?Apenas sahi d'aquella primeira e ultima casa, em que me f?ra licito entrar no Rio de Janeiro, nunca mais consegui empregar-me em parte alguma. A minha reputa??o estava de todo perdida e manchada.
Como valer-lhe? d'onde haver recursos, para voltar á patria? Em tal caso, o unico refugio seria, talvez, mendigar de porta em porta um mesquinho ceitil, com que podesse matar a fome que me devorava as entranhas; mas, como o havia de fazer, eu, um homem robusto e apto para trabalhar? quem ousaria acreditar-me, n'aquellas circumstancias? e qual seria o meu denodo para arcar peito a peito com a indigna??o da sociedade, arrojando-me ás faces os meus erros, e passadas loucuras?!...
?Todas estas interroga??es dirigia a mim proprio, apertando, por vezes, entre as m?os convulsas, as minhas faces afogueadas em colera e subito desalento. Procurei repousar o meu corpo abrazado, e n?o pude. Experimentei distrahir-me, e tudo cri impossivel. Que fazer, pois? Appellar para a ac??o da divina Providencia; isso seria, além de demasiada temeridade, um puro lazzaronismo. Emfim, nem sei como possa descrever-lhe aquelle momento de suprema angustia, e fatal desesperan?a?! Só lhe direi que em poucas horas me senti envelhecer, como se já tivesse cincoenta annos de edade.
Oxalá Deus me tivesse chamado a si n'aquelle intervallo de pungente d?r e lucta tenaz!...
?No entretanto, a incredulidade ía-se apossando do meu debilitado espirito, e o cynismo n?o tardaria, de certo, a vir fazer-lhe companhia; quando senti um clar?o de luz banhar-me a furto a minha existencia fallaz.
?N'esse instante, tinha eu recebido um bilhete, concebido nos seguintes termos:
--?Meu caro Francisco.--Espero-te hoje, sem falta, ás 11 horas da noite, junto de minha casa. Sempre a mesma--Amelia.?
?Esperei, pois, por essa hora, caminhando, lentamente, para o logar aprazado. Incitava-me uma curiosidade espantosa, e um desejo violento de poder dizer um derradeiro adeus áquella perola da minha alma.
?Apenas soaram 11 horas nos relogios da cidade, de subito Amelia, surgiu a uma das janellas da casa, acenando-me cautelosamente para que me aproximasse sem receio. Acerquei-me, portanto, d'aquelle logar; porém, oh! meu Deus!... o que vi eu?!... nem quero que tal cousa me lembre! Amelia, t?o formosa outr'ora, como estava mudada!... As rosas das faces tinham-se-lhe seccado profundamente; os olhos encovados, e sem brilho; as palpebras apenas se volviam morbidas, e sem significa??o. Tudo denunciava terrivel cataclysmo, ruina inevitavel!
--?Mandei-te chamar, Francisco, porque me custava desprender d'este mundo, sem me despedir do unico amigo que ainda possuo na terra. Perante o despotismo da for?a foi cega a minha humilha??o, como sabes. Obedecendo a meu pae, julguei cumprir um dever filial, e nada mais. Ao menos ninguem ousará taxar-me de ingrata, nem de insubordinada, creio eu. Agora, consumou-se tudo. A vingan?a está prestes. Deus, de certo, n?o me poderá recusar a bemaventuran?a d'uma outra vida. Os anjos esperam-me no céu, meu amigo, e só lá ent?o poderei encontrar a verdadeira felicidade. Lembra-te sempre da tua Amelia, meu caro, e n?o percas jámais a esperan?a da nossa uni?o ante o throno do Altissimo. Tambem imagino bem quantas priva??es terás passado, meu bom amigo. N?o julgues, por acaso, que tenha esquecido a tua dedica??o e infortunio, no meio do fausto e esplendor em que vivo. N?o; pelo contrario. Desculpa, se antes te n?o mandei chamar; mas só hoje me foi possivel levantar as algemas de meus pulsos. Agora... adeus... sinto... passos... preciso retirar-me... Lembra-te sempre de mim... N?o me esque?as.... por quem és... Toma lá... recebe, agora, a ultima lembran?a... da tua querida... E adeus... adeus...
?Amelia retirou-se logo, para dentro, cerrando vagarosamente a janella, como para evitar que alguem a podesse vêr e ouvir. Eu, afastei-me immediatamente d'aquelle logar, suffocado, sem poder articular nem mais uma palavra. Por pouco se me n?o esvaíram os sentidos.
?Apanhei o pacote que Amelia me pedira para acceitar, como um penhor de reminiscencia das nossas horas venturosas. Abri-o, e encontrei um masso de notas do Banco, que subiam a um valor nada vulgar. Emmudeci, e ajoelhei automaticamente, levantando as m?os aos céus, n'um acto de piedosa contri??o. Volvi, depois, a casa, ancioso por dar largas á sinceridade das minhas lagrimas, longo tempo represadas, e ao brado da minha consciencia generosa.
?D'ahi a um mez estava eu no alto mar, em regresso para Portugal.
?Alguns dias, porém, antes de partir, tinha, por acaso, encontrado Amelia, pelo bra?o de seu respeitavel marido, que me lan?ou um olhar torvo e sinistro. Foi tambem a primeira vez que o vi, e, valha a verdade, poucas ou nenhumas impress?es me deixou. Apenas me recórdo ser elle um homem de estatura elevada, muito magro, tendo um espesso e elegante bigode a cobrir-lhe os labios, naturalmente grossos e rudes. De nada mais me recordo. Hoje, se o visse, estou intimamente convencido, que me seria impossivel conhecel-o.
?Mas, como lhe dizia, desembarquei no Porto a 2 de julho de 1852. Ahi mesmo consegui a minha entrada no seminario episcopal da cidade, d'onde saí, cinco annos mais tarde, já com ordens sacras.
?A despeito de todos os despotismos e amea?as, Amelia continuou a escrever-me todos os paquetes, até que chegou um dia em que deixei de receber noticias suas. Foi isto, cinco mezes depois da minha chegada a este paiz. Soube, finalmente, por carta d'um caixeiro da casa commercial, onde eu estivera, que ella havia succumbido a uma phthisica pulmonar, acompanhada de doloroso soffrimento e pranto acerbo.
?O diplomata, ainda hoje me consagra um odio feroz, attribuindo á minha pessoa toda a origem dos seus males e desgra?as. Emquanto a seu genro, nem sei o que lhe terá succedido. Disse-me alguem, ha poucos dias, que elle viera fixar a sua residencia em Portugal. De certeza, porém, nada posso affirmar-lhe.
?Em conclus?o, o que bem lhe posso asseverar é que, apezar da grande avers?o com que aquelle homem ainda hoje me olha, talvez, eu, pelo contrario, nunca lhe desejei sen?o o seu bem e completa felicidade. Pois, em verdade, bastava ver n'elle o marido de Amelia, para n?o poder resistir a um profundo respeito e sincera venera??o.
--E que faria hoje a esse homem se, por acaso, o encontrasse?--interrompeu finalmente Alberto de Carvalhal.
--Perdoar-lhe-ia, como expressamente m'o ordenam os preceitos de Christo.
--Ora até que emfim! sou feliz, meu amigo. Deus seja louvado!--exclamou Alberto, cahindo aos pés do padre Francisco de Castro, que debalde procurou sustel-o em seus bra?os.
Quem era pois Alberto de Carvalhal, já o leitor, de sobejo, o terá imaginado. E a raz?o por que elle sempre se conservara silencioso, no decurso da triste narrativa do padre Francisco de Castro, facil nos será suppor tambem, por isso mesmo que elle n?o fazia mais do que ouvir, em parte, a sua propria historia, e chorar nos seus proprios infortunios.
EPILOGO
Dois annos depois Alberto era monge benedictino. Ao cilicio do penitente junctara elle as lagrimas d'um peccador contricto.
O padre Francisco de Castro, ao receber esta nova, que lhe era de tanto prazer e consola??o, deu-se pressa em ir abra?ar o seu amigo, e, por longo tempo esquecidos, permaneceram nos bra?os um do outro, extasiados da mutua ventura e jubiloso alvoro?o.
A felicidade os acompanhe! Que a gloria do Eterno lhes alente o espirito por entre as lagrimas e abrolhos d'este mundo, e que a certeza d'um beatifico porvir os inicie na practica das grandes virtudes!...
A FATALIDADE E O DESTINO
A FATALIDADE E O DESTINO
Blood will have blood
Shakesp.--Macbeth.
O sangue pede sangue.
Era por uma d'essas noites tempestuosas e frias do mez de dezembro de 18... O vento soprava rijo e medonho. Lá fóra ouvia-se o rugir da procella. O ribombo do trov?o echoava tremendo e severo, como um castigo de Deus. As nuvens, prenhes de electricidade, revolviam os ares, de cada vez mais espessas e rapidas. A natureza parecêra amesquinhar-se, perante o pavoroso espectaculo, que, em breve, teria de representar-se por sobre a superficie da terra.
Tudo cedia, sem remedio, á violencia de t?o possante e irresistivel inimigo.
O roble altivo dobrava sua fronte magestosa ao impeto do vendaval raivoso. O cedro rojava-se humilhado ante a sua impotencia e fragil embara?o. No céu mal se destacava o refulgir das estrellas, d'entre a densidade das brumas e trevas espessas. A humanidade, em silencio, parecera adormecida n'um leito de funeral tristeza, e o prazer profundamente engolphado n'um abysmo de terrivel melancholia.
Dir-se-ía a hora de eterna vingan?a, o dia de suprema verdade!
Em Lisboa, nessa cidade luxuosa e rica, era prolongado o silencio. Apenas o vozear confuso e indistincto d'um ou outro pregoeiro poderia tomar-se, talvez, como um signal de vida e movimento ephemeros, por entre o tumultuar d'aquelle estranho labyrintho.
N'uma pequena e exotica habita??o da rua dos Douradores agitava-se violento e apressurado, d'um para outro lado da casa, um vulto alto e nobre, de tez morena, barba preta, longa até ao peito, e com a fronte sulcada de profundas e salientes rugas.
De quando em quando, Louren?o Viegas corria pressuroso pela sala, abria a vidra?a da janella, com impeto n?o vulgar, e observava impaciente aquelle estado de cousas, que refervia, lá por fóra, nas ondas da procella. Depois voltava para dentro, e continuava a passear agitado e trémulo.
N'um dos intervallos, porém, Louren?o caíu quasi automaticamente sobre uma velha cadeira de espaldar, ali existente, unico movel que guarnecia aquelle triste e humilde recinto, e que tivera a dita de escapar á sua espantosa prodigalidade. Após alguns momentos, como se pensamento estranho, de subito, lhe houvesse subjugado a fronte entumecida pelo continuo redemoinhar de idéas, quasi sempre oppostas, puxou por um punhal, que nunca esquecia ao seu lado esquerdo, e colerico arremessou-o para longe de si, sem outro instincto que n?o fosse o da propria salva??o. A lamina de a?o fusilou um instante, e foi cravar-se n'uma porta fronteira onde bruxuleava ainda o clar?o quasi extincto d'uma candeia, ali cravada. Ao contacto de t?o perigoso aggressor a porta estremeceu, e a luz, mal segura, caíu.
Nesse momento estrugiu os ares o latir agudo de enorme rafeiro, inseparavel companheiro d'este nosso Othello em miniatura. Louren?o apenas levantara a cabe?a, para tornar a caír n'aquelle mesmo estado de medonha lethargia.
No entretanto a tempestade havia serenado algum tanto. As brumas come?avam a dissipar-se no horisonte, e a estrella d'alva rompia bonan?osa e feliz.
Louren?o levantou-se ent?o, allumiado ainda pelo continuo e rapido fusilar dos relampagos, e foi arrancar o punhal do logar em que, momentos antes, se tinha cravado. Olhou para elle com a firmeza d'um heróe, e introduziu-o no bolso.
Tu me salvarás!...--dizia elle, empurrando cautelosamente a portinhola d'aquelle cubiculo, que nem já chave possuia. Acompanhava-o o seu--Terra-Nova.
Mas que iria elle fazer a deshoras da madrugada? Que designio era o seu? Vel-o-hemos mais tarde. Por agora, limitar-nos-hemos a seguir-lhe seus passos incertos, se tal nos aprouver.
Da rua dos Douradores, Louren?o Viegas caminhou até o Caes do Sodré, onde parou junto do Grand Hotel-Central.
--é preciso partirmos já, sem mais demora. Remos ao mar, e nada de hesita??es. Vamos a isso. O teu premio está nas minhas m?os.
Isto dizia Louren?o Viegas, dirigindo-se a um desconhecido, que ha muito o esperava n'aquelle mesmo logar.
--Receio muito pelo mar, meu amo. Mas, emfim, uma vez que é da sua vontade, vá lá. A Virgem Nossa Senhora nos acompanhe.
Assim fallava o arraes, saltando, prestes e desempedido, para dentro d'um pequeno escaler, que se vergava submisso sobre as ondas enfurecidas.
Depois de varias e perigosas peripecias, de todo inuteis á curiosidade do leitor, o escaler abicou finalmente á praia de Cacilhas. D'um pulo estava Louren?o em cima do caes, tendo exposto d'antem?o ao arraes todo o plano de seus futuros designios.
Vejamos, pois, o que succedeu.
Louren?o subiu apressado a longa e difficultosa encosta, que conduz á villa de Almada, e parou no cimo, lá, onde alveja uma casinha graciosa, rodeada de espesso arvoredo, e fragrancias sem conto.
A um signal convencionado, abriu-se uma das janellas d'aquella airosa e solitaria vivenda, e logo após assomou a ella uma figura de mulher, que mal se destacava ainda por entre as sombras quasi desvanecidas da madrugada.
--Es tu, Louren?o?--perguntou Beatriz n'um tom receioso e baixo.
--Sim, meu anjo, é o teu amante, que te espera. Convém n?o demorar, de modo algum, a nossa partida. A claridade come?a a romper, e os nossos esfor?os ser?o frustrados, se n?o fugirmos antes do dia.
--Ent?o já, meu amigo. Fujamos, emquanto é tempo. Meu pae dorme profundamente, e creio até que ninguem mais véla nesta casa.
Neste comenos, Beatriz atou um len?ol á beira da janella, procurando ter nelle um esteio seguro para a sua rapida fuga. Desceu, em seguida, até uma certa altura, em que Louren?o a p?de suster em seus possantes bra?os, n?o consentindo, por este modo, que seu pésinho aristocrata tocasse sequer esta terra ingrata e rebelde, que só pisam humildes mortaes.
Momentos depois as pedras da cal?ada iscavam fogo ao rapido perpassar d'um brioso alaz?o, que tomara o caminho do caes com celeridade inaudita.
Quem era o cavalleiro, ou antes, quem eram os cavalleiros, já o leitor, de certeza, o terá imaginado. E como Louren?o p?de haver á m?o aquelle meio de transporte, facil nos será tambem conjecturar, mormente se nos lembrarmos de que elle havia transmittido, muito antes, as suas ordens ao arraes Jo?o.
Apearam-se no caes. Beatriz, quasi desmaiada, dando apenas acc?rdo de si, foi conduzida ao escaler nos bra?os de Louren?o, que a envolveu sollicitamente no seu chale-manta, para evitar que sua melindrosa saude, d'algum modo, se alterasse com os rigores do tempo e intemperies da esta??o.
O escaler, depois, remou ao largo, e foi atracar a um brigue, que estava ancorado, defronte da torre de Belem, para onde Beatriz foi levada, a custo, com o salutar auxilio de Louren?o Viegas. D'ahi a duas horas já o navio se fazia de véla, com destino para New-York.
Mas, emfim, é tempo de sabermos quem s?o estes dois personagens,--dir-nos-ha a amavel leitora, já um tanto agrilhoada por desesperadora curiosidade.
Pois tem v. ex.a muita raz?o, minha senhora. E para o que vou procurar, desde já, sanar este inconveniente, apresentando, o mais ligeiramente possivel, a photographia dos nossos viajantes.
Louren?o Viegas era bacharel formado em direito pela universidade de Coimbra, e exercia, ha dois annos, um logar de professorado em Lisboa. Procurando debalde obter a m?o de sua adorada Beatriz, filha unica do abastado lavrador--José de Brites Lencastre Serr?o,--Louren?o resolveu-se, por fim, a sacrificar toda a sua vida e paz de espirito, intentando o rapto d'aquella angelica sabina, em que se estreou evidentemente feliz, como acabámos de vêr.
Beatriz, que, a principio, vacillara em acceitar a temeraria e audaz proposta do eximio professor. n?o p?de abafar, mais tarde, o grito espontaneo do seu apaixonado cora??o, consentindo, de boa mente, nos sinistros desejos de t?o aleivoso amante.
Eis aqui, pois, como, por uma natural coincidencia, nos foi licito assistir áquelle espectaculo, devéras commovente e fatal para ambos, que, ainda ha pouco, vimos ser representado dentro dos muros da villa de Almada.
Chegado que foi á America, Louren?o procurou logo empregar-se; e conseguiu effectivamente uma posi??o modesta e decente, sobejamente capaz para antecipar toda e qualquer eventualidade, que, inopinadamente, lhe podesse sobrevir pelo decorrer dos annos.
A saude, porém, n?o lhe f?ra de todo favoravel, sob a influencia d'aquelle clima. Por isso, ao cabo de alguns mezes, jazia elle enfermo, no leito da desgra?a e da miseria.
Beatriz bem lhe quiz valer com o seu trabalho, é verdade. Mas, coitada!... como o poderia ella fazer, se todo o tempo lhe era pouco para velar pelo moribundo e saudoso amante?
Portanto, quando Louren?o obteve algumas melhoras, os seus recursos estavam completamente esgotados. Era dolorosa a posi??o d'aquelle desventurado! As suas for?as mal lhe consentiam ainda qualquer genero de trabalho, por menos violento que elle fosse.
Um dia, Beatriz, depois de ter vendido e sacrificado tudo o que possuia de seu, lembrou-se de appellar para a ac??o da caridade publica, como unico e verdadeiro recurso no extremo d'aquella aterradora indigencia. Louren?o, porém, apenas soube a fatal nova de que os alimentos, que ella lhe ministrava diariamente, com tanta bondade e do?ura, eram colhidos de porta em porta, mediante as suas lagrimas e contristante humilha??o, n?o ousou supportal-os por mais tempo.
D'ahi em diante, tudo o que ella podia trazer-lhe para alentar o seu vigor physico e robustez intellectual era arremessado á rua irremessivelmente. Nunca o seu orgulho e independencia poderiam conceder tal baixeza e opprobrio na mulher que elle desejara por esposa. Desde ent?o o tédio come?ou a apossar-se violentamente de seu angustiado espirito, e Beatriz, a seus olhos, tornara-se um ente desprezivel e vil.
Assim pois, neste estado atrophiante e sensibilisador, pensou elle muitas e longas horas. A loucura parecia dominal-o fortemente. E já n?o havia valer-lhe, talvez, se, por acaso, uma circumstancia imprevista, o n?o obrigasse subitamente a abandonar aquella immobilidade e desoladora situa??o, em que, mau grado seu, o haviam encerrado suas for?as e abominavel desesperan?a.
Por um acaso inexplicavel de manifesta loucura, Louren?o Viegas n?o p?de mais prolongar a febre vertiginosa, que lhe abrazava a mente enlouquecida: levantou-se de salto, como se o desespero, de subito, lhe houvesse alentado o corpo, enervado pela doen?a, e aproximou-se de Beatriz, cujos cabellos beijou soffregamente:
--Ao menos, morrerás com o meu amor, anjo bemdito do Senhor!--exclamava elle, afagando-lhe com delirio sua fronte mimosa.
Já n?o havia remedio, que lhe podesse abrandar o seu feroz instincto. Que valeriam as supplicas da pobre mulher, em face da hediondez d'aquelle tigre asqueroso e repellente,... se, minutos depois, ella tinha de jazer a seus pés, victima expiatoria d'um pensamento infernal?!...
Consummou-se o sacrificio!...
Louren?o, cégo de raiva, sem atinar mesmo com a enormidade do crime, que praticara, deu-se pressa em fugir para longes terras, passando sempre incolume ás m?os da policia vigilante d'aquelle paiz.
Decorridos alguns annos, voltava elle a Portugal, em demazia opulento, para poder grangear quaesquer d'esses titulos ou commendas, que t?o malbaratados andam por este nosso malfadado paiz. Onde elle conseguira t?o rapida transforma??o, isso ainda hoje passa como mysterio insondavel para todos os que o conheceram outr'ora pobre e sem meios de vida. Diziam alguns que elle se associara a uma quadrilha de bandidos na America do Sul; outros affirmavam ter sido roubada aquella fortuna a um abastado proprietario, ao servi?o do qual elle se conservara por muito tempo.
Em conclus?o, o que se sabe ao certo é que, estando elle um dia, muito descan?ado, pacificamente encostado ao portal de sua casa, respirando docemente as exhala??es fragrantes das mil florinhas, que, ent?o, apenas come?avam a vegetar, de subito parou junto d'elle um vulto desconhecido, sopeando galhardamente um brioso e folgas?o ginete.
--é o sr. Louren?o Viegas a quem tenho a honra de fallar?--dizia o cavalleiro, dirigindo-se para elle com delicadeza e urbanidade.
--Um seu humilde servo,--replicou Louren?o, admirado.
--Pois, sr., saiba que aproveito esta occasi?o para vir pagar-lhe uma divida antiga, que até hoje n?o tenho podido satisfazer.
--Uma divida?!... A mim?! Isso ha de ser engano, for?osamente. Creio que v. s.a nada me deve.
--Pois ent?o saiba mais que me chamo José de Brites Lencastre Serr?o, e que tinha uma unica filha chamada Beatriz, a quem um infame assassinou e roubou para sempre aos meus carinhos e affei??es.
Palavras n?o eram ditas, e já Louren?o Viegas caía moribundo no ch?o com um tiro de bacamarte, que lhe varara o peito de lado a lado.
Louren?o cahiu exclamando:--Mataram-me!... Fez-se a justi?a de Deus!...
Quando, algumas horas depois, accorreu a gente da terra áquelle sitio, já elle havia exhalado o ultimo suspiro.
No dia immediato alguns dos seus poucos amigos conseguiram, a grandes rogos, que o parocho da freguezia desse o seu consentimento para elle ser sepultado no adro da igreja.
Hoje a sua lousa jaz quasi ignorada. Algumas florinhas solitarias, que derramam aromas nas horas do crepusculo, ou quando muito um cypreste erguendo-se melancolico e severo, com as c?res sombrias e esverdeadas da sua eterna primavera, e uma cruz silenciosa e triste indicando que ali repousam os ossos d'um desgra?ado!...
CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA.
CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA
Ao Dr. Antonino José Rodrigues Vidal
CAPITULO I
Henrique IV, perguntando a Gabriella d'Estreés por onde se entrava para o seu quarto, esta respondeu-lhe:--pela porta da egreja. Pela sociedade moderna pode dizer-se que a entrada para o matrimonio é muitas vezes a porta d'um sal?o onde se dan?a.
Lopes de Mendon?a.--Scenas e Phantasias.
Um baile!...
Delirio da mocidade! gloria d'um amante! receio das m?es! enojo da velhice!...
Um baile!...
Quantas vezes sonhamos, ainda crian?as, com aquelle novo mundo ideal e angelico, com aquella vis?o dulcissima, enlevo de amantes, com aquelle rodopio vertiginoso e inebriante!...
Um baile!...
Mixto de ideas e sentimentos oppostos! Sorrisos e prantos! suspiros e lagrimas! amor e saudade! lyrios e goivos!...
Um baile!...
Desgra?a de muitas familias! orphandade de muitos cora??es! inveja de muitas creaturas!...
Um baile é a photographia da humanidade, assim como o theatro é o espelho da sociedade.
Tem-se dicto muito sobre bailes. Todos lhe reconhecem os perigos, e, todavia, ninguem os evita.
A donzella corre ao precipicio, attrahida pelo canto seductor d'esta implacavel sereia. O mancebo alimenta ali sua phantasia ardente. Os velhos assistem a elles, como meros espectadores, real?ando as glorias dos seus tempos, em menospreso das modernas velleidades civilisadoras e progressistas.
Emfim, tudo anceia por um baile; todos rejubilam na sua presen?a; todos esquecem, por momentos, as ulceras do proprio corpo, para dar largas ás vélas da sua imagina??o.
Seja, pois, bemvindo o sal?o onde teremos de encontrar um dos principaes personagens da narrativa que vamos encetar!...
Estava eu em Fafe, no mez de agosto de 1860. Ali, fugindo ás ardencias do estio e monotonia da cidade, me fui recrear, durante alguns mezes, á sombra d'aquellas vi?osas amoreiras, completamente descuidado do bulicio d'este mundo, para a sós comigo me entregar ao prazer de alguns dias serenos e beatifico scismar.
Foi tambem n'uma d'essas occasi?es, creio eu, que me foi licito sondar uma das almas mais formosas e um dos genios mais modestos que tenho encontrado em dias de minha vida. Arthur de Campos era realmente um mo?o affavel e de uma fina educa??o; bom até ali. Havia um n?o sei quê de mysterioso e sympathico n'aquelle seu vulto insinuante e bello, que me attraía irresistivelmente para elle.
Para logo, procurei travar rela??es com o joven provinciano, e de tal modo o consegui, que, dentro de pouco tempo, já vivia nas suas proprias alegrias, e chorava nas suas tristezas. Entre nós a amizade era mais que fraternal. Quasi todos os dias nos juntavamos de manh?, para só nos separarmos ao recolher para casa.
Oh!... com que saudade me n?o lembra ainda aquelle tempo!... como os dias se deslisavam ent?o brandos e suaves! como era puro o azul do nosso horisonte, e feliz a nossa existencia, juncada pelas rosas do amor, e matizada de flores, que nos enfeiti?avam a mente enlouquecida pelas larvas da phantasia!...
ás vezes passavamos horas inteiras, um ao pé do outro, sem articularmos uma unica palavra; e, comtudo, os nossos pensamentos pareciam adivinhar-se mutuamente n'aquelles meigos e puros anceios de paz e felicidade.
Um dia, lembra-me ainda como se hoje f?ra, eram talvez duas horas da madrugada. A lua, aureolada de mystica luz, campeava no seu eterno throno de magia e formosura. Reinava um silencio sepulchral. Apenas se presentia ao longe o grato arroio, serpeando de mansinho por entre as dispersas arvores, de que as folhas se agitavam frouxas, ao perpassar da fresca brisa da madrugada.
Sen?o quando veiu ferir-me o meu ouvido vigilante a voz de Arthur, que me chamava de fóra da porta. Corri a elle, curioso por saber o que se teria passado. Nada me disse. Entrou pensativo. para dentro de casa, e sentou-se melancolico e triste.
--Sei quem és, meu amigo; falla francamente, que tens tu, que te aconteceu?...
Elle, comtudo, conservava-se silencioso, sem nada me responder. Eu, por mim, julguei prudente n?o insistir em t?o pertinaz proposito, e aguardei melhor ensejo para esse fim, certo de que elle se n?o recusaria a revelar-me o seu segredo.
Após alguns momentos, quando o vi sair, sem proferir sequer uma unica palavra, durante o tempo que ali estivera comigo, tive a fatal idéa de o acreditar demente. Para me certificar, porém, da verdade do facto, resolvi seguil-o a todo o transe, commettendo a discri??o de me occultar, o mais cautelosamente possivel, atrás da espessura do arvoredo por onde elle tinha de passar irremediavelmente.
Similhante a um reptil, lá me fui arrastando, como pude, por entre o matto e silvedo, que delimitavam o estreito caminho.
Foi ent?o, que sua tímida voz, de envolta, com o perfume do orvalho matutino, me veiu estancar no peito um mysterioso receio. Suas palavras foram tristes, como a solid?o da sua alma, pavorosas como os milhares de phantasmas, que lhe voejavam na mente tresloucada. Era assim o monólogo:
--?A sociedade! sempre a sociedade! Maldicta sejas tu, mil vezes maldicta!... E o homem ha de respeitar necessariamente os teus decretos vis, e lisongear a tua hypocrisia infame!
?Triste abjec??o!...
?N?o sei porque; mas, quando penso nessas sombras pavorosas, que, a cada passo, me enluctam o espirito com as trevas deste mundo, sinto-me enlouquecer terrivelmente. Odeio os homens; abomino o prazer da terra, e n?o posso de maneira alguma acreditar na idéa d'um Deus infinitamente justo e bom!...
?Muita lagrima, muita miseria e muita vingan?a: eis devéras a realidade das coisas, eis a sociedade, em toda a sua nudez!
?Nasce a crian?a, de envolta com o cilicio do soffrimento, para expirar depois no meio de agudas d?res e medonho agonisar!
?Um dia, quando já homem, aproxima-se da mulher, que ama loucamente, e essa mulher, sem pejo, cospe-lhe nas faces a podrid?o da sua alma corrompida, o veneno absorvido no seio da sociedade, o lodo, a corrup??o, a vaidade!...
?E ainda ha quem sonhe no amor d'uma mulher?!...
?Pobre desgra?ado, quem quer que tu sejas compade?o-me da tua innocencia. Aprende antes a conhecer esses vermes nauseantes, e n?o creias jámais nas palavras hypocritas d'uma mulher fementida! Afasta-te, em quanto é tempo, d'essas viboras dolosas, que te podem acarretar a tua eterna ruina, e a degrada??o da tua dignidade!...?
N?o pude ouvil-o por mais tempo. O echo de suas ultimas palavras foi perder-se a distancia nas azas da branda vira??o d'uma esplendida madrugada de outono.
Retirei-me para casa bastante apprehensivo. De todo me f?ra impossivel atinar com a origem de similhante mysterio. Appellei, pois, para o tempo, como melhor mestre e mais efficaz para me elucidar a esse respeito.
Quando me tornei a encontrar com Arthur, d'ahi a algumas horas, já o reconheci mais sereno e agradavel. Affigurou-se-me ver dissipadas as sombras, que pouco antes lhe offuscavam o espirito. Ainda assim, evitei sempre o fallar-lhe sobre coisas, que de algum modo podessem offender o seu melindre e elevados sentimentos. Procurei amigavelmente distrair-lhe os seus pezares e profundas amarguras, mas vi quasi baldados os meus esfor?os.
No entretanto, o inverno amea?ava ser rigoroso. O mez de novembro principiara frio e insupportavel.
Tudo se transtornara ali, com a chegada da esta??o invernosa. Aquelles prados e veigas, até ent?o tapetados de verde e flacida alfombra, come?avam a inundar-se com as cheias, que os tornavam geralmente intransitaveis. O céu iriado da primavera havia desapparecido, deixando em seu logar um mont?o de nuvens escuras e temerosas.
Neste comenos, negocios de familia me chamavam a casa, impedindo a continua??o da minha residencia n'aquelle encantado paraizo de amor e felicidade. Despedi-me, pois, affectuosamente do meu amigo Arthur, e regressei ao Porto.
Arthur promettera escrever-me d'ahi em diante sem interrup??o. Passaram-se, comtudo, oito mezes sem que eu recebesse uma unica carta sua. Quasi o julgara doente, se, porventura, n?o f?ra um amigo d'aquelles sitios, que me disse tel-o encontrado, poucos dias antes, de perfeita saude e invejavel robustez. Dei-me por satisfeito, e de nada mais quiz saber.
Aconteceu, porém, um dia, ser eu convidado para um baile em casa do conselheiro F., por occasi?o do anniversario natalicio de sua filha Mathilde. Mal teria entrado no sal?o, quando, cheio de espanto e receioso prazer divisei o meu amigo Arthur de Campos, por entre a multid?o de cavalheiros, que se apinhava a uma das portas, para a proxima quadrilha.
Fiquei estupefacto!
Ora v?o lá conhecer o mundo,--dizia eu, repetidas vezes a mim mesmo, mal acreditando ainda na realidade do que via. Pois aquelle homem que, ainda ha pouco, amaldi?oava a sociedade, no meio d'um horrivel spleen, que lhe atrophiava a dolorosa existencia; aquelle homem, para quem a mulher n?o passava d'um espectro hediondo e feroz,--já ent?o n?o hesitava em se degradar d'aquelle modo, vivendo na sociedade, e procurando até o objecto da sua antiga indigna??o e odioso desprezo?!...
Pois a isto chama-se--saber viver e nada mais,--dir?o muitos, e digo eu tambem. Lá diz o proverbio:--Qui ne sait pas feindre, ne sait pas vivre.
Passemos, porém, uma esponja por sobre estas miserias e humanas ninharias, e voltemos ao sal?o.
Ao meu lado conversava calorosamente um grupo de convidados.
Dizia o primeiro, litterato de grande nomeada na invicta cidade:
--Quem será aquelle joven Lovelace, que traz captivos tantos olhares modestos e apaixonados?...
--Pois, em verdade, ainda n?o o conheces, meu caro?--retorquia um adestrado Marialva, muito conhecido pelas suas proezas e afamada mestria.--Aquelle sugeito é um provinciano de Fafe, homem de grandes haveres, segundo me dizem, e que vem agora residir para o Porto. é o que em boa sociedade pode chamar-se un homme distingué, un homme à bonnes fortunes.
--Hum!... lá me parecia!...--prorompeu o primeiro. Isso assim é outro cantar. Por isso a filha do nosso conselheiro n?o descura da sua miss?o. Olha... que modos aquelles... como ella se quebra toda para lhe agradar... ah! pois n?o, coitadinha!... Nem a formosa nympha da mythologia, surgindo do seio do Oceano, seria mais bella e tentadora!...
--E bem haja. ella, continuou o segundo. Isto, hoje em dia, mulher esbelta sem dinheiro é o mesmo que um cavallo bonito e manhoso: todos gostam de lhe admirar a estampa, mas ninguem o quer para si.
Emquanto isto assim se passava, Arthur, de longe, pareceu reconhecer-me, e, levantando-se de golpe do logar onde se sentara, ao lado de Mathilde, veiu abra?ar-me sem demora.
--Como tu estás gordo e bom, meu caro! Estava longe de te fazer hoje por aqui, dizia elle, apertando-me fraternalmente em seus bra?os varonis.
--Pois olha, eu a ti muito menos; foi milagre, de certo. Mas conta-me lá: que transforma??o foi essa t?o rapida? Tu, o homem piegas e choramingas de outr'ora, o Heraclito provinciano, a quem nada podia distrair, a n?o ser uma ou outra pagina do milagroso Werther, appareces-me agora transformado em Democrito feliz e folgas?o, catechisando estes cora??es rebeldes ao teu dominio e absoluto imperio?!...
--Isso é uma longa historia, meu amigo, que para aqui n?o vem a proposito. A esse respeito tenho muito que te contar. Apparece ámanh? no Hotel Central, quarto n.o 9, e lá fallaremos.
--Está dicto: ámanh? lá me tens, sem falta. Apertámo-nos depois as m?os reciprocamente, e cada um seguiu o seu rumo. Arthur voltou ao sal?o; eu retirei-me socegadamente ao meu quartel.
CAPITULO II
Amor, és immortal! sorris nas campas!
Goethe.
No dia immediato, á hora aprazada, dirigi-me apressadamente para a rua do Laranjal, conforme haviamos convencionado na vespera.
Seria talvez uma hora da tarde, quando entrei no Hotel Central. Fui assim percorrendo a longa numera??o dos quartos, até que se me deparou o mencionado n.o 9, a cuja porta bati duas vezes, sem obter a minima resposta. á terceira pancada, já conseguira mais alguma coisa, por isso que me soára distinctamente o ranger descompassado d'um leito, e o bocejar monótono d'algum sybarita, que se espregui?ava indolente, qual moderno Sardanapalo. Quasi me julgara illudido no meu humilde proposito, quando ouvi a voz de Arthur, clamando bem alto:
--Olé! quem está ahi? Entre quem é...
Abri a porta, e entrei. Arthur mal havia despertado ainda do contristante lethargo que d'aquelle modo lhe entorpecera seus membros voluptuosos.
--Sim, senhor, muito bem, menino Arthur! isto é que se chama viver, o mais é historia! Olha que lá por fóra já é dia ha muito tempo.
--Ora deixa-me, nem me falles n'isso. Estou perdido, estou morto! Amo uma mulher apaixonadamente.
Ai! Mathilde! Mathilde! o teu olhar foi o demonio, que se introduziu na minha alma. Preciso amar-te. D'ora ávante só quero viver para ti, adorar-te, e chamar-te minha, finalmente. Que nos importar?o, ent?o, os prazeres d'este mundo, quando nós, afastados da sua corrup??o e miseria, vivermos um só para o outro e nos alimentarmos na innocencia e suave conforto dos nossos cora??es privilegiados?!...
Ai! Mathilde! meu amor! custe o que custar, tu has de pertencer-me um dia. Embora tenha de arrancar-te aos bra?os de teu pae, tu serás minha e só minha, doce perola do meu cora??o!
--Bravo! tudo vai a melhor. á ultima hora appareces-me metamorphoseado n'um elegante Romeu. Realmente, és um homem singular, um typo sui generis!...
--Sou um homem singular, dizes tu. N?o preciso, nem quero comprehender-te. Porque me n?o vês, como vós outros, verme impotente, rastejando impunemente na podrid?o das proprias chagas, chamas-me um typo sui generis. Embora! Prouvera a Deus todos assim fossem!...
--Lá por isso n?o vale zangar, meu amigo. Já vejo que n?o estás hoje de muito bom humor. Este tempo chuvoso tambem n?o deixa de ter sua influencia sobre o systema nervoso. Mas, emfim, fallemos n'outra coisa. Quando chegaste de Fafe?
--De Fafe cheguei ha tres dias, e de sobejo têm elles sido para me persuadir a que n?o devo voltar para lá.
--N?o deves voltar para lá?!... Essa é melhor. Ent?o por que?
--Porque já agora aborre?o aquella vida solitaria da minha aldeia. Tenciono comprar uma casa, casar-me breve, e continuar a residir aqui. Mas, olha lá, isto devem ser horas de almo?o: que me dizes?
--Até de jantar, meu caro: s?o quasi duas horas da tarde.
--Pois bem, n'esse caso, vou vestir-me quanto antes, e tu almo?arás comigo, como espero.
--Eu?! almo?ar a estas horas?! Estás perfeitamente enganado a meu respeito. Eram 7 horas da manh?, já estava fóra de len?oes; ás 8 tinha o almo?o digerido; e ás 9 estava na rua a tractar dos meus negocios.
C'est trop fort!... Far-me-has companhia, ao menos, estimulando-me o appetite com dois dedos de succulento cavaco; depois iremos juntos a casa do conselheiro F., onde se me faz mister da tua valiosa protec??o.
--Nesse caso, uma vez que me queres para jantar, tomarei a liberdade de ir já confortando as paredes estomacaes, para o que dér e vier.
--á cautela, tambem t'o aconselho; porque, finalmente sempre é obra que fica feita.
Almo?ámos, pois, deliciosamente. Eu de cada vez admirava mais o meu amigo Arthur. Dir-se-ia um ente incomprehensivel, na verdade: ora alegre, ora triste, ora melancolico e sereno, ora folgas?o e jovial; emfim, s?o coisas d'este mundo!
Depois de termos entrouxado duas boas travessas de appetitosas costellelas de porco e ovos, acompanhadas do saboroso e estomacal vinho de Xerez,--saímos ambos, em direc??o á rua de Sancta Catharina, onde morava o nosso amigo conselheiro F.
Apenas haviamos subido alguns degraus da escada, cujo andar era habitado pelo conselheiro e sua familia, quando nos soou distinctamente a voz de Mathilde, altercando furiosa com sua irm? Maria. Hesitámos um instante no nosso proposito, e por alguns momentos ficámos perplexos, sem saber o que fazer. Por fim parámos juntos á porta da entrada, a cuja fechadura collámos o ouvido cautelosamente, para assim, invisiveis, melhor podermos assistir áquelle espectaculo de ciumenta fraternidade.
Dizia Malhilde, com as faces inflammadas em colera e subito desespero, accentuando bem as suas palavras, vibradas do intimo do cora??o:
--Ora a mana sempre é muito invejosa!... que se importa com a vida do sr. Arthur? que tem com elle? nunca o ouviu fallar a seu respeito, nem bem, nem mal, n?o é assim?... pois ent?o é melhor calar-se, e nunca mais tornar a fallar em tal coisa.
--Sim, sim, tudo isso é muito bonito! eu já sei o que a mana quer: imagina talvez que o sr. Arthur está a distillar de amores pela sua pessoa, e illude-se perfeitamente. Nem elle tinha mais que fazer. Olhe, sabe que mais, é melhor tirar d'ahi o sentido. Ainda d'esta vez n?o péga a labia, minha senhora...
--Olhe bem a mana, veja lá o que diz; depois n?o se arrependa, porque pode vir tarde e a más horas. N?o estou disposta a aturar as suas creancices por mais tempo. Parece que ainda cheira a coeiros! Que tal está o fedelho! já viram coisa igual?...
Neste ponto, Arthur, vendo que a contenda ia a tomar propor??es um pouco serias e assustadoras, julgou do seu dever atalhar quanto antes os funestos resultados, que d'ahi lhe podessem provir. Para isso tocou a campainha, e logo após veiu um criado abrir-nos a porta, convidando-nos a entrar para a proxima saleta.
Entrámos n'uma sala, elegantemente adornada e cuidadosamente disposta. Sentámo-nos n'umas cadeiras de bra?os, ao acaso, e lan?ámos m?o do primeiro objecto que se nos deparou opportunamente sobre a mesa: era um album, quasi todo manuscripto.
Abrimol-o distraídamente,--passeando a vista, ao mesmo tempo, por aquella multid?o de paginas, repletas de centenares de palavas semsabores e sem sentido--quando vimos, no topo da pagina, a seguinte epigraphe:
ILLUS?ES
(Fragmento d'uma poesia inedita)
á ex.ma sr.a D. Mathilde
Isto excitou a curiosidade de Arthur, que continuou a lêr em voz alta:
No céu divinal nascida,
T?o querida!...
Entre os homens és rainha!
No teu olhar enlevados,
Pelo encanto avassallados,
Todos suspiram: sê minha!...
De manh? o sol luzente,
Vem ridente!...
A natura illuminar;
Assim tu, com teu fulg?r,
Vens n'um sorriso d'amor
Minha alma purificar!
No céu a estrella ondulante,
T?o brilhante!...
A cada passo é toldada!
Mas tu brilhas sempre pura,
Qual a rosa com frescura
Pelo sol illuminada!...
--C'est assez!...--exclamou Arthur, contendo um longo abrimento de bocca, e depondo discretamente o album sobre a mesa. é um optimo narcotico para quem precisar d'elle: eu, por mim, declaro, estou satisfeito e mais que satisfeito.
Neste momento entraram na sala as duas filhas do conselheiro, acompanhadas de sua respeitavel m?e.
Trocadas as cortezias do estylo, tornámos a tomar novos logares.
Arthur come?ou, dizendo que aproveitava aquella occasi?o para ir agradecer pessoalmente o benevolo acolhimento e fraternal sympathia com que se tinham dignado tractal-o na noite antecedente, confessando-se eternamente grato por todos aquelles obsequios, que t?o do intimo lhe tinham sabido prodigalisar, e que elle jámais poderia esquecer em dias de sua vida.
A isto respondeu mui laconicamente a dona da casa, intentando provar-lhe que n?o tinha feito mais do que cumprir um dever para com os seus hospedes e amigos, que tanto folgava em ver reunidos, como em familia, n'aquellas poucas noites de sancta alegria e jubilosa reminiscencia.
Arthur, por um momento silencioso, continuou logo n'aquelle mesmo estylo parlamentar, com que havia encetado a sua conversa??o, manifestando igualmente o seu profundo sentimento pela ausencia do conselheiro, a quem desejava fallar urgentemente para tractar d'um negocio importante, cuja solu??o deveria interessar a toda a familia.
Nesta occasi?o, confesso, tive um horrivel calafrio. Tractar d'um negocio importante, cuja solu??o deveria interessar a toda a familia?!...
Nem eu sabia que pensar d'aquellas suas palavras. Pois dar-se-ha o caso, na realidade, que este homem vá pedir a m?o de Malhilde, n?o tendo fallado com ella sen?o uma vez, ignorando completamente os seus sentimentos e qualidades moraes?!...
Veremos!...--dizia eu a mim mesmo, abrangendo em toda a estreiteza d'esta palavra um raio de esperan?a no futuro.
Após alguns momentos, como vissemos que n?o chegava o dono da casa, saímos, promettendo voltar n'essa mesma noite.
Quando depois nos encontrámos, cá fora, ao ar livre, sem haver nenhuma pessoa que podesse espiar os nossos passos, Arthur encarou-me com um olhar furtivo, mixto de susto e alegria, perguntando-me disfar?adamente:
--Ent?o que te parece a minha resolu??o? N?o julgavas, talvez, que fosse t?o precipitado nos meus planos; n?o é assim? Pois olha, eu previra tudo isso, e, todavia, n?o o pude dissimular. Quiz evitar todos os escolhos, que me podessem sobrevir, no decurso d'esta minha difficil peregrina??o, mas cheguei nimiamente tarde. Agora entrego-me á Providencia de alma e cora??o. O futuro nos dirá o que f?r.
Estas ultimas palavras foram proferidas n'um tom severo e decisivo, e de tal modo, que julguei inutil toda e qualquer replica, que a minha amizade, porventura, podesse suggerir-lhe. Limitei-me apenas a fazer-lhe alguns reparos sobre o casamento, apontando sempre ao futuro, como uma sombra pavorosa, diante da qual elle teria de recuar um dia, se a fatalidade, por acaso, porfiasse em perseguil-o. Elle, pela sua parte, fingiu nada ouvir do que eu lhe dissera, e calou-se.
N'essa mesma noite, o casamento ficara definitivamente tractado, para ter logar dentro em quinze dias, o mais tardar. Esta resolu??o do mo?o provinciano propalou-se logo pela cidade, e todos pasmavam ao ouvil-a, acreditando uns na sua realidade, e outros negando-se em acceital-a como verdadeira.
O que é certo é que d'ahi a dez dias os jornaes da localidade registavam nas suas columnas o casamento de Arthur, do modo seguinte:
--?Hontem, pelas 10 horas da manh?, na egreja de Santo Ildefonso, contrairam os sagrados la?os matrimoniaes o ex.mo sr. Arthur de Campos e a ex.ma sr.a D. Mathilde de Andrade Castello Branco, menina de subidos sentimentos e elevadas qualidades. Os ditosos noivos retirar-se-h?o brevemente para Lisboa, onde ir?o passar a lua de mel. D'aqui mesmo lhes enviamos os nossos parabens, fazendo votos pela sua felicidade futura, e eterna uni?o.?
O ideal de Arthur realisara-se, pois, neste mundo. N'aquelle dia tudo lhe sorriu fagueiro e jovial. A primavera tornara a despontar no seu cora??o, cheia de galas e encantos. A sua imagina??o, povoada de tudo quanto ha de mais bello e sublime, neste valle de lagrimas, nada mais enxergara além da existencia presente. O sol da sua felicidade, até ent?o sepultado nas trevas de um desditoso porvir, surgiu emfim magestosamente no horisonte da vida, purpureado de bem vivas c?res e rescendentes perfumes.
E, diga-se a verdade, n'aquelle dia, ao menos, Arthur julgou-se feliz, e muito feliz. Por entre as rosas do amor n?o distinguiu elle os goivos da existencia; através a pureza do seu horisonte de todo lhe f?ra impossivel notar a orla sombria e fatidica. Sentiu-se deslumbrado por um n?o sei quê de vago e mysterioso, que o arrastava involuntariamente para um abysmo tremendo, onde tinha de resvalar mais tarde, a despeito mesmo da sua vida regrada e habitos morigerados.
Por esta occasi?o memoravel foi servido um lauto banquete em casa do conselheiro F.
Opiparos manjares guarneciam as mesas, rodeadas de amigos e parentes.
N'essa mesma noite houve um baile, esplendidamente servido, e que se prolongou até ás 6 horas da manh?.
Passados que foram tres dias, Arthur partiu para Lisboa, acompanhado de sua esposa e sogro. Ali se demorou tres mezes, ao cabo dos quaes regressou á invicta cidade, mais ditoso ainda do que lhe f?ra licito imaginar.
A felicidade, porém, como o destino, tem os seus revezes neste mundo. Um amor excessivo aterra-nos e confunde-nos. Os extremos s?o sempre anomalias, mais ou menos perigosas, na vida humana.
CAPITULO III
Un groupe de Dalila et de Sanson avec celui de la farouche Judith serait toute la femme expliquée.
Balzac.
Ai! mulheres! mulheres! De todos os mysterios, que Deus ha creado, vós sois o maior d'elles, talvez!...
E quem poderá comprehender-vos, com effeito?!...
A candura do vosso espirito, ao desabrochar das mil chimeras da existencia; a meiguice de um vosso olhar voluptuoso e luxuriante; o feiticeiro encanto de um vosso sorriso, profundamente celestial e angelico; todo o complexo de variegadas c?res e mysticas harmonias, que vos envolve e sobrepuja aos outros seres da crea??o: emfim, todos esses sons dispersos, indefiniveis e atrahentes, constituem em vós um Eden de amor, idealisa??o sublime, perante a qual todos se julgam impotentes, n?o sabendo até o meio de resistir-lhe.
Tudo tem o seu contraste, porém!... N?o ha pomba sem fel, assim como tambem n?o ha rosa sem espinhos!
A par de seraphica innocencia existe em vós a ferocidade do tigre; junto á sublimidade do vosso cora??o tendes a fealdade da hyena!
Profunda e contristante antinomia!!!
O mundo, em seus juizos iniquos, condemna-vos, a cada passo, sem procurar mesmo ouvir as vossas queixas. A sociedade ha muito lan?ou o stygma fatal sobre a vossa fronte impura. E no meio de tudo isto, todos vos procuram para vos repellirem mais tarde, quando já eivadas das mil miserias e humanas torpezas.
Ent?o ninguem se lembra já que fostes uma m?e desvelada e terna; que amamentastes a vossos peitos a loira criancinha--fructo mimoso do Senhor;--que procurastes imprimir na sua fronte o osculo do amor para o tornar o homem bom e virtuoso, que todos desejam, e por quem a civilisa??o trabalha sem cessar!
Sim! ent?o, ninguem se recorda que fostes o encantamento do lar domestico, quando filha;--esse typo seductor, vis?o etherea, que pela sua natural candura, meigo aspecto e divina gra?a, fazia a felicidade dos paes e o respeito dos extranhos!...
Até mesmo a esposa carinhosa e meiga, que outr'ora illuminava, como um sol de primavera, foi esquecida e amaldi?oada pelos homens;--eclipsou-a a nuvem sombria da civilisa??o. O Minotauro de Balzac devora as mulheres jovens e bellas, as outras anceiam por serem devoradas por elle.
Ai! mulher!... mulher!... Quanto é sublime a tua miss?o sobre a terra! Como é soberbo o teu dominio!... Quantas d?res n?o tens tu mitigado com a protec??o do teu magico affecto!... Para quantos infortunios n?o tens sido o anjo mensageiro, enviado pelo Creador á humanidade!... E haverá ainda alguem, t?o estolidamente egoista, que pretenda negar o teu poder?!...
Homem, quem quer que tu sejas, dize-me--que és tu perante as lagrimas de uma mulher?... oh!... mesquinha e louca creatura!... qu?o ephemera é a a tua natureza!... gr?o de areia na vastid?o do oceano!...
Mulher! Eu respeito as tuas d?res, bemdigo as tuas lagrimas!...
Porém, vai longa a digress?o. Voltemos ao fio da nossa historia.
Arthur viera, pois, assentar a sua residencia no Porto, definitivamente. Ali comprou uma linda habita??o, ao cimo da rua da Alegria, onde se conservou durante um anno, approximadamente, n'um remanso de paz e socego de espirito, que amea?ava ser eterno.
N?o aconteceu, porém, assim. As nuvens iam-se-lhe amontoando gradualmente por sobre o anil do seu horisonte. A procella estava imminente; era terrivel o abysmo!
Acompanhemos o drama.
Arthur, apenas estabelecida a sua morada, e dispostas convenientemente as demais coisas, concernentes a uma boa administra??o, come?ou a embriagar-se de tal modo n'aquelles effluvios de amor, que brotavam espontaneos do seio de sua adorada esposa, que se julgou prestes a succumbir de felicidade e bem-estar.
A ventura em demasia conduz-nos a maior parte das vezes a uma dolorosa prostra??o e fleugmatica indifferen?a por tudo o que n?o f?r o objecto das nossas vistas apaixonadas e infantis.
Foi exactamente o que succedeu ao afortunado(?) mancebo. Mathilde tornara-o flexivel a ponto de o converter n'um instrumento pueril de todos os seus caprichos e insaciaveis desejos.
Os bailes multiplicavam-se; os jantares n?o tinham limites. Emfim, por aquelle andar, tudo tendia, sem remedio, a uma perdi??o infernal e miseravel corrup??o. E a par d'isto tudo, como succede a maior parte das vezes, a reputa??o de Mathilde corria já empe?onhada e perdida...
O joven provinciano parecera n?o ter primado demasiadamente na escolha dos seus amigos. Por entre um ou outro cora??o sincero e bom, d'aquelles que frequentavam a sua casa, surgiram tambem muitas almas corrompidas e devassas. Entre estas, notára-se particularmente um flaneur de bom tom, a quem Arthur dedicára sempre, desde o principio, uma particular predilec??o. Chamava-se elle Roberto Guimar?es, se bem me recordo.
Roberto Guimar?es era um d'estes elegantes da boa sociedade, a quem de resto pareciam sobejar dotes de espirito e faculdades inventivas para se fazer amar por qualquer mulher, egualmente formosa e bella. Trajava pelo ultimo figurino de Paris: o pesco?o, vexado em enorme collarinho, que devia medir um palmo, aproximadamente; as pernas enfronhadas em apertada cal?a, que amea?ava desconjuntar-se a cada movimento; o pé, encaixado n'uma bota de lustroso verniz, obrigando-o a andar em passo de dan?a por causa dos callos que o molestavam; a luzente cabe?a, sepultada em fino chapéu, cuja altura n?o excedia tres pollegadas. Era sua inseparavel uma badine, em que pegava com o primor do fino janota; frequentava o café Marrare, onde ia discutir a politica do dia.
Com taes predicados, Roberto era acolhido em todos os sal?es com inaudita anciedade e frenesi espontaneo; em todos elles figurava sempre na primeira plana, prodigalisando com perspicacia nada vulgar os preciosos dotes da sua atilada imagina??o e acrisolado saber.
E, digamol-o de passagem, Roberto era uma alma grande e difficil de encontrar entre os homens. Emquanto tivesse dinheiro, n?o havia ninguem pobre ao pé de si: todos folgavam com a sua alegria.
Amava do mesmo modo todas as mulheres, sem comtudo ter paix?o a nenhuma d'ellas. Para elle, a mulher n?o passava de um objecto, como qualquer outro, que o deleitava simplesmente durante duas ou tres horas por dia, um incentivo para melhor passar o tempo, e mais se rir com alguns amigos intimos entre duas botijas de cognac e appetitoso fiambre.
Com o contacto da sociedade tornara-se cynico. A seus olhos a familia, a religi?o, a patria, a sociedade n?o eram mais que meras phantasmagorias--um espectro vil e hediondo!
N?o acatava ninguem, nem mesmo as cousas mais sagradas d'este mundo. Era implacavel nos seus juizos.
O boato circulava já nas ruas mais frequentadas da cidade. Aos olhos da sociedade Mathilde escorregara subitamente do sanctuario da moralidade no esterquilinio do vicio e do crime; já n?o havia valer-lhe.
Choveram, ent?o, cartas anonymas, sem peso nem medida,--o meio mais torpe e tacanho de que se servem algumas pessoas, estribadas impunemente numa amizade insensata e v?, para acarretarem o desgosto e a perturba??o ao seio de uma familia, muitas vezes innocente!
Arthur, que a principio n?o fizera caso de taes bagatellas, intimamente convencido da innocencia de sua esposa,--concluiu finalmente por encarar a sua vida pelo lado peior e mais perverso.
D'ahi em diante n?o perdeu a expectativa, simulando, comtudo, a maior tranquillidade, e plena confian?a em sua mulher.
Um dia levantara-se pelas seis horas da manh?, e, arranjada que foi a sua mala, disse elle a sua mulher que se ausentava por tres dias para fóra da cidade: foi a primeira vez que tal succedeu... Mathilde, algum tanto assustada com t?o inesperada resolu??o, n?o p?de, todavia, attingir qual o fim d'esta peripecia, que ella estava longe de conceber.
Roberto, aproveitando-se da ausencia do seu amigo Arthur, f?ra immediatamente habitar para casa da sua querida amante, a fim de lhe fazer companhia, ao menos durante o apartamento de seu esposo...
Uma noite estavam elles inebriados em mutuo abrasamento, quando, inopinadamente, sentiram abrir-se a porta, de golpe, e entrar por ella o mo?o provinciano, d'uma pallidez sepulchral e com a fronte inundada d'um suor frio, que lhe devorava a triste existencia. Sustinha um rewolver na m?o direita, que lhe f?ra impossivel desfechar: tal era a sua situa??o!
Mathilde caíra desfallecida e exangue. Roberto, aterrorisado, recuou dois passos; depois investiu contra o inimigo, a quem tomou por um bra?o, e arrancou d'uma especie de torpor em que jazia.
--Medir-nos-hemos no mesmo campo,--vociferou Roberto, como que allucinado e simulando gestos medonhos.
Arthur interrompeu-o por algum tempo, olhando para elle fitamente e exprimindo, talvez, a sua profunda compaix?o pelo miseravel que via diante de si.
Em seguida Roberto proseguiu:
--ámanh?, ás 4 horas da manh?, na pra?a da Boa-Vista: escolherá as armas e padrinhos, conforme lhe convier: de resto, estou ás suas ordens.
Após esta fatal allocu??o, Roberto saíu tranquillamente d'aquella casa.
Arthur, apenas recuperados os sentidos, retirou-se egualmente pacifico, como se tivesse assistido a um magnifico espectaculo.
O certo é que Mathilde, quando voltou a si, já n?o viu mais ninguem no quarto, afora uma velha criada, que velava por ella solicitamente.
No dia immediato, á hora convencionada, Roberto apresentou-se destemidamente na pra?a da Boa-Vista, aguardando o seu adversario, com quem esperava bater-se n'um duello de morte.
Arthur, porem, n?o appareceu ali, como era para desejar. Tambem ninguem mais soube do desventurado mancebo. Diziam uns que elle tinha embarcado para Inglaterra, onde se f?ra reunir a seu irm?o, muito amigo, que negociava em vinhos n'aquelle paiz: outros affirmavam que vivia occulto n'um logar proximo de Lisboa, afim de nunca mais ser visto, nem t?o pouco tornar a fallar com sua esposa depravada e falsa.
Mais adiante veremos o que é feito d'elle.
CAPITULO IV
Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe;
Qui sait sous quel fardeau la pauvre ame succombe?...