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Chapter 10 No.10

A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.

Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de quatro individuos que estavam discutindo.

-Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente estava preso, dizia um d'elles.

-Mas como foi o sr. Trist?o d'Almeida... acudiu outro.

-E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.

-Mas elle morreu ou n?o morreu?

-Dizem que está melhor.

-Veremos como se porta o brazileiro.

-Até agora, n?o ha raz?o de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as duas filhas.

-Tenho pena de n?o ter sido eu o atropellado, só para ter taes enfermeiras.

-Vocês v?o d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na minha terra?

-Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela rua do Chiado.

Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o mysterioso protector da infeliz crian?a seguiu os quatro individuos até á sua entrada no Marrare de Polimento.

Entrou tambem.

O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.

-Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido interrompendo o assobio do dilettante. Ha tres horas que procuro um individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscri??o de os escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.

-Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram dirigidas. O que sinto é n?o lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que está no Hotel de Bragan?a.

Retribuindo n'um aperto de m?o a amabilidade com que f?ra recebido, o protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam indicado.

Ao chegar perguntou ao guarda port?o se ainda alli estava um sugeito que de manh? f?ra pizado por um brazileiro.

-E n?o só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o guarda port?o, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por todos quatro.

-é possivel falar lhe?

-é possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o guarda port?o. Ainda n?o tornou a si.

-Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.

Minutos depois entrava no quarto do ferido.

Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A d?r das feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue tinha sido abundante, e ao pobre operario nem for?as restavam para pedir que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante t?o amargamente se recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as vis?es da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.

Sentia na fronte a m?o fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o cora??o, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida pelo terror.

Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.

Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez em quando a m?o á fronte.

Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados, abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o parecia descobrir-lhe nas fei??es alguma similhan?a com as da pobre Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse falar.

Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.

-Falar... mas... n?o posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair sobre o colch?o o bra?o direito que tentára levantar.

O desconhecido approximou-se ainda mais.

-E ainda n?o houve meio de se saber quem é este homem?

-Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu o creado.

-Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debru?ando-se sobre o leito.

-Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á Lapa.

-Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia, encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.

Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua m?e ao Hotel de Bragan?a o mais depressa que lhe fosse possivel.

Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a Trist?o de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.

Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando no quarto do ferido.

* * *

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