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Chapter 10 No.10

Ralham as comadres descobrem-se as

verdades

Voltemos á mesma sala, onde assistimos ha dias nos pa?os da Inquisi??o ao conselho de governo, presidido pelo duque de Abrantes. As figuras, que vamos encontrar, s?o ainda as mesmas. Só falta o general em chefe já a caminho para se collocar á testa do exercito.

á direita da sua cadeira vazia, senta-se o conde da Ega, nomeado conselheiro do governo, e encarregado da pasta da justi?a por decreto de 1 de julho, em virtude da demiss?o do Principal Castro. á esquerda, mas de pé, e com indicios evidentes de summa agita??o, está Lagarde, n?o só pallido, mas verde de bilis concentrada, todo convulso, e amarrotando com grande ira um papel entre as m?os. Francisco Antonio Herman, sempre apurado no trajo e primoroso nas joias e galas pessoaes, corre pela vista, quasi sem a ler, uma folha coberta de algarismos, resumo pouco agradavel do ultimo balan?o do erario. Luyt, com a barba quasi em cima da mesa, e os oculos assestados, faz voar a penna em linhas miudas, enchendo varios diplomas e interrompendo-se com frequencia para menear a cabe?a em ar de hesita??o, ou para espreitar por baixo dos oculos a posi??o e os modos das pessoas, que o rodeiam.

Dois personagens mais completam o quadro. O primeiro é o capit?o Magendie, de grande uniforme, passeando silencioso, e medindo o aposento em largas passadas de um a outro extremo. O segundo, que apresentamos ao leitor pela primeira vez, chama-se mr. Juffré, merece a reputa??o de estelionario, que o flagella, passa com raz?o pela harpia mais ávida de todo o bando de abutres, que espica?am o corpo quasi moribundo de Portugal, e honra-se e faz vida essencialmente de ser cunhado de um general.

No momento, em que entrámos, a discuss?o, acalorada, tinha-se interrompido de salto com a chegada de Lagarde, o qual rebentára do antro da policia grávido de cuidados, de apprehens?es, e de pessimas noticias. Apenas acabou de balbuciar o prologo da elegia dos infortunios consummados e das desgra?as imminentes, alguns dos ministros, como petrificados, sumiram-se nas cadeiras, pozeram a vista no ch?o, ou cairam n'aquellas sombrias medita??es ácerca da fatalidade, de que o vulto dramatico de Hamlet é a personifica??o sublime.

O menos sensivel na apparencia aos revezes e receios era Herman. O sorriso, é verdade, tornou-se-lhe contrafeito, as faces desmaiaram um pouco, e o brilho das pupillas esmoreceu visivelmente; porém nenhum outro symptoma accusou n'elle enleio, ou perplexidade. Magendie, official intrepido, mas pouco affeito a dissimula??es diplomaticas, tinha exhalado a primeira explos?o de colera, descarregando uma punhada furiosa sobre o bofete, e ornando o gesto violento de uma rajada de pragas maritimas de sabor alcatroado excessivamente forte para o paladar e delicadeza nervosa do auditorio. Partiu depois direito á parede de fundo da casa, encetando o passeio peripatetico, annotado de murmurios surdos, em que viemos colhel-o.

O ministro da guerra e da marinha, o incomparavel Luyt, vivia em um resfriamento perenne, e era quasi impossivel concluir cousa alguma da express?o apathica e insignificante, por calculo, do seu rosto immovel e descorado. Escrevia, olhava, tornava a escrever, sacudia o arieiro, e sobretudo n?o perdia palavra, nem movimento dos collegas. Dir-se-hia um automato funccionando em quanto lhe durava a corda. Quem n?o queria, nem sabia enganar o observador menos perspicaz era de certo o conde da Ega. O honrado fidalgo retratava no semblante, sem o menor disfarce, a tragedia do partido, que tinha abra?ado. Ignoramos se come?ára já para elle o arrependimento, e se lamentava a docilidade, que o fizera mais francez, do que alguns ministros de Napole?o; mas ousamos asseverar que as faces jaspeadas de malhas lividas, o luto das fei??es contraídas, e o profundo desalento, que respirava a sua mudez glacial, exprimiam uma grande agonia moral, e equivaliam a um bilhete de pesames aos protectores, e a uma certid?o de obito passada á causa imperial na Peninsula!

Finalmente mr. Juffré, especie de pe?o fidalgo da c?rte do duque de Abrantes, verdadeira, mas rachitica estatua de Nabuco invertida, com bases de prata, e cabe?a de barro, ora sobre um pé, ora sobre o outro, recuava, pulava, e adeantava-se em saltinhos de pulga industriosa, com o chapeu na m?o direita, a bengala na esquerda, e dois len?os ricamente bordados e almiscarados a rebentarem pelos bolsos da casaca c?r de pinh?o.

Um risinho amarello, meio enfiado, tremia-lhe nos cantos dos labios, delgados e sumidos, revelando indiscretamente, que aquella b?cca voraz, era rasgada, como a do tubar?o de orelha a orelha. O nariz expansivo e recurvo, como bico de ave da rapina, quasi que arremettia com os bei?os, invadindo-os; e os dentes finos, juntos, e agudos, assimilhavam-se a duas serras parallelas.

An?o de estatura, enfeitado como uma imagem, recendente a aromas como um pivete, dir-se-hia a alma do Judeu de Veneza no estojo dourado de um pintalegrete de quarenta annos! As luvas estalavam-lhe nas m?os, os cal??es modelavam o algod?o que chuma?ava as coxas, e a meia de seda exgotava os poderes da elasticidade para n?o trahir, abrindo-se, o segredo da perna artificial d'este Nemorino em edi??o correcta.

A testa immensa e esguia, como que escorregava para a nuca, acabando aonde principiava o chinó, que, forcejando por ser louro, sahira, comtudo, quasi alaranjado, arqueando as sanefas graciosas do mais vistoso topete. Os olhos azues, da tinta das más porcelanas japonezas, volviam-se cheios de vivacidade, armando ciladas quasi constantes á formosura, ou á riqueza, duas conquistas em que seu dono os empregava com summo gosto. N'este momento, um véu de inquieta tristeza assombrava a sympathica physionomia de mr. Juffré. A vista penetrante e obliqua do homunculo estava de sentinella á leitura, de que o ministro Herman se distraía a miudo, e inculcava ao mesmo tempo a desconfian?a, e a cubi?a luctando com o medo e a avareza.

-Emfim! exclamou por fim Herman, sorvendo com pausa uma pitada. Até que temos os inglezes á porta!...

-Diga dentro de casa, e quasi senhores d'ella, que diz a verdade! redarguiu Lagarde meio suffocado. Ou?am o resto. Ainda n?o li tudo. Vejam como Wellesley e Cotton rematam a proclama??o: ?O nobre esfor?o contra a tyrannia e usurpa??o da Fran?a será sustentado pelas for?as unidas de Portugal, Hespanha e Inglaterra; e para o exito feliz de causa t?o justa e gloriosa os designios de sua magestade britannica s?o eguaes aos que nos animam?... Ah! proseguiu animando-se, os traidores sabem que nos achamos sobre um barril de polvora, e lan?am fogo ao rastilho, calculando pelo relogio a hora de nos fazerem voar!...

-Mas a policia apanhou de certo os agentes, e arrancou as proclama??es? accudiu Luyt sem levantar a cabe?a, nem a penna do papel, e com a accentua??o fria e nasal, que lhe era propria.

-A policia, senhor Luyt, atalhou o intendente colerico, fulminando o ministro com a vista accesa em chammas, a policia n?o possue o dom de ubiquidade, nem os cem bra?os de Briareu... Esta madrugada todas as esquinas amanheceram forradas de pasquins e de impressos incendiarios. Arrancaram-se muitos. Pois bem! á tarde já lá estavam outros!...

-Se n?o serve ao menos para isso, de que vale ent?o a policia? repetiu o fleugmatico ministro da marinha, continuando a escrever.

-De que serve?!... Serviu, bradou Lagarde enfurecido, para n?o cairmos umas poucas de vezes nos la?os dos conspiradores! Inaudita pergunta! De que serve a policia! De accordar os que dormem, de velar pela ordem, de conter e reprimir os maus sentimentos de uma popula??o que nos detesta. Achais pequeno milagre conservarmos ainda Lisboa, quando o reino todo se levanta e os inglezes marcham contra nós?!... De que serve a policia?! é boa! Serve para isto!...

Ao mesmo passo mr. Juffré, vendo Herman pousa a folha coberta de algarismos, interpellava-o em tom meio submisso, meio agastado.

-Ent?o?! O que diz?...

-é exacto. Est?o escripturados e dados em entrada por emprestimo, a trinta dias, vencendo juro de 15 por cento os seus cento e trinta contos...

-Bem! Agora a ordem para os receber do erario?...

-é inutil.

-Inutil! Porque?! interrogou o argentario sobresalto.

-Porque no erario n?o ha real. Todo o dinheiro, que existia, levou-o o duque na caixa militar...

-Ah! Malditos inglezes! Mas! E o penhor? A prata da egreja de S. Roque, que está na Moeda, e que s. ex.a o general meu cunhado me affian?ou?...

-Por ordem do duque restituiu-se outra vez á egreja. Póde ir lá buscal-a... se lh'a derem.

-Mas n'esse caso estou roubado, despido, e nú! Caí nas garras de uma quadrilha de salteadores! berrou o uzurario, ao qual as palavras mansas do ministro quasi arrancavam a alam aos peda?os com tenazes em braza.

-Modere-se sr. Juffré. Veja aonde está e a quem fala...

-Falo ao salteador que me espoliou! O sr. Herman rouba-me e escarnece-me.

-Engana-se. Está fazendo a satyra do duque de Abrantes. S?o d'elle as ordens de que se queixa. Eu obedeci.

-Pois ent?o clamo e juro, que s. ex.a o duque é t?o bom, ou peior do que o sr. Herman.

-Olhe, atalhou o ministro, muito sereno, monte a cavallo e vá dizer-lh'o a elle. Fica além d'isso mais perto dos seus cento e trinta contos de réis. O que n?o lhe prometto, se o duque lhe ouvir metade das palavras, com que me está regalando a mim, é que n?o lhe pague capital e juros com um chicote na cara ás vergalhadas...

-Que insolencia! Ousa dizer-me?! exclamou Juffré fulo e convulso.

-Um conselho! N?o torne a falar aqui em ladr?es. N?o acorde o c?o que dorme. Observou Herman, olhando de revez para Lagarde, e apunhalando o uzurario com o sorriso.

-Porque? é capaz de insinuar? atalhou o outro já em voz baixa.

Sou capaz de me lembrar, sim senhor, e muita gente commigo. Fazem-lhe hoje trezentos contos, e quando veiu para aqui n?o trazia treze francos. Quem o ignora? Cuida que todos s?o esquecidos? O sr. Juffré e outros similhantes foram a vergonha e o opprobrio do nosso governo. Deus queira que n?o sejam tambem os instrumentos da sua ruina. Adeus! O conselho tem cousas sérias de que tractar, e a mesa dos publicanos é lá fóra. Vá!

-Miseravel! Salteador! gritou o homunculo roxo de ira, cerrando os punhos, e crescendo contra o ministro, cuja frieza motejadora o exasperava.

Mas a raiva converteu-se-lhe logo em susto, quando sentiu a larga e pesada m?o de Magendie a ferral-o pela gola e pelo fundo dos cal??es, leval-o pelos ares até á porta, abril-a com o pé, e despedil-o como um fardo, accrescentando no fim de todo este drama e Mas a raiva converteu-se-lhe logo em susto, quando sentiu a larga e pesada m?o de Magendie a ferral-o pela gola e pelo fundo dos cal??es, leval-o pelos ares até á porta, abril-a com o pé, e despedil-o como um fardo, accrescentando no fim de todo este drama em ac??o:

-Desprezivel sanguesuga! Se aqui voltas protesto cortar-te e salgar-te as orelhas, a unica cousa que n?o é posti?a em ti!

O argentario calado e tremulo ergueu-se moido, reparou á pressa os ultrajes das roupas amarrotadas, e desceu as escadas rabiando como buscapé acceso em arraial.

Depois d'esta proeza, pouco heroica pela qualidade da victima, o capit?o Magendie approximouse da meza, e fitando Lagarde, disse-lhe com a concis?o militar, que lhe era usual:

-Quem espalhou as proclama??es?...

-N?o se sabe. Ha indicios... replicou Lagarde assumindo o seu ar mysterioso.

-Quem as trouxe de bordo da nau ingleza? insistiu o official, continuando o interrogatorio.

-Ignora-se ainda, mas supp?e-se! respondeu o intendente um pouco turvado.

-Quaes s?o os agentes dos sublevados do norte em Lisboa?...

-Tracta-se de os descobrir, porèm!...

-N?o sabeis nada ent?o?

-è verdade. Nada certo.

-Muito bem! Se n?o sabeis nada certo, se para vós tudo s?o trevas e ignorancia, tinha raz?o mr. Luyt. De que serve a policia? De engulir dinheiro e denuncias, e de fazer render os servi?os que n?o faz. N?o nos quebreis, pois, mais os ouvidos com os vossos malsins surdos, cegos, immundos, e famintos, e fazei-nos o obsequio de nos deixar discutir em paz.

-Oh! exclamou Lagarde livido e convulso de ira. Tractas-me como se fosse um verme. Sois acaso Napole?o o grande!? Cuidais que hei de supportal-o? Sou magistrado independente, e n?o recebo ordens, nem censuras sen?o dos superiores...

-De mais tendes recebido dos inferiores, mas peitas e dinheiro. Até nas enxovias e prostibulos se diz que bateis moeda! Olhai bem para mim! Toda a minha riqueza consiste n'estas dragonas, em cem francos que trago no bolso, e nos copos de prata da minha espada. N?o levarei de Portugal sen?o mais alguma cicatriz, e um nome honrado. Se vos atreveis a asseverar o mesmo, aqui está a minha m?o, apertai-a, estou prompto a pedir-vos mil desculpas. Se n?o ousais!... Sumi nas trevas com os vossos morcegos toda a historia da policia de Lisboa, e n?o faleis de collo alto aos que vos conhecem e se envergonham de vos ter p?r compatriota.

Lagarde espumava. Immovel de colera e espanto cada phrase do capit?o feria-o no rosto e na consciencia como um a?oute. A sua posi??o era t?o falsa e dolorosa, que Herman compadecido quiz p?r-lhe termo.

-Vamos, senhores, exclamou, deliberemos e n?o questionemos. Hoje os minutos valem horas. Lagarde! Receiais algum tumulto na capital?

-N?o. Apezar de contar com pouca for?a respondo sobre minha cabe?a pela tranquillidade de Lisboa, se os inglezes n?o entrarem.

-E eu respondo sobre a fé e honra de meus canh?es, que os inglezes n?o passam as torres! acudiu Magendie. As minhas proclama??es de polvora e bala agradam-lhes menos ainda, do que as suas de papel nos lisongeam a nós.

-Excellente! tornou o ministro do reino. Ent?o por esse lado podemos estar descan?ados. Mas os inimigos, é provavel, que n?o queiram perder de todo o lan?o, e h?o de trabalhar. D?o-me cuidado os inglezes t?o proximos, e os odios vivos de toda esta gente.

O general partiu com o melhor das tropas. Novion avisa-me de que a guarda da policia já desertou quasi toda. Só hontem fugiram sessenta soldados. Se acaso se levanta um tumulto repentino, e é facil, com que havemos de contar?!...

Lagarde encolheu os hombros e calou-se. O conde da Ega estremeceu e fez-se mais pallido. Luyt, com a penna suspensa, e os olhos parados atraz dos vidros dos oculos, respondeu a meia voz:

-Com umas segundas vesperas sicilianas!...

-Em que todos seremos assassinados?! interrogou Herman affectando serenidade, porém um pouco tremulo. Meus senhores, parece-me que o caso merece ser examinado. Estou prompto a verter o sangue no campo, pelejando como soldado, mas a idéa de uma affrontosa morte, dos ultrages e supplicios, de que nos amea?a a vingan?a de uma plebe de canibaes, aterra-me, n?o o encubro. Confesso mais. Falta-me o valor para a encarar com intrepidez! Lagarde, vamos! Reanimai-vos. Os homens s?o para as occasi?es. Que imaginastes para conter e enfrear o populacho, que murmura, e que o canh?o de Wellesley, ou de Cotton póde dispertar e enfurecer?...

-O terror! O reinado do terror! Só o medo póde salvar-nos! redarguiu o intendente sombrio e fitando os collegas.

-O terror?! Renovar as scenas de 1793 em Lisboa? Levantar o patibulo em permanencia?!...

-Sim! O estado de sitio em todo o seu rigor! N?o foi já decretado? O verdugo e o cadafalso s?o a raz?o extrema da autoridade contra o povo.

-Mas as horrorosas execu??es de partidos inteiros, de classes adversas quasi em massa, que nos propondes o que salvaram em Paris? Já vos esqueceu o famoso dia de thermidor?...

-N?o! Salvaram a Fran?a das armas dos alliados, cobriram as fronteiras de recrutas, que luctaram como veteranos, assegurando o triumpho e unidade da republica. Achais pouco? Reparais nas manchas de sangue?!...

-Dizei nas torrentes, é mais exacto...

-Sim! Mas esse sangue, embora jorrasse innocente muito, confirmou a liberdade, e tornou a Fran?a grande, invencivel e temida. Robespierre, Saint Just, e Carrier, os chefes e os proconsules succumbiram afinal, e foram arrastados no rolo furioso da tempestade, desenfreada por elles? A expia??o do systema foi o mesmo patibulo aonde o tinham architectado? Que importam tres, ou quatro cabe?as mais no cesto da guilhotina, quando tantos resultados abonam a logica inexoravel, que o dictou? Estamos quasi sós no meio de uma na??o insurgida e irritada, que a saudade da independencia e de seus principes subleva, que a dor e a ira das offensas exaspera!... Os inglezes bloqueiam-nos por mar, e accommettem-nos por terra! A nossa sorte é vencermos, acabar aqui, ou passarmos por cima de mont?es de ruinas e de cadaveres. N?o temos quartel a dar, nem a receber! Na falta de for?as seja o terror a nossa espada! Na falta de todo o apoio seja o cadafalso a nossa for?a!...

-Para que o sangue das victimas nos afogue? Para que o luto de um povo assassinado macule de eterno opprobrio o lustre de nossas armas?!... exclamou Hermam erguendo-se com impeto, severo, e indignado. N?o! mil vezes n?o! Esse crime inutil, porque apressaria só a nossa queda, f?ra a senten?a de morte da honra franceza. A civiliza??o, que representamos, esconderia o rosto de vergonha. O imperio teria de córar deante d'esse anachronismo sanguinario. O anno de 1808 n?o é o anno de 1793. Podem tental-o; mas eu n?o lan?arei essa grande nodoa sobre mim e sobre a patria. Os vencedores de Austerlitz por meu voto nunca h?o de vestir a opa vermelha do carrasco...

-Veremos como os guerrilhas e os sicarios do principe regente vos agradecem! Quando virdes o punhal sobre o cora??o, ou o trabuco apontado ao peito...

-Poderá tremer no homem o que é fragil, por ser barro e limos, redarguiu o ministro com um gesto de suprema eleva??o moral, mas a consciencia, ao menos, n?o ha de accusar-me n'essa hora suprema! Alguns mezes menos de vida n?o valem o sangue de milhares de innocentes, a infamia do meu nome, o opprobrio da minha memoria.

-N'esse caso, accudiu Lagarde, lavo as m?os de tudo, e n?o respondo...

-Respondo eu! interrompeu Magendie, que escutava o dialogo havia minutos, e que de pé e silencioso, mas cheio de impaciencia, a custo reprimia a colera. Respondo eu! As taboas de proscrip??o n?o h?o de aviltar-nos. Somos soldados e temos armas. Se Lisboa se insurgir, os canh?es dos meus navios e os machados dos meus marinheiros chegam ainda para varrer, como pó levantado, as espumas da plebe enfurecida e indisciplinada, sr. Lagarde! O reinado do terror, o arremedo das carnificinas de 1793, n?o se ha de fazer em Lisboa, em quanto uma bala me n?o varar o cora??o. Nunca o sangue dos patibulos, que eu saiba, que eu consinta, salpicará as aguias, que beijámos como symbolo da honra... Sei porque lhe occorreu exhumar do arsenal infamado dos dias mais funestos da revolu??o o cadafalso de Robespierre! Tem mais sede de ouro, do que de sangue, a sua idéa é mais de vingan?a, de cubi?a, do que de medo! Se fossemos agora ao castello de Lisboa, talvez achassemos a explica??o do plano, que nos prop?e!...

-Sr. Magendie! é a terceira vez que hoje me affronta n'esta casa! bradou o intendente enraivecido, mas pallido de susto deante dos relampagos, que despediam os olhos do capit?o.

-Acha? Uma já devia ser de mais! Quer a repara??o? Está a minha espada ás suas ordens...

-A sua espada?! Desafia-me?! A occasi?o podia ser mais opportuna.

-Creia que nunca lhe fiz a injuria de suppor, que podia encontrar um homem no sr. Lagarde. Estava zombando quando falei na minha espada; é arma que n?o conhece. Se fosse uma morda?a, e fossem algemas?!...

-Senhores! Senhores! Por quem s?o! accudiu o conde da Ega interpondo-se.

-A minha paciencia, atalhou o intendente, limpando dos labios a escuma, e empregando v?os esfor?os para vencer a convuls?o nervosa, a minha longanimidade n?o se altera com estas provoca??es grosseiras proprias de uma educa??o de tarimba...

-Agradecido pela clemencia, meu fidalgo! redarguiu Magendie, inclinando-se ironicamente. Mas o plebeu, que se levantou da tarimba, e poz estas dragonas présa os brios como um ducado. Quereis saber porque este homem de bem queria fazer de todos nós assassinos, e dos soldados da Fran?a verdugos? Eu vol-o digo em duas palavras! Machinou casar a filha de um cavalheiro rico de Mafra com Armand d'Aubry seu sobrinho. A donzella resistiu, e o sr. Lagarde vingou-se accusando falsamente o pae, sepultando-o em um carcere, e dando a escolher á filha a morte d'elle, ou um resgate infame a troco da sua m?o e dos seus bens! Encontrou duas almas nobres; Aubry rejeitou o pacto; a filha n?o se quiz vender para salvar a velhice de um militar, deshonrando-lhe os cabellos brancos... O sr. Lagarde n?o se deu por vencido, e trabalhou para si. A esta hora achar-se-ha um agente seu na pris?o do cavalheiro, que se chama Paulo de Azevedo, e ha de já ter-lhe intimado a decis?o final de pagar trinta contos de réis até ámanh?, ou de ouvir a senten?a de um conselho de guerra, e de aparar no peito as balas de um pelot?o na pra?a do castello! Eis o verdadeiro motivo do santo zelo que o inflamma. O reinado do terror sería para elle uma chuva de ouro, ou de sangue, segundo a docilidade das victimas!...

-Calumnia! Infame calumnia! exclamou Lagarde branco e tremulo de colera.

-A accusa??o é grave, sr. Magendie! observou Herman, que se poz em pé assim como os collegas, e que leu no rosto demudado do intendente, apezar de todo o cynismo d'elle, vehementes indicios da culpa. Veja o que acaba de asseverar! Allude a um magistrado, a um homem que mereceu a confian?a do imperador. Provará o que affirmou?

-Se houver alguem que ouse repetil-o deante de mim, interrompeu Lagarde suffocado, consinto que me condemnem!

-Acceito! disse Magendie. Ouvirá a confirma??o da verdade, e de uma b?cca insuspeita. Aubry!...

A porta abriu-se, e Armand appareceu aos umbraes, pallido e resoluto.

-Meu tio, disse depois de saudar o conselho com uma cortezia, jurei-lhe que seria punido se n?o remediasse o mal, e aqui estou para cumprir a promessa. Na presen?a de Deus e dos homens, por alma de meus paes, assevero e juro que o capit?o Magendie disse a verdade e só a verdade! Agora, que deante de vós, e de todos os que me escutam prestei testemunho á consciencia, curvae a cabe?a, e arrependei-vos, porque, por vossa propria b?cca estais condemnado!

O tom, em que Aubry falou, inculcava maior tristeza, do que ira. Lagarde petrificado deixou pender a fronte e murmurou:

-Tambem tu, Armand!...

-Fiz o meu dever. Sois irm?o de minha m?e, mas da heran?a de meu pae, o que acima de tudo préso é a honra do nome, e essa, já vol-o tinha dito, hei de sepultal-a commigo pura no campo da batalha, aonde posso caír e morrer hoje, ou ámanh?! Meus senhores, adeus. Pedí a Deus que exalte as nossas armas!

Ditas estas palavras saíu sereno e grave, deixando todos pasmados e silenciosos.

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