?Foi por uma tarde serena de abril. Eu, crian?a ainda, dos meus 13 annos, divagava, triste e solitario pela margem graciosa do meu limpido Vouga, contemplando aquelle espectaculo de mystico enlevo, aquella hora de profundos arr?bos e de gostosa melancholia, em que o Creador mais parece fallar directamente ao cora??o do homem,--quando, inopinadamente, me pareceu ouvir, a poucos passos do logar onde me encontrara, o estalido rapido e secco d'um instrumento metallico.
Em poucos minutos galguei um comoro, que me separava d'aquelle sitio desastroso, encontrando-me face a face com dois personagens, que, muito intencionalmente, tinham escolhido o silencio d'aquella hora para ali virem bater-se n'um duello de morte. Quiz dissuadil-os de similhante proposito: nada consegui.
?Travou-se uma lucta feroz, e, dentro de pouco tempo, um dos adversarios jazia por terra, coberto de pó, e revolvendo-se cruelmente no sangue de suas proprias feridas. Ainda experimentei, uma e muitas vezes, levantar o moribundo, e conduzil-o á primeira guarida, que se me deparasse opportunamente. Tudo foi baldado, porém.
?O outro adversario, apenas viu o contendor prostrado, e sem for?as, abandonou o campo, e fugiu. Que fazer, em tal conjunctura? Eu, só, ali, sem uma pessoa unica, que podesse velar por elle. nem sequer uma gotta d'agua para o refrigerar momentaneamente!!
?Felizmente, meia hora n?o era passada, quando, ao clamor da minha voz, accorreu áquelle logar um trabalhador, que, casualmente, se recolhia a casa. Em poucas palavras, contei-lhe o succedido, convidando-o a que velasse pelo ferido, emquanto eu, a?odado, correria á cidade a dar parte do acontecido.
?E assim foi com effeito. Dei-me pressa em correr á visinha povoa??o. Em vinte minutos estava de volta com dois valentes companheiros para logo o conduzirmos a um logar seguro, como a urgencia do caso nol-o ordenava.
?Sem saber, porém, o nome do individuo, nem t?o pouco a sua procedencia, julguei prudente entregal-o ao cuidado d'um desgra?ado, mas honrado agricultor, que, de bom grado, o acolheu no seio de sua familia, dispensando-lhe todo o desvelo e sollicitude, que sóe sempre encontrar-se no tugurio do pobre.
?O ferimento n?o f?ra mortal. O cirurgi?o assistente, apenas decorrido o primeiro mez, para logo o declarara livre de perigo, concedendo-lhe egualmente a liberdade de dar alguns passeios pelos campos e devezas mais proximas, com o intuito de tornar mais rapida a sua convalescen?a.
?Pouco tempo depois, instaurou-se um processo para proceder a uma averigua??o rigorosa sobre aquelle facto lamentavel. No dia aprazado para esse fim fui obrigado a comparecer na audiencia, como testemunha ocular, que, infelizmente, houvera sido.
?E fui pontual, n'esse dia, apparecendo, sem difficuldade no tribunal, onde pouco depois teria de julgar-se um crime de ha muito reprovado pela moral, e pelo direito. Estava impolluta a minha consciencia, n?o me arguindo de cousa alguma, a n?o ser o ter eu envidado todos os meus esfor?os, posto que inuteis, para salvar um desgra?ado.
?Por isso, quando me chegou a vez de fallar, contei singela e lealmente o que me f?ra licito vêr e presenciar. O juiz figurára-se-me satisfeito com o meu depoimento. A minha má sina, porém, já ent?o me come?ava a perseguir.
?Após alguns momentos de silencio, e geral expecta??o, o réu come?ou a narrar circumstanciadamente tudo o que lhe houvera succedido; vindo eu, finalmente, ao conhecimento de que elle era um mancebo natural de Lisboa, descendente de preclara stirpe, a quem uma paix?o violenta, e uma rivalidade sem limites haviam arruinado physica e moralmente.
?Estavam as cousas neste ponto, quando seus olhos, por acaso, se fixaram na minha humilde pessoa. Parecera-me encontrar n'aquelle olhar o quer que era de satanico e sinistro, que me horrorisou até á medulla dos ossos. E, de feito, n?o me illudi.
?Alguns instantes depois, aquelle individuo, para quem eu f?ra o anjo custodio n'um momento de suprema desventura, apontava-me ao publico como um dos principaes cumplices n'aquelle crime; e asseverando até abertamente ter sido o meu desejo immediato o assassinal-o para lhe roubar o pouco que comsigo trouxera, se, por ventura, um transeunte n?o tivesse ido em seu auxilio, arrancando-o ás minhas m?os.
?D'esta vez a minha indigna??o tocou o seu zenith. Os olhos chispavam-me fogo; o cora??o, afogueado em cholera, batia-me apressado e violento. Quiz fallar, mas n?o pude. A voz prendera-se-me na garganta. Alcei os olhos para o céu, e caí, subitamente accommettido por dolorosa syncope. O que depois d'isto se passou, nem eu o sei, meu amigo.
?Quando, no dia immediato, descerrei as palpebras amortecidas ao astro do dia, encontrei-me isolado, n'uma alcova escura e humida, com uma estreita gelosia apenas, no v?o da parede, por onde se coava, a custo, um tenue raio de luz.
?Por informa??es colhidas posteriormente, concluí ser aquelle o carcere, que, logo após o julgamento, me f?ra predestinado para justa expia??o do meu delicto. Appellei para a ac??o da divina Providencia, e soffri resignado o peso da minha cruz.
?Lembrei-me, ent?o, de minha pobre e santa m?e, ralada de desgosto, de meu excellente pae, de meus pequeninos e innocentes irm?os, emfim, de tudo o que me era caro neste mundo, e chorei... chorei... muito...
Neste ponto, o venerando apostolo de Christo, n?o p?de, por mais tempo, suffocar a sinceridade de seu cora??o. Levantou-se do escabello, em que se havia sentado, com dois fios de grossas lagrimas a deslisarem-lhe brandamente pelas faces macillentas; e, de subito, al?ou a adufa da janella, como se pêso enorme lhe affrontasse a vista. Alberto acompanhou-o n'aquelle movimento convulsivo, auxiliando-o de boa mente a volver as negras paginas do livro fatal da sua vida. Depois, sentaram-se novamente, e Francisco de Castro, fortificado pelas ternas consola??es d'um amigo sincero e bom, continuou, mais alentado, a sua historia até ali encetada.