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Pouco depois era servido o café.
Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras floridas.
Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da pris?o quotidiana, e do servi?o quasi aturado do armazem.
Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro, mostrando a Luiz de Mello as suas fl?res; apontando, deslumbrante de candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com a convic??o de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irm?s.
Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas vezes embalam a imagina??o juvenil, do que assistindo á realidade de vêr e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo d'harmonia nas fallas.
--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé de suspiros. N?o é t?o, bonito?
--Formoso, minha senhora.
--E estas saudades, n?o s?o t?o lindas?
--Muitissimo. Saudades... as fl?res symbolicas dos que soffrem; dos que, como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperan?a de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento, um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas vezes, triste.
--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?
--Se tenho!...
--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.
--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.
--Sim, admira-se?
--E com raz?o. Pois V. Ex.a, cercada de todas as commodidades da vida, dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, formosa, permitta-me V. Ex.a esta verdade; vendo realisados todos os desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.a, que é, que deve realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos olhos proprios, confessa que sente saudades, e n?o ha de querer que eu, exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e embellezam, me admire e espante d'essa confiss?o?
--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem n?o sei de que, para lhe fallar a verdade.
--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.a diga antes que tem desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.a, na idade florida dos amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expans?es e dos sonhos formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas d'essas melancholicas florinhas, que s?o, ent?o, como pequeninas nuvens no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.
--N?o é isso, disse Magdalena levemente contrariada. N?o é isso, porque eu nunca amei.
--Ah! V. Ex.a nunca amou?
--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.
--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.a tem, s?o desejos de amar e ser tambem amada.
--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, grandes e formosos olhos.
--E acreditaria V. Ex.a no amor do primeiro homem, que ousasse render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?
--Conforme. O cora??o é que havia de decidir.
--E o cora??o de V. Ex.a n?o lhe diz nada? n?o lhe lembrou ainda um nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu affecto?
--Já.
Luiz estava pallido e tremulo de commo??o.
--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.
--Que tinha! era muito feliz, era?
--Se era, minha senhora! muito! muito!
--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.
--Oh! com delirio até!
--Pois ent?o n?o dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo muito!
E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando que alguem a ouvisse.
Crean?a!
Que commo??es a n?o abalaram n'aquelle momento! que agita??o n'aquelle seio t?o estreito, agora, para as ondula??es do cora??o, que tantas fl?res estava desabrochando!
Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um homem a impressionava.
O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!
Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma e outra, e come?ou, n'uma como vis?o phantastica, a vêr diante de si um horisonte illimitado de felicidades sem fim!
Que dia aquelle! que dia t?o venturoso! D'um lado os beijos carinhosos da fortuna, do outro, as fl?res magicas do amor d'um seio de virgem!
Eram t?o violentas as commo??es que o abalavam que apegas poude murmurar:
--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que n?o me engane nunca!
--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha m?e!..
E embebidos nas do?uras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para um dos angulos do jardim.
Sentaram-se como que machinalmente.
Magdalena voltava e revoltava entre as suas m?os mimosas e pequeninas um vi?oso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e arrojava depois ao espa?o as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do fumo aspirado.
Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que inebriavam.
E o p?r do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde, come?avam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como duas juritys.
--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade para Magdalena.
--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?
--Sempre que n?o haja quebra de conveniencias.
--Conveniencias? interrogou Magdalena.
--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.a que a minha presen?a muito frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu n?o desejo, nem devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito, talvez n?o approve esta affei??o, que come?a a prender-nos hoje.
--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.
--Em todo o caso n?o a descubra V. Ex.a por ora, n?o?
--N?o.
---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.a, ou se mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua familia?
--Despedil-o-ei.
--Agradecido, minha senhora.
--E olhe, quando n?o possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas, sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembran?as d'este dia!
--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?
--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.
--Muito bem. Agora retiro-me que s?o horas. Levo-a a V. Ex.a gravada nos olhos, e no cora??o.
--Fa?a-me ainda uma coisa, faz?
--Tudo, minha senhora.
--Deixe as excellencias com que me trata e mostre-me mais confian?a.
--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.
--Até breve... Luiz!
E apertaram-se as m?os n'uma effus?o de grandissimo sentimento, e separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e impressionados.
Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.
Jorge deixou depois a filha e sahiu.
Magdalena ficou só.
Nas salas havia aquella meia escurid?o da hora melancholica da transi??o do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas.
Magdalena foi sentar-se ao piano. N?o ia tocar, ia fazer mais, porque ia gemer saudades com aquelle amigo.
As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde nunca tinha subido.
As m?os formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome:
--Luiz.
E t?o embebida estava, t?o embrenhada jazia n'aquelle sonho que a dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma das portas.
O negro parou n'uma contempla??o, que era a maior prova do seu culto por Magdalena. Mas ao vel-a assim t?o preoccupada, ao parecer-lhe triste, approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affei??o a transparecer-lhe na voz:
--Ainda está triste a minha filha?
Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:
--N?o, cabinda. Agora penso na felicidade.
--E o branco?
--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o cora??o.
--Mas a senhora mo?a é ainda a filha do cabinda!
--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito!