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Chapter 4 No.4

Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever, appareceu o medico.

-é alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.

-Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.

O lance era fatal, n?o havia que hesitar. Amaldi?oando n'esse momento a má estrella, que o conduzira áquella posi??o, com as faces lividas de susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.

Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fric??o nos joelhos, Martha, a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.

Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.

Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor analysar a vista da moribunda.

-Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de supp?r que n?o a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.

Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, come?ou de applicar lhe os que o seu estado exigia.

-Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para Jeronymo.

-N?o, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta desgra?ada; e se n?o fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o hospital.

-Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver, retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.

-Parece lhe que poderemos ter esperan?as? perguntou Martha, approximando se do leito.

-Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e, despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.

Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de palhinha, completamente estragadas nos assentos.

Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder, nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no que podesse os incommodos da enferma.

-Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.a Margarida, ao ver os len?oes alvos como a neve, que a mulher do operario levava no bra?o. Estar estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! N?o era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.a Balbina, uma pobre de Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital. Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?

-Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.a Margarida; e demais, cada qual que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam Martha e seu marido.

A velha havia recobrado a raz?o, e sorria-se brandamente para a filha do operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de suprema angustia.

Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe livrassem sua pobre filha.

Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada. As horriveis d?res por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.

Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos indagar o estado da sua doen?a.

ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma estava livre de perigo.

* * *

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