Era uma expressiva figura de anci?o o herbanario.
A fronte larga e desaffrontada de c?s, os olhos ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes medita??es e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos; os habitos de solid?o, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando para uso proprio regras de viver, sem atten??o ás conven??es sociaes.
Era um enigma vivo.
Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava as maiores atten??es e canceiras.
Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo velho.
Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.
Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal digeridas no??es de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais predilectos e consultados contava um exemplar da Polyantheia de Curvo Semedo.
O herbanario principiára em crean?a uma educa??o tal ou qual, que revézes de familia haviam interrompido.
Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por maravilhosa.
E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade da physionomia, a franqueza, sem contempla??es, com que dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imagina??o popular aquelle typo, para ella quasi lendario.
Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a m?o a Augusto, que lh'a apertou com affecto.
-Bons dias, rapaz,-disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e Christina, accrescentou com maneiras paternaes:-Adeus, pequenas; grandes madrugadas hoje!
Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:
-Guarde-o Deus!
Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:
-Quem é?
Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
-O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa pergunta.
O velho nem sequer o olhou.
-Este senhor-respondeu Magdalena-é sobrinho de D. Dorothéa; está hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.
Vicente tornou a examinar Henrique.
-Ent?o é doente?... N?o parece... Olhar vivo... C?res boas... voz s?... Umh!...
Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:
-A doen?a d'este senhor é um pouco de imagina??o.
-E grandes effeitos nascem d'ahi-acudiu sentenciosamente o velho.-Lá veem na Polyantheia muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido umas amoras, foi atacado de d?res de cabe?a, de que morreu. Pois tanto scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo uma pedra do feitio de uma amora.
-Com effeito!-disse Henrique, com ironica express?o de pasmo-ahi estava um cerebro de concep??es rijas!
-é divertido!-disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para Magdalena.
-Pelo contrario-acudiu a morgadinha-o seu mal é a melancolia. N?o é verdade?
-Eu já n?o sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar raz?o á tia Dorothéa, que lhe chamou mania.
-Mania e melancolia n?o s?o a mesma coisa-emendou o velho.-Tambem lá na Polyantheia se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou cólera requeimada.
-De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!-continuou Henrique, no mesmo tom.
Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou a este:
-Parece-lhe que terá cura a doen?a?
-Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas e manias n?o ha como as folhas de ouro em caldo de frang?o com flores de borragem e de herva cidreira.
-Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que receita para as manias-disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe ficava proximo.
O velho, que n?o tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago de irrita??o.
Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.
-Está bom, menino,-replicou elle amargamente.-N?o diga mais, para se n?o envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os n?o pedir. Seja attencioso com a velhice que n?o é baixeza nenhuma. Mas que é isto?-exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.-As folhas veem d'este lado! Ent?o virou o vento? é verdade. Ah! sim?... Percebo.
E, depois de olhar para o ar, continuou:
-Mudan?as t?o repentinas!... Umh!... Já me n?o agrada aquelle azul e aquellas nuvens.
E levantou-se.
-Dou-lhes meia hora, e ver?o tudo isto coberto e quem sabe o mais que virá! Aconselho-os a que v?o descendo o monte, que n?o é seguro descel-o quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me n?o demoro, que n?o tenho confian?a na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!... Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
E, sem mais palavras, sobra?ou a caixa de lata, em que archivava as hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu, depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que parecia haver o que quer que era de for?ado.
-é realmente curiosa esta antigualha-disse elle, que interiormente sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.
-Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na aldeia!-disse a morgadinha.-Tem uns melindres e uma maneira de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de atten??es, propositos de offender! depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos n?o est?o aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso n?o é bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desaven?as suscitará por ahi. N?o repara que estes modos s?o proprios do campo?
-Perd?e-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...
-é um homem de bem-atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade de express?o, que até alli n?o mostrára ainda.
Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.
-N?o o nego-respondeu Henrique, pouco depois-mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a imbecilidade.
-Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um juizo s?o e uma raz?o clara.
-Acha?-tornou Henrique, já algum tanto azedado.-Ha de dar-me licen?a de n?o fazer obra por as suas aprecia??es... se me é permittido.
-Procede mal-redarguiu Augusto.-Porque eu conhe?o aquelle homem ha muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma digna correc??o. N?o lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.
-Lê fundo nas consciencias dos outros!
-N?o é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.
-Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mere?o a fineza de abrir uma excep??o aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos moraes? N?o reparei.
Augusto córou, mas respondeu com firmeza:
-Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.
Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada ironia:
-é verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu programma... de mestre-escola.
-Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descal?os, mas n'esse ponto podem dar li??es a elegantes filhos das cidades.
-Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas li??es tambem. Comtudo, como, felizmente, as circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as li??es que receber.
-Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.
-E acceita-a em toda a especie de moeda, n?o é verdade?-perguntou Henrique, cada vez mais petulantemente.
Augusto respondeu com a mesma serenidade:
-N?o fa?o tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo.
O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais acerbo caracter.
Christina, que já tremia de assustada, cingiu o bra?o de Magdalena, como para convidal-a a intervir.
Esta n?o o tinha ainda feito por uma simples raz?o. Desconhecia Augusto. A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram t?o novos para a morgadinha, que a surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade de uma interven??o. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade.
-Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre os senhores é uma alterca??o-disse ella por fim.-Vejam que só teem por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a contenda tomar outra fei??o. Por isso n?o é muito para louvar a escolha que fizeram da occasi?o, para uma justa t?o pouco... amavel.
-Perd?o, prima Magdalena; reconhe?o a minha culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a imp?r aos discipulos o seu pensamento, quiz estender até mim este despotismo de... magister... Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...
-Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opini?o desfavoravel, que levianamente formou de quem lh'a n?o merecia. Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu n?o soffro é que se diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se n?o costuma fazer o mesmo por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer, lastimo-o; é porque n?o os tem.
-Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois-disse Magdalena.-é de crêr que, como sempre, haja de parte a parte raz?o e aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal é o prestigio que a defende, que n?o consta de um só roubo sacrilego, que se fizesse n'ella.
Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando episodios da Paix?o; os altares, adornados de columnas e flor?es de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que estava.
Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára mais do que a prima a ora??o que fizera, contemplando a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, n?o sei se pensando n'ellas.
Esperava-os uma surpreza á saida.
Realisára-se o prognostico do herbanario.
O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo, viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se, pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea. Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando por tingir uniformemente toda a extens?o do firmamento. Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, come?aram a erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espa?o, como montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as aguardavam firmes.
Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da ermida.
-Depressa!-exclamou Augusto-já n?o ha tempo a perder! Des?amos antes que a tormenta nos colha.
-Tem medo?-disse Henrique em tom de mofa.-Um montanhez!
-Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que n?o é de inimigo pouco digno de o inspirar. Por agora pe?o-lhe tréguas ás zombarias e, por amor d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida. Felizmente que o criado já partiu. é um embara?o de menos. Vamos.-Detendo-se, porém, disse para Magdalena:-Se descessemos por o outro lado, minha senhora?
-Para quê?-respondeu esta.-é um momento, emquanto chegamos abaixo.
A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerra??o do ar; os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente; havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas nuvens tomavam uma c?r terrea, outras um carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras.
Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa ora??es fervorosas; Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.
N?o era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em catadupas, e os ventos vinham despeda?ar-se furiosos de encontro ás arestas salientes da rocha.-Era necessario estar muito amestrado para o descer sem perigo.
Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim n?o tivesse de repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas aventuras; e já ent?o seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos despenhadeiros do monte.
A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que inspirava alento e confian?a aos mais. Agil, como um animal montez, girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente f?ra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil transito, ora á retaguarda a dar a m?o a Magdalena, que vira em embara?o, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos bra?os, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára, sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do ch?o. O proprio Henrique, que n?o era o menos embara?ado do rancho, e nem isso admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de Augusto.
O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e aptid?es, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este momento; ora Henrique n?o era homem que, tendo consciencia disto, ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma compensa??o.
N?o descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos quaes sómente a preoccupa??o, em que iam os animos, impedia achar risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser alimento de animadas e joviaes recorda??es.
Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a pique e erri?ada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espa?o arreme?ou-a ao abysmo.
Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.
Magdalena, no momento, n?o p?de reter um grito, que fez parar com terror Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
A morgadinha, com a cabe?a descoberta, tran?as ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado susto.
A rir, explicou o succedido, pedindo perd?o pelo sobresalto que involuntariamente causára.
-Descan?a em paz!-disse ella, olhando para a mantilha; e accrescentou:-Sigamos.
-Mas n?o será possivel tiral-a d'alli?-perguntou Augusto, examinando o sitio.
-Para quê? N?o podemos demorar-nos agora com isso-respondeu Magdalena.
-Eu des?o a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um momento-insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.
Henrique notou, sorrindo:
-O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes n?o eram de t?o bom aviso.
E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma desnecessaria imprudencia.
Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflex?o, deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as m?os á borda do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha, até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um ramo mais tenaz; á f?r?a de vontade dominou a sua impericia em exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o bra?o, segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio.
Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos, p?de, ro?ando-se como reptil, e ferindo as m?os nas asperezas da rocha e nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em terra, sem acceitar a m?o que Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de triumpho.
Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.
Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabe?a murmurando:
-Que imprudencia!
-Na verdade!-disse Magdalena, ainda nervosa com a impress?o que este incidente lhe causára-foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.
E a perturba??o era tal, que nem acertou com uma phrase de agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais desejava reprehender, do que recompensar.
Esta reserva offendeu Henrique; servi?os a seu vêr de menor importancia, tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.
Revoltou-o esta ingratid?o.
Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, n?o concedendo sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desespêro de vêr que f?ra outra a que inspirava aquellas loucuras!
Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a f?r?a das enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham encontrado quasi submersa.
Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:
-Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do moinho, a fim de passarmos por lá. V?o descendo devagar, que eu volto.
-Ent?o deixa-nos sós?-exclamou Christina, assustada.
-é um instante.
-N?o sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indica??o-disse Magdalena.
-O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte; o caminho indica-se por si.
E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.
Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina fechava o cortejo.
O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos, a direc??o do rancho.
Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confian?a que lhes estava merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o humilhava.
Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique perdera com isso aquella volubilidade de conversa??o que mantivera todo o dia.
Nunca, na presen?a de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, nem sempre demasiado affavel.
Magdalena, por seu lado, n?o se sentia com disposi??o para falar. Christina menos.
Este silencio acabou por exasperar Henrique.
Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
Foi ent?o que Henrique desafogou o seu resentimento.
-Estou devéras arrependido, prima Magdalena,-disse elle com leve ironia-do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era demasiado cauteloso para heroe...
Uma simultanea exclama??o de Magdalena e de Christina n?o o deixou proseguir.
Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.
Seguindo a direc??o do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa d'aquelle duplo grito.
Refiramol-o em poucas palavras.
Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou n?o transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.
O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em taes condi??es a descida era acompanhada, se apressára a partir, n?o conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para descan?ar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, n?o obstante haver partido antes dos outros, n?o lhes levava muitos passos de avan?o.
Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadi?o, a que se dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já n?o se viam signaes de ponte. O herbanario parou, embara?ado. Acima ficavam-lhe os a?udes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.
O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.
Tenteou com o bord?o o sitio, em que as supp?z. Encontrou a primeira, pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como p?de, para resistir á f?r?a da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.
Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgra?a, de acudir, sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados do moinho.
Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o espa?o, que o separava ainda do ribeiro, e lan?ou-se á agua.
Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se revelava o seu amor de ostenta??o. Imaginava-se sempre n'um palco, deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel de homem perfeito. Fraco perante doen?as imaginarias, arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso generoso, que n?o pudésse harmonisar-se com a conven??o, que se chama elegancia.
Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle.
Augusto era differente.
As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos, para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis.
Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, n?o arriscou temerariamente a vida para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais seguran?a, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o fazia recuar.
Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:
-Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida, quando uma raz?o de humanidade lh'o pede. A sua imprudencia de ha pouco... agrade?o-lh'a, mas... n?o posso approval-a. Confesse que n?o foi t?o justificada como esta.
Henrique tinha a raz?o clara bastante e a consciencia justa para vêr que, apesar da sua fa?anha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda, inferior ao seu companheiro.
Qualquer que f?sse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo que teve sobre a rebelli?o dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar a ir apertar a m?o a Augusto.
O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esfor?o da lucta com a corrente; ainda assim abra?ou tambem Augusto, dizendo:
-Agrade?o a Deus o haver-me dado esta occasi?o de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.
Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem ahi dentro mudar de fato.
Augusto seguiu o herbanario a casa.
Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de haverem renovado a roupa, que a chuva repassára.
No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas exclama??es e ralhos por n?o terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a n?o haverem avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante, repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.
Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus n?o levantaram menor celeuma, ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de cobertores, emborcaram-o de punch e taes mêdos lhe insinuaram, que as apprehens?es pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se da sua antiga victima.