Engui?os
Quente... quente...
Já est?o a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, com quem viveram, parente, amigo, visinho...
O diccionario de Moraes explica-o assim:-?Engui?o é o mal que se causa de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.?{98} Até aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos ?accidentes?. Lá se avenham.-?Consiste,-continua-em ficar acanhado.? Est?o satisfeitos? Eu, n?o. Procuremos mais, procuremos sempre;-no verbo engui?ar o mesmo auctor exprime-se assim:-?Dizem que o torto olhando para alguem engui?a-o. Passar a perna por cima da cabe?a (d'outrem) engui?a; isto é, faz que desmedre, que se fa?a pêcco e pobre.
D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e cousa pouca, que{99} moem e affligem os engui?ados,-gente nervosa, delicada e phantastica.
Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela do?ura do ar; e ouvem tudo ent?o, as vozes que passam no murmurio das ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que n?o se chegou a dizer,-ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do engui?o, que falla dentro d'elles, e comp?e,{100} e ordena, e retem, e impelle...
Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia preso ao ch?o, e n?o póde dar um passo emquanto o creado n?o vem dar-lhe um alentado empurr?o que lhe quebre o engui?o. Volta-se ent?o para o servo:
-ó José?
-Senhor.
-Tu deste-me a corda inteira?
-Dei, sim senhor.
-Toda, toda?
-Dei-lhe a corda toda, sim senhor.
-Está bom!
Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para{101} as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurr?o foi brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda.
Um irm?o d'este (os engui?os s?o familiares e hereditarios, o que é ainda mais pasmoso!) n?o póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em redondo ao prato.
Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na reparti??o onde é empregado de barretinho de seda preta e mangas de algod?o, faz todos os dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:{102}
?Um.
?Dois.
?Tres.?
Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.
Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que n?o envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle{103} acabou de jantar, foi muito lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,-encontrou as portas fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se d'elle; os jornaes contaram o caso.
Alguns s?o beatos. Têem uma religi?o lá d'elles;-a religi?o do engui?o. N?o querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora decotadas; mas em S. Carlos imp?em-se crueldades gothicas, e quando apparecem as bailarinas, t?o frescas e t?o pouco vestidas que até o beato Antonio haveria arriscado um olho, como{104} o meu amigo leitor ou eu, fecham elles ambos.-Conheci um que, quando lia n'um jornal a palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.-Ha outro que n?o póde passar diante de um nicho de santo sem que immediatamente leve as m?os ao rosto e o esfregue, como para se lavar das impurezas que o santo n?o deve presencear. Como fosse em certo dia guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, largou immediatamente as redeas e p?z-se a lavar o rosto em sêcco. O cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por felicidade n?o deu cabo do engui?ado e do amigo{105} que elle levava em sua companhia.
Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude em que est?o quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no ar, só com as m?os ambas encostadas á bordinha do colx?o, como se faz ao saltar para a cama; n?o o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos trambulh?es.
Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha engui?o de pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo n?o consentia por ter dó de{106} obrigar os moleques a estarem para ali espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.
Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;-faz casas para n?o morrer. Lá diz o proverbio campesino-?ninho feito, pêga morta.? Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer predios. Supp?e que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e cal!{107}
Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das apprehens?es. Tem sete filhas; quatro est?o casadas; duas principiaram a namorar os que hoje s?o seus maridos no circo Price; as outras duas no Gymnasio. Est?o ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas, pobres e desgra?adas; elle tem a scisma de que ás tres que est?o solteiras n?o convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á entrada uma{108} prece, n?o sei que lérias piedosas que só elle entende...
Que dan?a! que dan?a!
Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem p?r primeiro o pé direito.-Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, contando que h?o de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto em vez de dádiva.-Os d'acolá pedem a ben??o á m?e, e emquanto ella n?o estender a m?o seis vezes n?o lh'a beijam.-Uns têem terror ás aranhas; outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes n?o passam em certas ruas sen?o do mesmo lado sempre.-Alguns, brutos com toda a gente, s?o timidos com as crean?as. As{109} crean?as têem o que quer que seja de maravilhoso. Já o Fern?o Lopes, na Chronica de D. Jo?o I, cita uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de Portugal. Os engui?ados que leram esta chronica ficaram tendo pelas crean?as uma venera??o profunda; os que n?o a leram-tambem. Batia na mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna-para onde ia t?o depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se costumar com aquella renda. N'isto foi m?e. Apesar de todos os sabbados estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa{110} semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:
-Porque é que tu já me n?o bates?
E o saloio, engui?ado, desejando romper e quebrar por uma vez com a pris?o imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o ber?o:
-Tenho medo de acordar o pequeno!...
De tudo, entretanto, o mais trivial é n?o se poder vêr um corcunda sem ficar engui?ado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os corcundas sabem isto; sabem-o á legua; n?o sabem outra cousa; est?o fartos de o saber; e{111} por isso s?o t?o joviaes. Andam sempre a rir-se do mundo e a engui?al-o o mais que podem! O melhor do caso, porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a ras?o porque nunca desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observa??o de haver encontrado dois corcundas de bra?o dado. S?o inimigos capitaes. Um d'estes dias foi encontrado um sujeito-se eu lhes dissesse o nome riam-se!-encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o desengui?ar de outro que havia visto.
Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.{112} Mas-para obter o remedio-quantas difficuldades! quantas astucias! quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e n?o se deixa tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem posto a policia em bolandas-sómente para garantir a giba do contacto impudico da moeda preservativa.
Ha quem affirme que os vesgos s?o ainda peiores que os corcundas, e que a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette acabar com elles,-e n?o haverá mais engui?ados por este accidente!...
Consolem-se todavia os que teem a scisma do engui?o,-sujeitos de{113} pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabe?a nas costas da cadeira; pe?es para quem est?o de reserva as topadas nas pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias, que farejam na malicia da sorte inquieta??es para todas as horas do dia; consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.
S?o sujeitos a engui?os os homens pequenos e os grandes homens; homens grandes no corpo e na for?a;-homens grandes no espirito; phantasistas, poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os ignorantes; têem engui?os os pastores; e os reis-ha{114} uns tempos-andam muito engui?ados!...
Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular harmonia! Toda a cautella é pouca em n?o se indisp?r a gente com elles, nem com o acaso;-os engui?os s?o como as paredes, têem ouvidos; e lá se entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi está que n'este instante a penna n?o quer tomar tinta e está a espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.-Vou mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borr?o no papel...-Basta!{115} Talvez que este borr?o resuma, melhor do que eu podesse fazel-o, o systema dos engui?os. N?o escrevo mais.{116}
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