Ent?o, certo que n?o poderia jámais aplacar Ti-Chin-Fú, toda essa noite no meu quarto ao Loreto, onde como outr'ora as velas innumeraveis das serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir de mim, como um adorno de peccado, esses milh?es sobrenaturaes. E assim me libertaria talvez d'aquella pan?a e d'aquelle papagaio abominavel!
Abandonei o palacete ao Loreto, a existencia de Nababo. Fui, com uma quinzena co?ada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e voltei á Reparti??o, d'espinha?o curvo, a implorar os meus vinte mil reis mensaes, e a minha d?ce penna de amanuense!...
Mas um soffrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me arruinado,-todos aquelles, que a minha opulencia humilhára, cobriram-me de offensas, como se alastra de lixo uma estatua derrubada de principe decahido. Os jornaes, n'um triumpho de ironia, achincalharam a minha miseria. A aristocracia, que balbuciára adula??es aos pés do Nababo, ordenava agora aos seus cocheiros que atropellassem nas ruas o corpo encolhido do plumitivo de Secretaría. O clero, que eu enriquecera, accusava-me de feiticeiro; o povo atirou-me pedras; e a Madame Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza granitica dos bifes,-plantava as duas m?os á cinta, e gritava:
-Ora o engui?o! Ent?o que quer vossê mais? Aguente! Olha o pelintra!...
E, apesar d'esta expia??o, o velho Ti-Chin-Fú lá estava sempre á minha ilharga, obeso e c?r d'óca,-porque os seus milh?es, que jaziam agora estereis e intactos nos Bancos, ainda de facto eram meus! Desgra?adamente meus!
Ent?o, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu palacete e no meu luxo. N'essa noite, de novo o resplendor das minhas janellas alumiou o Loreto: e pelo port?o aberto viram-se como outr'ora negrejar, nas suas fardas de sêda negra, as longas filas de lacaios decorativos.
Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques chamou-me, chorando, filho do seu cora??o. Os jornaes deram-me os qualificativos que, de antiga tradi??o, pertencem á Divindade: fui o Omnipotente, fui o Omnisciente! A aristocracia beijou-me os dedos como a um Tyranno: e o clero incensou-me como a um idolo. E o meu desprezo pela Humanidade foi t?o largo,-que se estendeu ao Deus que a creou.
Desde ent?o uma saciedade enervante mantem-me semanas inteiras n'um sophá, mudo e soturno, pensando na felicidade do n?o-ser...
Uma noite, recolhendo só por uma rua deserta, vi diante de mim o Personagem vestido de preto com o guarda-chuva debaixo do bra?o, o mesmo que no meu quarto feliz da travessa da Concei??o me fizera, a um ti-li-tin de campainha, herdar tantos milh?es detestaveis. Corri para elle, agarrei-me ás abas da sua sobrecasaca burgueza, bradei:
-Livra-me das minhas riquezas! Resuscita o Mandarim! Restitue-me a paz da miseria!
Elle passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro bra?o, e respondeu com bondade:
-N?o póde ser, meu prezado senhor, n?o póde ser...
Eu atirei-me aos seus pés n'uma supplica??o abjecta: mas só vi diante de mim, sob uma luz morti?a de gaz, a fórma magra de um c?o farejando o lixo.
Nunca mais encontrei este individuo.-E agora o mundo parece-me um immenso mont?o de ruinas onde a minha alma solitaria, como um exilado que erra por entre columnas tombadas, geme, sem descontinuar...
As fl?res dos meus aposentos murcham e ninguem as renova: toda a luz me parece uma tocha: e quando as minhas amantes véem, na brancura dos seus penteadores, encostar-se ao meu leito, eu chóro-como se avistasse a legi?o amortalhada das minhas alegrias defuntas...
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Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus milh?es ao Demonio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os reparta...
E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: ?Só sabe bem o p?o que dia a dia ganham as nossas m?os: nunca mates o Mandarim!?
E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéa: que do Norte ao Sul e do Oeste a Léste, desde a Grande Muralha da Tartaria até ás ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Imperio da China, nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, t?o facilmente como eu, o pudesses supprimir e herdar-lhe os milh?es, oh leitor, creatura improvisada por Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irm?o!
Angers, junho, 1880.
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porto-typ. de a. j. da silva teixeira
62, Cancella Velha, 62
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