Sonhos
Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar talvez a monotonia da agua dormente-mare mortuum! Querem casos, avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabe?a com desvarios nem possiveis nem faziveis...{176} A antiguidade espantava-se com o assoviar das serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisa??o e o progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, desgosto e feridas: com dados, perder os bens: com espelho, trai??o: com favas, doen?a: com heran?a, miseria: com padre, morte!
Alguns, n?o sei porque,-pode ser que por fazerem o mesmo acordados-sonham só com o que n?o têem, que s?o o que n?o podem ser, que fazem o que n?o fizeram nem far?o; Job dá jantares, Creso pede meia libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo{177} mudado; fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pan?a é poeta; a alegria aeria, crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da pra?a, gente que torce sempre o nariz-limite de seu horisonte-a tudo que vae pelo mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o Apollo de Belvedere é piteireiro: a Venus de Milo assa castanhas, Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de capa de asperges!...
Porque será que se sonha?! Chega{178} a parecer que a alma n?o está nas pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz suspensos da m?o de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem com mais facilidade, outros com menos á direc??o que lhes é dada,-obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é n?o querer ir para onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar o fio o deixe bambo:-qualquer brisa do ceu n'essa occasi?o faz fluctuar e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem n?o conhecemos, trazendo-nos idéas e imagens{179} que n?o têem parentesco com as imagens e as idéas do costume, extravagancias que só se d?o nos sonhos, e que fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!
Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.-Que a ultima coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.-Outros affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle n?o vem, e certo está em o evitando;-principios um pouco alheios aos do Evangelho, e que parecem querer dizer: N?o procures e encontrarás; n?o batas e abrir-te-h?o!
A maneira de dormir deve ter{180} n'isto influencia. Cama desengon?ada e velha, que verga e range, amea?ando queda; a porta do quarto cheia de fendas; por cima da cabe?a da gente os ratos a passear no sot?o, saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, de bru?os... Como ha de ter sonhos felizes e c?r de rosa um estafermo n'essas condi??es?
As crendices populares de Portugal s?o geralmente bonitas, e parece sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos sonhos porém s?o quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com{181} casamento.-E crê-se entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem attribuir-lhes a fortuna:-os que costumam ser desgra?ados, já se vê, que os felizes n?o tenham medo que a attribuam nunca sen?o aos seus merecimentos!-E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos; e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de vis?es, ora de insomnias:-e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter pulgas no quarto!
Mas contam, commentam, improvisam, e d?o parte á visinhan?a das appari??es que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam,{182} e apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de sagu?o para sagu?o,-com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a loucura!
é a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que nos faz ser um povo bisonho, a scismar n?o se sabe em quê, mal humorado, merencorio e fusco, gatos pingados por natureza! Os que n?o teem desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos livres. A falta de tormentos,-os sonhos. Em n?o havendo causas grandes, as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem n?o trope?a n'um tronco de arvore, escorrega n'uma casca de{183} laranja,-e vae de ventas ao ch?o do mesmo modo.
-N?o sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!
-Ai! Com cominhos!
-S?o pragas! é praga que me rogaram.
-Credo! é facil ser!
E dá-se credito.
Se alguem lhes affian?ar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril de polvora sem pegar fogo-estou que n?o acreditam ao ponto de se deixarem ficar para assistir ao caso,-mas que sonhar com uma concha seja signal de perder o credito, com um copo de agua de prompto matrimonio, com damascos de grande alegria, com{184} guitarra prazeres dispendiosos, e com papagaio descoberta de um segredo, quem se atreverá a p?l-o em duvida?!
Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,-por tal fórma os males imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles-como succedeu ao outro que cuidava ver uma cabe?a na bandeira da porta, e foi pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a ora??o a Santa Helena? Vou dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e metade em prosa; conforme m'a disseram, que n?o me custou pouco a conseguil-o:{185}
?Gloriosa Santa Helena
Filha da rainha Irena
Moira foste, christ? vos tornaste.
Nas ondas do mar andaste,
Com as onze mil virgens vos encontraste.
Com ellas p?o e queijo ceaste.
Ao crucifixo vos encostaste
Tres cravos que tinha lhe tiraste.
O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo déste-o ao vosso irm?o Constantino em Roma para com elle vencer a batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:-se assim n?o é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras e aguas turvas, Amen.?
Os somnambulos s?o a maravilha por excellencia, a rara avis{186} dos dormentes. A dormir fallam, a dormir v?o de uma casa para a outra pelo seu pé. Muita gente tem medo d'elles;-principalmente desde o caso de Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha-foi atraz d'ella. Cupertino n?o tinha criada: e vinha o gallego pela manh? lavar a loi?a;-estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa limpou-os todos, depois engraixou{187} as botas do marido, e foi deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia n?o lhe disse nada do que se passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o gallego.
-Isto n?o a can?a, dizia entre si. Trabalha a dormir!
Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno, interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu a todas as inten??es, conferencias, e mysterios. Cupertino n?o cabia em si de contente. De uma occasi?o dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte pergunta:{188}
-ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?
Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte-comprou o bilhete e sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; n?o tinha mais do que perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.
De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabe?a no ar. á noite perguntou-lhe-quando ella estava a dormir, já se vê:
-é verdade que tu andas de cabe?a no ar?
-Ando.
-Por causa de quem?
-Do primo José Maria.{189}
-é possivel! E porque é isso?
-Porque elle é bonito, e tu és feio.
Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.
A grande preoccupa??o popular s?o os pesadelos,-sonhos negros, carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgra?a que causámos.--?N?o é um sonho, Elvira, s?o remorsos!? como se diz na Nova Castro. Vis?es atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances mysteriosos, crean?as que morreram sem baptismo... Até se diz que os primeiros momentos da morte s?o ainda apenas dormir, e que se sonha. Os chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I{190} levantado depois de morto, para confessar um peccado que n?o tinha dito.
Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, reanimando-se as lembran?as que o tempo apagára, cicatrisando feridas com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que se vê!
Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz-quando n?o se possa sel-o de outra fórma. Sempre{191} s?o horas de ganho sobre os enfados e cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se alcan?a. Só tem o contra de que o sonho n?o dure. No adro da egreja da Gra?a havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os claustros, que dizia assim: ?Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos, que morreu espertando.?-é o perigo de acordar. Acorda-se do sonho-e ás vezes da felicidade!{192}
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