?O desgra?ado havia ensandecido. Por isso, reconhecida a verdade do facto, me concederam a liberdade, e me restituiram ao seio da familia. Ainda assim, n?o havia furtar-me aos olhares perscrutadores e cubi?osos d'aquella gente hypocrita e ridicula da terra.
?Foi, pois, com este intento que meu padrinho, Francisco Marques, homem solteiro e de grandes haveres, se resolveu a persuadir minha m?e, a fim de me deixar embarcar para o Brazil, pretextando ser aquelle o unico meio, n?o só de me subtrahir ás linguas viperinas, que, a cada passo, intentavam empe?onhar o sanctuario da minha reputa??o, até ali intacta, sen?o tambem o caminho mais seguro para alcan?ar no futuro uma posi??o certa e definida.
?D'ahi a dois mezes já eu estava no Rio de Janeiro como caixeiro d'uma casa commercial.
?A ingenua hospitalidade, e natural lhaneza, com que ali me tractaram, deixara-me de todo captivo d'aquella sancta e boa gente. F?ra-me, porém, impossivel contrariar a minha natureza, já de si sobejamente expansiva e juvenil, escravisando-a a t?o arduo e difficil mister.
?Todavia, a despeito das mil e quasi insuperaveis contrariedades, que ent?o se me antolharam no horisonte da minha vida social, estava intimamente convencido, ainda assim, que a fouce do tempo, ro?ando ao de leve por sobre os sonhos e illus?es da minha mocidade, faria de mim um bom negociante, e um verdadeiro automato das minhas necessidades, sempre crescentes de dia para dia, se um motivo inopinado n?o viesse, por uma vez, cercear o nó fatal de todas as minhas aspira??es no porvir.
?E foi o caso:
?Na rua Direita, onde eu residia, havia dois annos, habitava quasi vis-à-vis de nossa casa, um diplomata de grande nomeada n'aquelle tempo, muito affei?oado a meus patr?es, com quem nutria tambem algumas rela??es commerciaes.
?Descendente de illustres avoengos, este personagem, pelos seus ademanes e ac??es, affigurara-se-me, desde a primeira vez que o vi, um senhor feudal da edade-media, no entranhavel rancor e odio feroz, com que olhara sempre os que lhe eram inferiores em categoria e nascimento; ou, por outra, esse bando de mecanicos, que por ahi trope?a a cada canto, especie de bestas de carga,--segundo elle--uteis, apenas, para ludibrio dos grandes e descredito da sociedade.
?Já vê, pois, o meu amigo, qu?o longe estaria eu de sympathisar com aquelle homem, sinceramente estulto e fatuo, que receiava macular as insignias do seu braz?o hereditario, apertando a m?o impolluta d'um pobre, mas honrado plebeu. E, no entretanto, a minha má estrella parecia caprichar em me ter escolhido, um monstro d'aquella casta, para meu implacavel algoz.
?Do seu primeiro matrimonio, que elle concebera apenas obtida a elevada posi??o de embaixador extrangeiro junto á c?rte brazileira, houve elle t?o sómente uma filha, em quem debalde procurou imprimir o cunho dos seus depravados sentimentos. Amelia era o seu nome.
?Inebriado pela seduc??o de seu olhar magnetico, e lisongeado pela magia de celestial encanto que me sorria ao longe por entre o anil da minha primavera; eu, atomo insignificante, ousei, um dia, al?ar a minha fronte obscura para aquelle astro de divina poesia. Contemplei-o, por longas horas, n'um extasi de ineffavel ventura, e reconheci, alfim, a grandeza e immensidade d'aquelle cora??o, para quem n?o f?ra indifferente o meu olhar receioso e temerario.
?Porém, entre mim e aquella mulher existia um abysmo incommensuravel; um inferno medonho nos separava. Ella era rica, e nobre; eu era pobre, e plebeu.
?Era, sem duvida, uma attitude dolorosa, aquella, em que inesperadamente nos collocara um caso fortuito, e meramente instinctivo. Todavia, n?o desanimei, e cedi machinalmente aos impulsos poderosos do meu destino, alentado apenas por uma esperan?a vaga e indecisa, que me adejava furtiva e longinqua por sobre a orla do meu horisonte.
?Ao tempo em que primeiramente a conheci, Amelia n?o contava mais de 18 annos de edade, ostentando ent?o toda a formosura e transparencia de seu elevado espirito, n'um rosto profundamente sereno e angelico, onde scintillavam, como esmeraldas, dois olhos verde-negros e seductores, que me deixaram devéras captivo e enleiado.
?Quando, pela primeira vez, fitei a gentileza d'aquella imagem radiante, d'aquelle corpo donairoso e alabastrino, d'aquella m?osinha t?o delicada e quasi impalpavel, d'aquelle pésinho de sylphide, d'aquelles cabellos, pretos como azeviche, ondulando naturalmente por sobre os seus hombros de cysne, á mercê da branda e tepida vira??o do crepusculo; senti-me enlevado em mysticas harmonias; convulso, n?o pude suster o v?o da minha phantasia. Crêra-me até arrastado no mimo da flor, e na melodia do rouxinol, a um novo mundo; julgara entrever um paraizo, n'essa exuberancia de seiva imaginativa, que produziu em mim um mixto de sentimentos indiziveis e mysteriosos.
?Dir-se-ia uma vis?o oceanica!
?Amelia, para quem a minha presen?a f?ra de todo indifferente, no principio, come?ou por me corresponder, dahi a um mez, com um amor apaixonado, e t?o verdadeiro como era o meu. E, em verdade, tudo nos corria auspicioso e promettedor. Quasi nos haviamos esquecido d'este mundo, com as suas paix?es e odios ruins, para nos extasiarmos perante o desabrochar d'aquella ventura celestial, cujo ambiente nos envolvia n'um deleite imperceptivel.
?Porém, tudo tinha de acabar irremediavelmente; e foi exactamente, quando menos o esperavamos, que o sopro terrivel da realidade nos veio dissipar, n'um momento, todas as doces illus?es d'aquelle immenso amor, que nos absorvia, desfolhando-nos, impassivel, todos os sonhos que nos alimentavam o ideal da nossa juventude esperan?osa e meiga.
?O diplomata, tendo sido competentemente avisado d'esta nossa mutua affei??o, n?o só me amea?ou logo com toda a casta de doestos e convicios, como tambem o participou immediatamente aos meus patr?es, que me despediram, n'esse mesmo dia, com uma desculpa ridicula e alvar.
?Amelia, essa, coitada! teve de luctar, e luctar muito, para arcar com os instinctos ferinos de seu pae, a quem prestes occorreu a idéa nefasta de sacrificar aquella victima innocente a um interesse sordido e vil. Aquelle miseravel concebera a satanica inspira??o de vender sua filha a um millionario devasso, que, anteriormente, lhe havia manifestado o desejo de casar um unico filho que possuia com o doce objecto dos meus sonhos sobre a terra,
?Por maiores que fossem as impreca??es d'aquelle anjo celeste, allegando a impossibilidade d'uma tal uni?o com um homem, que mal conhecia, e cuja desventura seria infallivel no futuro, n?o houve, comtudo, resistir-lhe. A resolu??o, uma vez tomada, tinha de seguir o seu curso violento, ainda através dos mais insuperaveis obstaculos.
?E, de feito, assim succedeu!
?Um mez depois, Amelia, aos olhos do mundo, era legitima esposa do tal millionario. Seu pae havia attingido o auge de gloria e contentamento, julgando ter encontrado a maxima felicidade para sua filha. Era, porém, grande a illus?o. E muito callejado, por certo, deveria de estar aquelle homem no vicio, para n?o resistir ao remorso da sua consciencia, e n?o conhecer toda a vastid?o da sua perfidia e do seu crime.
?Mas esque?amos esse homem hypocrita e embusteiro, se tanto nos for possivel, de que anda t?o colmada esta nossa sociedade, e voltemos a rematar a nossa historia com os ultimos episodios de meus desgra?ados dias.