Genre Ranking
Get the APP HOT

Chapter 6 No.6

Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um abastado capitalista por nome Trist?o de Almeida, segundo rezava o seu passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.

Trazia apenas tres cartas de recommenda??o, uma para o visconde de Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a casa bancaria de Vaz Mendes e C.a, extraordinariamente acreditada n'esta capital, n?o só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo facto de já ter fallido tres vezes.

O visconde, o commendador e o banqueiro abra?aram gostosamente o seu recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a ca?a era rara de mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto escasseia.

Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para succulenta refei??o, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da ca?ada.

Deixando-se de vogar na torrente de eternas adula??es, Trist?o de Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar, quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.

Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por zote, Trist?o ia cercando de lisongeiras esperan?as o fil?o d'essa inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na sua aurifera individualidade.

Mulher e filhas ainda n?o haviam entrado em scena. Constava porém que uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior intelligencia. N?o tardou uma semana que esse homem, ou para melhor dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.

Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se aquelle, antes de bar?o, empregava a casca de polvo para tirar em baixo relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no Brazil com o unico fim de matar o tempo.

Trist?o de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu preterito.

?é for?oso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle, passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus fins. Gra?as a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Trist?o de Almeida fui Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo f?ra Domingos de Andrade.

?é for?oso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus caprichos. N?o que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente encontrar?o algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal. Está decidido, quero um titulo. Come?arei por ser apresentado em casa de alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgra?a a centenares de familias, enlucta-lhes as suas habita??es. Vou fundar um hospital. Serei o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a adquirir, Trist?o de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.?

N'este momento, bateram á porta da sala. Trist?o mandou que abrissem, e entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

-Que entre, disse lhe Trist?o de Almeida retirando-se da varanda e dirigindo-se para o sal?o.

O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter quarenta quando muito.

Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus f?ra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta terra, onde se n?o envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete annos, gra?as á temperatura do seu clima.

Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna gera??o se curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.

N?o havia rapaz que n?o escutasse avido de curiosidade as mil aventuras que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror da banca portugueza no sal?o do theatro de S. Carlos, como na caixa do mesmo theatro f?ra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia. Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!

Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para melhor falar com o marido da viscondessa.

Como se vê, era um homem completo.

Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma multid?o de mulheres que disputavam entre si o voluvel cora??o do visconde.

Extravagante mais por indole do que por ostenta??o, o fidalgo deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commo??es que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastiga??o. Era o verdadeiro sybarita da estroinice.

Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, n?o tardou muito que a visse desbaratada em custosas viagens.

Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio de quem era herdeiro for?ado, porém a pertinaz saude do velho fazia com que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida, onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu no come?o da sua jornada.

Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opini?o das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de Coruche.

As priva??es porque este passára foram completamente esquecidas desde que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus crédores, porquanto lhes foi necessario lan?arem m?o de meios pouco brandos para adquirirem, sen?o a totalidade do devido, pelo menos o capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura, reanimou-se ent?o com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas se recordava d'elles.

A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo do apogeu da sua riqueza.

D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa alguma era dado descortinar.

Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situa??o era mais difficil, n?o tinha parente algum para quem apellar.

N?o podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos. Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma industria.

Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio, anuia finalmente, n?o sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava colocando-os no rol de seus intimos.

Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.

Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia, nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de desconsidera??o.

Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade, ou o commendador Felix de Araujo, ou Trist?o de Almeida, para maior exactid?o desta veridica historia, foi apresentado.

-Quanto estranhei n?o o ter encontrado hontem no theatro, meu caro amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha muito tempo que n?o vejo S. Carlos t?o brilhante. O tenor, como sempre, cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, n?o póde calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente n?o se tem espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é que foi uma epidemia, meu amigo.

-Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem n?o fui a S. Carlos, ajuntou elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.

-N'esse caso fez muito bem, sr. Trist?o. O tempo n?o está para brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento sentisse a mais leve indisposi??o, come?ava por me tractar como estando realmente amea?ado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude. Prefiro-a a tudo, até á riqueza.

-Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Trist?o de Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.

-Ent?o o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo. Muitos rapazes que por ahi conhe?o possuem, como eu, saude e dinheiro. Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e v?o com elle por essas ruas da capital armando á compaix?o das suas Lesbias. Eu sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu n?o tenho coisa alguma que me entriste?a, para que demonio hei de dizer mal do mundo que tantos deleites me faz experimentar?

-Sou da sua opini?o, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos, ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Trist?o de Almeida, que já come?ava a impacientar-se, como o leitor, do estirado dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta visitasinha, n?o só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.

-Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. é a primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante, continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opini?o? Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.

-Nada, n?o se trata d'isso.

-Ent?o, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das carruagens, ou dos cavallos?

-T?o pouco, respondeu serenamente Trist?o de Almeida. Isso ficará para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de misericordia;-fazer bem aos desgra?ados.

-Se tal f?r, acho muito justo, e desde já me offere?o a ajudal-o em tudo quanto me seja possivel.

-Sentemo nos, disse Trist?o apontando lhe para o sophá. Minha esposa, que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um asylo de crean?as desvalidas. Que lhe parece a idéa?

-N?o a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.a condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o iniciar n'essas associa??es. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais assiduas obreiras do grande monumento da caridade. N?o ha asylo para que n?o seja consultada e é sempre a sua opini?o a que prevalece sobre todas as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.

-Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Trist?o de Almeida, n?o me associo á opini?o de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e creio que será muito mais razoavel.

-Sim?...

-é verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel flagello tiver abandonado Lisboa, ent?o sim, ent?o adoptarei a idéa que teve minha mulher.

-Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.

-Approva?

-Applaudo.

-E dispensa-me a sua protec??o n'esta pequena obra de caridade?

-Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.

-Poderemos hoje mesmo come?ar os nossos trabalhos? perguntou Trist?o de Almeida, acceitando o charuto que lhe f?ra offerecido.

-Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.

-Vamos ent?o procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de supp?r que nos possam ajudar em muito.

-Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o a Trist?o de Almeida.

* * *

Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a carruagem saia o port?o e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo, deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgra?ado.

Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para o hotel de Bragan?a.

Trist?o de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por excep??o, o doutor n?o tardou meia hora!... Das feridas que o atropellado recebera na cabe?a nenhuma era de gravidade, comtudo n?o havia tornado a si.

Trist?o de Almeida, com a m?o do enfermo entre as suas, parecia com profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsa??es. Seria calculo ou verdadeira caridade? Sabia o Deus!

Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.

é melhor deital-o immediatamente, n?o lhe sobrevenha alguma congest?o, disse o doutor tomando o pulso do enfermo.

Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Trist?o de Almeida e o visconde levaram em bra?os o ferido e deitaram-n'o sobre um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.

-Come?a hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde com falsa ingenuidade.

-Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido causa de similhante desgra?a, respondeu-lhe Trist?o. Agora, sr. visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a cabeceira do ferido.

-Será uma grande alma, pensava o visconde.

-Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Trist?o.

Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.

FOOTNOTES:

[1] Trist?o de Almeida lera a preclarissima obra de sir Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allem?o, conseguira que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar desconhecido de si mesmo.

* * *

Previous
            
Next
            
Download Book

COPYRIGHT(©) 2022