Uma vis?o pouco sobrenatural
O espelho continuava a desviar-se, girando de vagar, descobrindo a porta secreta. De repente dois vultos embu?ados apontaram á entrada, e com passos subtís adeantaram-se cautelosos. Atraz d'elles, como sentinella no seu posto, ficou uma terceira figura com meio corpo na escurid?o e meio corpo frouxamente allumiado pelo escasso clar?o da lanterna, que trazia, a qual aclarava os tres personagens enroupados de mais para a esta??o e assás pesados e volumosos para passarem por espiritos.
-Dormem! Est?o apanhados! disse o primeiro em voz submissa.
-A luz?! respondeu o segundo. Aonde está o outro francez?...
-Ahi! Segure-o sem bulha. Este fica por minha conta!
-Bem!
Deram algumas passadas surdas, abriu o primeiro as cortinas da cama de Aubry, correu o segundo com a vista o leito deserto de Lassagne.
Recuaram. Os officiaes, n?o só n?o dormiam, como tinham desapparecido!
-Fugiram! exclamou o vulto mais alto, levantando a voz.
-Manuel Coutinho! Sr. Manuel Coutinho! gritou o mais baixo. Fomos sentidos. Os jacobinos pozeram-se ao fresco!
-Por onde? N?o póde ser! Procurem bem! accudiu o amante de Leonor, que era quem guardava a porta falsa.
-è verdade! Os nossos vélam! Fóra tudo está quieto!...
-De certo, sr. morgado! atalhou o capit?o-mór. A esta hora os drag?es est?o apanhados como coelhos na rede. Mas aonde se sumiram ent?o os homens?!...
N'este momento ouviu-se um silvo forte e prolongado da banda da estrada, e dispararam-se dois, ou tres tiros quasi debaixo das janellas.
-Que é isto? bradou Manuel Coutinho. Estaremos vendidos?
-N?o, meus senhores, n?o est?o! accudiu Aubry, soltando-se de repente das cortinas, que o escondiam, e cortejando com extrema urbanidade os conspiradores.
Ao mesmo tempo Lassagne apparecia aos umbraes da entrada do quarto grave e silencioso. As armas, que os officiaes traziam nas m?os, provavam, que vinham apercebidos e dispostos para um encontro.
Houve um momento de pausa, durante o qual os cinco personagens reunidos por modo t?o singular se mediram e encararam sem proferir palavra.
-Conversemos, senhores! disse por fim o sobrinho de Lagarde. N?o imaginam a impaciencia, que tinha em os encontrar aqui. Andei doze leguas a cavallo, sem resfolegar, e que leguas, santo Deus! para ter o gosto de conversarmos cinco minutos!...
-Talvez se arrependa! bradou o morgado, carregando o sobrolho, e fazendo o gesto de buscar no cinto as pistolas.
-Nada de imprudencias, por quem é!... atalhou Aubry, de repente serio, e apontando as suas, ac??o que Lassagne imitou serenamente. N?o comecemos a narra??o pelo epilogo, erro crasso de rhetorica, segundo affirmava o padre Laly, sabio professor do meu collegio. Tambem trazemos com que responder, e menos mal. Deixemos, porém, as explica??es de polvora e bala para o fim se n?o nos entendermos. é melhor!...
-Pois bem, seja! redarguiu Manuel Coutinho. Caímos em uma emboscada, e...
-E n?o sabe se o feiti?o se virou contra o feiticeiro? interrompeu, rindo, o official. Parece-me que sim. Queiram sentar-se, meus senhores...
-Estamos bem! O que temos a dizer em duas palavras se acaba!... exclamou o capit?o-mór, que as maneiras polidas, mas zombeteiras d'Aubry irritavam excessivamente.
-Quem sabe?! tornou o mancebo, fitando-o com ironia, e torcendo entre os dedos e com gra?a as guias do bigode. A mobilia n?o é opulenta, mas as cadeiras chegam. De mais soldados com pouco se contentam. Queiram sentar-se. Muito bem! proseguiu depois de os ver sentados. Posso saber o motivo a que devo a felicidade d'esta visita? O meu nome é Armand d'Aubry, capit?o do 1.o de drag?es da guarda...
-Ah! exclamou Manuel Coutinho com certo sobresalto, Armand d'Aubry?!...
-Exactamente. O meu companheiro chama-se o sr. Le?o Lassagne, tenente do mesmo corpo, conhecido dos austriacos, prussianos e hespanhoes pela firmeza dos golpes e certeza do tiro...
Aqui o morgado e o capit?o-mór enfadados da prolixidade dos cumprimentos olharam um para o outro encolhendo os hombros. Manuel Coutinho, frio e reportado, ouvia, sem desafinar a express?o intrepida do rosto, este prologo cerimonioso de Aubry, n?o se dignando mesmo patentear o menor indicio de impaciencia.
O official francez percebia maravilhosamente tudo o que passava pela mente dos interlocutores, porém, simulando ingenuidade maliciosa, divertia-se em ter suspensa aquella anciosa curiosidade.
-Ser-me-ha licito, agora, que dei conta de mim e do meu amigo, perguntar o nome dos cavalheiros, que nos honram com a sua presen?a?...
-De certo! redarguiu Manuel Coutinho, inclinando-se levemente. Se nos cobrimos com as trevas da noite é porque somos opprimidos, e ainda n?o soou a hora de combatermos á luz do dia. Este senhor é o morgado de Penin, administrador de uma das casas mais nobres e ricas da provincia. Aquelle é o senhor capit?o-mór de ordenan?as de Leiria, Manuel Carranca, pessoa distincta e estimada pelo nome e qualidades... Eu chamo-me Manuel Coutinho, appellido n?o de todo obscuro, e fui desligado do regimento, aonde servia como capit?o... Bem vê, sr. d'Aubry, que está em excellente companhia, e que, apezar da hora, n?o entrou em nenhuma caverna de salteadores...
-Oh! Pelo amor de Deus! Quem se lembrou nunca de tal?!... Seria importuno se insistisse em perguntar ainda a raz?o, porque tres cavalheiros t?o amaveis nos fizeram o favor de perturbar o nosso somno, roubando aos espectros d'este palacio o segredo das vis?es theatraes?
-Nada mais justo! retorquiu o amante de Leonor. Precisavamos da casa para nós, e n?o queriamos ser vistos, nem seguidos...
-E ent?o, como o sr. Aubry muito bem disse, occorreu-nos roubar aos espectros o segredo d'esta porta. Vinhamos...
-Prender os dois officiaes que julgavam adormecidos, na boa fé da hospitalidade portugueza?!...
-Hospitalidade for?ada! é verdade, vinhamos, deplorando que a guerra nos coagisse a incommodar duas pessoas, que tanto careciam de repouso. Felizmente d'esse remorso estamos absolvidos. N?o interrompemos o somno de viajantes cansados; encontrámos a vigilancia de militares affeitos a todos os rebates dos campos...
-Mil vezes obrigado por tanta benevolencia! replicou Aubry, pagando ironia com ironia n'este duello cortez, que espantava o morgado e o capit?o-mór, mais propensos aos argumentos de ferro e pau, do que aos tiros dos epigrammas.
-E agora? interrogou Aubry, cuja alegria se apagou, convertida subitamente a express?o risonha em aspecto quasi severo.
-Agora?! redarguiu Manuel Coutinho, levantando-se com os seus amigos, e cortejando-o em ar resoluto. Agora, como n?o podemos espa?ar mais a partida, e decidimos vencer todos os obstaculos, offerecemos ao sr. d'Aubry e ao sr. Lassagne as nossas desculpas pelo incommado, que lhes causámos, pedimos-lhes que n?o nos disputem a passagem, e como seria mais do que imprudencia deixar na rectaguarda inimigos t?o valentes á testa de uma for?a, vemo-nos constrangidos a rogar-lhes, que nos entreguem as suas espadas...
-Ah! atalhou o official com um sorriso amargo. N?o pede pouco. Pelo que vejo chegámos...
-áquellas explica??es mais vivas, accudiu o mancebo, de que nos falou no principio da nossa conversa??o... Creia que sinceramente o sinto...
-Oh! N?o se afflija, por quem é! Estamos mais longe d'isso, do que cuida. Pois, na realidade suppoz, que dois officiaes armados e apercebidos haviam de ceder deante de tres homens?...
-Somos dez e quasí todos militares. N?o ha deshonra. Veja!
De feito os outros conspiradores attrahidos pela demora acabavam de apparecer á porta secreta, e, entrando, rodearam em um instante os dois francezes, socegados e pacificos, como se tudo fosse pura fic??o theatral.
-Agora nós!... Ou?a! observou d'Aubry. Lassagne n?o s?o os passos do sargento Roberto? Abri a porta!
D'ahi a um momento assomava á entrada o vulto colossal e herculeo do novo protogonista, o qual parou aprumado e hirto, com a m?o na palla da barretina, e o rosto invadido quasi todo por bigodes e suissas enormes, aguardando de pé, respeitosamente, que o interrogassem. Os conspiradores eram todos olhos e ouvidos.
-Quantos prezos Roberto? perguntou o official.
-Doze! Meu capit?o!
-Armados?
-Até aos dentes.
-O meio esquadr?o?
-Parte cérca o palacio, parte está na ponte e á b?cca da estrada do Cartaxo.
-Houve resistencia?
-Dois tiros, mas n?o feriram ninguem.
-Aonde está o lavrador d'esta casa?
-Fugiu pelas vinhas com outro paizano.
-Que ordens déstes aos drag?es?
-As vossas. Fogo sobre quem tentasse fugir pelas janellas, ou pelas portas. Quartel a quem se rendesse.
-Bem! Desembainhae a espada. Vigilancia! Prompto á primeira voz! Meus senhores ouviram? accrescentou, virando-se para os cavalheiros portuguezes, e cruzando os bra?os.
-Tudo! respondeu o coronel de milicias Isidoro Pinto Gomes, adeantando-se, e fitando no mancebo os olhos placidos e firmes.
-E o que fazem?
-O mesmo que o senhor official de certo contava fazer... Passamos! retorquiu o coronel sem elevar a voz, e t?o manso de gesto e de physionomia, como se estivesse tractando de cousas indifferentes.
-Por entre as balas e as espadas dos meus drag?es?!...
-Tanto vale aqui, como mais adeante! replicou intrepidamente Manuel Coutinho. Principiamos vinte e quatro horas mais cedo.
-Muito bem! Mas de que serve verterem tantas pessoas illustres o sangue debalde? A honra fica salva, e o sacrificio...
-é inutil, ia dizer? Perd?e-me a interrup??o, sr. d'Aubry! A honra do soldado talvez ficasse salva perante o numero, porém a de portuguezes, que juraram pelejar pela patria, de certo n?o! Viemos aqui para morrer por ella!... Se tivessemos por nós a for?a usavamos d'ella sem escrupulo... Fa?a o mesmo. A fortuna traiu-nos aos primeiros passos. Que importa? Estas armas empunhadas para sermos livres n?o h?o de ser-nos arrancadas sen?o com a vida...
-é a sua ultima resolu??o?
-é!
-E a de todos nós! ajuntou o coronel, apertando a m?o do mancebo, animado assim como o morgado, o capit?o-mór, e os outros portuguezes pela eminencia do perigo.
-Muito a meu pezar sou obrigado a opp?r-me. Lassagne! Roberto! Firmes! nem um passo, senhores! exclamou. Queiram atirar primeiro! Damos-lhe o partido que nossos avós deram aos inglezes em Fontenoy!...
-Talvez houvesse meio de evitar!... murmurou ao ouvido do coronel a voz tremula de fr. Jo?o, cujo rosto apopletico convertêra de repente em pallidez suspeita as assanhadas c?res.
-Nenhuma! respondeu sêcco e irado Isidoro Pinto. Se tem medo retire-se, entregue-se, fa?a o que quizer, mas deixe-nos! Vamos! Abram-nos caminho, senhores francezes! Esta é a nossa terra, e havemos de passar, ou acabar n'ella!
E o velho official, venerando pelos cabellos brancos e pelo ardor nobre, que lhe restituia os brios juvenis, com a espada na direita, e uma pistola engatilhada na esquerda, seguido dos companheiros, avan?ou contra Lassagne e Roberto, em quanto Manuel Coutinho por calculo, ou por acaso, se achava deante do capit?o d'Aubry. O conflicto parecia inevitavel.
-Logar! bradou o mancebo portuguez com um gesto de amea?a.
As pupillas do official francez despediram dois relampagos; o seu rosto tomou terrivel aspecto. Foi só por um instante. Inclinando a espada, e reprimindo a colera, disse ao adversario pasmado da mudan?a:
-Agrade?a a Deus! A lembran?a de um anjo suspende-me o bra?o! Alto! accrescentou em voz sonora e cheia. Um momento! Senhor Manuel Coutinho sabe quem eu sou?
-é o sobrinho do intendente Lagarde, do homem que...
-N?o diga mais. Sei que está offendido e que tem raz?o de o estar. Mas!... A roupa suja lava-se em familia. é o noivo de D. Leonor? Aquelle a quem ella prometteu e jurou amar?...
-Sou, porque?...
-Porque fui sem o saber causa innocente de suas lagrimas. Sinto encontral-o aqui. Podia, se fosse vil, prevalecer-me do acaso. Quero que me fique conhecendo. Quero mostrar-lhe que sou digno do honrado nome de meu pae. Se o deixar saír para onde vai?
-Para o exercito de sir Arthur Wellesley. é lá o meu posto. Replicou Manuel sem hesitar.
-Adivinhava a resposta. Pode ir! Lá nos encontraremos como inimigos, mas como inimigos que se estimam.
-E os meus companheiros? perguntou o mancebo pasmado de tanta generosidade.
-Os seus companheiros?! Bem! é justo! Que se recolham com os espectros, e que esperem. Deixem-me partir a mim e aos meus drag?es. Lassagne e Roberto s?o discretos e fieis. Se for preciso dir?o que n?o viram nada.
-A sua m?o sr. d'Aubry!? insistiu Manuel Coutinho commovido e com os olhos humidos. Quero apertal-a cheio de admira??o pela grande alma, que se nos acaba de revelar. Em todas as occasi?es, succeda o que succeder, lembre-se de que tem um amigo, um irm?o em mim!
-Menos no campo de batalha? accudiu o official sorrindo.
-Lá mesmo! Se as armas lhe forem contrarias....
-Obrigado, mas!... E quem sabe?! A fortuna póde cansar-se um dia. Uma pergunta. Paulo de Azevedo!?...
-Continua preso e vae ser julgado.
-Meu tio enganou-me ent?o? é o mesmo! Ainda estamos a tempo. Hei de cumprir a minha promessa. Sr. Manuel Coutinho, se n?o tornarmos a ver-nos, diga aos seus amigos, diga a D. Leonor... que fiz o meu dever. Agora adeus. Os seus amigos que se retirem já! A scena dos espectros, ajuntou volvendo ao gracejo proprio da indole jovial, ia-se tornando tragica. D'aqui a duas horas parto. Siga depois a sua sorte, e n?o se ria muito de mim, quando se recordar dos lances d'esta noite. A proposito, aquelle reverendo que vejo tremulo entre os seus, é o capell?o da guerrilha? Parece-me pouco bellicoso!
E voltando-se para Lassagne e para o sargento, immoveis assim como os conspiradores, em quanto durára a conversa??o com Manuel Coutinho, d'Aubry disse-lhes com o seu ar de riso habitual:
-Meus amigos, estes senhores, que por muito enroupados no ver?o tomavamos por homens friorentos, s?o na realidade espectros, e v?o desapparecer. Já lhes agradeci o favor da visita, e depois da explica??o, que acabo de ter, creio que se convenceram de que era perigoso passeiar fóra de horas por este mundo. Lassagne! Logo vos explicarei o enigma. Roberto! Mandai soltar os presos da granja. Partimos dentro de duas horas. Senhores fantasmas! A sua visita causou-me o maior prazer, mas espero que seja a ultima. Muito boas noites! Queiram dar recados da minha parte ás almas de meus parentes, que encontrarem no purgatorio!
Um momento depois Lassagne e d'Aubry achavam-se outra vez inteiramente sós nos quartos, o tenente abra?ava o seu companheiro d'armas pelo nobre rasgo, que ennobrecia mais o seu caracter, do que uma victoria. A magnanimidade é a mais alta e a mais sublime das virtudes do guerreiro.