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Chapter 8 No.8

Mudando de rumo, o visconde e Trist?o de Almeida dirigiram-se primeiramente a casa de Vaz Mendes.

Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para animar uma idéa t?o philantropica.

D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.

Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa exposta por Trist?o de Almeida havia sido formulada por elle tres dias antes.

Trist?o sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do excellentissimo commendador.

Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros epithetos para Trist?o, o visconde de Coruche contou ao commendador o que se havia passado com o operario.

-Se vossa excellencia n?o deu a morte a esse desgra?ado, estou certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao mesmo tempo o olho para o visconde.

-Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes de Miranda.

-Mysterios de Deus, respondeu Trist?o em voz alta. Fortes nescios, ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.

Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragan?a e dirigiam-se ao quarto do ferido.

O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia podido arrancar-lhe uma só palavra.

A sr.a D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico esposo, n?o tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de vez em quando approximavam se do quarto.

Depois de cumprimentarem a esposa de Trist?o, os tres amigos chegaram-se ao enfermo.

-Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. é uma lastima que se lhe n?o possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protec??o de vossa excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com que todos estejam em cuidados.

-Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debru?ando se sobre o leito do operario.

O enfermo continuava no mesmo lethargo.

Eram perto de seis horas. Como n?o houvesse meios de lhe arrancar uma palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.

Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Trist?o de Almeida, aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu Magdalena, a irm? mais velha.

O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Trist?o de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos contos de reis, que lhes poderia faltar?

Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor do visconde de Coruche, que fizera convencer Trist?o de Almeida do risco que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da sella, discutiu-se a funda??o do hospital.

D. Maria Egypciaca, que de antem?o havia sido prevenida por seu esposo, falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que defendia.

Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do cora??o, viscera que apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado se mergulhava!

Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais desembara?o do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo de p?o de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de admirar o bom gosto do estampador.

Olympia tinha duas paix?es: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem que morrendo de uma indigest?o de ninhos de andorinhas seria depositada n'um sarcophago de Sévres, a filha de Trist?o de Almeida apanharia a indigest?o de bom grado.

Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde entrava o criado com o seguimento do menu.

E, apezar de tudo, essa creatura que t?o desenvoltamente usava e abusava dos org?os da mastiga??o, perguntando ao criado durante o jantar o que tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia, como o leitor n?o ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas paginas se debru?a.

Olympia era uma pomba. Dizia sua m?e que até aos dezoito annos, o unico desgosto que lhe havia dado f?ra ter atirado com uma travessa ao rosto pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.

Magdalena era a sua antithese. Af?ra aquelles dois pasteis, poder-se-ia julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.

De uma formosura menos provocadora do que sua irm?, Magdalena sabia insinuar-se no cora??o de todos os que tinham a felicidade de lhe merecer sympathia.

Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de melancolia que prendiam quem a contemplasse.

Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz. Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus canticos a musica da palavra.

Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por calculo do que por organiza??o, a irm? de Olympia atravessava a sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que ella se comp?e!

Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgra?a esvoa?ára-lhe sobre os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira o seu cora??o immenso, golpeado pelo punhal do desengano?

Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado a estudar aquella peregrina organiza??o.

Magdalena nunca havia amado, porém o seu cora??o tinha necessidade de amar como os pulm?es do ar que respiram.

Creando um dia na sua phantasiosa imagina??o o typo que ambicionara, quiz-lhe dar vida, formas e anima??o. Quando mais tarde se lhe sumiu o vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas lagrimas.

Prophetisa da amargura, como veremos na continua??o d'esta singela historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!

Debalde, repetimos, se esfor?ava o visconde para merecer um olhar de Olympia.

Era invulneravel!

-Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para n?o estar calado.

-Deus sabe! murmurou o amphitri?o defendendo uma perna de perdiz da insaciavel voracidade da filha!

-Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia! ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.

-Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito. Pela minha parte, aben?oaria fosse que circumstancia fosse que me trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.

-Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando no hombro de sua irm? e sem se atrever a olhar para o visconde.

-N?o ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.

-N?o repare, meu caro amigo, acudiu Trist?o, Olympia é muito envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. N?o ouves o que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.

-Ou?o, sim senhor, mas n?o sei o que hei de responder.

Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.

N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda port?o para vir reconhecer o doente.

-E esse individuo... ainda lá está? perguntou Trist?o.

-N?o senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado pela febre.

-E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.

-Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.

-E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.

-Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.

-Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca. Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre gente! Talvez ainda aben??em a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.

-Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde come?ar a nossa obra de caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.

-Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam ardentemente n'uma torta de ma??.

-Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Trist?o, levantando se ao mesmo tempo da cadeira.

-E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o movimento do seu amigo.

-Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E n?o tardará muito que lá vamos, eu e minhas filhas.

-Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para o commendador.

-Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.

Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitri?o.

* * *

-Ora ahi tem a mam? porque eu n?o gosto de comer á mesa quando temos visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente voltando se para sua m?e.

-Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.

-Aben?oado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.

* * *

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