Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de men??o.
Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli, porque n?o se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D. Luiz.
Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abra?ar os nobres projectos do irm?o, exige a verdade que se diga que elle soffria com demasiada resigna??o as delongas da empreza, na parte que lhe dizia respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, ca?adas e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.
Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.
Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios, aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescen?a de uma longa enfermidade.
Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito, murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.
-Muito havemos de rir a final-dizia elle.-Entradas de le?o; agora as sahidas...
N?o communicava porém as suas reflex?es ao fidalgo, porque tinha mêdo de
Jorge.
D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasi?o de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo n?o procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o milagre. Cresceu a confian?a no filho e de olhos fechados entregou-se a ella.
N?o pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos, luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma fei??o pouco favoravel aos fidalgos da Casa Mourisca.
Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.
Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou documentos, a seu vêr importantes e até alli n?o aproveitados, por incuria do padre-capell?o. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se entregou a direc??o do litigio.
Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o seu pensamento da realisa??o completa. O que havia por fazer era muito mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.
Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto transtornou a face d'estes negocios.
Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.
Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos inteiros talvez n?o tenha já sido pouco estranhada.
Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé.
Nascida na época em que o fazendeiro n?o era ainda o homem abastado em que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para assegurarem o futuro da pequena.
Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar a crian?a á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.
A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revolu??es, alterou a posi??o relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros annos de Bertha.
Já sabemos como, em virtude d'esta revolu??o, Thomé subiu gradual e incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida n?o soube opp?r estorvos ás prodigalidades de um irm?o perdulario; vendo-se em consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que tinha, para ir para Lisboa educar meninas.
A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambi??es por a filha e queriam dar-lhe a educa??o de uma senhora, aproveitando e cultivando n'ella as boas disposi??es que já adquirira na convivencia com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além d'isso, outra e mais generosa inten??o levou-os a darem aquelle passo. Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os. Pediram-lhe pois que tomasse conta da educa??o de Bertha, e assim, além da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle proceder.
Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que n?o provocou escassos commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se afidalgava, e que já n?o queria ter filhos lavradores.
O senhor da Casa Mourisca n?o viu tambem com bons olhos aquelle passo de Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a incommodal-o.
Bertha, que f?ra até ent?o a companheira de brinquedos dos meninos da Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga crian?a, que temos visto viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma madrugada com lagrimas e solu?os.
Desde ent?o conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe ganhára affei??o, cada vez mais funda.
Bertha crescêra; as gra?as infantis foram a pouco e pouco perdendo n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que n?o empanam a belleza, antes lhe d?o mais e mais seductor relêvo. Bertha n?o era já a crian?a que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou timido, sem uma d?r que se n?o manifestasse em lagrimas; era já a virgem de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do cora??o, e portanto sujeita a todas as subtis impress?es, dominada por todos os impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspira??es d'aquella quadra magica.
A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que t?o sem raz?o anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina, desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para os prazeres do espirito.
Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a permanencia de uma raz?o clara no meio dos attractivos e seduc??es, com que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava, mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as prendas de educa??o que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o seu. Se tinha sonhos de juventude... e quem os n?o tem n'aquella idade? sabia que sonhava e n?o se distrahia a procurar no mundo real as vis?es, que n'elles lhe appareciam.
A lembran?a da sua origem modesta n?o a fazia melancolica, mas prudente. N?o era aquella ideia uma sombra negra, que n?o lhe deixava vêr a luz; simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo de offusca??o e cegueira.
Assim, no meio das suas effus?es, das suas melancolias e até dos seus pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga de juizo.
A educa??o de collegio n?o produzira n'ella a adocicada pedantaria de algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia uma phrase que elles n?o entendessem, uma palavra que os embara?asse e lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educa??o. Revelava-se n'isto um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo, sabia apreciar.
Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e m?e á boa Luiza, e esta convic??o n?o o deixava arrepender de a haver educado com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os affectos da rapariga!
As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que n?o sómente aos paes agradavam, mas a quantos as liam.
Thomé mostrara-as a Jorge, e este n?o p?de deixar de apreciar a redac??o singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar t?o acertada, vistas t?o despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que s?o o maior achaque nas cartas de mulher; transpareciam t?o distinctamente os suaves e generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas ligeiras manifesta??es, se revelava t?o irm?o seu.
A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no cora??o, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paix?es, despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando muito uma fei??o, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no cora??o de Jorge. Era um sentimento, que n?o o inquietava ao principio, nem lhe perturbava o espirito, por isso n?o se acautelou d'elle; deixou-se repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.
Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as fei??es que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da adolescencia. Pareceu-lhe n?o haver contradic??o entre aquella physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga come?ou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.
Jorge ent?o assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de que a raz?o lhe n?o dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a.
Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de experimental-o. Esta conten??o for?ada acabou por produzir no espirito de Jorge um effeito singular; foi um grau de irrita??o, revelado em uma especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe a limpidez de cora??o, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira vez vacillar a raz?o, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder dizer-se, em estylo de conceitos: ?queria-lhe mal por lhe querer bem.? Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impress?o por que se sentia dominado.
Taes s?o as indica??es que julgamos dever dar a respeito de Bertha, antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.
Esta n?o era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.
A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente fallecido.
Bertha escrevia assim ao pae:
?Meu querido pae.
?Escrevo-lhe a chorar e com o cora??o a partir-se-me de d?r. A minha madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar; custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho! Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez mais feliz!... Pe?o-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe algumas coisas, e depois decida. Eu n?o quero dizer que tenha uma educa??o perfeita; mas, como n?o conto, nem desejo, viver nas salas d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar por meus irm?os, e alguns est?o em idade em que ainda podem agradecer-me alguns servi?os, que eu ahi consiga fazer-lhes. Mande-me ir. A m?e deve ter muito trabalho em olhar por tudo em casa. é tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é uma vergonha n?o o fazer. é uma parte da minha educa??o que posso concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que, depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em Lisboa. Pe?o-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as saudades, que já tenho de todos e de tudo.
Muitas lembran?as á m?e, muitos beijos aos pequenos.
Sua filha, que espera muito cêdo abra?al-o,
Bertha.
P.S. Que n?o esque?a dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa
e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.?
Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido que conviria adoptar.
Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abra?ar a filha dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos, resolveram a quest?o no sentido indicado por Bertha; e para assim a resolver, quasi bastava que ella o indicasse.
Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.
D'ahi os necessarios preparativos para a accommoda??o da filha, cujos habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que era justo attender.
O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e jornaleiros.
Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labuta??o caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoro?o.
O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.
Parecia prever a aproxima??o d'um perigo, que mal ousava definir.
Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na resolu??o de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete destinado a Bertha.
Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impress?es moraes. Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de desgosto.
Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.
Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas da Herdade.
A demora de Thomé n?o foi longa.
Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.
Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excurs?o pelos campos, quando, ao descer por entre os pinheiros de uma bou?a cerrada, viu passar, em um curto lan?o de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam patentes, o vulto de dois cavalleiros.
Attrahiram-lhe naturalmente a atten??o e esperou, para melhor os reconhecer, que chegassem a outro lan?o mais proximo e mais descoberto da estrada que seguiam.
De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que cavalgavam a par.
No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.
Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente para elles.
Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, fei??es conhecidas.
Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas fei??es lhe iam suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a m?o:
-Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.
Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera.
Era Bertha a amazona.
Bertha, a pequena alde? com quem brincára em crian?a no pateo e na quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irm? Beatriz, a afilhada de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já ent?o os seus galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas transforma??es que opéra o sangue da juventude na formosura de crian?a, com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educa??o.
Bertha era uma rapariga de olhos negros e de b?ca graciosa, onde fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade. Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura de uma crian?a e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a falta de dissimula??o, que é propria dos caracteres generosos, e ao mesmo tempo uma natural dignidade, que imp?e respeito aos menos reverentes.
Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé.
-Bertha!-exclamou elle, sem disfar?ar a sua surpreza, nem desviar os olhos da rapariga, que o saudára córando.-E é certo que é Bertha! Conhe?o ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que differen?a em tudo o mais!
Bertha desviou os olhos sob a insistencia e express?o dos de Mauricio, e dominando a custo a commo??o conseguiu dizer:
-Fiz-me mais velha, n?o é verdade?
-N?o, Bertha, fez-se um anjo-acudiu Mauricio.
-Isso é que n?o-atalhou Thomé-anjo era d'antes. Hoje já n?o repicariam os sinos, se ella morresse.
-A terra teria bem raz?o para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as festas-atalhou, galanteando, Mauricio.
-Tambem eu encontro mudan?a em si, snr. Mauricio-observou
Bertha.-Quando o deixei, n?o dizia ainda d'essas coisas.
E a mesma intima turba??o tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar.
-Porque n?o as sentia, Bertha-redarguiu Mauricio.
Bertha abanou a cabe?a com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou sobresaltada:
-Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas s?o os que menos sentem.
-Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?
-é t?o facil ensino! Cada um aprende por si.
-Vamos-interrompeu Thomé-nada de estar parados no meio da estrada. Lembra-te, Bertha, de que tua m?e a estas horas n?o faz outra coisa mais do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar.
-Vamos lá.
Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim entre o fidalgo e o pae.
-Que saudades me est?o fazendo estes sitios!-dizia Bertha, suspirando e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.-Tudo me é t?o conhecido ainda!
-Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros
Queimados?-perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.
-Bem sei. é onde está a fonte da Moira.
-E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agri?es. Está certa?
-é verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um c?o grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia!
-E n?o se lembra de quem lhe acudiu?
-Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se n?o fosse ella, vamos, n?o sei o que seria.
-Ainda assim n?o impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda conservo a cicatriz. Olhe.
E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o vestigio d'aquelle episodio de infancia.
-é verdade-proseguiu Bertha, já mais á vontade-e a boa ti'Anna do Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?...
-Quem? a ti'Anna?!-acudiu Thomé-verás, Bertha, que ainda te parece mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! é um gosto vêl-a, no meio dos campos, de mangas arrega?adas e chapéo de palha na cabe?a e de enxada ou mangoal na m?o. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma eira?
N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que tinha o trabalho de Anna do Védor.
-O filho está regedor.
-é uma boa e generosa alma-tornou Mauricio, com uma express?o de sincera sympatia.-E quer-nos como a filhos.
-Isso quer-confirmou Thomé-quando falla nos seus meninos que trouxe ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.
-E tambem me ralha com uma severidade!
-Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Ent?o pensa que n?o lhe merece ainda mais?
-N?o digo que n?o. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por
Jorge.
-E como vae o snr. Jorge?-perguntou Bertha.
-Muito bem. Fez-se caixeiro. N?o sabe? Atirou-se aos livros e á papelada da casa, como um homem, e já n?o ha de tirar-lhe palavra que n?o seja de contas e de negocios.
-E é um homem ás direitas-disse Thomé, com gravidade.
-Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas ent?o? Deu-lhe
Deus aquelle genio frio como gêlo!...
-Eu n?o sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e moderna, que ha lá por casa.
-A moderna é commigo, aposto. N?o tem raz?o. Eu tambem estou decidido a trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa n?o é minha.
-Ent?o vae partir?-perguntou Bertha.
-Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o cora??o por aqui, acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras... Mas que lhe hei de fazer?
-E para onde vae?
-Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae ri-se, Bertha!
-Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte devéras e que lhe custa immenso a partida.
-E ent?o?
-A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso succeder, n?o ha de ser a chorar que arranjará as malas.
-é injusto com o meu cora??o. é o que se segue.
-N?o, senhor; n?o sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é essa cabe?a. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa para o receber, sen?o...
-Agradecido, Thomé. Outro dia será. N?o quero perturbar com a minha presen?a as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os amigos que eramos d'antes, n?o é verdade?
-Porque n?o, Mauricio... snr. Mauricio?
E Bertha, com um sorriso de generosa confian?a, estendeu a pequena e delicada m?o á que Mauricio lhe offerecia.
Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida, levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as c?res nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu a galope.
Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois que o perdeu de vista.
Thomé, que notára tudo isto, n?o deixou passar muito tempo que n?o admoestasse a filha.
-Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu cora??o, que n?o vá elle por ahi deixar-se prender. Eu n?o sei como é costume viver-se hoje lá na cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, n?o ponhas muita confian?a n'estas amizades de Mauricio. N?o digo que elle seja mau rapaz, mas a cabe?a é que é assim n?o sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo. Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo, esperto, generoso... Na tua idade, e com a educa??o que tens, n?o era para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te deixavas enfeiti?ar. Elles s?o os fidalgos que sabes, e mais fidalgos ainda se julgam do que s?o. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? ó Bertha, por quem és, n?o me fa?as arrepender da educa??o que te dei. Porque eu, ás vezes, tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: ?Faria eu bem em educar minha filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descal?os, que lhe andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim... Quem poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher??
Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que n?o annullava a express?o melancolica e pensativa, que conservavam o resto das fei??es. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu a serenidade habitual.
N'este ponto atalhou-o, dizendo:
-S?o prudentes os conselhos que me dá. Farei por n?o os esquecer. Mas n?o se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que a sua bondade me teem permittido gozar na vida; n?o perdi de vista o que sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por n?o collocar a felicidade muito acima do alcance de meu bra?o. Na amizade de Mauricio creio que n?o haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes. Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa; quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.
-Lá de Jorge nada temas. é um caracter serio aquelle. Se disser que é teu amigo, é teu amigo devéras; sen?o, n?o t'o diria; mas este...
-Jorge é ainda o que sempre foi. Já em crian?a era o mesmo. Sempre t?o serio!
-Agora ainda mais. Elle hoje n?o pensa sen?o nos negocios da casa, que tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho n?o tem cura, a querer-me mal.
-Sim?! Mas que pena!
-Deixal-o lá, que eu em vingan?a hei de fazer-lhe o bem que puder.
Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi recebida nos bra?os da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de lagrimas generosas; os irm?os pequenos olhavam espantados para Bertha que n?o conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas.
Bertha no meio d'aquella effus?o, d'aquelle cordial acolhimento, d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas, sentia-se feliz.
Debalde Thomé, um dos mais folgados cora??es alli presentes, bradava que era tempo de p?r termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar, e que Bertha precisava de descan?o; os abra?os succediam-se, os beijos estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.
Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoro?o, que produz a chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo esquece; a manifesta??o é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica. Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.
Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de proposito e t?o anticipadamente preparára para a recep??o.
A familia recolheu-se ent?o, principiou mais regular e ordenada conversa entre m?e e filha, e prolongou-se até tarde.
Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que era seu costume.
Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever, porque n?o ha express?es que bem traduzam o que se sente ent?o. Suppram-n'as as recorda??es do leitor; e muito sem conforto deve ter sido o seu passado, se n?o lhe dá elementos para conceber alegrias d'estas.