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Uma família ingleza Scenas da vida do porto

Uma família ingleza Scenas da vida do porto

Author: : Júlio Dinis
Genre: Literature
Uma família ingleza Scenas da vida do porto by Júlio Dinis

Chapter 1 ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTA O AO LEITOR

Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente inglezes, do que Mr. Richard Whitestone.

Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras pra?as da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente provada.

Nos livros de registro do Bank of England, bem como nos de alguns Joint-Stock banks e dos banqueiros particulares da City ou de West-End, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este credito florescente.

N?o era Mr. Richard homem para seguir sómente caminhos batidos, nem para empallidecer ao abalan?ar-se em veredas n?o arroteadas, onde se achava a sós com os seus esfor?os e tenacidade.

Por vezes arriscára capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e positivos e sempre desconfiados a respeito de innova??es.

Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades t?o frequentes na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone, respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard, com o esplendor tradicional; emquanto que n?o sorriram fados t?o propicios ás de muitos meticulosos e precatados, n?o obstante egoistas absten??es.

Era o caso de mais uma vez repetir o Audaces fortuna... de já estafada memoria.

Esta immunidade, em parte devida á lucida intelligencia, com a qual Mr. Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em parte a n?o sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confian?a entre todos, com quem o negocio o ligava, confian?a da qual, nem em circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario.

O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Pra?a-nome que entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de transac??es do alto commercio portuense-festejavam-o benevolentes sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante amabilidade e affectuosos shake-hands, segundo o mais ou menos adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.

Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstra??es de estima, ou as impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do commerciante britannico, ou-como de preferencia opinar?o os que melhor conceito formam dos homens-um longo passado sem mancha, uma rectid?o e cavalheirismo, aquilatados todos os dias.

Mr. Whitestone n?o se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos seus confrades, aliás merecidas.

Decididamente n?o era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa especie de incenso moral, que t?o bem formadas cabe?as atord?a, n?o sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da raz?o, n'elle pouco sujeita a esva?mentos.

Os gêlos d'aquelle cora??o, formado e desenvolvido a cincoenta e um graus de latitude septentrional, n?o se fundiam com t?o pouco.

L?as, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de venera??o a todo o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar certa agradavel e voluptuosa titilla??o da alma-se me admittem a phrase-que em quasi todos os filhos de Eva,-primeira e mal estreiada victima da lisonja-produzem sempre os panegyricos do merecimento proprio, entoados por b?cas alheias.

A mesma indifferen?a, a mesma, se n?o absoluta impassibilidade, estabilidade de raz?o pelo menos, com que, uns após outros, esvasiava copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de rhum, de cognac, de kummel, de gingerbeer, e até de absintho, liba??es, que a qualquer pessoa menos inglezmente organisada amea?ariam, em pouco tempo, com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa mesma indifferen?a e impassibilidade oppunha ao effeito, n?o menos inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos.

A eloquencia cortez? dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affecta??o, o nacional God save the queen, ao qual marcava compasso com a cabe?a ou com a bengala.

N?o se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone terreno ingrato para tal genero de cultura; n?o vingavam lá.

A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares convencionaes, muito á moda nas salas e que variam com as épocas, hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado.

A delicadeza que elle praticava n?o era de facto essa. Fazia-a consistir toda, a sua, nos sentimentos e nas ac??es inspiradas pelos eternos e invariaveis dictames da consciencia e da raz?o, superiores portanto ás fluctua??es caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural.

Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, ás vezes rude, mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa personifica??o do typico John Bull.

Alheio e pouco propenso á metaphysica, n?o o namoravam as transcendentes quest?es de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias da época; todo votado á contempla??o da face positiva da vida, se n?o se arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas medita??es sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o pensamento.

Possuia em compensa??o Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de espirito, que, segundo Sterne, se diz obstina??o nas más applica??es e perseveran?a nas boas.

Outra apreciavel disposi??o de animo caracterisava ainda o nosso commerciante:-era a de n?o ser sujeito a longas mortifica??es, ou pelo menos-e com mais rigor talvez-a de n?o as manifestar nos gestos ou por quaesquer signaes exteriores.

Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de estoicismo lhe encrustára o cora??o, libertando-o da influencia dos estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de t?o numerosas sympathias.

N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christ?os grangearam o titulo lutuoso e elegiaco de Valle de lagrimas, n?o sabia successo possivel, catastrophe realisavel, com for?a de alterar por muito tempo a costumada express?o physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer o colorido vigoroso, ou,-como julgo se lhe chama em linguagem technica,-o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de satisfa??o, despertador das mais justificadas invejas.

Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias ás nossas praias, é este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa.

Cada uma d'essas figuras britannicas vale por um protesto mudo, mas eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escriptores meridionaes.

Teimam de facto estes em que s?o indispensaveis os vividos raios do nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento peninsular, onde n?o tem, como a de Londres-a romper a custo um plumbeo céo-para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o reflexo d'ellas; imaginam fatalmente perseguidos de spleen, irremediavelmente lugubres e soturnos, como se a cada momento saíssem das galerias subterraneas de uma mina de pit-coul, os nossos alliados inglezes.

Como se enganam ou como pretendem enganar-nos!

é esta uma illus?o ou má fé, contra a qual ha muito reclama debalde a indelevel e accentuada express?o de beatitude, que transluz no rosto illuminado dos homens de além da Mancha, os quaes parece caminharem entre nós, envolvidos em densa atmosphera de perenne contentamento, satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente, satisfeitos de si.

Nem é para admirar que o romancista inglez James ousasse abrir o primeiro capitulo de um romance seu com a seguinte exclama??o:

?Merry England! Oh, merry England!? Alegre Inglaterra! oh! alegre Inglaterra!

E por que se n?o ha de chamar alegre á Inglaterra? Como se generalisou a infundada cren?a de que o inglez é por for?a melancolico?

é uma d'estas abus?es, para lhe n?o dar nome peior, contra as quaes ninguem se precavê com sufficiente criterio philosophico.

Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colonia ingleza, á qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e verá que nem só nos tempos em que a civilisa??o e a industria n?o tinham ainda arroteado as densas florestas britannicas, seria cabido o jovial estribilho da can??o que o supracitado romancista p?z na b?ca do legendario Robin Hood, seu heroe:-?Ho, merry England, merry England, ho?; póde ainda cantar, através dos nevoeiros e do fumo das fabricas, o inglez moderno, fiel depositario d'aquelle folgado caracter nacional.

Eu tenho ha muito como ponto de fé, que ainda que o spleen seja doen?a indigena da Gran-Bretanha, n?o domina t?o fatalmente sob o céo Londrino, como muitos parece imaginarem.

Dryden affirma que as comedias inglezas possuem sobre as de todo o mundo incontestavel superioridade.

E querem saber a que attribuem alguns esta superioridade da comedia ingleza? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrario, tantos accusam de fomentador de hypocondrias e suicidios.

O clima inconstante da Inglaterra, explicam aquelles, é proprio para favorecer o desenvolvimento d'esses caracteres excepcionaes e extravagantes, precioso e inesgotavel pábulo do espirito comico da Gran-Bretanha.-A jovialidade dá-se muito bem n'aquelle poderoso imperio.

Tom Jones e o proprio Falstaff s?o typos mais inglezes talvez do que uns sombrios caracteres, que Byron p?z á moda.

Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do Times, o inimigo declarado da Fran?a, apesar de certa seriedade de conven??o, era metal inglez, livre de toda a liga.

Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmatica ingleza o constrangia, lá lhe estava o gesto a denunciar, que era artificial tudo aquillo.

Emquanto ao physico..., emquanto ao physico era Mr. Whitestone caracterisadamente inglez.

N?o supprir?o estas palavras mais circumstanciada descrip??o?

N?o ha entre nós quem, ao ver por ahi, nos maiores e mais mesclados ajuntamentos, certa ordem de typos masculinos, hesite em attribuir-lhes por patria a velha Albyon, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a terra dos meetings, dos puddings e de muitas cousas mais?

Pois bem, todos esses caracteres, todos esses signaes distinctivos dos mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de Mr. Richard Whitestone, como certid?o de naturalidade, limpa da menor vicia??o.

Era aquella conhecida tez, quasi c?r de tijolo; aquelles olhos azues, á flor do rosto, a resplandecerem como saphiras; aquelles cabellos e suissas ruivas, que, sem grande violencia de imagem, poder-se-hia talvez comparar ás lavaredas do fogo, que lhe inflammava constantemente as faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de perolas, e alvos, como os caramélos das montanhas; a postura erecta; os movimentos promptos, e no rosto o tal continuado ar de satisfa??o.

Do vestuario podia dizer-se quasi o mesmo.-N?o falseava o typo. Era ainda inglez de lei.

Um pequeno fraque de panno azul, fabricado nas melhores officinas de Yorkshire ou do West of England; as cal?as, curtas e estreitas, dentro das quaes as descarnadas tibias podiam fazer o effeito do embolo em corpo de pneumatica; as botas esguias e compridas, onde a elegancia era sacrificada á solidez; gravata e collete alvissimos, como os de um lord do parlamento, e, de inverno, vestidura completa de gutta-percha que, n'estas épocas utilitarias e prosaicas, veio substituir as impenetraveis armaduras da idade média-taes eram as pe?as principaes do guarda-roupa do honrado negociante. Coroava finalmente tudo isto o chapéo, aquelle chapéo de fórma invariavel, castello roqueiro inaccessivel ás ondas destruidoras da moda; baluarte inabalavel no meio dos ventos encontrados dos humanos caprichos; o chapéo, cujo molde classico dá a um grupo de inglezes um aspecto, que é só d'elles; o chapéo, express?o symbolica da indole industrial e fabril da famosa ilha, pois desperta lembran?as das chaminés, que ouri?am o panorama das suas mais manufactureiras cidades.

Respirando, havia mais de vinte annos, a atmosphera perfumada do nosso clima meridional, e bebendo, em todo este tempo, da propria fonte o predilecto das mesas britannicas, o genuino Portwine-esse nectar, cujo aroma, ainda mais que os da nossa atmosphera, é grato ás pituitarias inglezas, Mr. Richard Whitestone n?o conseguira, ou melhor, estas influencias, com todos os outros feiticeiros attractivos da nossa terra, ainda n?o haviam conseguido de Mr. Richard Whitestone dois importantes resultados:-a adop??o dos habitos de vida peninsular, contra os quaes antes reagia sempre com a inteira inflexibilidade de suas fibras britannicas, e o respeito á grammatica portugueza, que, em todas as quatro partes, maltratava com uma irreverencia, com um desplante de bradar aos céos e de desafiar os rigores da férula mais indulgente.

N?o desmentia Mr. Richard a asser??o do auctor das Lendas e Narrativas, quando affirma que sempre que um inglez, em casos desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro Kimbri.

De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na sepultura sempre que Mr. Whitestone fallava, porque as regras mais triviaes de regencia e de concordancia eram por elle atropelladas com uma frieza de animo, com uma fleugma, com uma impassibilidade, somente comparaveis ás de um membro do Jockey-Club, ao passar com o cavallo por cima do corpo de algum transeunte inoffensivo ou competidor derrubado na arena.

N?o era mais feliz a prosodia, a alatinada prosodia d'este recanto peninsular.

As combina??es grammaticaes de Mr. Richard, ao fallar a nossa lingua, saíam marcadas com um verdadeiro cunho britannico. Venus, a propria Venus, perderia aquellas illus?es, que nos refere o cantor dos Lusiadas, se porventura ouvisse o portuguez que elle pronunciava.

Transparecia de alguma sorte nas ora??es do seu discurso o credito liberal de um verdadeiro cidad?o de Londres. O espirito conciliador e ordeiro, o constitucionalismo arreigado n'aquelle animo inglez, e adhes?o aos principios interventores adoptados no seu paiz, parecia haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da syntaxe portugueza, levando Mr. Richard, n'um excesso de tendencia harmonisadora, a tentar n'ella concordancias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e insuperavel repugnancia de generos e de numeros; e a modificar a constitui??o grammatical de um paiz alliado, como a Inglaterra gosta de modificar a sua constitui??o politica.

O effeito reunido d'aquella prosodia e syntaxe era ás vezes de uma resultante comica que n?o actuava impunemente sobre os ouvidos, aliás n?o muito pechosos, dos collegas commerciaes, em cujos labios sorrisos de malicia mal disfar?ada vinham por instantes afugentar a sisudez de profiss?o.

Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era completamente indifferente ao que percebia e suspeitava.

Se o contradissessem na pronuncia de uma palavra ingleza, embora das mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circumstantes, na occasi?o em que elle estivesse fallando a patria lingua, ent?o sim, ent?o era possivel que chegasse a exaltar-se a ponto de quasi amea?ar o imprudente com uma irreprehensivel applica??o da nobre sciencia dos boxers, quasi divina arte do s?co, que, desde Jack Brougton, tem sido cultivada em Londres ?com fanatismo e ensinada com talento?-textuaes palavras de um escriptor ex-professo.

Mas os sorrisos, que lhe valiam as atrocidades praticadas por elle nas grammaticas estrangeiras, esses, soffria-os com impassivel indifferen?a e n?o sei até se com certos vislumbres de orgulho e regosijo.

Chapter 2 MAIS DUAS APRESENTA ES, E ACABA O PROLOGO

O honrado chefe da casa Whitestone tinha dois filhos: uma gentil lady, mimosa planta do Norte transplantada, aos dois annos, para o nosso clima, e um rapaz, mais novo do que ella, e nascido já em Portugal.

Eram Jenny e Carlos.

Jenny era uma d'estas jovens inglezas, cuja suavidade e correc??o de contornos, alvura e delicadeza de tez e puro dourado dos cabellos, lhes d?o uma apparencia t?o subtil e vaporosa, e, quasi direi, t?o celestial, que se espera a cada passo vel-as desprenderem-se da terra e dissiparem-se, como instantanea vis?o luminosa, diante dos olhos, que por momentos offuscaram.

Delicadas, como o arminho, que chega quasi a subtrahir-se á sensa??o do tacto, de delicado que é, estas poeticas organisa??es septentrionaes possuem tanto de vago, tanto de immaterial, que, junto d'ellas, apodera-se de nós, entes profanos e grosseiros, certo invencivel constrangimento, como se receiassemos com um s?pro desvanecel-as, crestal-as com o olhar, maltratal-as com o gesto.

Os desejos n?o v?am até alli; rodeia-as uma atmosphera de virginal castidade, no seio da qual esses filhos alados da imagina??o abatem-se asphyxiados.

Bellezas, como ella, foram por certo as que inspiraram as imagens de virgens dos cantos de Ossian ao espirito de quem quer que foi seu auctor, d'aquellas virgens, que o bardo comparava á neve da planicie e cujos cabellos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do occidente.

Se no azul meigo dos olhos de Jenny se n?o concentrava o fogo das paix?es de um cora??o ardido, nem se descobria a scintilla??o denunciadora de phantasias exaltadas, havia n'elle n?o sei que mysteriosa e suave luz, como se de reflexo levado para alli do mais intimo da alma; os labios, delgados e levemente comprimidos, n?o se agitavam sob o imperio de tumultuosos sentimentos, mas fixavam-se em continuo sorriso, expressivo de affabilidade e de brandura, promettedor de placidas, mas duradouras felicidades; o seio, sempre modestamente afogado no vestido liso e singelo, embora n?o tivesse o arfar voluptuoso, que arrebata as imagina??es, animava-se da ligeira ondula??o, denunciadora do sereno sentir da mulher, a quem Deus confia os destinos da familia; d'esses sympathicos vultos de m?e, de irm? e de esposa, por todos encontrados ou sonhados ao menos uma vez na vida, astros inaccessiveis ás violentas tempestades, que tantas vezes amea?am o horizonte domestico, anjos pacificadores entre os seus, que com todos repartem carinhos e afagos, que com lagrimas e sorrisos a todos consolam e recompensam; se, vendo Jenny, podia ainda lembrar o amor, era o amor da mulher sempre casta que, ao estender a fronte candida aos beijos affectuosos do esposo, baixa ainda os olhos, córando com todo o pejo de uma primeira entrevista, e fita-os no ber?o do filho adormecido sob a vigilancia dos seus cuidados.

A estatura esbelta da joven ingleza, o andar, sem os requebros languidos das nossas elegantes, a fronte pura e de gracioso modelo, coroada por um diadema de formosos e desadornados cabellos louros, o olhar entre affavel e melancolico, a voz meigamente sonora e cadenciada, tudo emfim, de modo inexplicavel como variadas phrases da mysteriosa linguagem da belleza, denunciava os encantos, as do?uras d'aquelle caracter feminino, t?o alheio a fraquezas mundanas, que mais se dissera angelico.

Sentia-se, vendo-a, que para ella nunca o amor seria um passatempo, um capricho apenas, gosado entre risos, terminado sem lagrimas. Talvez nunca t?o violenta paix?o a chegasse a dominar até; porém, se nascesse, seria como essas plantas, que mal se desentranham em galas de folhagem e de flores, mas que se prendem por tenazes e penetrantes raizes ao solo d'onde brotaram.

Em Jenny, a paix?o de amante, a ter de lhe inquietar o cora??o, difficilmente se revelaria, a n?o ser adivinhada; mas depois, se o fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de m?e, ou lentamente a consumiria; ser-lhe-hia fatal, se por n?o comprehendida, n?o chegasse a realisar essa santificada evolu??o.

Almas assim est?o talhadas ou para a felicidade celeste ou para a maxima tortura; que eu n?o sei de outra maior, do que a d'aquelles que concentram em si o soffrimento e suffocam todas as manifesta??es de dor, quando ás vezes a revela??o lhes poderá dar lenitivo.

Mas o céo de Jenny era ainda limpido, e amena a corrente da vida.

Um rapido e imperceptivel movimento de labios, um desvanecido contrahir de fronte e-a n?o ser illus?o isto,-um como escurecer do puro azul d'aquelles olhos amoraveis, eram os unicos vestigios das raras luctas travadas entre a sua raz?o poderosa, bem que de mulher, e os impulsos de diversos affectos, lucta sempre decidida pela victoria da primeira.

Mas eram raras essas nuvens, t?o raras como diaphanas, t?o diaphanas como passageiras.

Estava-lhe quasi sempre no seio aquella mesma placidez que se lhe lia no semblante.

E nem porisso se julgue frio e insensivel o caracter d'ella; animavam-o tambem os raios vivificadores dos sentimentos, que nos prendem á terra; mas, com o influxo da vida, n?o transmittiam esses raios a lavareda que destroe.

Será menos energico e aben?oado o calor do sol, porque n?o inflamma os bosques e as cidades, como o incendio que a m?o do homem ateia? Mas um cobre de verdura os prados e de flores os ramos, e alumia o hemispherio inteiro; o outro calcina as plantas que abra?a, e a pouca distancia estende a sua claridade fatal; qual será mais poderoso e effectivo?

Em Jenny os affectos do cora??o pareciam-se com as chammas dos lampadarios sagrados, que, em honra de Deus, illuminam o interior dos templos. O vel-as luzir eleva o pensamento a meditar cousas do céo.

Ha entes assim, que tudo santificam; paix?es, que n'uns acalentam vicios, s?o n'elles efficazes impulsos para sublimes virtudes.

O calix, que, em m?os profanas, preside aos banquetes e ás orgias, consagrado no altar, transforma-se em symbolo mysterioso da mais augusta religi?o.

Deus desce tambem a muitas almas, para tornar em holocausto digno de si as paix?es originarias d'ellas.

Carlos era, sob muitos respeitos, differente da irm?.

Inglez pelo sangue, meridional pelo clima, onde vira, a primeira vez, a luz do dia, onde passára a infancia, onde sentira as primeiras commo??es da adolescencia, o despertar da vida do cora??o, tinha um caracter que se ressentia d'esta, de alguma sorte, dupla nacionalidade.

Da peninsula recebera o enthusiasmo, a viveza de imagina??o, a impetuosidade de sentimentos, que raras vezes reprimia; vinham-lhe da Gran-Bretanha a for?a de vontade, a pertinacia, o estoicismo, com que, em certas occasi?es, surprendia a quantos julgavam conhecel-o; vinham-lhe até, da mesma fonte, algumas excentricidades de manifesta heran?a paterna-efficaz inocula??o de britannismo, que n?o lhe consentiria mentir á origem, se alguma vez o tentasse.

Ainda que algum tanto estouvado, n?o deixava porisso Carlos de possuir um generoso e compassivo cora??o, alma sensivel a todos os infortunios, olhos a que a piedade n?o permittia serem estranhas as lagrimas.

Se, por ac??es mal refreadas, por palavras irreflectidas, as fazia tambem verter, era elle o primeiro a accusar-se, a compadecer-se, a procurar enxugal-as por toda a qualidade de sacrificios.

Capaz de heroica abnega??o em bem dos outros, se frequentemente se esquecia de beneficios recebidos, como se poderia censural-o, quando, habituado a realisal-os maiores, n?o exigia tambem dos favorecidos a gratid?o em recompensa, parecendo até desconhecer os direitos que tinha a ella?

Corajoso até á imprudencia, liberal até á prodigalidade, sincero até á rudeza desattenciosa, os seus maiores defeitos n?o passavam de nobres qualidades, levadas ao excesso.

O que elle n?o sabia, ou n?o podia, era conserval-as no ordeiro meio termo, t?o respeitado pela sociedade.

O sangue dos vinte annos fazia doudejar aquella cabe?a; os instinctos generosos faziam o tormento d'aquelle cora??o, porque se uma, em momentos de exalta??o, conseguia romper com as generosas repugnancias do outro, a reac??o era infallivel, e este, mais tarde, obrigava-a a arrepender-se, descobrindo, e exagerando até as nem sempre remediaveis consequencias dos seus desvarios e caprichos.

Carlos era d'estes homens, que encerram e alimentam no proprio seio o seu principal inimigo.

Entre Carlos Whitestone e o pae existia um cordial e puro affecto, ainda que disfar?ado, em ambos elles, sob apparencias de frieza e de reserva da mais genuina indole britannica. Raras vezes se procuravam os dois, e sempre que, nas occasi?es ordinarias, se viam juntos, poucas palavras trocavam. Quando mais solta se desenvolvia a loquacidade de Mr. Richard na presen?a do filho, era ao saborear os ultimos calices, depois do jantar de familia; mas, ainda ent?o, a conversa quasi se reduzia a uma especie de extenso e variado monologo, recitado por aquelle e interrompido por este apenas com algumas phrases de assentimento, em que predominavam os Yess, ao mesmo tempo que os labios se armavam de um sorriso de complacencia-nem sempre segura fian?a de atten??o.

Carlos respeitava o pae, amava-o até com extremos capazes de lhe inspirarem os maiores sacrificios, e comtudo evitava-o, como se, junto d'elle, se n?o achasse á vontade.

E n?o achava, de facto.

Possuia Carlos um d'estes genios, que n?o supportam constrangimentos; ou h?o de romper com elles ou evital-os.

Calava-se, onde n?o podia abandonar-se aos caprichos de uma conversa futil; entristecia, onde lhe fossem estranhadas as expans?es de uma alegria infundada, de um d'esses irresistiveis jubilos de crean?a, que, como tal, em puerilidades se revela. Dessem-lhe a liberdade de poder ser estouvado, vel-o-iam talvez sisudo; mas, for?ado a isto, tornava-se sombrio e de mau humor.

Ora a austeridade de costumes de Mr. Richard Whitestone, a rigidez dos seus principios de decoro e de respeito ás praxes da etiqueta ingleza, exerciam sobre Carlos uma influencia, contra a qual n?o tinha coragem de revoltar-se; e porisso fugia-lhe.

No pae via quasi sempre um juiz severo e inflexivel, prompto a julgal-o e a condemnal-o talvez; e Carlos, que habitualmente trazia na consciencia algum peccado de juventude a remordel-a, e que n?o confiava no seu poder de dissimular, furtava-se, quanto podia, ás investiga??es do jury paternal, sempre antevistas por elle e bem longe ás vezes do intento de Mr. Richard Whitestone.

Este, de seu lado, n?o amava menos extremosamente o filho; para as verduras da mocidade era indulgente, como, em tempos passados, desejara e precisara que fossem tambem comsigo; Deus sabe que esfor?os lhe custavam até estes sisudos ares de conven??o, t?o oppostos ao fundo de desafogada jovialidade do seu caracter, e que n?o conseguiam dissipar o sorriso, que tinha como que stereotypado nos labios.

Julgava elle, porém, do dever de pae e natural mentor, que era de Carlos, conservar sempre certo ar de hombridade e de quasi rudeza para com o estouvado, que, n?o raro, lhe estava dando motivos para mais severas penas.

á sua precis?o britannica repugnavam longos discursos de moral e prolixas catecheses. Laconico, n'estas cousas, por systema e por espirito nacional, nunca usava de parabolas para chamar ao aprisco a ovelha tresmalhada.

Um unico ?Ho!? mas pronunciado com aquella express?o, que só a larynge britannica lhe sabe dar, um ho aspirado, guttural, eloquente, inglez emfim, combinado a um abanar de cabe?a rapido e desapprovador, e a dois ou tres particulares estalidos de lingua, eram os signaes de impaciencia e de desagrado que Mr. Richard manifestava, e dos quaes mais se temia Carlos, do que se temeria de qualquer menos concisa formula, sob que podesse revelar-se a censura paternal.

Dia, em que aquelle fatal ?oh!? lhe tivesse soado aos ouvidos, já n?o se confiava despreoccupado a inteiro prazer; passava-lhe uma nuvem no firmamento azul da juventude, limpido como o de poucas.

Promettia ent?o emendar-se; solemnemente a si proprio o promettia, mas cêdo a promessa era esquecida até que nova e similhante occasi?o a renovava.

Outro era o sentir de Carlos para com a irm?.

Jenny era o seu anjo bom, e o anjo bom da familia toda, a meiga, a benigna fada, cujo olhar serenava as tempestades, e desanuviava o sol.

Com sorrisos decidia, para o bem, os combates de paix?es. Debil e delicada era aquella m?o, mas quantas vezes Carlos a encontrára interposta entre si e o precipicio, para lhe servir de amparo! Delgado e vacillante imaginar-se-hía aquelle bra?o, mas firme o sentia ella sempre ao ter de sustentar o irm?o na quéda imminente, ou de eleval-o até si. Branda e suave lhe saía dos labios a voz, mas só ella se fazia escutar dos ouvidos, quando o tumulo das paix?es os ensurdecia.

N?o havia segredo entre os dois. De pequeno se costumára Carlos a vir contar a Jenny quasi todas as ac??es da sua vida, boas ou más que ellas fossem.

Referia-lhe, um por um, e com sincera ingenuidade, os pensamentos dominantes do dia, e mais do que uma vez conseguira vencer-se, quasi ao ceder á tenta??o de actos menos generosos, só para n?o ter de os confessar depois a este affectuoso juiz, e merecer-lhe uma amigavel reprehens?o entre sorrisos ou o mal reprimido movimento de desgosto d'aquelles bonitos labios, o que devéras o magoava.

Nem menos o affligiriam os remorsos, se procurasse subtrahir-se á pena, n?o denunciando o delicto. A consciencia costumava censurar-lhe tambem estas faltas, nas raras vezes que as commettia.

Jenny, igualmente attendida pelo irm?o e pelo pae, servia-se d'esta duplicada influencia para harmonisar toda a familia, nos momentos de receiada discordia.

Com uma palavra extinguia qualquer irrita??o, que as extravagancias de Carlos podessem ter produzido no animo de Mr. Richard; com outra dissipava no irm?o as menores tendencias á insurrei??o, t?o naturaes á idade e temperamento d'elle contra alguma medida repressiva, posta, de quando em quando, em pratica pelo pae, como em ultimo recurso.

Frequentes vezes o pequeno erario de Jenny abrira-se a solver dividas, imprudentemente contrahidas por Carlos, e a remediar todas as más consequencias das suas leviandades. Estava sempre prompta a advogar-lhe os pleitos, a minorar-lhe as culpas.

Mas tambem o que ella n?o conseguisse de Carlos, ninguem mais na terra o conseguiria.

Deixar adivinhar desejos, era formular pedidos; uma supplica, timidamente expressa, valia por uma ordem imperiosa. E comtudo Jenny nunca procurava tornar apparente este predominio; antes se esfor?ava por o dissimular.

Conhecendo, mais por muito reflectir do que por experiencia, que n?o a tinha, os mil mysterios e caprichos do cora??o humano, toda a sua admiravel diplomacia feminina estava em saber fazer-se obedecida, brincando; em aceitar e agradecer, como concess?es espontaneas, o que lhe dizia a consciencia ser o resultado de suas insinua??es e pedidos.

Desenvolvia-se de ordinario uma perfeita tactica, e engenhosamente tecida da parte de Jenny, em quasi todas estas conferencias intimas entre os dois irm?os.

Virtuosa e sympathica hypocrisia, com que Jenny, para dominar, se humilhava!

Quando os anjos nos imitam na dissimula??o, ainda ent?o n?o perdem a sua candura. S?o sempre anjos. Ro?am com as azas pelo l?do do mundo, mas levantam-se immaculados.

Quem ensinára a Jenny, cuja vida se deslisára quasi toda no tracto intimo de sua pouca numerosa familia, esta sciencia do cora??o, que dizem só adquirir-se no muito lidar com os homens e com o mundo? Já o indicamos:-a sua indole pensativa, os seus habitos de reflex?o. Mais se aprende na leitura meditada de um só livro, do que no folhear levianamente milhares de volumes. Assim tambem no estudo dos caracteres. Observadores ha, que, após annos e annos gastos a viver com os homens, morrem em ingenua ignorancia a respeito d'elles; outros que, na solid?o do gabinete, perscrutam no proprio cora??o os segredos dos mais, decifram-os, porque, descobertas ahi as leis principaes e communs a toda a natureza humana, facil é adivinhar depois as secundarias, d'onde procedem as differen?as. Surprende devéras quando se vê saír d'esses cantos obscuros um homem a todos desconhecido, e que a todos parece conhecer. Como e onde aprendeu este homem tudo isto? Pela observa??o desapaixonada em si, ou, quando muito, nos seus mais proximos; depois a intelligencia, vigorada por este ensino, abalan?ou-se, guiada por vestigios na apparencia insignificantes, a induc??es fertilissimas.

Carlos n?o sabia resistir muito tempo á irm?. Sem suspeitar que cedia, recuava passo a passo. Aproximava-se do fim, onde a habil contendora o queria levar, e, ao attingil-o, ficava surprendido de haver realisado, com t?o pouco custo, suppostos sacrificios, cuja ideia só, momentos antes, o tinha feito desanimar de emprehendel-os.

Por n?o differentes processos, cada dia se vergava, por assim dizer, ás m?os de uma crean?a o caracter geralmente considerado inflexivel de Mr. Richard Whitestone.

E com tal habilidade aprendera Jenny a occultar estas pequenas, mas importantes victorias, que a todo o instante obtinha sobre os seus, que mal vinha á ideia do bom gentleman, quando, muito convencido do que dizia, se jactava de ser firme nas suas resolu??es, e pouco propenso a revogar projectos formados, que, n'aquelle mesmo momento talvez, lhe estavam dando seus actos solemne desmentido.

Taes eram os principaes membros da familia Whitestone, com quem travaremos mais intimo conhecimento nos varios capitulos d'esta singelissima historia, em cujo decurso, desde já o declaramos, para n?o alimentar illusorias esperan?as, a ac??o prosegue desimpedida de complicadas peripecias.

Chapter 3 NA AGUIA D'OURO

Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855.

Havia menos estrellas no céo, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau humor; mas, embora; o folgaz?o entrudo ria-se de taes severidades e dan?ava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que se levantavam do sul. Gra?as á cheia do Douro, a cidade baixa podia bem prestar-se n'aquella época a uma parodia do carnaval veneziano.

á porta dos theatros apinhava-se a multid?o; os altos brados dos vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas lojas circumvizinhas aos principaes sal?es de baile, pendiam vestuarios correspondentes a todas as épocas e a todas as na??es, e alguns, aos quaes n?o era possivel assignar época, na??o, classe ou condi??o social conhecida.

Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposi??es de mascaras á venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi impraticavel. Era uma fascina??o analoga á que produz um conto de Hoffmann em imagina??es excitaveis, e exercida n'elles por tantas mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de express?o e de gesto lembrava um enxame de cabe?as mephistophelicas, surgindo á luz para se rirem das loucuras da humanidade.

Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si, desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjei??o pouco harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades no andamento da sua grave e benefica tarefa. Só ent?o, e ainda a custo, se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de novo.

Se é licito comparar as grandes ás pequenas cousas, veremos n'estes a imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas.

A anima??o era geral na cidade.

Todos corriam com ancia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.

Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anci? das nossas casas de pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos, particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para lá os olhares de quem passava.

Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas, o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das vozerias tumultuosas, e dos hurrahs ensurdecedores rompiam, como uma torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por muito tempo essa torrente, á maneira do que succede com a das aguas dos rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda, através do grande rumor, que enchia as ruas.

Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham com promessas os impacientes convivas da sala.

No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade estomacal convidára a ir ceiar a humilde costelleta, principal trophéo culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se sorrateiro e cabisbaixo.

Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada de n?o sei que magestade, condigna do seu emblema.

A luz escassa de um lampe?o da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que cor?a a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais brilhantes do que os do costume.

Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem já dado que entender a ministerios e a emprezarios lyricos, n?o podia haver duvida.

Cá em baixo, os serventes do café fallavam a meia voz e mostravam no olhar certo ar de preoccupa??o, certa importancia no gesto, como se effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima.

O café contrastava porém com a anima??o que se percebia nas salas da hospedaria.

Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes ainda ent?o existiam, e amea?avam perpetuar-se, reproduc??es, em lona, dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz amortecida dos candieiros n?o dissipava as sombras dos recantos.

O marcador do bilhar cabeceava com somno.

Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli até os homens politicos. N'aquella noite as discuss?es sobre a guerra da Crimeia, ent?o na ordem do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros.

N?o é pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu pretendo demorar o leitor.

Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e corredores, penetremos na sala d'onde provém o ruido de festa que já noticiamos.

O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades architectonicas n?o requerem tambem as fadigas da descrip??o.

é um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir.

Chegamos, porém, tarde.

O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante.

Ha já calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas as posi??es, algumas indescriptiveis.

A vozeria é atordoadora. A confus?o póde dar uma ideia de Babel.

Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transi??es fazem-se com uma rapidez, que surprende e embara?a os proprios interlocutores; atten??o, que se desvie um segundo, é atten??o perdida; n?o encontra depois já o dialogo onde o deixou; ás vezes a conversa generalisa-se; momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos; mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasi?es, todas as b?cas fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por instantes fazer-se escutar de todos, até que um áparte, um incidente, um gesto, restabelece a independencia primitiva. D?o-se tambem verdadeiros encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a express?o do pensamento.

Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto, discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares da época; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com t?o agradavel prática, o dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas e ova??es; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria philosophia allem? fornece alimento á anima??o dos discursos; e tudo isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclama??es em todas as linguas.

Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos reunidos alli.

Ha-os das mais diversas condi??es; desde o joven padre, que p?e a tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfar?ar, quanto for possivel, os vestigios da tonsura, até o official do exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para quem a mesma ca?a é occupa??o barbara e afflictiva da sensibilidade; ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda imberbe e embriagado com as primeiras commo??es da vida de adolescente, até o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de lhe ir contando os annos, deixa passar a gera??o, contemporanea sua, e insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas circumstancias monetarias, desde o capitalista, que vê correr descuidado a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confian?a no inesgotavel manancial que a alimenta até á classe dos encostados, verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a imagina??o a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora á custa de humilia??es n'aquella atmosphera, fóra da qual já n?o sabem respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputa??o nas lettras, até o analphabeto, cujas sandices s?o saudadas com gargalhadas que ninguem procura reprimir na presen?a d'elle proprio.

Finalmente, esta reuni?o de elementos, debaixo de todos os pontos de vista t?o heterogeneos, é uma por??o da sociedade, que pretenciosamente se decora com o titulo de elegante e para pertencer á qual é difficil fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria elegancia-na verdadeira accep??o do termo-é dote generico dos seus membros.

O motivo do jantar... O jantar n?o tinha motivo e era esta outra circumstancia que o caracterisava. Um jantar póde muito bem ser motivo de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em linguagem philosophica, que tem em si a ?raz?o sufficiente da sua existencia?.

Na companhia encontraremos alguem já conhecido nosso.

E como, até agora, só tenho apresentado ao leitor tres pessoas, n?o será prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres será.

Effectivamente é Carlos Whitestone um dos convivas e n?o dos mais sisudos.

Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes conseguira encaminhar a um fito unico todas as atten??es e modificar a assembleia a ponto de se lhe poder referir o conticuere omnes da Eneida;-verdade é que n?o t?o completamente o fizera como o heroe troyano, pois nem tinha destrui??o de Ilion a descrever, nem a paciencia dos tyrios a escutal-o.

Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e escandalosos, de que sempre e em toda a parte é t?o s?frego o paladar social.

Por isso o escutavam todos com prazer.

Sinto que n?o chegassemos a tempo de ouvir o principio da narra??o, que elle levava em meio.

-O nosso homem-dizia Carlos, accendendo um charuto no de um jornalista; seu vizinho-apesar do aviso que recebera, resolveu na melhor das boas fés...

-Ent?o é a boa fé dos maridos-commentou a meia voz um padre, que, atrazado nas opera??es gastronomicas, investia com denodo contra um tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:-N?o sei de outra, que a exceda.

-Regula por essa a dos amantes ingenuos-acudiu Carlos ao commentario.

-Mas é de menos consequencias-respondeu o outro.

-Silencio, padre Manoel!-bradaram algumas vozes-Vamos lá, Carlos; e depois?

-Depois-proseguiu Carlos-enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se, frisou-se...

-E tingiu-se; que n?o esque?a-acrescentou do fim da mesa uma voz.

-E tingiu-se; sim-disse Carlos-e feitos todos estes aprestos, caminhou para a entrevista.

-E como se realisava essa entrevista?-perguntou um militar.

-De uma maneira muito singular;-proseguiu Carlos-o conselheiro, todas as noites, depois de pousar na relva o chapéo, a bengala e as luvas, trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e...

-Ora! Impossivel!-exclamaram alguns, rindo.

-Palavra!

-Isso é contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo...-principiou a dizer um estudante da Universidade.

-Pelo contrario;-atalhou outro-é exactamente o bojo que o faz subir.

Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos...

A quéda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de physica...

-Divertida...-annotou uma voz.

-Como exemplificando as leis da quéda dos graves... um t?o grave personagem-concluiu o primeiro.

Estes sujeitos guindavam o calembourg ao supremo grau da escala do espirito.

-Ent?o? deixem fallar Carlos; e depois?-disseram alguns curiosos.

Carlos continuou:

-N'aquella noite, porém, estava reservada ao conselheiro a mais triste surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro.

-Com o Victor?

-Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocês o soberbo dialogo, que se seguiu ao encontro.

-Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes!

-O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe:

Tytire, tu patul? recubans sub tegmine fagi Formosam resonare doces Amaryllida silvas

-Protesto contra o recubans. A posi??o de Victor era menos commoda.

-Mutatis mutandis, já se sabe.

-ó padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posi??o em que estava o Victor.

-N?o interrogues o padre. N?o vês que elle está, como os antigos agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade do acto.

-Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias?

-As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro...

N'este ponto, a narra??o de Carlos foi interrompida por o criado da hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.

-Com a sua permiss?o, meus senhores,-disse Carlos, preparando-se para abril-a.

-Bravo!-exclamou o jornalista-temos carta de algum Ecco impaciente.

-E un foglio a me lasció-cantarolou um dilettante, voltando as costas da cadeira para a mesa.

-é a proposta de capitula??o de alguma Troya sitiada-disse o militar.

-Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.

-Antevejo ent?o uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos escaparemos.

Carlos sorria, ao abrir a carta.

-ó Carlos, olha que s?o perigosos para as digest?es os sobresaltos de cora??o-notou o estudante de medicina.

-Socega; é um excitante a que já estou habituado-respondeu Carlos.

De repente tornou-se serio.

-Má nova!-disseram alguns.

-O caso complica-se.

-As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver?

-N?o é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia, e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.

Carlos n?o os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa.

Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a resposta, diziam:

-Meu anjo, se no céo...

-V?o nas azas do amor...

-Qual outro Leandro, eu, naufrago...

-Minha Helo?sa; se o infortunio de Abeillard...

-Julieta, quando o rouxinol...

Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao criado.

Esfor?ava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esfor?o era visivel, circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.

-Que é isso?-disse o militar, que lhe ficava defronte-respiraste a peste n'essa carta?

-O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de um conde de Luna?-disse o dilettante.

-Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de despejo aos...

-Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma avultada conta de enfeites.

-Um dominó leva a sua ingratid?o até...

-Já v?o numerosas as hypotheses-disse Carlos, enchendo um calix de vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio da noite; depois acrescentou:-Este bilhete era para me recordar...

-Ai! recorda??es!...

Te souviens tu, de même, De nos transports brulants...

-Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos-concluiu Carlos.

-Devéras!

-é o que eu te digo.

Quan tu m'as dit: ?je t'aime!? J'avais alors vingt ans.

-E estavas calado com isso.

-Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, n?o me teriam aqui.

-Ent?o? Receber-nos-hias em tua casa?

-Tambem n?o. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de familia.

-Oh! oh! sentimentalismo!

-Britannico! Pés no fender, punch na mesa, Times na m?o. E de quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjei??o, que produz na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!

-Deve ser um céo aberto!

-Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros.

-E de carv?o de pedra.

-N?o esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.

-E umas varia??es vocaes sobre motivos do God save.

Carlos sorriu, respondendo:

-Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado assim.

Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se n?o todos, sentiam a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de fazer t?o claro, e em plena ceia de carnaval, tal confiss?o. Que querem? n?o está em moda trazer o cora??o á vista. é costume tratar, como ridiculas, todas as manifesta??es de sentimento; consideram-se como pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na discri??o das quatro paredes do nosso quarto.

Carlos porém n?o sabia dissimular; com verdadeira convic??o e franca ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allus?es epigrammaticas ao que elles chamavam ?respeitabilissima tendencia para pae de familias?.

O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado devéras Carlos, era da irm? e dizia apenas:

?Charles.

é hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O pae esperava-te. Adeus.

Jenny.?

A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:

?Jenny.

Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. N?o me succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justi?a d'essa supposi??o, n?o é verdade? Agora n?o posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim companheiros t?o doudos como eu; e, quando os deixasse, n?o sei se ainda iria em estado de poder, sem profana??o, sentar-me ao teu lado, á santa e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o dia, em que veio ao mundo mais uma cabe?a leve. ámanh? te pedirei perd?o... Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de entrudo?!

Teu mau irm?o

Charles.?

A final, após algumas explica??es mais, um dos convivas levantou-se e empunhando o calix:

-Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos-bradou, em tom de brinde.

-Apoiado-responderam todos, imitando-o.

-Carlos-continuou o primeiro-bebo aos teus vinte annos! Contes pelos trezentos e sessenta e cinco dias, que se v?o seguir ao de hoje, as paix?es que fizeres nascer; e possas tu...

-N?o se admittem longos speeches; olá! Bebamos!-disse uma voz.

-é sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que sáe-acrescentou outra.

-Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais sabe.

-Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil digest?o dos teus calembourgs.

-Ent?o? Bebamos!-insistiu o c?ro.

E o brinde foi geral.

Carlos correspondeu constrangido áquella sauda??o. Parecia-lhe estar vendo Jenny a olhal-o com uma express?o de amigavel desgosto; Jenny, a unica a fazer companhia ao velho negociante, que n?o pouco devia ter sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já n?o era para o pobre rapaz dissipar completamente aquella impress?o penosa.

Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso de se ver alli; e este effeito, se n?o lhe distrahia completamente a atten??o dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discuss?es, nem o occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.

á placa da camara escura, n?o preparada na officina photographica, é comparavel o pensamento, em occasi?es assim. Lá se gravam ainda as imagens das cousas exteriores, mas, n?o as fixando a atten??o, dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.

D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observa??es feitas por Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi for?ado a dar.

Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem escutar; a qualquer d'estes assumptos n?o costumava Carlos, nas ordinarias disposi??es de espirito, recusar atten??es, nem esquivar a concorrencia propria.

O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupa??o em que o viu.

Ora uma observa??o qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.

-Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi apopletico. Coragem! é negocio de cora??o? Alguma loura e nevada miss? hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo to flirting!-d'aquelle flartar, como, com tanta raz?o, traduz Garrett, á falta de melhor vocabulo.

E elle ahi principiava:

-Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas Viagens, hein?

Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de

Xavier de Maistre. Que eu n?o participo da admira??o geral por Xavier de

Maistre; é preciso que saiba.

Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma asser??o mais arrojada, a pausa era de rigor.

Carlos, já se sabe, n?o redarguiu. N'este intervallo, p?de ouvir o conviva proximo, que dizia:

-Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis; ia d'aqui a Paris; depois...

O jornalista proseguiu:

-Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a grande distancia d'elle. A Viagem sentimental, sim. Oh! A Sentimental journey. é um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O humour morreu com Sterne.-Pausa.-A demasiada philosophia gela a inspira??o litteraria. Ahi tem Pope. é frio, é árido, é marmoreo.-Pausa.-Os poetas francezes n?o teem tanta tendencia para se deixarem philosophicar, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás vezes... Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubi?asse o Childe Harold. For?a de contrastes! Aquelle Childe Harold! aquelle Childe Harold! Que me diz você áquelle Childe Harold? é o unico poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até hoje.-Pausa.-Perd?o-lhe o Poor, paltry slaves! com que nos mimoseia. E note que eu n?o sou admirador cego do Byron.

Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.

Carlos continuava calado.

Percebeu ent?o que n'um grupo vizinho se dizia:

-Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.

-Melhor é a do Manoel Galveias.

E mais adiante:

-Perd?o, menino; mas para mim a synthese n?o é uma mera condensa??o dos factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a for?a que vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os principios evidentes; Kant...

O jornalista continuava:

-Eu n?o me regulo pela critica convencional. é o meu systema. N?o me resolvo a entoar amen á opini?o dos povos.-Pausa.-Por exemplo, tenho a sinceridade e a coragem de confessar que n?o me fascina Dante.

Grande pausa.

-Padre Manoel-dizia n'esta occasi?o, do fundo da mesa, um dos convivas, apontando para o calix, que levava aos labios-Ecce Deus qui l?tificat juventutem meam.

O padre sorriu, mas n?o disse nada. Comia.

-Porque a final de contas-proseguiu o discursador-você ha de concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a Divina Comedia, sen?o o compendio das cren?as religiosas d'aquelle tempo?

Pausa.

-O que ha a respeito da revolu??o carlista em Pamplona?-ouviu Carlos perguntar.

-Nada mais se sabe por emquanto, apenas que est?o implicados alguns sargentos, cabos e paizanos-respondia outra voz.

E continuava a disserta??o litteraria:

-O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem elle. Logo os primeiros versos:

Nel mezzo del cammin di nostra vite...

Acho porém dotes superiores em Boccacio.-Ent?o que quer? é um espirito encarnado em corpo de menor vulto, mas... você já leu o Decamaron? Deve ler. é um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As imita??es de La Fontaine s?o pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella c?rte n?o podia existir a verdadeira inspira??o. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto Luiz XIV e o seu seculo.-Pausa.-Molière salva-se, mas porque? Porque o genero comico tem uma índole especial. N?o é a inspira??o que o regula; é a analyse, é a reflex?o philosophica.

-Eu aposto-berrava um politico-que se os alliados se metterem a dar o assalto a Sebastopol, n?o fica um só vivo.

-Veremos-questionava outro.-Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.

O jornalista continuou:

-Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.

-é a Biblia, os Lusiadas e o Paulo e Virginia. Já sei. é o costume-disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, aprecia??es criticas, cotejos e cita??es, que saíam, em tom categorico, da palavrosa b?ca do vizinho.

-N?o ha tal-respondeu este, porém, tomando-lhe o bra?o e levantando-se igualmente.-Esses s?o a formula dos tres grandes sentimentos da alma-o da religi?o, da patria e do amor;-bem o sei; mas confesso-lhe, o que, por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das paix?es, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais. A crea??o de Pantagruel e Gargantua é famosa!

-Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?-exclamou, voltando-se, um dilettante, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle momento..-Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisa??o! Que sentimento!

-Ahi tornas tu com a Ponti-disse um velho rapaz, pronunciado adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal das companhias escripturadas.-és capaz de sustentar que vae bem na Norma. Se ouvissem a Rossi-Cassi...

-A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! N?o sacudas reputa??es cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.

-Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um assento de baptismo feito pelo menos em 1800.

-Nego-bradou embespinhado o velho rapaz.

-Parce sepultis-disse o padre.

-Lascia la donna in pace-trauteou outro dilettante.

Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no Ei fu! do Cinque maggio... etc., etc., etc...

Carlos foi retido agora pela m?o de um rapaz, junto do qual tinham chegado.

-Aqui está quem nos póde informar-dizia o que o segurava.-ó Carlos, dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?

-N?o-respondeu Carlos, distrahido.

-Conheces por for?a. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que comprou a quinta do Pedroso.

-E ent?o?

-Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?

Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.

-N?o tem que ver; o Viegas n?o lhe póde dar mais de nove contos.

-Triplique, e n?o lhe faz favor nenhum-disse, do alto da mesa, o padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre os mais disparatados assumptos.

-Ora ahi tens!-disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de valia provada.

O padre limpava tranquillamente os bei?os e enchia um calix de malvasia.

-Ent?o diz o padre Manoel que o Viegas...

-O Viegas tem pelo menos...-dizia de lá o padre, elevando o calix entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de completar a phrase, levou-o á b?ca e despejou-o de um trago.

Depois continuou:

-Tem pelo menos ... pelo menos...

Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:

-Sessenta e sete contos de réis.

-Ora!

Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista, que lhe ía dizendo:

-é a quest?o do dia-O dinheiro-A litteratura resente-se...

E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de

Ponsard ... etc., etc...

-Deixa-te d'isso;-dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios-a Emilia Victorina é outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do bar?o de Tavares, me encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha, uma mulher distincta, esplendida.

-Foi, foi; já n?o é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em ti appareciam os primeiros dentes.

-A idade...-dizia outro.

-Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.

-Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter a idade que tem.

-Barbaro! ó Carlos, que dizes tu?

-Digo que sim-respondeu Carlos, que nem attendera á discuss?o.

-Está esta crean?a do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina á Marianna Prazeres.

-E prefiro, repito.

-N?o sejas impio. Quem n?o acha admiravel aquella bonita cabe?a da

Marianna?

-E a m?o? Aquella m?o comprida e delgada, onde as veias se desenham em azul; a verdadeira m?o artistica, aristocratica.

-No assumpto ?m?os?, pe?o licen?a para citar a primeira...-das provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva-lembrou um individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.

-Apoiado!-entoaram muitas vozes.

-A proposito da Clementina Rialva-exclamou uma chronica viva de boatos do dia-sabem que o Chico da Lous?, sempre a tira por justi?a?

-Devéras?!

-Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.

-Terrivel catastrophe!

-Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae, tem influencia e, feitas as pazes do estylo...

-Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.

-Que influencia tem o Rialva?-perguntou, encolhendo os hombros, um mallogrado aspirante á elei??o popular.

-N?o. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino...

-E o ministerio deve-lhe servi?os.

-Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos servi?os eleitoraes do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao Roboredo.

-Como n?o arranjou? ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?

-Quem levou lá o Roboredo, foi...

-Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio, mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e que n?o obteve, abandonou a regenera??o...

-Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh que alarve!

-Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que nunca se p?de conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que até lhe fazia mal pensar na posi??o incommoda, em que haviam de viver esses pobres diabos, se existissem...

-E um dia em que elle...

Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.

Todas as atten??es e todos os olhares convergiram para alli.

Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido, poucas disposi??es para expans?o igual.

-é impagavel este homem!-dizia um dos que riam.

-Que foi? que foi?-perguntavam os que n?o faziam parte do grupo, rindo já com anticipa??o tambem.

O dos ares constrangidos respondeu:

-N?o fa?am caso; s?o doudos.

-Que foi? digam-insistiam todos na sala.

-é aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.

-Eu disse...-tentou este interromper.

-Silencio!-bradaram muitos a um tempo.

-O Claudio!-continuou um dos que mais ria-ouvindo aqui o Louren?o fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro, observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.

-Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.

A justifica??o foi suffocada por um c?ro geral de gargalhadas.

-O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a

Hollanda a uma geral inunda??o.

-Que terrivel capricho estomacal!

-Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a

Volney!

E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confus?o subia de ponto com isto.

Até que emfim uma voz dominou o tumulto.

-Reparem que s?o onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada solemne nos bailes de mascaras.

Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo o calix:

-ás nossas conquistas d'esta noite!

-Apoiado!-disseram todos, imitando-o.-ás nossas conquistas.

E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.

Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.

Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta ter?a parte do dia.

Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou ent?o o bra?o de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas aspira??es no tubo do volumoso cachimbo.

-Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho... Por isso vou confiar de ti a ultima das impress?es que eu revelei em verso... Eu gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um cora??o para ecco. Almas de sensitiva...

Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho poetico e improvisador do que fallava assim.

Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a plenos pulm?es o duetto da Lucia:

O' sole più rapido a sorger t'apresta

O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, n?o era muito para produzir ecco nos cora??es:

No centro dos circulos

De nuvens de fumo,

Um deus me presumo,

Um deus sobre o altar!

Nem d'outros thuribulos

Me apraz tanto o incenso,

Como o d'este immenso

Cachimbo exemplar!

Em divans esplendidos,

Cruzadas as pernas,

Fuma, horas eternas,

O ardente Sult?o.

Subindo-lhe ao cerebro

O magico aroma,

Esquece Mafoma,

Houris e Alcor?o.

Longe, oh! longe o opio,

Que os sonhos deleita

Da misera seita

Dos Theriakis!

Horror ao narcotico

Que vem das papoulas!

E ao que arde em ca?oulas,

No altar do Caciz!

Que a ra?a gentilica

Das zonas ardentes

Consuma as sementes

Do arabio café.

Despejem-se as chavenas

Da atroz beberagem

Da c?r do selvagem

Da adusta Guiné.

E a tal folha exotica,

Delicias da China,

Por nossa má sina

Trazida de lá,

Servida em familia,

N'um morno hydro-ínfuso?...

Anathema ao uso

Das folhas do chá!

Nem tu, ó alcoolico

Humor dos lagares,

Terás meus cantares,

Meus hymnos terás.

Embora das amphoras

Vasado nas ta?as,

Aos outros tu fa?as

A lingua loquaz.

Cerveja britannica,

De furor espuma!

De cousa nenhuma

Me podes servir.

Quando ou?o do lupulo

Gabarem proezas,

ás b?cas inglezas,

Desato-me a rir.

Nem venha da camphora

Prégar maravilhas

O das cigarrilhas

Famoso inventor.

Raspail é scismatico

E eu sou orthodoxo,

O seu paradoxo

N?o me ha de elle imp?r.

Meu canto é da America,

Paiz do tabaco,

Perante o qual Baccho

Seu sceptro partiu.

A Europa, Asia, e Africa

E a terra hoje toda

Este heroe da moda

De fumo cobriu.

Até na Laponia,

Da gente pequena,

Se fuma; e no Sena,

No Tibre e no Pó,

No Volga e no Vistula,

No Tejo e no Douro;

Que immenso thesouro

Se deve a Nicot!

Meus áridos labios

Mais fumo inda aspirem

Que os parvos suspirem

Por beijos, aos mil.

N?o quero outros osculos,

N?o quero outra amante.

Qual mais doudejante

Que o fumo subtil?

Tornadas Vesuvios,

As b?cas fumegam.

De nuvens que cegam

Vomitam mont?es.

Fumar! Oh delicias!

Prazer de Nababo!

E leve o diabo

Do mundo as paix?es!

-Bravo!-disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a musa do recitador.

O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a dissipar-se-lhe a nuvem.

-Quem compra uma senha?!

-S. Jo?o! quem quer?

-Doze vintens, meus amos, doze vintens.

Com estes analogos preg?es caiu um bando de negociantes de senhas sobre os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor maneira possivel. Cêdo entravam no sal?o do theatro, onde já centenares de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas, apertadas, esmagadas quasi, aos encontr?es dos mascaras, arrebatados n'um galope vertiginoso.

O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem, com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez a opera??o, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos fazem;-uma das mais poderosas raz?es dos nossos actos na vida.

Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em divers?o fóra dos seus habitos, provavelmente mais pacificos-o que fiz só por a necessidade que tinha de mostrar em ac??o o caracter do nosso heroe e exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual-concordo em que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem consolam, nem divertem.

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