que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: ?Ai Jesus?! Taes s?o as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um ?ai?, e o nome por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as esperan?as, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a alumiam: = Jesus!...

Havia já tres horas que andavamos{39} por aquelles corredores e por aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair n?o pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches:

-Emfim!

Mas o director sorriu-se, e retrocou:

-Falta-lhe ver os idiotas.{40}

{41}

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