O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam juntos n'uma terra para ambos desconhecida, t?o alheios ás coisas como ás pessoas, no meio das quaes se vêem, nem por momentos se soffrem separados; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa d'elle para communicar-lhe as primeiras impress?es recebidas, e pedir-lhe em troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, se v?o familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo novo, afrouxa a constric??o d'esses la?os, e c
ada um principia a readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia abdicado.
Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrámol-o na estrada; na companhia d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos era estranho; nada mais natural do que dar o bra?o um ao outro, passar juntos a manh?, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porém, que temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia for?ada, a qual, embora seja de um amigo estimavel, se é for?ada, é sempre jugo, em certas occasi?es.
Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de ter momentos em que se desejassem sós; se é que n?o deviam aos deuses a felicidade de possuirem curtos espiritos, o que n?o creio.
Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorothéa a mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digest?o de um jantar; deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Marianna e de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do Mosteiro.
Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos e á beira de vallados, com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar.
O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, é já bastante para que nos n?o admire a quasi incessante melancolia de Augusto.
Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo, á custa de sacrificios, cultival-a, e eleval-a á altura das suas aspira??es! Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!.. n?o ser?o estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma existencia, embora a juventude as illumine?
Havia alguns annos que esta disposi??o para a tristeza se exacerbára em Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convém referir.
A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao morrer instituido um legado a favor de Augusto, ent?o crean?a, com a condi??o d'elle abra?ar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até o da primeira missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro.
Isto succedeu no tempo em que a m?e de Augusto, que havia dois annos viuvára, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetra??o e pelo enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da localidade.
Foi por todos aben?oada a memoria da morgada, por t?o bem cabido legado, que era ao mesmo tempo que remedio ás priva??es de uma familia, premio e estimulo á intelligencia e á applica??o de uma crean?a, que promettia vir a ser... Deus sabe o quê.
Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela legataria como condi??o á concess?o do beneficio, n?o podia ser uma crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem querer saber a quantidade de aspira??es, de esperan?as, de phantasias que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, n?o é uma iniquidade; se n?o era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, prop?r-lhe trocar por estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo, egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta; essas meigas generosidades s?o ás vezes a causa do infortunio de uma vida inteira; acceites ou recusadas, é raro que depois, a cada prova??o que nos experimenta, uma voz interior nos n?o exprobre o partido que abra?amos.-?Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos de poetas o beneficio que te offereciam??-dirá ella aos que rejeitaram o pacto.-?Ambicioso!-clamará aos outros-ahi tens a felicidade que julgaste comprar á custa do que ha de mais nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspira??es.? Augusto n?o adivinhou porém logo a crueldade da disposi??o testamentaria. Era muito crean?a ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre m?e, que só podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas conseguira deixar uma heran?a; foi á viuva o dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a vida.
Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem rudes eram os cuidados de cultura que o velho magister lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do estudo, da aptid?o e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso, elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe f?r preciso.
E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de uma nobre miss?o a cumprir. N?o ha fadigas que tal estimulo n?o ven?a; abnega??o, que n?o inspire.
A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua m?e precisava d'elle.
Quando ainda aos seus treze annos f?sse já bem conhecida a grandeza dos sacrificios que lhe exigiam, n?o hesitaria talvez, instigado por aquella aspira??o; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as doces imagens, t?o gratas ao cora??o do adolescente, e a que teria de renunciar.
Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, gra?as aos esfor?os empregados, n?o se fez esperar muito.
Quando se approximava a occasi?o, o pae de Magdalena mandou vir Augusto para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia.
N?o confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas li??es de um professor da cidade, e d'este obteve as melhores informa??es da intelligencia do rapaz, que só por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos vicios do ensino de campo.
Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas qualifica??es.
Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se, dizia-se por lá que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até quem n?o hesitasse em affirmar que a crean?a confundira os mestres, que f?ra uma maravilha.
O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se em que, através do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre.
Os invejosos disputavam-lhe porém t?o inquestionavel gloria e riam-se d'elle.
A pobre m?e, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render gra?as á Virgem, a quem tanto encommendára o filho.
Voltou Augusto á terra.
Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um prodigio. Todos o queriam vêr, como se até alli o n?o tivessem visto bem, e de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o administrador, nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram, n?o houve um só que n?o notasse que o pequeno vinha triste.
Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as interpreta??es é que variavam.
-Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem n?o está costumado... dizia um.
-S?o canceiras de estudos-aventava outro.-Ha lá coisa que puxe mais por uma pessoa do que o estudo!
-N?o que vocês cuidam! Um exame sempre abala a gente cá por dentro-dizia um doutor, que levára dez annos a vencer um curso de cinco.
F?sse pelo que f?sse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os ares da sua terra n?o dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam no futuro e no legado da morgada.
Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era de supp?r, a receiosa m?e. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, argui??es, lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder que nada tinha que o affligisse, que era a illus?o de quem o via a tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.
Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, á custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia. N?o se p?de atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia n?o era; pois no entretanto come?ou a estudar os rudimentos do latim com o illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas.
A saude vacillante da m?e de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio dar outro motivo á demora do filho.
Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um cadaver.
Era orph?o.
A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto, condensou-se-lhe mais ent?o. Era quasi um negrume de tristeza.
Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa.
O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a Lisboa. Uma manh?, porém, este, de pouco mais de quinze annos, procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma ten??o meditada e irrevogavel:
-Venho prevenir v. ex.a de que desisto do legado da sr.a morgada. N?o quero ordenar-me.
O conselheiro fitou-o, estupefacto.
-N?o queres ordenar-te! Por quê?...
-Já n?o tenho m?e a quem amparar. Por ella for?aria a minha voca??o sem remorsos; por interesse proprio n?o o posso fazer; parece-me um sacrilegio.
O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e sabe-se que a candura de sentimentos n?o entra no numero das mais habituaes d'essas qualidades. Tinha uma raz?o clara, mas fria; se abra?ava uma boa causa, n?o o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas sómente depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se baseava; assim era que, em politica, se costumára a contemporisar, espa?ando a adop??o de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para tempos em que f?sse mais conveniente; n?o se apaixonava por utopias, desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desviára dos olhos o prisma encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais sonhadores; costumára-se a marcar por modelo nas differentes carreiras da vida, n?o um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos e vicios; assentára a menor altura o alvo: parecia-lhe que bom fito eram já os individuos que tinham conseguido maior considera??o na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto, maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance; agradavel para entreter, porém mau nas applica??es ás coisas da vida. N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera mundana; n?o um d'aquelles typos de pureza crystallina, através da qual parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas já um tanto embaciado do bafo social, que n?o o fazia ainda totalmente opaco.
Por isso sorriu á declara??o de Augusto. A carreira ecclesiastica n?o lhe parecia t?o escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem t?o dura a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro n?o pensava necessario tomar ao pé da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle, tolerante em naturaes infrac??es; por tudo isso se riu. Fez a Augusto uma longa disserta??o sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria renunciar a uma carreira segura movido pelas instiga??es de um espirito timorato ou de uma vis?o phantastica.
Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso sceptico do conselheiro, declarou que n?o abra?aria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha; que era precisa uma grande abnega??o, e que elle, depois da morte de sua m?e, n?o tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses n?o pensava, e se pensasse, seria isso a primeira prova de n?o estar preparado para a miss?o de que se queria encarregar.
Quando alguem abra?a com lealdade e franqueza uma boa causa, difficilmente é vencido. O conselheiro, costumado a n?o recuar nas mais acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás objec??es d'aquella crean?a. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as illus?es a que o via abra?ado,-illus?es pelo menos as suppunha elle; parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em que vivia.-Respeitou-o e calou-se.
-Alguma creancice amorosa dos quinze annos-pensou para si. Deixemos ao tempo convencel-o. N?o me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcan?ado menos no mundo, mas talvez tivesse gosado mais... ou melhor...
O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflex?o modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz.
Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as ten??es, em que estava de n?o se ordenar, pelo menos emquanto n?o passasse mais tempo sobre aquella resolu??o.
E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se encarregasse da primeira educa??o de Angelo, ent?o de nove annos; pois mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official.
Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus g?stos, lhe abria uma carreira, que elle já imaginára adoptar.
De ent?o nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos os progressos do discipulo, e n?o menos reaes as vantagens que ao mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a intelligencia.-O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da escolha.
Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro n?o o deixou ser muito ardente a combatel-as.-Espa?ou-se mais uma vez a decis?o.
Outras li??es appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com g?sto; o mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.
O velho acabou por declinar n'elle o servi?o todo, sem que Augusto consentisse em receber por isso o menor estipendio.
O publico n?o se can?ava de perguntar quando seria que o rapaz principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o n?o fazia já. Como n?o obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos os que n?o entende.
No entretanto a educa??o de Augusto n?o ficára estacionaria. Com grandes sacrificios a continuára elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia, tinha muito de milagre o que fazia.
O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás impaciencias do espirito d'este discipulo enthusiasta; e n?o era raro que a intelligencia de Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre.
O acaso favoreceu os desejos do estudante.
N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia, homem de solido saber e de reputa??o extensa.
Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prégar na festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia e, conversando-o, admirou-lhe a penetra??o, captivou-se da sua modestia e lamentou n?o estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como pudésse, nos estudos.
Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o padre que sim, respondeu que n?o seria ent?o estorvo a distancia, porque elle a venceria.
E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás quintas feiras e domingos, franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as li??es do erudito abbade. Assim se aperfei?oou na latinidade, cultivou a philosophia e adquiriu o g?sto pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de lá carregado de livros para ler durante a semana. Toda a bibliotheca do padre lhe passou pelas m?os.
Era porém o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e litteraturas modernas.
A sorte n?o recusou ainda a Augusto um novo mestre.
Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal fazem preceder, vinte annos antes, a construc??o definitiva de uma só, que de ordinario sae sempre como se n?o f?sse t?o estudada, um houve que levou á aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi fez quartel e centro de opera??es, durante tres mezes inteiros.
A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cêdo travaram conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e bahús uma excellente provis?o.
N?o tendo que fazer ás noites, entreteve-se a ensinar o francez a Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as horas a Augusto n'aquelles ser?es; n'elles aprendeu todos os nomes da nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de Fran?a e de Inglaterra.
Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francez bastante para se aperfei?oar por si; este amigo deixou-lhe em lembran?a grande parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.
Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em v?o, encontrou-o ainda inabalavel.
E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio foi concedido a outro.
Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia.
Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle logar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o n?o ter ambi??es era indicio de uma profunda doen?a moral; que a posi??o a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da idade que ainda n?o tinha, pois mal completára dezenove annos, e Augusto foi por conseguinte admittido a concurso para t?o pouco disputado logar e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem n?o f?ra impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de tres annos, o obrigava a abandonar t?o laboriosa e mal recompensada carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o legado da morgada tivesse tido já outra applica??o, o conselheiro n?o hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.
Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer já os espinhos da profiss?o, apresentou-se novamente ao concurso para obter novo despacho. Na época em que abrimos esta narra??o, voltára Augusto de pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decis?o do ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito protegido por influencias da localidade, as quaes ainda n?o tinham podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.
Desde que f?ra para Lisboa, Angelo n?o se esquecera de escrever amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a férias, procurava transmittir ao que f?ra seu mestre a sciencia que durante o anno adquiríra.
Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a geographia e a historia.
Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applica??o faziam o resto.
Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo teremos de travar conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu contingente, para a educa??o de Augusto.
De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle com um pacote de livros debaixo do bra?o e, sorrindo, pousava-lh'os em cima da mesa.
Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto. Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros, alguns dos quaes eram de pre?o? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe a surpreza:
-N?o queiras saber da minha vida, rapaz. Supp?e que eu tenho a servir-me uma vara de cond?o ou uma fada qualquer, e deixa correr.
Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado riquezas, á f?r?a de economias: porque de economias vivera sempre.
De pequeno merecera áquelle velho uma singular sympathia, e com affecto de pae f?ra sempre tratado por elle.
Resignou-se a acceitar sem reflex?es; até porque sabia ser facil o escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presen?a d'elle, qualquer palavra que pudésse denunciar desejos de possuir um livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder occulto a informal-o, ás vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros que Augusto devéras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza de lhe n?o ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia.
A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a cren?a supersticiosa do povo a respeito d'aquelle seu velho amigo.
Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informa??es, pelas quaes o velho se guiava na escolha. N?o lhe attribuia porém o presente, porque as economias de Angelo n?o chegavam para tanto.
Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor estranhar os ares pensativos com que o vemos?
Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle. Era de Angelo.
Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho.
Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de uma carta de amigo para amigo.
Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperan?as e de projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda á aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:
?Pe?o-lhe que diga á Lindita que se n?o esque?a de mim. Dentro de poucos dias conto ir vêr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a agua do po?o. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva um livro para si.?
Augusto sorriu, ao ler o post-scriptum.
-Pobre Angelo!-murmurou elle,-Deus n?o permitta que sobreviva á tua ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affei??es de crean?a muitas vezes, ao crescer, envenenam o cora??o.
Havia tanta amargura n'estas reflex?es de Augusto!
E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que era o pae da pequena, a quem na carta se alludia.