Agouros
Agouro e engui?o n?o s?o a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significa??o diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo canto, gesto, e pasto das aves (ex avium cantu, gestu, vel pastu futura divino) e por extens?o conjecturar{118} de qualquer modo. N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes insignificantes-a que chamamos agouros-queremos predizer o futuro.
O terror-de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras vezes-torna videntes certas creaturas. Mudam de c?r, á mesa, se espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o len?o nas urzes; vêem imagens, conhecidas nos mont?es de nuvens negras que um relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a{119} materia muda tem lingua. Ouvem presagios no gr?o de areia que o vento leva, no tremer das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que reflecte as figuras, na herva que balan?a ao peso de uma formiga... Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do c?o...
Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e á esquerda; golpes mortiferos; desgra?as precipitadas;-a fatalidade delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. Vivem de cabe?a baixa e bra?os encruzados, agitando n'alma{120} quest?es insoluveis, corre-lhes nas veias com pregui?a um sangue fraco que arranja o que se chama agora anemia; doen?a em que ninguem fallava, e que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,-condemnados de manh? ao Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas ventanias.
Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. V?o seguindo na vida como a Electra{121} dos gregos, devota e severa, confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;-dir-se-hia que, como outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pesco?o ao cutello resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse... Os artistas principalmente,-os que s?o dignos d'este nome, os notaveis, os verdadeiros artistas-têem supersti??es indestructiveis e muitas vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes ras?o. Ha exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manh?s de mar?o, humida e ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio{122} de Janeiro, e a quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que n?o era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do contracto, dizia-me em frente do Tejo:
-Adeus. Sinto que n?o vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio funesto.
As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,-um pouco mais singular ainda do que o agouro!
Da maior parte das vezes, as supersti??es dirigem-se unicamente a evitar o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em miseria ou em asneira.{123}
Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá arranjou ser deputado-mas o que n?o arranjou é fallar, porque os agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a for?a das maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta dextro ca?a a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a proposito conforme as circumstancias,-com{124} socego, e sem bulha. E tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe avisos:-?Calla-te, calla-te. As fallas s?o de prata, e o silencio é de ouro. Calla essa boca!...?
Outro n?o se move, n?o vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a agouros; n?o sabe mais nada, é certo, n?o sabe das suas cousas nem trata d'ellas-mas sabe d'aquillo. N?o permitte que lhe cosam a fazenda em cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer,{125} definhar, dar á casca;-n?o corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe n?o torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;-n?o permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,-pobreza imminente;-n?o póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem fatal;-e por cousa alguma morará em ?casa de esquina,-morte ou ruina!?
Este, se vê um ?ladr?o? na véla-sabe que vae ter carta.-Aquelle, em caindo uma thesoura e espetando os bicos no ch?o, espera uma má visita.{126}
Muitos n?o se desfazem de pombos. Ou n?o os ter nunca, ou tel-os sempre; o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da Ascen??o do Senhor.
Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,-porque, se os ouvem, ou n?o casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao domingo, nunca mais se levanta.-No campo, em os martyrios de um jardim dando muita fl?r, julga-se breve a morte do dono da casa.
Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. A vida de Isidoro-o nosso popular actor Isidoro, do theatro da Trindade-é um pinhal de agouros.{127} Vamos vêl-os com cautella; se têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado n'uma sexta feira, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender o officio de tecel?o na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero treze; trabalhou dois annos no tear numero treze; depois de official foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que commetteu na sexta feira de Passos de 1845, e ficou tendo o numero vinte e seis, que é duas vezes treze. Assentou pra?a no 2.o batalh?o movel em 1846, e durante oito annos foi numero treze. Representou pela primeira vez em theatro particular a{128} treze de junho de 1846; em theatro publico n'uma sexta feira, 30 de novembro de 1849. Foi escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia treze de maio de 1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma sexta feira, 11 de mar?o de 1853. E-para cor?ar este catalogo de memoranda-casou em dia de S. Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado, triumphado, mais invulneravel do que o capit?o de Homero-que o n?o foi no calcanhar.
N?o só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a ter?a. O actor Santos,-depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve entre elle e Francisco{129} Palha-n?o quiz apparecer pela primeira vez no tablado da Trindade n'uma ter?a feira que se destinára para primeira recita de Frou-frou. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, segunda feira, ao palco; representava-se a Flor de Chá; no ultimo acto vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dan?ou com elles o can-can com que terminava a pe?a. Na noite immediata representou Frou-frou; era a segunda vez que apparecia ao publico da Trindade; n?o o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se assim.{130}
O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze n?o se alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze repetido, e já n?o se vê por cima da porta sen?o 12-12.
Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e lhe explicaram ser indispensavel a sua presen?a á mesa para se principiar a jantar. O rapaz allegava que n?o tinha vontade de comer, que acabára de jantar{131} com os paes n'aquelle instante. Debalde! N?o o largaram sen?o ao café.
Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que vem das tradi??es e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravid?o e das cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a terra da promiss?o, mas n?o conseguiu p?r lá o pé-e morreu á beira da realisa??o da sua idéa...{132}
A illustra??o dos officiaes de marinha de hoje já quasi n?o admitte os agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando n?o é capell?o do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.-Mulato a bordo, é salceirada frequente, e por vezes-na linguagem maritima-vento de gaveas nos terceiros e de traquete na passadeira.-Cadaver ao mar, predisp?e para tareia e tem de se aguardar vigilante o salto do vento para evitar o empandeiramento do velame.
ás vezes veem como que disfar?adas, as predic??es, nos brinquedos das crean?as. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles{133} armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é signal de reboli?o, signal de guerra. De outras vezes, se fingem conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... é certo? N?o é? Como quizerem. Os agouros, para mim, s?o o tinha de ser: consola??o-de quem n?o tem outra!...{134}
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