?Como Amelia era formosa! que bondade a sua! que terna express?o a do seu rosto angelico; e, que sentimento! que grandeza d'alma!...
?Como n?o eram radiosos aquelles sonhos da loura crian?a, que á noite ia segredar á brisa os seus amores sentidos, em infantil rubor!...
?Oh!... e que meiguice n?o era a sua, espalhando t?o docemente o aroma de seus argenteos cabellos á vira??o perfumada da tarde, e despertando, ao longe, os echos da solid?o com o brando dedilhar da sua harpa portentosa!...
?Phantasma cruel, que, por tanto tempo, me alimentaste o porvir grandioso das minhas aspira??es ephemeras! Sombra implacavel d'um destino fallaz! Effigie derradeira d'uma chimera inutil! Espectro medonho da medonha existencia! Mulher! anjo! demonio! tudo emfim!...
?Porém, n?o!... renas?a uma cren?a, ao menos! reviva a fé, em nossos cora??es! dissipem-se as negruras da vida, e surja a aurora boreal d'um futuro certo, e de uma verdade eterna!...
Nestes termos apaixonados fallava o venerando presbytero, Francisco de Castro, ao seu affectuoso amigo, Alberto de Carvalhal, quando um raio furtivo do sol, penetrando de soslaio por entre a coma dos pinheiraes, que se erguiam altivos lá no cume das montanhas, os veio despertar do inebriante gozo e suavissimo prazer, em que, desde longas horas, se haviam esquecido dois amigos desditosos, profundamente adormecidos nos bra?os d'uma saudade infinda.
O pescador deixara a choupana, que lhe era consola??o extrema nas horas de afflictivos transes e doloroso penar, para ir estender a rede na praia mais proxima!
Ao longe ouvia-se a voz rouquenha e estridula do gondoleiro, accordando aos echos da sua alma o doce nome da amante ditosa, que, em terra, por elle velava, dia e noite.
O astro do dia, erguendo-se phantasticamente das salsas, escumosas ondas em que parecera mergulhado, havia desfeito as obscuras brumas, que lhe empanavam o brilho, espargindo sua luz etherea pelo espa?o infinito.
Tudo rejuvenescia, ao seu halito bemfazejo!
A planta, modesta e grata, elevava para o céu a corolla de feiticeiro encanto, gottejando compassadamente a ambrosia celeste de suas elegantes petalas, matizadas d'ouro e prata.
Rejubilava o passarinho no ramo frondente, pipitando a medo um eterno canto de amor e saudade.
A abelha, com a cabe?a esmaltada de pedras e diamantes, as azas variegadas como o iris, encetava sua laboriosa tarefa, sorvendo diligentemente o succo da nectaria, que junto lhe acenava.
Neste comenos, Francisco de Castro enla?ou seu bra?o direito pelo corpo do idolatrado amigo, convidando-o fraternalmente a retirar-se para casa.
--Vamos, meu bom amigo,--dizia elle,--recolhamo-nos ao meu humilde presbyterio, e lá lhe contarei ent?o, mais desafogadamente, os lances da minha existencia, se a tibieza do meu espirito tanto m'o permittir, e, antes d'isso, n?o afrouxar.