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Chapter 4 No.4

De um argueiro um cavalleiro

As vozes, o espanto, o terror, e o tumulto das ruas, todas as apparencias, em fim, inculcavam a cidade sublevada e as apprehens?es de Lagarde confirmadas.

O denodo e a presen?a de espirito de Junot n?o o atrai?oaram n'este lance. Descendo os degraus da escadaria á pressa, emquanto o intendente da policia se emparedava e calafetava no gabinete secreto, o duque de Abrantes atravessa intrepido por meio das ondas revoltas do povo, rompe pelo centro d'ellas até á egreja, corre á sacristia, e á for?a de estimulos e persuas?es consegue arrancar d'aquelle asylo pouco seguro o prelado e os sacerdotes, que tremem de medo, e que julgam chegada a sua ultima hora.

Chamando depois os padres, os fidalgos, e os cavalleiros das ordens militares e animando-os com as palavras e o exemplo, diz-lhes:

-De que se receiam? O que temem? N?o estou eu aqui? N?o vêem os meus soldados firmes? Continuemos a prociss?o.

Recompondo, do modo possivel depois, o prestito disperso manda saír o pallio, e acompanha-o a pé com o seu estado maior.

Patrulhas fortes circulam ao mesmo tempo, e dispersam os mais pequenos ajuntamentos. O regimento 86.o marcha com tanta precipita??o, que leva o p?o espetado nas bayonetas por carecer de vagar para comer o rancho!

Qual f?ra, porém, a origem do estrondoso successo? Nascêra de planos concertados pelos amigos da independencia, como cuidaram os francezes, ou rebentára espontaneo da agita??o e do odio comprimido dos habitantes de Lisboa? Nem uma, nem outra cousa. Um gr?o de areia fez parar a roda. Um sopro desenfreou o temporal. A verdadeira causa do arruido colossal do dia 16 de junho de 1808 foi uma imprudencia policial do honrado sargento Cabrinha, e um esquecimento de lingua do seu virtuoso assessor Gaspar Preto, por alcunha o Sapo. Estes dois personagens, que n?o cabiam em si de vaidade, desde que os louvores do intendente geral da policia inflammaram o seu zelo pelo servi?o da sua magestade o imperador e rei, succumbiram um instante á fraqueza dos grandes homens, e estiveram a ponto de fazer nadar a capital em sangue. Eis como se passou o notavel episodio.

Já sabemos que o Antonio da Cruz, o Manuel Sim?es da Aramanha, e o Jo?o da Ventosa, obedientes como bons patriotas ás instancias do morgado de Penin, capit?o de milicias de Rio Maior, tinham feito a jornada de companhia, e por um triz n?o apanharam em Villa Franca o sargento e o seu ajudante, que partiam para os denunciar a Lagarde. Os tres em Lisboa alojaram-se em uma casa conhe Já sabemos que o Antonio da Cruz, o Manuel Sim?es da Aramanha, e o Jo?o da Ventosa, obedientes como bons patriotas ás instancias do morgado de Penin, capit?o de milicias de Rio Maior, tinham feito a jornada de companhia, e por um triz n?o apanharam em Villa Franca o sargento e o seu ajudante, que partiam para os denunciar a Lagarde. Os tres em Lisboa alojaram-se em uma casa conhecida do lavrador da ponte da Asseca, regalaram-se de bom vinho e de bons boccados, e esperaram resignados que a causa nacional lhes pedisse o auxilio do bra?o ou do cajado.

Na madrugada do dia da prociss?o, muito antes do sol fóra, já o triumvirato ribatejano palmilhava as ruas com a curiosidade mais inoffensiva, e apenas se abriu a primeira taverna uma copiosa liba??o desjejuára os tres vastos estomagos, montados em diamante.

Come?ou a concorrer gente, acabou a parada no Passeio publico, e desfilaram as tropas. Davam nove horas, e o fazendeiro da Aramanha, interpellando o Jo?o da Ventosa, perguntou alto aonde era o almo?o, e se teriam tempo de o engulir antes da prociss?o? A resposta foi sumirem-se por uma travessa escusa, entrarem para uma especie de furna escura, immunda, e humida, e sentarem-se em mochos vacillantes á roda de uma mesa, cuja toalha bem mostrava nunca haver deixado os len?oes de vinho. Chiavam as appetitosas iscas de figado, e o cheiro exhalado das enfumadas frigideiras convidava o olfato dos freguezes.

Quando os tres se levantaram d'este banquete plebeo, a prociss?o andava já no Rocio, e o Deus Baccho tambem lhes fazia a elles mil travessuras na vista e no equilibrio. Metteram hombros ao apert?o, foram rompendo a murro e a calcadellas, mas á esquina da travessa da Assump??o encontraram resistencia tal, que se viram obrigados a ceder.

As bandeiras dos officios fluctuavam nos ares, e uma linha cerrada de bayonetas, pouco condescendentes, n?o consentiu que os provincianos a atravessassem. O lavrador e seus amigos rosnaram algumas pragas, mas tiveram de as engulir em sêcco e de ficar.

Antonio da Cruz, guapo e decidido, trajava bem suas galas domingueiras, e dava-se ares de mo?o mui desempenado debaixo das abas do chapéu novo de Braga. Vendo-o assim alegre e pimp?o, meio encostado ao cajado, uma saloia, fresca e vi?osa como as rosas do campo, pediu-lhe licen?a de passar para deante afim de ver melhor, e o moleiro officioso fez-lhe logar immediatamente, acto de cortezia recompensado por um sorriso, que descobriu indiscretamente as trinta e duas perolas, que escondiam uns bei?os mais vermelhos, do que bagos de rom?. Ao mesmo tempo o Jo?o da Ventosa e o Manuel Sim?es, encontrando-se hombro a hombro com um marchante conhecido, homiziavam-se com elle a furto no retiro de uma tasca chamada loja de bebidas, para onde os iniciados se introduziam por um corredor estreito, disfar?ado no fundo da entrada da casa, deante da qual se achavam.

Até aqui corrêra tudo admiravelmente, mas o demonio depressa as arma. O sargento, o Sapo, e uma quadrilha de beleguins da policia seguiam de longe o triumvirato innocente, desde as portas do Passeio publico. Haviam-n'o perdido de vista, quando á voz do almo?o o robusto lavrador capitaneou a evolu??o, que levára os convivas ao sujo templo, aonde o Comus enfarruscado das iscas os detivera duas horas.

Cabrinha recebêra ordem expressa de Lagarde de se apoderar dos tres amigos, e de os hospedar na cadeia, mas f?ra egualmente admoestado para obrar com finura e sem ruido. Era a raz?o porque n?o se atrevêra a empolgal-os na rua, e no meio do povo, que seus gritos podiam alvorotar. Quando lhe desappareceram, como se a terra se tivesse sumido com elles, scismando um instante, disseminou logo depois a quadrilha em duas mangas. Uma partiu para o Rocio e foi postar-se á esquina do arco do Bandeira. A outra conservou-se na rua Augusta, vigiando-a. O Sapo, trepado em um frade d, trepado em um frade de pedra, servia de vedeta.

O Antonio da Cruz estava todo embebido nos colloquios e requebros de seu galanteio com a saloia, quando sentiu de repente, que lhe batiam no hombro. Virou-se, e deu de rosto com um sujeito magro e grelado, de chapéu arrombado, cal??es espigados, casaca de c?r cambiante, e sapatos risonhos, que lhe disse muito manso ao ouvido, travando-lhe do bra?o.

-Está preso! Venha commigo. N?o fa?a bulha!

Ao mesmo tempo outro escudeiro, baixo, roli?o, olhos encarnados e chorosos, e nariz expansivo, cravejado de rubis assanhados, deitava-se-lhe ao outro bra?o, ao bra?o do cajado, pendurando-se quasi n'elle. N'um rapido relancear o moleiro descobriu a poucos passos, cozidos com as hombreiras da porta, por onde se tinham escoado os seus amigos, o sargento, o Sapo, e um terceiro quadrilheiro. Esta appari??o revelou-lhe que era serio o caso.

Soltando um assobio forte e prolongado, signal aos companheiros para se juntarem e accudirem, o Antonio, sem accusar a inten??o na physionomia, sem levantar voz, ou grito, por um movimento secco dos hombros saccudiu de si os dois malsins, e empunhando-os já no ar pela gola assás madura das casacas cossadas e transparentes, cuspiu-os das m?os, colhidos em flagrante, cada qual para sua direc??o. Ao arremesso momentaneo, o homem esguio e grelado, por ser mais leve, subiu mais alto, e veiu caír por eleva??o sobre as costas de um massi?o prebendado, com os olhos escudados de oculos e palla verde, o qual estava explicando a duas sobrinhas boqui-abertas a lenda aurea de S. Crispim, pintado na bandeira dos sapateiros. O agarrador, grosso e baixo, mais pesado, voou rasteiro, deixando metade da gola, as costas, e uma aba da casaca no punho do moleiro, e foi bater, como pella despedida, no vulto enorme de certa dona viuva e namoradeira, notavel pelo toucado impossivel e alteroso, a qual occupava os ocios em tiroteio amoroso com um alferes da brigada da marinha, pessoa corpulenta, for?osa, e de maus narizes, cuja carranca um par de bigodes hirsutos e alastrados tornava ainda mais temerosa.

O prebendado com a pancada afocinhou o ch?o, n?o sem trazer comsigo tambem de golpe o tambor mór de um dos regimentos, que por acaso seus bra?os extendidos empolgaram na ancia de se amparar. O militar francez, verdadeiro Alcides, arqueava n'aquelle instante o corpo com donaire, e dobrado para traz, firme nas pontas dos pés, aparava com a palma aberta o couto do bast?o volteado com gra?a. A dona, impellida pelo esbirro-tortulho, soltou um grito agudo, desabando de chofre sobre o peito do seu Adonis. O volume era colossal, e o alferes desapercebido, n?o podendo suster de pé posto o pezo d'aquella montanha de ternura, que em cima d'elle o alluia, apalpou a cal?ada com as costas, mastigando uma blasphemia por entre as guias dos bigodes.

O drama complicou-se ent?o. Advertido pelo signal, o Jo?o da Ventosa deixára em meio o monstruoso caneco de vinho de Torres, que saboreava, e saltou da tasca vermelho e inflammado. A primeira figura, com que a fortuna o obsequiou, foi a figura patibular do sargento Cabrinha, o qual primeiro se offereceu ás iras do lavrador. Um murro capaz de fulminar um touro prostrou o espi?o sem sentidos sobre o lagedo. Nem o sacrificador, nem a victima tiveram tempo de proferir palavra. Ao mesmo tempo o marchante, que vinha atraz, colleando os bei?os com a lingua, esbarrando com o quadrilheiro entufado em defeza do seu superior, despediu-o nos bicos dos sapatos, e remetteu-o ao meio da rua, aonde se espalmou sobre os pés gotosos de um frade arrabido, mestre e prégador, cujas rezas nasaes paralyzou o baque repentino.

Finalmente, o Manuel Sim?es da Aramanha, que saíra em ultimo logar, como homem de consciencia, porque n?o quizera deixar o copo cheio, encarando com o Sapo, que se fazia pequeno como um verme a ver se escapava, calado, mas terrivel de gesto, alongou o bra?o com a rapidez e a for?a irresistivel da mola de a?o, que resalta, e aferrando o aborto pela nuca, com um murro metteu-lhe os dentes e os queixos pelas guelas, e metade a rastos, metade por seu pé, seguiu com elle atordoado e alagado em sangue o rasto dos companheiros. Os tres cortaram depois intrepidos pelo meio da prociss?o alvoro?ada, por entre as alas de tropa baralhadas, e pelo centro dos magotes de povo em remoinho, e entranhando-se por travessas e bêccos desertos esquivaram-se modestamente aos justos applausos de suas proezas.

Cabrinha tornando a si, e os beleguins moidos e estirados, soltavam gritos espantosos, bradando pelo soccorro da justi?a. Respondeu-lhes a bengala magistral do tambor mór, e a bainha de ferro da espada do alferes, vingando com raiva incansavel o riso e as vaias da queda desastrada no dorso dos delinquentes. O mais agil dos dois, o homem-grelo, fulo de dor, e cego de medo, para se furtar ao chuveiro de bastonadas, que n?o cessava de lhe afagar as costellas, atirou-se de um pulo, ao meio do prestito, abalroou um desditoso cruciferario banhado em suor, e encontrando-o em cheio, rolou com elle. Amotinou-se o vulgo, ferveram juras, amea?as, e punhadas, e um patriota, que espreitava a occasi?o, lembrou-se de a?ular a desordem, exclamando: ?Fujam! fujam! Ahi vem os inglezes!? N?o foi preciso mais. O espanto e o terror obraram prodigios. A multid?o precipitou-se, e o tumulto tomou as propor??es, que sabemos.

Em quanto nos quarteir?es da cidade baixa se representavam estas scenas, corriam os tres auctores do motim direitos ao caes hoje chamado da Areia. Chegados em poucos minutos viram uma falua do Riba-tejo de verga de alto, e o arraes, seu conhecido, metteu-os dentro sem mais perguntas. D'ahi a pouco navegavam rio acima, e o Sapo, sempre hypocrita e vil, estorcia-se aos pés dos inimigos triumphantes, chorando e supplicando, com prantos mulherís! Mas o Manuel Sim?es apontava-lhe para a cicatriz da bala, com que o ferira na cabe?a, o Jo?o da Ventosa encolhia os hombros, e o Antonio da Cruz, grave e conciso, como um juiz do crime, mandava-o calar, jurando-lhe que a arvore e a corda estavam promptas, e n?o podiam esperar, e que a sua palavra, uma vez dada, havia de ser cumprida. O arraes e os marujos, um ao leme, e dois á proa, assobiavam como se n?o vissem, ou n?o ouvissem nada.

O vento soprou de fei??o, e ás dez horas da noite a falua atracava a Villa Franca.

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