Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com coragem de mulher as suas novas condi??es de vida, e de entregar-se de alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para isso a indocil imagina??o de rapariga.
Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia, avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a resolu??o de vêl-a e de fallar-lhe.
Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella noite, e procurou distrahir-se, estudando uma quest?o agronomica, em que meditava havia muitos dias.
Veremos o que as diversas disposi??es de animo d'estes tres personagens deram de si no decurso do dia.
O aspecto risonho da manh? dissipou as nuvens, que de noite se haviam accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e n?o podia perdoar a si mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a m?e nas occupa??es domesticas, encontrava n'isso uma distrac??o poderosa e quasi um intimo prazer. As caricias dos irm?os commoviam-n'a, e foi já com desassombrada alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a m?o ao outro, atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do ch?o, e cahia em gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!
Os irm?os corriam a trazer-lhe as rozas e as mais fl?res campestres que iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os presenteava depois.
Entregue toda a esta tarefa, sentia-se t?o do intimo contente, que se p?z a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.
Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos silvados, e n?o lhe deu maior atten??o.
D'uma vez porém, em que os irm?os corriam para ella com uma rega?ada de fl?res, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direc??o d'aquelle olhar, e descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava observando.
A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar de todo a confus?o que experimentava com o inesperado encontro, interrogou sorrindo:
-Estava ahi ha muito?
-Ha alguns momentos, ao que me parece.
-A fazer o quê?
-A vêl-a e a ouvil-a.
-Com t?o pouco se entretem!
-Ent?o parece-lhe que n?o será novo para mim o espectaculo?
-Novo?! Um campo, uma fonte e umas crian?as? Ora essa!
-Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso bello paiz?
-é muito injusto com as suas patricias.
-Oh! n?o as lisongeie.
-N'isso interesso eu tambem, bem vê.
-Poupe-lhes a humilha??o de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que, indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolu??o espontanea, ao mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma for?a occulta que assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde sómente encontrava ambiente apropriado.
-Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei, sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria, que estes s?o os ares, em que respiro á vontade.
-Esse bem-estar n?o tardará que se transforme em fastio.
-N?o, n?o, n?o creio.
-Eu é que n?o creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as aspira??es naturaes a um espirito como o seu.
-Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me supp?e ent?o? Que aspira??es s?o essas que diz?
-Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?
-E espero que ha de satisfazer-me.
-E que ha de fazer da sua imagina??o? Sim, que ha de fazer d'isto que se sente na nossa idade, quando se n?o nasceu Manoel do Portello, ou Maria da Azenha?
-Perd?o, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que n?o me incommódo com isso.
-N?o me entendeu, Bertha. N?o havia nas minhas palavras a menor baforada aristocratica; d'essa ridicula mania n?o pade?o eu, gra?as a Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores, posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha...
-Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. N?o me supponha o que eu n?o sou, ou ent?o n?o diga o que n?o sente. Acredite; as minhas aspira??es s?o t?o leves, t?o realisaveis! Satisfazem-se com estes cuidados caseiros; e fóra d'isto, n?o me sinto bem. Para fazer a vontade a meu pae, segui a educa??o que elle desejou que seguisse; mas nunca senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos trabalhos alde?os...
-Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos educados para a poesia que ella rescende.
-A poesia!-repetiu Bertha, com um for?ado gesto de desdem, encolhendo os hombros.
Mauricio percebeu-o.
-Ri-se?-interrogou elle.
-é que ou?o fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade, ainda n?o pude saber bem o que seja.
-N?o sabe o que é a poesia?!
-A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi...-disse Bertha, simulando um tom de completa ingenuidade.
A chegada das crian?as, pedindo á irm? que as conduzisse a casa, interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.
-Será possivel que eu me engane?-pensava elle.-Será a final de contas uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradi??es da familia? N?o creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou n?o é indifferen?a o que ella sente, quando me falla.
E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.
Bertha, rindo e brincando com os irm?os, pensava tambem:
-Parece-me que alguma coisa conseguiria. é preciso desvial-o d'este proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me aborre?a. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e de entendêl-o. Que eu n?o posso ficar pelo meu cora??o, que ainda n?o experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero n?o luctar. Chamam-me uma rapariga de juizo. N?o sei, n?o sei se o sou, n?o o posso saber nem quero. ás vezes... desconfio de mim... receio... assusto-me. Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me t?o facil dominar-me!... Hoje... N?o quero, n?o quero tentar; n?o quero exp?r a tranquillidade do meu cora??o. Eu n?o me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla. é preciso acabar com isto, antes que augmente.
O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas rela??es da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do venturoso casal.
Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.
Luiza n?o se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e n?o fazia sen?o alternar a vista entre o rosto de Bertha, que t?o grata perspectiva era para o seu amor de m?e, e o dos seus interlocutores, onde espiava o reflexo da admira??o, de que ella propria se sentia possuida.
Assim correu o dia.
O principio da noite foi consagrado á familia. Ent?o é que chegou a vez a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflex?es sobre o que ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha, como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.
Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa. Ouviu-se porém o ladrar dos c?es no quinteiro, o som da aldraba no port?o e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao patamar.
-Ahi vem o snr. Jorge-disse Luiza para o homem.-Conhe?o-o já pelo andar.
-é elle, é; e temos hoje bastante que fallar.
-Eu vou accender o candieiro no quarto-acrescentou Luiza, que sahiu a preparar a sala das conferencias.
Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.
Jorge n?o era superior a uma occulta commo??o, ao entrar alli. Ia encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas apprehens?es. Era t?o forte a sua turba??o, que lhe tremiam as pernas ao transp?r a porta da sala.
Na presen?a de Bertha, Jorge lan?ou para ella um olhar rapido, mas penetrante, e desviou-o logo. O espirito n?o serenou com o resultado d'esse primeiro exame.
Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.
Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, t?o differente do do irm?o, acolheu-o com mais franqueza e menos precau??es do que tivera com Mauricio. Contra Jorge n?o precisava de acautelar o cora??o.
O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse, quasi sem olhar para Bertha:
-Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda se lembre de um antigo conhecido.
-N?o costumo esquecer-me, snr. Jorge-respondeu Bertha, sem poder deixar de examinal-o com curiosidade.
Jorge proseguiu no mesmo tom:
-Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora esta terra?
E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas desviou-os ao encontrar os d'ella.
-A mesma que deixei-respondeu Bertha-a aldeia guarda melhor as memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na volta parece que as mesmas arvores e as mesmas fl?res, que nos despediram, nos d?o as boas vindas outra vez. Se alguma mudan?a ha é nas pessoas.
-Encontrou mudan?a n'essas?
E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
Bertha.
-Nem podia deixar de ser-tornou esta-para nós n?o ha esta??es; as folhas que v?o cahindo, n?o vem primavera renoval-as.
Jorge p?z-se a folhear, com apparente distrac??o, um livro que encontrou sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.
Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga aquelle caracter serio de rapaz.
Thomé prop?z a Jorge principiarem os seus trabalhos.
Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a m?e.
-Ent?o que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?-perguntou o enlevado Thomé.
Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.
-Olhe o que é a educa??o-insistiu Thomé.-Quem ha de dizer que foi nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda um pouco peior do que hoje?!
-Ah! sim... a educa??o... vale muito, mas é preciso que os dotes naturaes a auxiliem-murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o assumpto da conversa.
-Sim; tambem me parece que se a pequena n?o tivesse quéda... Mas o que ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! é d'uma pessoa ficar a ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!
Um ligeiro sorriso, n?o de todo despido de ironia, encrespou os labios a
Jorge, que nada respondeu d'esta vez.
Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifesta??o dos seus desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr aquella noite, e por isso abriu a sess?o.
Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.
Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto. Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto elegante da encaderna??o, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.
Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos amores de Paulo e Virginia.
Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.
-Lê romances-murmurava elle.-A estas horas phantasia-se a heroina de algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo mundo a realisa??o d'esse ideal. A final é o que eu digo. é como as outras. é uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco pedante... é o resultado do systema de Thomé... Fazer viver estas mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade, que lhes ha de parecer insupportavel!... Triste methodo de formar esposas e m?es!
E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irrita??o, que elle proprio n?o podia justificar.
Depois proseguiu, com crescente malignidade:
-E quem sabe?... Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou proposito? é natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de espirito adquiridas no collegio, e ha t?o pouca gente no caso de as apreciar n'esta aldeia, que n?o admiro que seja eu um dos eleitos. Emfim, s?o vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser indulgente. E demais que tenho eu com isso?... Mauricio que averigue, se quizer. Está no gosto d'elle...
Thomé voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais desattento do que de costume.
No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro aposento da casa, cantava em tom de acalentar crian?as:
Quando uma crian?a dorme,
Veem os anjos a sorrir
Abrir as portas do céo,
Para Deus as vêr dormir.
-Escute-disse Thomé, apurando o ouvido-é a minha Bertha a adormecer o irm?o.
E Thomé p?z-se a escutar, com fervor paternal.
Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz juvenil, que continuava cantando:
E um d'elles á terra desce Junto do ber?o a velar Para longe do menino
Os sonhos maus afastar.
-Ent?o? N?o tem uma linda voz a rapariga?-continuava Thomé, olhando para Jorge, que n?o respondeu.
A voz continuou:
Dorme, dorme, meu menino,
Que é alegre o somno teu.
E emquanto na terra dormes
Folgam os anjos do céo.
Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crian?as.
Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia encontrar um caminho direito para o cora??o d'aquelle pae extremoso, e commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas consoladoras.
Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.
Era tarde já e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas n'este movimento de Jorge actuára uma outra ideia.
Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento. Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitára de proposito o ensejo de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a tactica tivera effeito. A preven??o hostil, de que á for?a queria armar-se, n?o era talisman bastante forte para o livrar de encantamento.
Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue, annullava-se o esfor?o que fazia para quebral-o, e a seu pezar permanecia no perigo.
Desconhecia-se, sentia uma turba??o indefinivel, parecia-lhe que o ar livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto do ber?o de uma crian?a, e por o espa?o entreaberto appareceu a figura de Bertha, com o cabello já meio despenteado e solto, e tendo nos labios o mais suave e affectuoso sorriso.
-Boa noite, snr. Jorge-disse ella, estendendo-lhe a m?o, com uma express?o de voz cheia de cordial franqueza.
Jorge estremeceu áquella vista inesperada, mas, dominando-se, correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a m?o:
-Adeus; boa noite, Bertha.
-Ent?o o pequeno já dorme?-perguntou Thomé da Povoa, procurando sondar com a vista a meia claridade do quarto.
-Psiu!-disse a filha, pondo um dedo nos labios-socegou por fim. Trouxe-o para o meu quarto, porque n?o deixava dormir a m?e. Boa noite, meu pae.
E tomando a m?o do lavrador, beijou-a com affecto.
-Deus te fa?a feliz, minha filha-tornou-lhe este, exultando com aquella simples ac??o.
E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.
Jorge, ao vêr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite, como para libertar-se de uma oppress?o que o angustiava. Descobriu a fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli até á Casa Mourisca.
-Eu estou doido!-murmurou elle-que tenho eu com esta rapariga? Era o que me faltava! que me entrasse na cabe?a uma doidice d'estas! Estou vendo que n?o é t?o facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com Mauricio n?o admirava! E ent?o uma crian?a de collegio... provavelmente estouvada... Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.
Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma crian?a á meia luz da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada á entrada, com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal, n?o se lhe tiravam da ideia. Era como a vis?o de um paraizo que sonhára.
Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho, entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado proximo da janella, com a cabe?a sobre o bra?o dobrado, que repoisava no peitoril, e t?o absorto, que quasi n?o deu pela aproxima??o do irm?o.
Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o:
-Que fazes ahi?
Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo:
-Julgo que dormia.
-N'esse caso farei outra pergunta-que vieste para ahi fazer?
-Tinha calor... cancei-me de lêr... vim tomar ar. Ha um instante.
-Ha um instante? N?o diz isso aquella luz, que parece de casa mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com outro; porém em ti é para estranhar a menor irregularidade de habitos.
-Tambem eu me estranho. é certo porém que esta noite n?o me sinto disposto para estudar.
-Pois aproveita essas felizes disposi??es, e descan?a, descan?a. Que diabo! Parece-me que dás á administra??o da nossa casa mais importancia do que ella merece. A final de contas sempre é tarefa que o frei Januario fez durante annos. Se soubesses como a noite está agradavel! N?o esteve de todo má a partida em casa dos Curuj?es.
-Ah! vens de lá?-inquiriu Jorge, com indifferen?a.
-Venho, sim. Bastante gente. Venancio cada vez mais parvo. A D. Anna cantando a Norma da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral, com a cabe?a cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos do Antonio Rodrigo estavam perdidos de riso. Quem n?o está feia é a D?res, a pequenita do Jo?o Tavares; dois mezes que passem mais por aquella infancia e estará alli uma bella mulher. Mas que noite t?o sombria! Nem a luz de hontem em casa do Thomé! Hoje nem Bertha nos faz companhia. Sirva-lhe isto para desconto dos grandes peccados de que a accusas. Está provado que a vigilia de hontem foi consagrada á prosaica tarefa de arrumar as suas coisas pelas gavetas e bahus. é verdade, já a viste?...
-N?o... Já.
-N?o? Já? Que diabo de distrac??o é essa? E que te pareceu?
Jorge esteve algum tempo antes de responder:
-Bem.
-T?o sêcamente bem? Devéras?!
-Ent?o que queres que te diga? Sabes que n?o tenho o teu genio, para esgotar a minha eloquencia diante da primeira figura de mulher que me appare?a.
-E a respeito das tuas preven??es?
-Nada pude decidir.
-Pois eu já decidi. Acho-a cada vez mais adoravel.
-Ah!
-Sabes que estive com ella esta manh??
-Sim?! Hum!-disse Jorge com evidente constrangimento.
-é verdade. Fallei-lhe e, já se sabe, n?o me descuidei de advogar a minha causa.
-Ah! sim? E ent?o?...
-E ent?o..., apesar de uma certa esquivan?a nas respostas que obtive, quer-me parecer que n?o tenho raz?o de queixa.
-Bem, bem.
-Emfim, certas recorda??es de infancia... como sabes...
-Ah! ella recorda-se da infancia?
-Ora, como queres que ella se n?o recorde?
-Sim, é natural-concordou Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas contrac??es nervosas.
E estendendo subitamente a m?o ao irm?o, acrescentou:
-Boa noite, Mauricio. é tarde e eu tenho somno. Adeus.
E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que costumava. Se dormiu é que n?o sabemos.
Mauricio dormiu com certeza melhor do que elle.
Embalava-o a vaidosa persuas?o de que havia impressionado Bertha. Tinha Mauricio este defeito de supp?r que eram promptas e profundas as impress?es que produzia no animo das mulheres. Defeito este vulgar, e que ainda n?o é dos que d?o de si mais serias consequencias.