Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal candente, quando chegámos a Tien-Hó.
As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um vasto edificio-que é uma Miss?o Catholica. E para além, para o extremo norte s?o as eternas montanhas r?xas da Mongolia, suspensas sempre no ar como nuvens.
Alojámo-nos n'um barrac?o fetido, intitulado Estalagem da Consola??o terrestre. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria fixada em estacas; era ornado estranhamente de drag?es de papel recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor aragem aquella legi?o de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.
Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro-os casebres, o ch?o barrento, os enxurros, os c?es famintos, a popula?a abjecta... Recolhi ao albergue-onde arreeiros mongoes e crian?as piolhosas me miravam com assombro.
-Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó-disse eu, franzindo a testa.
--Tem Vossa Honra raz?o. é uma ralé! Mas n?o ha perigo: eu matei, antes de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente. Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos... Quer Vossa Honra o chá?...
-Traze, Sá-tó.
Bebido o chá, conversámos do grande plano: na manh? seguinte eu a levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú, annunciando-lhe os milh?es que lhe dava, depositados já em Pekin: depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa distribui??o de arroz pela popula?a: e á noite illumina??es, dan?as como n'uma gala publica...
-Que te parece, Sá-tó?
-Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio... Vai ser grande! Vai ser grande!
Como vinha can?ado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China; enrolado na minha pelli?a, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos bra?os brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia...
Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que envolvia o barrac?o-como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia grossa batendo um pared?o. Pela galeria aberta, o luar entrava no quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos drag?es suspensos do tecto fórmas, semelhan?as chimericas...
Ergui-me, já nervoso-quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na facha luminosa do luar...
-Sou eu, Vossa Honra!-murmurou a voz apavorada de Sá-tó.
E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras roucas a sua afflic??o:-emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que um estrangeiro, o Diabo estrangeiro, chegára com bagagens carregadas de thesouros... Já desde o come?o da noite elle tinha entrevisto faces agudas, d'olho voraz, rondando o barrac?o, como chacaes impacientes... E ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara... Mas pouco a pouco a malta crescera... Agora vinha d'espreitar por um postigo: e era em roda da estalagem toda a popula?a de Tien-Hó, rosnando sinistramente... A deusa Kaonine n?o se satisfizera com o sangue do gallo preto!... Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra negra recuar!... A noite sería de terrores!... E sua mulher, o osso do seu osso, que estava t?o longe, em Pekin!...
-E agora, Sá-tó?-perguntei eu.
-Agora... Vossa Honra! Agora...
Calou-se: e a sua magra figura tremia, aca?apada como um c?o que se roja sob o a?oite.
Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com effeito estava uma turba negra apinhada. ás vezes uma figura, rastejando, adiantava-se no espa?o alumiado, espreitava, farejava as carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se na escurid?o: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento á luz algum ferro de lan?a inclinada...
-Que querem vossês, canalha?-bradei eu em portuguez.
A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabe?a, n'um barrote...
Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú nos joelhos.
O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crian?as piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multid?o vociferar.
Interpellei ent?o Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, n?o podiam repellir o assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador, revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da hospitalidade!...
Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um s?pro, que o Governador de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas d'oiro inflammára todos os appetites!... A prudencia ordenava, como um mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas de comestiveis...
-E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem mantimentos?...
-Mas com a rica vida, Vossa Honra!
Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse prop?r á turba uma copiosa distribui??o de sapeques,-se ella consentisse em recolher aos seus casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha...
Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um c?o que ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de sapeques-que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador... Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes; depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma suspens?o de quem espera mais...
-Mais!-murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.
Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais r?los, mólhos de moedas de meio real enfiadas em cordeis... Já a maleta estava vazia. A turba rugia, insaciada.
-Mais, Vossa Honra!-supplicou Sá-tó.
-N?o tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!
-Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!-chamou Sá-tó, abatendo-se sobre os joelhos.
A popula?a, calada, esperava ainda. De repente, uma ulula??o selvagem rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o madeiramento da Estalagem da Consola??o terrestre rangeu e oscillou...
Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o coiro das malas abria-se fendido á faca por m?os innumeraveis: no alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da lua, eu via em roda do barrac?o errarem tochas, n'uma dispers?o de fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os c?es; e de todas as viellas desembocava, corria popula?a, sombras ligeiras, agitando chu?os e foices recurvas...
Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas portas despeda?adas: de certo me procuravam, suppondo que eu teria commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros... O terror desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo. Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n'um cheiro acre de immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as crinas...
N'esse momento, do port?o da cozinha arrombada rompia uma horda com lanternas, lan?as, n'um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, archejando, com a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n'uma desfilada furiosa ao longo d'uma lua negra... De repente vejo diante de mim a muralha, um basti?o, a porta da villa fechada!
Ent?o, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o soccorro humano-precisei de Deus! Acreditei n'elle, gritei-lhe que me salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe offerecer, fragmentos de ora??es, de Salvè-Rainhas, que ainda me jaziam no fundo da memoria... Voltei-me sobre a anca do potro: d'uma esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!... Larguei de golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um boqueir?o erri?ado d'esgalhos de sar?as, e fóra a planicie que sob a lua parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá, desesperadamente, sacudido aos gal?es do potro... E muito tempo galopei no descampado.
De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lag?a. Entrou-me pela bocca agua putrida, e os pés enla?aram-se-me nas raizes molles dos nenufares... Quando me ergui, me firmei no sólo,-vi o poney, correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento...
Ent?o comecei a caminhar por aquella solid?o, enterrando-me nas terras lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado regelava-se-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me vêr luzir olhos de feras.
Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto negro, um d'aquelles mont?es d'esquifes amarellos que os chinezes abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caix?o, prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia o viscoso d'um liquido que escorria pelas fendas das tábuas... Quiz fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas altas, todo o horisonte come?ou a girar em torno de mim como um disco muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d'uma penna que desce...
Quando recuperei a consciencia estava estirado n'um banco de pedra, no pateo d'um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar fresco circulava; a roldana d'um po?o rangia lentamente; um sino tocava a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas gradeadas e uma cruz no topo: ent?o, vendo n'aquella paz de claustro catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consola??o, rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.