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Chapter 5 No.5

Um conciliabulo politico

no anno de 1808

Voltemos á ponte da Asseca, de que ha tanto estamos ausentes.

Vamos saber se o palacio arruinado conserva a sua reputa??o diabolica, e se o Jo?o da Ventosa, depois do fa?anhudo murro, que esboroou quasi a cabe?a ao sargento Cabrinha, se recolheu s?o e salvo a seus lares, ou se a vingan?a do espi?o punido o obrigou a tomar ares mais fortes no exercito nacional do general Bernardim Freire. Avisinhemo-nos com certo resguardo. é noite, e ainda com o luar claro podem tomar-nos por francezes, e pescar-nos com alguma bala patriotica.

Deram onze horas. Provavelmente o patr?o e os creados dormem a somno solto esfalfados do trabalho da eira e dos carretos do celleiro. N?o! Ha luz no quarto terreo. Espreitemos! Lá está o lavrador sentado com o sabido caneco ao lado, o bojudo cangir?o defronte, e o eterno Manuel Sim?es a fazer-lhe a segunda. Estes pelo menos n?o emigraram para o Porto, nem mudaram de costumes.

A opini?o de que os tumultos do Corpo de Deus tinham sido obra de uma conspira??o mallograda salvou das persegui??es da policia os tres camponezes. Uma das pessoas, que podia denuncial-os, o sargento Cabrinha, agonizava no hospital accommettido de uma congest?o cerebral, e com a perna esquerda partida e amputada, tudo fructos amargosos do funesto dia, que o céu destinára para castigo de seus crimes. Mesmo que escapasse da amputa??o e á febre, o que os facultativos duvidavam, todos prognosticavam que acabaria demente, ou nescio.

Restava o Gaspar Preto, o Sapo, do qual nos despedimos a ultima vez, deixando-o entre as garras de dois inimigos resentidos e inexoraveis, o Antonio da Cruz e o fazendeiro da Aramanha. O que é feito d'elle?

Tres dias depois as mulheres que iam ceifar ao campo, passando pelo alto do Valle, viram de longe balou?ado pelo vento nos galhos da figueira do José Lopes, a mais elevada e formosa arvore dos contornos, um vulto, que á luz incerta e na meia treva do alvorecer, tomaram por espantalho pendurado para assustar os passaros.

Palraram, discorreram, entre si as comadres e as visinhas ácerca d'aquella novidade, e acabaram por decidir, como verdadeiras pêgas curiosas, que o caso merecia exame. Subiram a encosta. Quando chegavam acima, rompia ainda pallido o primeiro raio de sol. Soltaram um grito de susto, e ataram as m?os na fronte! O espantalho era um homem enforcado!

Quizeram fugir, mas o peccado de nossa m?e Eva deteve-as. Antes das linguas paroleiras tocarem a rebate no logar e nos arredores era indispensavel conhecer o infeliz. As mais velhas e resolutas armaram-se de valor, e approximaram-se. Outra exclama??o, em que o espanto se revelava mais, do que o dó, chamou em volta d'ellas as raparigas. O padecente, que em vida f?ra assaz feio, apparecia-lhes medonho n'este patibulo repentino com a cabe?a pendente, a lingua fóra da b?cca, e os olhos esbugalhados e saidos das orbitas. Tinha as m?os amarradas atraz das costas e um rotulo no peito, que dizia: ?Justi?a de Deus! Por Judas!?

As mulheres benzeram-se em silencio, e olharam umas para as outras. O medo curou-as por um instante da loquacidade. Apezar das contors?es, que desfiguravam o rosto da victima, e que a morte como que immobilizára, petrificando-as com sua rigidez, aquella cara, tantas vezes vista, n?o podia enganar a memoria das matronas e donzellas. Era o Sapo! o Sapo garrotado!

Satisfeito este ultimo instincto de sua indole, as mulheres dispersaram-se como um v?o de gralhas ao tiro do ca?ador, e esquecendo a ceifa e o jornal, correram, como loucas cada uma para sua parte, a fim de espalharem a noticia. O primeiro, que avistaram, e a quem a deram, foi ao Antonio da Cruz, que acharam assentado á porta do moinho, com o cigarro acceso na b?cca, e a espingarda ao lado. Escutou-as sem se alterar, saccudiu o lume com um piparote, e erguendo-se vagaroso e sereno, respondeu-lhes:

-Ent?o! S?o coisas! Deus escreve muitas vezes direito por linhas tortas! O velhaco n?o merecia uma, mas cem forcas.

Fechou depois a porta, metteu a chave no bolso da vestia, e partiu direito a Santarem pela Ponte da Asseca sem olhar para traz. A isto se reduziu da sua parte a ora??o funebre do desgra?ado malsim!

O povo commentou, como costuma, o successo, repartiram-se os votos sobre a causa e os auctores da execu??o, porém nem um só dos patriarchas da aldeia se lembrou de boquejar no Antonio da Cruz. Os contrabandistas, como tinham os hombros largos, carregaram com todas as culpas, e a vers?o mais seguida foi que o desditoso Sapo recebêra de alguns d'elles com capital e juros o premio de suas espertezas e denuncias.

No emtanto os acontecimentos politicos adeantavam-se. A revolu??o do norte creára for?as, e os francezes, acossados e repellidos de toda a parte pelas popula??es iradas, já n?o chamavam seu, sen?o ao terreno que pisavam. A derrota dos insurgidos do Alemtejo por Loison em Evora, o saque e o martyrio da cidade levada de assalto, longe de acalmarem os animos, exaltaram-n'os com a narra??o exagerada dos horrores perpetrados pelos francezes. O nome de Loison, já odioso, tornou-se execravel; e a sêde de vingan?a accendeu-se em todos os peitos, ardente e implacavel. Lisboa principiou a agitar-se. Os moradores mais abastados, fugindo ao jugo detestado dos estrangeiros, accolhiam-se ás provincias sublevadas. A cidade tornou-se um deserto. Em pleno dia as ruas eram silenciosas, como se a peste as houvesse despovoado. A falta de communica??es com o norte e o sul do reino, e com o mar, elevou o custo dos generos a pre?os fabulosos, e a escacez do trabalho assentou a miseria e a fome no albergue do pobre e do operario. Os proprietarios n?o recebiam suas rendas, nem os empregados seus ordenados. Mais de vinte mil pessoas decentes, que viviam dos salarios da c?rte e dos lucros do commercio, pediam agora esmola! Os habitantes ruraes, intimados para entregarem as espingardas, evadiam-se em grande numero com ellas, e iam engrossar a insurrei??o. Ninguem podia sair as portas de Lisboa sem passaporte. As bombas, os foguetes, e os fogos de artificio, alegria e paix?o das festas e arraiaes, foram prohibidos. Emfim todas as oppress?es e violencias se accumulavam para apressar as horas de dominio, que o governo francez ainda havia de contar, quasi reduzido á capital do reino e suas cercanias.

Leiria, vendo o Porto, Braga, e Coimbra levantadas, quiz imital-as com mais zelo, do que prudencia. Os vaticinios patrioticos do morgado de Penin, excellente portuguez e pessimo soldado, n?o se tinham cumprido, sen?o na parte mais facil. O resto, o peior da empreza, encarregou-se o brigadeiro Margaron de o concluir por ordem de Junot. O ex-coronel de cavallaria e alcaide mór Rodrigo Crespo, e o coronel do regimento de milicias Isidoro Pinto Gomes, com um punhado de soldados indisciplinados, unidos ao capit?o mór das ordenan?as do termo, Manuel Carranca, sonharam uma restaura??o temeraria, decidiram o bispo a cantar um Te Deum na egreja matriz, e passeiaram em triumpho entre acclama??es estrepitosas o estandarte de Portugal.

Vimos com que leviandade o major Alvaro e o morgado de Penin discutiam os seus planos de rebelli?o, como se os veteranos de Bonaparte fossem soldados de chumbo, ou de papel?o. As avan?adas inimigas, entrando em Rio Maior, despertaram os dois velhos crian?as de suas illus?es. O galope de seus cavallos, reputados os melhores da Extremadura, salvou-os de ficarem prisioneiros e trouxe-os já meio desenganados a Leiria, aonde a sua presen?a sobre-excitou as paix?es, em vez de as aplacar. Todos juraram morrer defendendo os muros derrocados e o castello da terra natal; anoiteceu porém, e os heroes, conversando com o travesseiro, sentiram esfriar repentinamente os brios. O prelado recordou-se de que, ministro de um Deus de paz, devia abominar o sangue, e, cavalgando a mula episcopal, apartou-se a bom andar do sitio da tenta??o. Muitos dos granadeiros da independencia, que na vespera rachavam ainda os céus com féros brados, lembrados de que á noite todos os gatos s?o pardos, aproveitaram o escuro, e eliminaram-se sem ruido, mais cuidadosos da saude do corpo, do que do esplendor de suas armas. Ficou o povo, gente quasi inerme, alvoro?ada, e inconstante. A primeira descarga inimiga varreu, como pó, essa plebe, e abriu as portas aos francezes. Como Achilles os lidadores de Leiria sobresaíram na ligeireza dos pés!

Mas até os triumphos de Junot conspiravam a sua ruina. Cada derrota dos portuguezes levantava em favor da independencia milhares de bra?os. Quando um povo inteiro se torna inimigo, o seu nome é legi?o, e a fabula de Cadmo realiza-se. Evora e Leiria volveram logo a si, e Loison e os generaes estrangeiros recuaram. A ambi??o de Bonaparte cansára a fortuna, e Deus tinha designado a peninsula para theatro das primeiras lic??es dadas ao seu orgulho, e dos primeiros revezes experimentados pelas suas aguias. Encarando o bello sol das Hespanhas, a estrella do imperio sentiu esmorecer o brilho, e come?ou a declinar.

Os adversarios irreconciliaveis, aos quaes o novo Cesar imaginou cerrar para sempre nossas praias, saltaram n'ellas como libertadores, e romperan essa guerra, alternada de victorias e revezes, que só havia de findar ás portas de París. Sir Arthur Wellesley á frente dos soldados embarcados em Cork, seguidos de perto pelas tropas de Sir John Moore, transportadas do Baltico, combinando as opera??es com o almirante Sir Charles Cotton, e com os generaes, que dirigiam a insurrei??o de Portugal, havia de pisar em breve a terra, aonde o esperavam tantos tropheos, marchando direito sobre Lisboa, decidido a arriscar em um só lan?o a sorte de toda a lucta.

O duque de Abrantes era uma alma bem temperada. Se as prosperidades entorpeciam a sua indole um pouco frivola, o infortunio, ou os perigos, encontravam-o sempre intrepido. As más noticias n?o o desalentaram. Decidido a disputar até á ultima escorva a capital do paiz, que por momentos julgára esquecido dos seus reis e da sua autonomia, n?o trepidou um momento, empregando todos os esfor?os para conservar Portugal engastado como joia inestimavel no diadema do conquistador.

Para que a heroica decis?o n?o desmentisse t?o audaciosas esperan?as, era necessario reunir em Lisboa todas as for?as activas. Kellerman expelliu de Alcacer do Sal os bandos de guerrilhas, que a infestavam, evacuou Setubal, e veio coroar com suas tropas as eminencias de Almada.

Todos os preparativos, ditados com vigor, correram rapidos. As preven??es compativeis com o pequeno numero de bayonetas, que lhe obedeciam, foram adoptadas a tempo. O general Graindorge defendeu a margem esquerda do Tejo. O regimento 47.o guarneceu o forte da Trafaria, a torre do Bogio, e os navios fundeados. O regimento 66.o occupou Cascaes. A legi?o do Meio Dia a torre de S. Juli?o da Barra. O regimento 26.o cubriu Belem, o Bom Successo, e a Ericeira. O 15.o Lisboa e Sacavem. O marechal Travou foi nomeado governador das armas da capital; o general Avril governador do castello de S. Jorge; e o conde de Novion, á testa da guarda da policia rareada pelas deser??es, e quasi limitada ao seu estado maior, auxiliava a conserva??o da cidade, reputada por Junot como base essencial de todos os seus projectos.

No dia 15 de agosto, anniversario do nascimento de Napole?o, o duque logar-tenente reuniu ainda nas salas do palacio da sua residencia, a nobreza, o clero, os magistrados, e os officiaes superiores, e recebeu-os com um rosto t?o alegre e prazenteiro, como se Catilina n?o batesse quasi ás portas de Roma, ou como se o trov?o dos canh?es britannicos, já bem proximo, n?o acordasse os echos dos campos de batalha, aonde se ia jogar esta partida, que deu o signal a tantas tempestades na Europa!

Eis o estado dos negocios, e pedimos venia ao leitor de o ter demorado tanto na Ponte da Asseca com esbo?o t?o informe de noticias politicas e militares. Voltando atraz, e penetrando com elle discretamente no corredor, meio alluido do andar nobre do palacio maldicto, pedimos licen?a para o guiarmos pelo som das vozes, que parecem altercar em uma sala proxima, até o seio mesmo do congresso dos conspiradores, que alli pleiteiam competencias, e apuram alvitres afim de coadjuvarem as armas nacionaes e os progressos dos alliados.

Era noite, já o dissemos, e noite adeantada. A lua alta nos ceus espalhava o seu clar?o sobre as aguas dormentes da villa, e prateava de luz branca, franjando-as, as copas das oliveiras, trepadas pela encosta fronteira. Tinham dado onze horas, e havia duas que os oradores patriotas exgotavam toda a sua eloquencia sem se entenderem. A casa vasta, arruinada, com os tectos a cair, e os sobrados a desfazer-se de podrid?o, estava mais de metade mettida na escuridade quasi clara, que fazia a sombra das paredes luctando com a lua e as estrellas. Todas as janellas, que abriam para as hortas, sem vidra?as, nem portas, deixavam coar livremente o ar, e os ruidos de fóra, t?o sensiveis na solid?o e no silencio nocturno.

Na parte mais reparada, entre duas portas quasi penduradas das couceiras carcomidas pela ferrugem, via-se uma comprida mesa de pinho allumiada por enorme candieiro de lat?o de tres bicos, cuja chamma enfumada a aragem saccudia e ondeava. á roda da mesa, ornada apenas de um tinteiro de pau immenso, de pennas resequidas, e de papel em branco, sentados em mochos toscos, viam-se alguns homens, t?o diversos nos trajos e maneiras, como na physionomia e express?o.

Na cabeceira, com a face recostada no punho, as palpebras quasi fechadas, e certo ar de imperio indolente, estava um anci?o, que a farda de panno azul escuro com abotoadura e guarni??es brancas, e dragonas de cachos, denunciavam como official superior de um dos corpos de milicias. Era o coronel Isidoro Pinto Gomes, que a espada do general Margaron n?o podéra alcan?ar em Leiria, e que o zelo attrahia a todos os conciliabulos patrioticos. O major Alvaro á direita d'elle, e o morgado de Penin á esquerda, ambos de uniforme, e com os capotes, com que se encobriam apezar da esta??o, abertos, ou derrubados para traz, compunham o que hoje diriamos a mesa da presidencia.

Mais abaixo a farda verde comprida com vistas brancas e o chapeu armado de outro personagem accusavam com evidencia egual o seu cargo de capit?o-mór de ordenan?as. Manuel Carranca, tambem salvo por milagre do conflicto de Leiria, inflammava-se em um debate violento com uma pessoa, que o habito e o cord?o, as bochechas redondas, a triplice rosca da barba, e o ventre empinado proclamavam logo como um dos mais apopleticos, irasciveis, e facciosos filhos de S. Francisco. Este padre, conhecido e respeitado como orador sagrado, pertencia ao convento de Santarem, e chamava-se fr. Jo?o Salgado. O segundo interlocutor, com o qual repartia os thesouros da dialectica, ainda mo?o, pallido, melancholico, e esbelto, sem lhe ceder uma pollegada de terreno, sorria-se dos clamores freneticos do reverendo, e parecia ati?al-os mesmo com prazer maligno, lan?ando no meio de suas apostrophes uma interjei??o, ou uma exclama??o repentina, que tinham a virtude de fazer saltar o theologo aos ares como uma mina carregada. Os outros conjurados ouviam calados, trocando apenas algum relancear de olhos, como no circo os espectadores comtemplam as vicissitudes da lucta entre dois campe?es afamados, contentando-se com o espectaculo, e abstendo-se de o perturbar com os seus applausos, ou com a sua reprova??o.

-Os la?os da prudencia humana n?o me prendem! exclamava o padre com o barretinho de seda arrega?ado para a nuca, a calva purpurea, e o sobrolho franzido... Mais poderoso e forte do que todos os artificios mundanos é o Senhor dos exercitos!... Para vencermos os jacobinos basta a candura da pomba.

-Cuidado com as garras do milhafre!... interrompeu pela terceira vez o mancebo pallido com um sorriso ironico.

-Ao milhafre atira-se, sr. Mannel Coutinho, gritou o bellicoso servo de S. Francisco, ferindo a mesa com o punho cerrado. Bons ca?adores temos, e se for preciso, Deus pela sua infinita misericordia fará um milagre em nosso favor.

-Nada de milagres! accudiu o capit?o-mór de ordenan?as, Manuel Carranca, o qual, rouco de gritar, aproveitava o incidente para locupletar com duas valentes inspira??es o pulm?o estafado. Nada de milagres! Se v. s.a rev.ma julga, que os francezes fogem com estolas, hyssopes, e caldeirinhas de agua benta, engana-se redondamente. Vá a Leiria, e lá lhe dir?o de que serviu o bello cantox?o do bispo e dos clerigos!... Safa! Tenho ainda nos ouvidos os bérros das pe?as de artilheria, e os alaridos d'aquelles malditos granadeiros... Pareciam gatos a marinhar e le?es a arremetter...

Esta apostrophe, sem desmaiar a resolu??o dos ouvintes, tornou mais grave o rosto de alguns. Houve até quem applaudisse com um aceno de cabe?a assaz expressivo a rustica e quasi impia declara??o do capit?o-mór. As momices bellicosas e varias do franciscano come?avam a aborrecel-os. Veremos no capitulo seguinte a verdade do adagio: Pela fructa se conhece a arvore!

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