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Chapter 4 4

O Ceyl?o teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.

D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno steamer da Companhia Russel. Eu n?o vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa de touriste: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente indifferente.

Quando o capit?o do steamer, um yankee impudente de focinho de chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,-eu recusei, com um movimento secco de cabe?a, sem mesmo desviar os olhos tristes da corrente barrenta do rio.

Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navega??o de Tien-Tsin a Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos; topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!

Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official das campanhas da Asia Central, e ent?o embaixador da Russia em Pekin. Eu vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu servi?o, explicou-me que as cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle, havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.

Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um cart?o de visita, com estas palavras tra?adas a lapis sob o seu nome: ?Saúde! o animal é d?ce de bocca!?

Montei o poney: e a um hurrah! dos cossacos, n'um agitar heroico de lan?as, partimos á desfilada pela poeirenta planicie-porque já a tarde declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de drag?es arrogantes. Vamos correndo ent?o á beira de canaes d'agua negra: come?am a apparecer pomares, aqui e além uma aldêa de c?r azulada, aninhada ao pé de um Pagode:-de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado...

Pekin está diante de mim! é uma vasta muralha, monumental e barbara, d'um negro ba?o, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um fundo de poente de purpura ensanguentada...

Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como suspensas no ar, as montanhas da Mongolia...

Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora, ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construc??o biblica: á sua base apinhava-se uma confus?o de barracas, feira exotica, onde rumorejava uma multid?o, e a luz de lanternas oscillantes cortava já o crepúsculo de vagas manchas c?r de sangue; os toldos brancos faziam ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.

Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas, cadeirinhas de xar?o, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos dromedarios balan?ando a sua carga em cadencia...

D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz d?ce, como colossaes lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a vermelh?o, aclarado por fios de lampadas de papel transparente, esperava-me um membrudo figur?o, de bigodes brancos, apoiado a um grosso espad?o. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores...

O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo, segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de porcelana, onde entre rodelas finas de lim?o sobrenadavam esponjas brancas, n'um perfume forte de lilaz...

Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito fresco, de gravata branca, entrava pelo bra?o de Camilloff no boudoir da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo e de chá.

Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Le?o XIII, e da magreza de Sarah Bernardth...

Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio. Depois ella sentou-se ao piano-e a sua voz de contralto quebrou até tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias de Madame Favart e com as melodias afagantes do Rei de Lahore.

* * *

Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim, contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso bigode cossaco...

-O meu prezado hospede sabe o chinez?-perguntou-me de repente, fixando em mim a pupilla sagaz.

-Sei duas palavras importantes, general: Mandarim e chá.

Bile passou a sua m?o de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que lhe sulcava a calva:

-Mandarim, meu amigo, n?o é uma palavra chineza, e ninguem a entende na China. é o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu bello paiz...

-Quando nós tinhamos navegadores...-murmurei, suspirando.

Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:

-...Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...

-Quando tinhamos verbos...-rosnei, no habito instinctivo de deprimir a patria.

Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho-e proseguiu paciente e grave:

-Do seu lindo verbo mandar ... Resta-lhe por tanto chá. é um vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o insufficiente para servir a todas as rela??es sociaes. O meu estimavel hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e socialmente, esse chorado defunto... Para tudo isto disp?e da palavra chá. é pouco.

N?o pude negar-que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz adunco de milhafre, p?z-me ainda outras objec??es que eu via erguerem-se diante do meu desejo-como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um Mandarim...

-Mas porque m'as recusaria?-exclamei.-Eu perten?o a uma boa familia da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma reparti??o publica... Possuo milh?es... Tenho a experiencia do estylo administrativo...

O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus attributos.

-N?o é-disse elle emfim-que o Imperador realmente o recusasse: é que o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei chineza, n'este ponto, é explicita e secca.

Baixei a cabe?a, acabrunhado.

-Mas, general-murmurei-eu quero livrar-me da presen?a odiosa do velho Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!... Se eu entregasse metade dos meus milh?es ao thesouro chinez, já que n?o me é dado pessoalmente applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado...? Talvez Ti-Chin-Fú se calmasse...

O general pousou-me paternalmente a vasta m?o sobre o hombro:

-êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milh?es nunca chegariam ao thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas: n?o alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das estradas publicas... Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso n?o a satisfaria.

-E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer particularmente, como philanthropo, largas distribui??es d'arroz á popula?a faminta? é uma idéa...

-Funesta-disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.-A c?rte imperial veria ahi immediatamente uma ambi??o politica, o tortuoso plano de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia... O meu bom amigo seria decapitado... é grave...

-Maldi??o!-berrei.--Ent?o para que vim eu á China?

O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:

-Fa?a uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú... Eu indagarei do primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole interessante... Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milh?es... Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial, com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de estandartes, palanquins, lan?as, plumas, andores escarlates, legi?es de carpideiras ululando sinistramente, etc. etc... Se depois de tudo isto a sua consciencia n?o adormecer e o phantasma insistir...

-Ent?o?

-Córte as guelas.

-Obrigado, general.

* * *

Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o respeitoso Sá-Tó e a generala:-que, para frequentar a familia Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim...

A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a caracterisa??o:-e quando na manh? seguinte, depois d'arranjado pelos costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almo?o sobre a mesa de char?o negro,-a generala recuou como á appari?ao do proprio Tong-Tché, Filho do Céo!

Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o peitilho ricamente bordado de drag?es e fl?res d'oiro: por cima um casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e f?fo: as cal?as de setim c?r de avell? descobriam ricas babouches amarellas pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras: e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e s?o fabricados em Swaton.

E, pelas mysteriosas correla??es com que o vestuario influenceia o caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:-o amor dos ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradi??o, o gosto das coisas assucaradas...

Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. N?o disse á generala:-Bon jour, Madame. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o chin-chin!

-é adorável, é precioso!-dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as maosinhas pallidas.

N'essa manh?, em honra da minha nova incarna??o, havia um almo?o chinez. Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros fabulosos desenhados a negro! O servi?o come?ou por ostras de Ning-Pó. Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram deliciosas febras de barbatana de tubar?o, olhos de carneiro com picado d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cant?o, e emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós...

Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Ch?o-Chigne! E por fim, com que g?zo recebi a minha ta?a d'agua a ferver, onde deitei uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de mar?o, colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas m?os puras de virgens!...

Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma modula??o guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A China tem encantos d'um raro gosto...

Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a Femme à barbe: e quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú-eu, repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.

* * *

A habita??o de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de sycomoros.

Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol, com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros, a cabe?a toda cheia de fl?res, fazendo girar nos pulsos dois aros de prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto, v?o levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com inscrip??es bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita de bei?o cahido...

A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um silencio d'igreja, subtis como sombras, v?o examinando as preciosidades-porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins, sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes, uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas tran?as, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o contempla beatamente, com os dedos cruzados na pan?a: ao fundo o mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas perturba e entristece...

Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do Imperador! Mo?os nobres vem descendo do terra?o d'um templo onde se estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda amarella, com o Drag?o bordado, que é o emblema sagrado do Imperador. Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do anci?o; vinha fallando só, e trazia na m?o uma vara sobre que pousavam cotovias domesticadas... Era um principe do Imperio.

Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma porta de jardim, dois Mandarins pan?udos que para entrar se trocavam indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico-que lhes fazia oscillar d'um modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pav?o. Depois se erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de papel, ora em fórma de drag?es, ora de cetaceos, ora d'aves fabulosas-enchendo o espa?o d'uma inverosimil legi?o de monstros transparentes e ondeantes...

* * *

-Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes...

E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a popula?a. As ruas alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da immundicie de gera??es recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz alguma das lages de marmore c?r de rosa que outr'ora o cal?avam, no tempo da grandeza dos Ming.

Dos dois lados s?o-ora terrenos vagos onde uivam manadas de c?es famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas taboletas esguias e sarapintadas, balou?ando-se d'uma haste de ferro. A distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes c?r de purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multid?o rumorosa e espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios vestidos de pelle de carneiro...

Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os astrologos de longas tunicas, com drag?es de papel collados ás cóstas, vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade fabulosa e singular!

De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam de d?r espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em fórma d'ave.

Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as mulheres, com os cabellos entremeados de velhas fl?res de papel, roiam ossos tranquillamente; e cadaveres de crian?as apodreciam ao lado, sob o v?o dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um condemnado estendia, através das grades, as m?os descarnadas, á esmola... Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma pra?a estreita: ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabe?as de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e negro...

* * *

-Ouf!-exclamei, fatigado e aturdido.-Sá-Tó, agora quero o repouso, o silencio, e um charuto caro...

Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a par podem percorrer durante leguas.

E emquanto Sá-Tó, sentado n'um v?o d'ameia, bocejava n'um desaf?go de cicerone enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a vasta Pekin...

é como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes, que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na immensid?o do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como a?o, pontes de marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo ao sol; por toda a parte s?o pagodes heraldicos, brancos terra?os de templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as folhagens dos jardins; depois espa?os que parecem um mont?o de porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a intervallos regulares o olhar encontra algum dos basti?es, d'um aspecto heroico e fabuloso...

A multid?o, junto a essas edifica??es grandiosas, é apenas como gr?os d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando...

Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca como o Genio mesmo da Ra?a: e adiante branquejam n'uma meia tinta sobrenatural os terra?os de jaspe do Santuario da Purifica??o...

Ent?o interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilh?o das Fl?res das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faian?as azues, verdes, escarlates e c?r de lim?o. Eu devorava, d'olho avido, esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Institui??es, a significa??o dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez... Mas esse mundo é inviolavel como um Santuario...

Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira; a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas... Ent?o invadiu-me a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros t?o frescos quando verdejam os linhos...

Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos templos e dos pavilh?es imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondula??o eolia, que se perdia nos ares pallidos...

Voltei para casa, pesado e pensativo.

Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com bonhomia as minhas impress?es de Pekin.

-Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

S?bolos rios que v?o

Por Babylonia me achei...

-Pekin é um monstro!-disse Camilloff oscillando reflectidamente a calva.-E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e conquistadora que a possue, obedecem trezentos milh?es d'homens, uma ra?a subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora... Estudam as nossas sciencias... Um calice de Medoc, Theodoro?... Teem uma marinha formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destro?ar o estrangeiro com drag?es de papel?o d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

-E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a China...

A esta sandice-fez-se um silencio. E o general, depois de tossir formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

-Portugal é um bello paiz...

Eu exclamei com seccura e firmeza:

-é uma choldra, general.

A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango, e limpando o dedinho, disse:

-é o paiz da can??o de Mignon. é lá que floresce a laranjeira...

O gordo Meriskoff, doutor allem?o pela Universidade de Bonn, chanceller da lega??o, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

-Generala, o d?ce paiz de Mignon é a Italia: Conheces tu a terra privilegiada onde a laranjeira dá flor? O divino Goethe referia-se á Italia, Italia mater... A Italia será o eterno amor da humanidade sensivel!

-Eu prefiro a Fran?a!-suspirou a esposa do primeiro secretario, uma bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

-Ah! a Fran?a!...-murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho ternissimo.

O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

-A Fran?a tem um mal, que é a Quest?o social...

-Oh! a Quest?o social!-rosnou sombriamente Camilloff.

-Ah! a Quest?o social!...-considerou ponderosamente o addido.

E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu bra?o, murmurou-me, junto á face:

-Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os laranjaes!...

-é lá que se ama, generala-segredei-lhe eu, levando-a d?cemente para a escurid?o dos sycomoros...

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