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Chapter 5 No.5

Oito dias depois, com grave assombro da visinhan?a, a tia Marianna, envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.

Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua organiza??o de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes d'uma doen?a, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas immedia??es.

Todos viam na sua convalescen?a, come?ando pela beata, um favor da Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedica??o da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.

Almas vis e denegridas que n?o comprehendeis o bem, como poderieis soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos cora??es n?o existe mais do que a inveja e a podrid?o!

Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o cora??o, que se entrega aos deleites da caridade.

A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela pobresa, no tympano do avarento.

Ninguem da visinhan?a se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé, salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as costas para n?o ouvirem os elogios que a velha do cora??o lhe prodigalizava.

Desde esse momento, a pouca affei??o que todos consagravam á familia de Jeronymo, tornára-se em decidida avers?o. Come?ando pelo sr. regedor, e acabando na sr.a Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma se importava a n?o ser dos seus arranjos domesticos.

Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando, acompanhada por sua m?e, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu len?o estava mal engommado, ámanh? porque o seu capote de panno azul já come?ava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua m?e, por tudo quanto havia, que n?o a obrigasse a ir á missa das onze.

-Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr. Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. N?o tardará muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns ganchosinhos que me devem render um par de moedas, verás ent?o como lhes hei de fazer estalar a castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom cord?o de seis moedas ao pesco?o.

-Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. N?o tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.

-Pois tambem n?o tardará muito que lhe fa?amos algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. ámanh? tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas suas visinhas.

-Muito estimarei que isso n?o fique no rol dos esquecimentos, respondeu a crian?a sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte, é mister n?o a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de fome.

-De frio n?o morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro de engommar sobre o descan?o. Ainda esta manh? lhe dei o capote que punhamos no leito.

-Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos frio...

-Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o calor.

-Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as reprehenderei por qualquer ac??o boa que praticarem; e já que tivemos a felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo n?o a deixarmos agora morrer ao desamparo. Estou da opini?o da Martha.

-Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intui??o particular que tantas vezes se encontra no cora??o da mulher.

-O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que frequentasse estas casas, porém reconhe?o ás vezes um n?o sei quê nas maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios n?o foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas. ?Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgra?ada que abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protec??o. Se tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para uma familia a quem tanto devo.? Ora, além d'estas palavras serem proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna n?o é, nem nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem f?r, tem precis?o, é necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a come?a a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu suppunha t?o virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.

N'este momento bateram apressadamente ao postigo.

-Que teremos? disse Balbina.

Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu immediatamente a porta.

Era a tia Monica.

-Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lan?ando sobre nós a sua divina ben??o, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre a peccadora e alli jaz sem protec??o nem abrigo, porquanto todas as visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.a Balbina, que se compade?a d'essa desgra?ada, e que me empreste esse milagroso frasquinho com que tornou á vida a tia Marianna.

N'este momento a viuva acabava de assignar... (pag. 15)

-N?o foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha ouvira as exclama??es da beata. Fa?am o mesmo que fez minha filha. V?o chamar o sr. regedor e pe?am-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente. Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira, maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.a Monica. Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse por duas vezes, mas para a sr.a Margarida! Nem que me pezassem a ouro, ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto da ingratid?o, sr.a Monica. N?o foi a sr.a Margarida a primeira a cortar na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E n?o foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela minha parte, n?o consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha filha.

-Cruzes! Credo! M?e Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores, resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia produzido, incutia certos receios no animo da corretora de ora??es.

-Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de alguns momentos de profunda reflex?o.

-Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.

-Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude, e depois descan?armos o corpo para o trabalho de ámanh?.

Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta curta, mas eloquente ora??o:

Bom Jesus, todo Poderoso,

Filho da Virgem Maria,

Soccorrei-nos esta noite

E ámanh? por todo o dia.

Se na terra n?o coubermos,

Levae-nos Senhor aos céos,

Rogae por nós peccadores,

Virgem Santa, M?e de Deus.

* * *

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