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Chapter 5 No.5

Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia, que logo á primeira vista, aquella mulher lhe despertára.

Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a que t?o espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles, como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella.

A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel, absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o menor constrangimento, proseguia nas suas occupa??es domesticas.

Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala immediata.

-Ellas ahi veem-disse a morgadinha.

De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D. Victoria e Christina.

A m?e vinha dizendo:

-é o que eu digo... N?o que vocês n?o querem crer! Ora vejam se isto se atura... se isto n?o é para metter uma pessoa no inferno!... N?o tem que vêr!... N?o ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja t?o mal servida como eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o que elles fazem, esse bando de mandri?es!... Elle é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o Dami?o, elle é a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante... e n?o havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo! é forte coisa!... Compromettem uma pessoa! Ent?o como está?-accrescentou ella, mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a m?o.

Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este um olhar malicioso.

Henrique correspondeu delicadamente á sauda??o das senhoras e procurou justificar os criados.

-N?o m'os desculpe,-atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de voz-aquillo é de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem me tira isto da cabe?a... Aquillo é de proposito!

-Mas a mam? n?o vê que as criadas estavam comnosco á novena?-lembrou timidamente Christina.

-Pois que n?o estivessem. Quem tem servi?o a fazer n?o pode ouvir novenas.

-Mas se a mam? é que as mandou!

-Pois sim... pois sim... mas... mas ellas é que me deviam dizer que tinham que fazer. Ent?o eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas obriga??es? N?o me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas ent?o vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada?

Henrique principiou a falar para desvanecer a irrita??o de D. Victoria.

Como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a occasi?o para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que est?o em scena.

D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel dos quarenta e tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descrip??o. Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo, e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava for?ar o espirito a abra?ar alguma ideia mais complexa; m?os rotas com a pobreza; intolerante, em theoria, com os ladr?es e malfeitores, porém felizes d'elles se d'aquellas m?os lhes dependesse a condemna??o; eis o que era D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; e esta idade gosa de privilegios, que eu n?o posso infringir. O leitor n?o me perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua juventude e ao seu typo feminino. Reparemos pois.

Christina era mais bonita do que bella. N?o havia n'aquelle rosto uma só fei??o, que n?o f?sse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos meigos e quebrando-se com suavidade infantil; b?ca, d'onde parecia sempre prestes a sair um afago ou uma consola??o; voz, que da muita piedade d'aquelle bom cora??o, tirava ás vezes modula??es commoventes; n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja m?o representou na téla os augustos mysterios do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas n?o procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e como por magnifico influxo, a atten??o dos olhos, uma d'essas particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais fascinador; temperavam-se alli t?o completamente todas as fei??es, que a atten??o n?o se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que lhes diminuia muito a intensidade. é o grande sen?o dos rostos harmonicamente perfeitos.

Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, n?o se sentia dominado por a sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram suaves de mais as inflex?es d'aquelles contornos, brandas as tintas que lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente o typo angelico, de que lhe ficára uma agradavel, mas vaga impress?o.

Por um homem, em quem predominasse a raz?o, Christina poderia vir a ser adorada; mas nas imagina??es ardentes, nos cora??es inflammaveis, difficil lhe seria produzir alguma impress?o duradoura.

Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe primeiro o cora??o, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se continha; ent?o descobrir-se-lhe-hia nas fei??es certa belleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras e generosas vertem nas physionomias. Se n?o f?sse receiar-me de linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas mulheres assim, é uma belleza subjectiva.

De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confus?o, mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, n?o conseguiria por muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha-que a muitos respeitos, menos na bondade de cora??o, formava contraste completo com sua prima.

Travára-se animada conversa??o entre as pessoas presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.

D. Victoria quiz ser informada da doen?a de Henrique. Este passou a fazer-lhe uma exposi??o igual, com pequenas variantes, á que fizera á tia.

Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas, impaciencias e desalentos, que t?o ingenuamente a boa senhora classificára como mania.

Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.

Henrique tornou para ella os olhos.

-ó menina, de que ris tu?-perguntou D. Victoria, com certo tom de severidade.

-Rio-me d'aquella doen?a, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo? Ora diga?

-Eu?... mas...

-Pode dizer que n?o. E comtudo o primo Henrique n?o mente. Ha d'aquellas doen?as na cidade, ha; mas na aldeia s?o t?o raras, que eu mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...

-Ent?o n?o crê na realidade d'ellas.

-N?o lhes estou a dizer que sim? Ou?o até que já teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisa??o affei?oam a seu modo a natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso s?o menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses doentes em plena aldeia, n?o é modificada por todas essas considera??es. é como um homem de casaca e gravata branca; n?o ha nada mais sério e mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o pode olhar a sério.

-Quer dizer que n?o devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.

-Tanto n?o digo; mas n?o o entender?o; isso n?o.

-Porém a minha doen?a n?o é só d'essas, que se n?o d?o na aldeia, prima Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...

-Ah! tambem?-Com esse aspecto de robustez?!...

-Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!-disse D. Victoria, que n?o tinha percebido bem o dialogo.

-é que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso n?o pode curar-se.

-Sujeitar-me-hei da melhor vontade a t?o agradavel dominio.

-Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...

-Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso renuncio á cura.

-Grosseiro, n?o; basta que seja razoavel e sobretudo...

-Acabe.

-Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.

-Eu adoro as sinceridades.

-Já que o quer... é preciso que seja razoavel e sobretudo... desaffectado.

Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.

-Ent?o acha?...

-Acho que está sempre a imaginar-se n'um sal?o; faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e perdidos.

-ó meninos, eu n?o vos entendo-repetia D. Victoria.

Magdalena sorriu.

-Digo eu que...

Um criado entrando com as cartas do correio n?o a deixou continuar.

-Sempre chegou o correio!-exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo as cartas.-Por que veio t?o tarde?

-A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...

-Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?

-Esteja descan?ada, minha senhora. Ella partiu já e era um g?sto vêl-a a correr.

Magdalena abriu com pressa a carta recebida.

-é de meu pae-disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir licen?a, come?ou a ler para si.

-Pois agora-dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique-o que deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, Christina?

-Eu! disse Christina, córando.

-Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...

-á Senhora da Saude, mam?.

-Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê? Saem d'aqui uma manh? cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o ar do monte abre o appetite, e a cavallo est?o lá n'um instante...

-A cavallo, mam?! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a pé-notou Christina do lado.

-Isso é por os a?udes.

-Pois por onde haviamos de ir?

-Por a Granja, que é melhor.

-Por a Granja! é uma legua!

-Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos a?udes, que é até perigoso; e depois para que h?o de ir a pé, se para ahi est?o os cavallos sem fazerem nada? é vontade de se can?arem.

-Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr. Henrique...-disse Christina, embara?ada ao continuar.

-Eu o quê, minha senhora?

-Perd?o-interrompeu D. Victoria.-Por que n?o has de tu chamar primo ao primo Henrique? pois n?o chamamos tia á tia Dorothéa?

-Por isso mesmo, mam?,-respondeu Christina-os sobrinhos da tia Dorothéa n?o s?o...

-N?o averiguemos d'esses parentescos, priminha,-acudiu Henrique-eu acceito a proposta da mam?, pe?o para ser considerado do numero de seus primos.

Christina baixou os olhos, sorrindo.

Henrique proseguiu:

-Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da Saude. N?o sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a n?o can?ar.

-N?o tem que saber-disse D. Victoria, caminhando para uma janella.-Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.

-Tendo duas t?o galantes companheiras de viagem-tornou Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou-parece-me que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.

-O que eu lhe digo, primo-accrescentou D. Victoria-é que se acautele, porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.

-Inda que morresse em t?o agradavel servi?o, teria de agradecer a Deus a morte.

-Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento-disse Magdalena, que continuava a ler.-Logo ajustaremos contas.

-é implacavel esta nossa prima, n?o acha?-perguntou Henrique, sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.

-Pois ent?o, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que n?o ha que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já n?o s?o passeios para mim, e depois estes criados...

Henrique de Souzellas receiou nova divaga??o sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando a leitura da carta:

-Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.

As crean?as saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem inveja a um clown de circo.

D. Victoria zangou-se.

-Ent?o que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado para a quinta. ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a sua obriga??o!

As crean?as reprimiram um pouco mais as expans?es de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composi??o d'ellas, o seguinte:

-Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!

-Pschiu! Calae-vos!-bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para Magdalena:-Mas ent?o como se entende isso, Lena? Ent?o o pae diz que vem...

-Nas vesperas do Natal.

-Sim, nas vesperas do Natal, e vae...

-Depois dos Reis.

-Sim; está bem; e... sim... e ent?o o Angelo?...

-O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?

-N?o, menina. Mas é preciso n?o fazer confus?o... Ent?o...

-N?o ha nada menos confuso... é só isto.

-Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! ó meu Deus, que consumi??o! Mas ent?o por que n?o entregou o criado ha mais tempo essa carta? Eh! n?o que vocês dizem que elles...

-ó tia, pois n?o ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, porque...

-Historias! N?o me venham para cá com esses contos. Vocês est?o sempre promptos para desculpal-os. S?o elles...

-ó Lena, Lena-diziam as crean?as-o primo Angelo n?o torna para Lisboa?

-Ha de tornar.

-Ora!

-Olha lá, ó Lena-disse D. Victoria-sabes tu o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...

Uma perfeita ova??o acolheu o projecto; as crean?as levaram as suas demonstra??es de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pesco?o, á cinta, ao avental da m?e, gritando todas a um tempo:

-Ai, sim, mam?, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos de cantar as janeiras... Mande, mande, mam?, por as alminhas; ora mande.

D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o bra?o, como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o riso dos labios.

-Saiam d'aqui!-exclamava ella, quando conseguiu estar séria.-Saiam!... N?o ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, n?o fazem caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Ent?o, Eduardo! Tu tambem? N?o tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!

A ideia das consoadas em familia f?ra uma ideia que a ninguem deixára impassivel. Christina, a timida Christina, n?o disfar?ou um movimento de jubilo; as m?os ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.

A propria Magdalena n?o se mostrou superior áquella tocante puerilidade.

Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe affectuosamente:

-Ora ahi está o que é muito bem pensado.

-Pois sim, sim, mas o peor é... os criados-disse D. Victoria.

-Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia Dorothéa.

-Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam os de cá com a Maria.

-N?o tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem, melhor-aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.

-Ahi temos outra! N?o, filha; isso é que n?o. Para barulhos é que eu já n?o estou. Ent?o, n?o.

-Está resolvido-disse a morgadinha, para cortar pelas divaga??es da tia.-Aqui o sr. de Souzellas-accrescentou, com maliciosa inflex?o-fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.

-Acceito da melhor vontade.

-N?o sei se o deverá dizer. é preciso que o avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto, pelo menos, de collabora??o nos guisados. Por isso veja lá....

-ó menina, tens coisas!-disse D. Victoria.-Deixe-a falar, primo.

-N?o é deixe-a falar. Eu n?o dispenso ninguem.

-E eu prometto n?o me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os pratos em que puzer a m?o. Que mais querem?

Foi alegremente acolhida a promessa.

As crean?as, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attrac??o, trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, difficultando-lhe as respostas.

-Havemos de jogar o rapa, n?o havemos?

-Havemos de jogar, havemos-respondeu Henrique.

-E o par ou pern?o?

-Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pern?o.

-E?...

-Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.

-Olhe: e sabe contar historias?

-Sei tambem contar historias.

-Ent?o ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.

-Ora, o sr. Henrique já as sabe-disse, fazendo-se sisuda, Marianna.

-Pois n?o sei, n?o, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.

-ó meninos!-exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.-Ent?o isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá confian?a, está arranjado, primo.

-Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar; pegam-se.

-E n?o o diga a brincar-disse Magdalena-que tambem confio n'essas crean?as para o curarem dos seus males.

-Ent?o devéras emprehendeu curar-me?

-Com toda a certeza.

-N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.

-N?o havemos, n?o, senhor. é mau medico o que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido com fé, e cega.

Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esfor?os por lhe chamar a atten??o, resolveu-se a falar-lhe.

-Lena-disse ella-que te parece a lembran?a que teve ha pouco a mam??

-A das consoadas? Excellente.

-N?o, menina, a do passeio á ermida.

-Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.

-Quando queres?

-Depois de ámanh?, que é quinta feira.

-Seja.

-Que diz, primo Henrique?

-Quando quizerem, primas; agora mesmo...

-Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?

-Pois n?o viu hoje?

-Ai, pois n?o! Na aldeia n?o se chama isso uma madrugada. é preciso que se levante ás horas, a que se deitava na cidade.

-Que estás a dizer, Lena?-acudiu Christina.-Deixa-a falar. Basta que saiamos d'aqui ás cinco horas.

-Esta innocente Christina! Pois n?o é o mesmo que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.

-Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou valetudinario.

-Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui muita indolencia.

-Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora havemos de vêr-disse Christina.

Magdalena poz-se a rir.

E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos de vista.

Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa hora ao que promettera á tia Dorothéa.

Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.

Henrique de Souzellas, ao findar aquella manh?, era inteiramente outro, do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos entre os membros de t?o numerosa familia, a franqueza cordial com que f?ra recebido, produziram n'elle uma impress?o profunda.

Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; n?o passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes, d'aquellas alegrias, que n?o se envergonham de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma revela??o que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre crean?as que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira de D. Victoria.

Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes quadros que lhe tra?ava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as fei??es queridas da mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a immortalidade.

De manh? parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no eden, onde a m?o de Deus o collocára.

-Anda, vagaroso, anda-disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu chegar.-Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.

-Perd?e-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...

-Ah! foste lá? E ent?o gostaste d'aquella gente?

-é uma familia para o cora??o. Passa-se o tempo alli t?o depressa! A morgadinha, sobretudo, é adoravel!

-Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.

Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa malicia.

-Que quer dizer, tia?

-Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que n?o tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.

Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais preoccupado e distrahido no resto da tarde.

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