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Othello

Othello

Author: : Gustave Dubarry
Genre: Literature
Othello by Gustave Dubarry

Chapter 1 No.1

O rapto

Era a epoca mais feliz e florescente da aristocratica Republica de Veneza. As esquadras disputavam vantajosamente aos turcos a supremacia no Mediterraneo, e nas costas gregas, Rhodes e Chypre unidas ao feliz povo da poderosa Senhoria, diziam eloquentemente ao ottomano que n?o era nada facil arrancar a presa ao le?o de S. Marcos, quando este a colhera nos seus afilados dentes.

Vivia-se por ent?o no tempo em que a espada n?o podia enferrujar dentro da bainha, pois nos breves intervallos durante os quaes os exercitos n?o luctavam de povoado em povoado, de na??o em na??o, os individuos, sem distinc??es de cathegorias nem de classes, inventavam mil pretextos para guerrearem entre si, receosos talvez de olvidarem no repouso o manejo das armas.

Por causa d'isto e tambem com receio dos innumeraveis ?briganti? e roubadores de bolsas que, durante a noute, vagueavam pela poetica cidade dos canaes, nem todos se atreviam a transitar por ella fóra de horas, pois estavam certos de que nada bom encontrariam nas suas escuras e mysteriosas ruas.

Eis porque causava certa extranheza ver a tranquilidade com que dois cavalleiros, jovens e de elegante porte, se bem que tal elegancia fosse mais notavel no que aparentava menos edade, conversavam passeando pela solitaria pra?a de S. Marcos á uma hora da madrugada d'uma noute de inverno.

Devemos ponderar que a tranquilidade, a que acabamos de alludir, referia-se sómente ao facto dos cavalleiros n?o recearem dos perigos nocturnos que os amea?avam em tal sitio e a horas t?o mortas da noute; por outro lado, os dois homens pareciam dominados por viva agita??o, a julgar pela vehemencia dos gestos e pela anima??o com que sustentavam o seguinte dialogo:

-Digo-te, meu caro Yago, que semelhante coisa é impossivel, dizia o mais novo e de melhor apparencia dos dois interlocutores, t?o impossivel como o Adriatico poder devolver a sua Senhoria o Doge o annel que este lhe deu no dia das suas nupcias.[1]

[1] Allude á cerimonia que celebravam os Doges no dia do seu advento, e no qual simulavam casar com o Adriatico arrojando para o mar uma preciosa joia, que era o annel de nupcias.

-Pois eu asseguro-te, nobre Rodrigo, replicou o mais velho dos cavalleiros, que trajava á militar e ostentava a divisa de alferes, que vi com os meus poprios olhos tua prima Desdemona, ha pouco mais de uma hora, fugir de casa do pae, o senador Brabancio, e saltar para uma gondola, onde a esperava esse maldito africano, que Deus confunda.

-Pois bem, os teus olhos trahiram-te, apresentando á tua fantasia como real o que n?o era mais do que um sonho. Ah! as garrafas de vinho de Chypre que bebeste esta noute, tiveram mais for?a do que a tua resistencia de bebedor habituado ás liba??es, e puzeram-te completamente borracho, respondeu de mau humor aquelle a quem o seu companheiro dava o nome de Rodrigo.

-Dizem, e com raz?o, que de namorado a tonto n?o vae mais do que um passo! exclamou o alferes Yago em tom desdenhoso.

-Porque dizes isso? porguntou com altivez Rodrigo. Tratas acaso, de insultar-me?

-Deus me livre de tal coisa, respondeu Yago. Queres dizer-me o que ganharia com isso?

-Seja pelo que f?r, o facto é que me chamaste tonto.

-N?o, disse que estavas enamorado, e desafio a que o negues.

-Seria inutil, pois sabei-o t?o bem como eu, confessou Rodrigo. Mas deixemo-nos de discuss?es inuteis e vamos ao que importa. Se o que me acabas de dizer n?o é uma infame mentira ou estupida fantasia de bebado; se a minha prima Desdemona esqueceu a honra de sua familia, o respeito e as cans de seu pae, toda a sua juventude de pudor e recato que a tornavam a donzella mais pura de Veneza; se esqueceu tudo isto, repito, para lan?ar-se nos bra?os d'esse mouro de rude linguagem e de rosto enegrecido, como qualquer infame Messalina, preciso será crer de hoje para sempre que a mulher, desde que nasce, é materia affei?oada para o vicio e o ser mais ignobil que existe sobre a terra.

-Enganas-te, nobre Rodrigo, e a tua paix?o e ciumes fazem-te ver as cousas, augmentadas até á exagera??o ridicula, replicou tranquilamente Yago. A mulher, na realidade, n?o é boa nem má, pura ou impura, mas simplesmente mulher e, como tal, joguete das circumstancias. A culpa do que succede n?o a tem ella, mas sim o velho tonto do pae que, depois de a ter encerrada como monja durante dezessete annos, deixou entrar em casa Othello com a mais ampla liberdade, consentiu que visitasse tua prima, conversasse com ella no mais absoluto isolamento, e, emfim, cruzou tranquilamente os bra?os, emtanto que o lobo rondava incessantemente em redor da ovelha.

-Mas, replicou Rodrigo irritado, quem poderia supp?r que uma joven t?o innocente e virginal como Desdemona, podesse chegar a enamorar-se de um homem negro e feio como esse maldito mouro?

-Outro qualquer que n?o tivesse sido um velho imbecil como teu tio Brabancio, ou um namorado cego como tu, teria suspeitado que esse mouro, precisamente pelo que tem de extraordinario, poderia chegar a deslumbrar e a seduzir a donzella, como realmente succedeu. Ignoras por ventura, continuou Yago animando-se emquanto fallava, que ninguem conhece Othello melhor do que eu, e que é este exactamente o motivo do odio mortal que lhe tenho? Esse homem é feio, concordo; de rude linguagem e desabridas maneiras, mas nasceu como o le?o para dominar e vencer, onde quer que se encontre; a alma d'elle é grande como o espa?o e profunda como o abysmo; o cora??o é de gigante, e n'elle os sentimentos humanos, com tudo quanto ha de leal e de nobre, desenvolvem-se até assumirem propor??es do sobre natural; junta a isto uma vida romantica, cheia de peripecias emocionantes e curiosissimas, sustentada á custa de uma lucta constante com os homens, com as feras e até com os elementos; emfim, um homem de sangue real, realeza moura, mas que vale tanto como outra qualquer, um homem de sangue real, repito, que perde seus paes, é vendido como escravo, foge atravez do deserto e, sem outras armas do que a coragem pessoal, a for?a d'um hercules, se assenhoreia das selvas virgens, das quaes desaloja os tigres e os leopardos: que depois se apresenta entre os homens e pratica com elles o mesmo que com os temiveis moradores dos bosques; que chega a Veneza quando a Republica está a ponto de tornar-se provincia de Constantinopla, e, com o seu valor lendario e o seu talento de general a salva, destroe os inimigos e devolve todo o brilhante esplendor á vacilante Magestade. Pensa em tudo isto, repito, apresenta tal homem prodigioso a uma rapariga de desessete annos, enamorada, como todas, do maravilhoso poetico, do extraordinario, e á fé de cavalleiro te juro, que a fealdade e a rudeza materiaes d'um mouro desapparecer?o ante os olhos da virgem innocente, para n?o lhe deixar ver mais do que o lado poetico da varonil e sobrehumana figura do heroe, ante a qual surgem empequenecidos até ao ridiculo, os peralvilhos loiros e affemininados que tenha visto pisar até ent?o as alcatifas dos seus sal?es.

-A julgar pela discrip??o que acabas de fazer de Othelo, n?o parece sen?o que estás t?o enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona, ponderou sarcasticamente Rodrigo.

-Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conhe?o e conservo o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as qualidades d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes qualidades podem exercer no cora??o d'uma joven? Que disparate supp?r que eu amo Othello! Pelo contrario, odeio-o com todas as for?as da minha alma e de boa vontade inventaria qualquer novo tormento para vel-o morrer na mais horrorosa das agonias. Preferiu-me a esse florentino, Miguel Cassio, a quem nomeou seu tenente, deixando que eu, com o estupido pretexto de que ignoro a estrategia militar, continue sempre alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, n?o tenho base firme para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que o maldito mouro e minha mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito que paguei para celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta todos os martyrios do inferno nas entranhas e deseje vingar-me de Othello, de maneira que cause horror ao proprio Deus das vingan?as. Por isso te procurei esta noute, accrescentou o alferes fixando em Rodrigo os olhos chammejantes. Estás apaixonado por tua prima Desdemona, e o homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, se me promettes fazer tudo quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas indica??es, garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por arrojar-se nos teus bra?os sincera e profundamente arrependida do que fez.

-Devéras? N?o me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.

Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convic??o; se me obedeceres em tudo, antes de um mez Desdemona será tua.

-Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores sacrificios para conseguir o am?r da prima.

-Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presen?a de espirito, ganhar o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois homens despreoccupados, que n?o teem nada a fazer, quando cada minuto que se perde é um seculo, difficil de recuperar.

E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.

-Já duas horas! esclamou Yago, arrastando comsigo o amigo, emquanto fallava. é bastante tarde e ainda precisamos de correr muito!

-Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo docilmente o alferes.

-Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra e a fuga da filha, se é que elle ainda n?o deu por tal, como é provavel, pois deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.

-Mas vamos provocar um escandalo! replicou o primo de Desdemona, a quem, como cavalleiro que era repugnava semelhante especie de dela??o.

-é isso precisamente o que nós necessitamos: um escandalo, disse Yago, sem deixar de arrastar o amigo. Um escandalo que fira o orgulho e a vaidade de um dos senhores mais poderosos de Veneza, e que obrigue o Doge a castigar o culpado com todo o rigor que exigem a gravidade da falta e as duras leis da Republica. Basta-me tanto para vêr satisfeito o meu odio, continuou o miseravel com feroz sorriso, depois Othello será destituido do seu posto de general e de todas as honras, como auctor de um delicto que attentou contra a dignidade de um dos membros do Senado, sem contar as penas corporaes que cahir?o sobre elle e que ser?o verdadeiramente terriveis, pois conhe?o bem a justi?a veneziana e sei que é inexoravel n'este ponto.

E, ao proferir taes palavras, Yago ria com um riso sedento de sangue.

Entretanto chegaram ao magnifico palacio do senador Branbancio e, depois de baterem ruidosamente á grande porta de entrada, obrigaram a criada a despertar o amo, que deixou o leito e recebeu os nocturnos visitantes com a vontade que pode suppor-se.

Mas esta má vontade n?o tardou em converter-se em estupefac??o levada até á atonia, que por sua vez se transformou n'uma indigna??o que esteve a pontos de o enlouquecer, quando o sobrinho o informou da fuga da joven e virginal Desdemona, rapto que se negou obtinadamente a acreditar, a come?o, mas que em breve poude ver comprovado, depois de pessoalmente percorrer todos os cantos do palacio com a mesma minuciosidade que empregaria se, em vez de procurar uma mulher, se tratasse de um objecto menos que imperceptivel.

Era que o infeliz velho tinha ante os olhos a realidade e recusava admittil-a, ditoso ainda com a illus?o de que tudo aquillo n?o era mais do que um pesadelo horrivel, do qual n?o tardaria a despertar.

Assim, quando lhe foi impossivel duvidar e que teve de se render fatalmente á evidencia, a sua d?r n?o conheceu limites e, no cumulo da desespera??o, amaldi?oou a filha e todas as mulheres chamando-lhes encarna??o viva de Lusbel, da qual tinham até a infernal formosura; renegou o ceu e a terra e n?o deixou de lastimar-se e blasfemar até que, vencido pelo peso da propria afflic??o, sómente lhe ficaram energias para lamentar com solu?os convulsivos a immensa desgra?a que acabava de cahir-lhe na encanecida cabe?a.

Passada a angustiosa crise, reanimou-se um pouco, e com as for?as voltou-lhe o orgulho e a altivez de patricio venesiano; a partir d'este momento só pensou em vingar o ultrage recebido, para o que era preciso, antes de mais nada, apoderar-se do autor da sua deshonra, do infame que lhe roubara a filha.

Por conseguinte e sabendo por Yago que Othello se encontrava áquellas horas nas margens do Adriatico, e n?o longe do porto, onde estava ancorada a galera destinada a transportal-o nas suas expedi??es guerreiras, reuniu a toda a pressa alguns soldados, e pondo-se animosamente á frente da pequena escolta, ordenou a seu sobrinho e a Yago que o guiassem até o sitio onde poderia encontrar o raptor de Desdemona.

Rodrigo prestou-se de bom grado a acompanhal-o; mas o alferes, que tinha raz?es sufficientes para recear que o mouro o visse em companhia dos que iam perseguil-o, allegou t?o plausiveis e logicos motivos, que o vingativo e furioso pae consentiu em que marchasse deante de elles, precedendo-os a boa distancia, para que quando a amea?adora comitiva chegasse onde estava Othello, elle se encontrasse já ao lado do chefe, ao qual teria entretanto explicado satisfatoriamente a sua ausencia.

Assim fizeram, com effeito, adeantando-se Yago a passo largo, pelo caminho mais curto e seguindo-o lentamente, Brabancio, Rodrigo e os homens de armas que os acompanhavam.

Precisamente no momento em que Yago se apresentava ao general, recebia este uma embaixada do Doge, que, apesar do adiantado da hora, estava presidindo ao Conselho dos Dez convocado a toda a pressa para assumpto de vital interesse da Republica e que exigia a presen?a immediata do general ante o Conselho.

-Está bem, respondeu gravemente Othello aos emissarios do Doge que acabavam de dar-lhe esta ordem. Já os sigo; para fallar verdade, preferia aguardar o dia de amanh? para tratar negocios graves; pois asseguro-lhes, senhores, que esta noute tenho mais cora??o do que cabe?a. Mas o Estado está acima de tudo e obede?o o sua senhoria. Partamos.

-Alto ahi, perro traidor, ladr?o de honras, corruptor de donzellas! gritou uma voz colerica e cheia de ira, no momento em que o mouro e os commissionados do Doge se punham a caminho.-Pára ou mato-te como o miseravel que és! Que fizeste de minha filha? Vamos, responde, infame Restitue-me Desdemona!

Ao encontrar-se cara a cara com Brabancio, que, como já ter?o advinhado os leitores, era quem o increpava t?o asperamente, o mouro ficou preplexo por um instante e sem saber, realmente, que partido tomar, pois era a primeira vez na sua vida que ouvia um homem insultal-o de tal modo. Mas recuperando acto continuo o sangue frio, dominou a situa??o com um simples esfor?o da poderosa vontade e respondeu brandamente ao velho:

-Senhor, reprimi a vossa colera, que n?o tem raz?o de ser, pois nem eu sou ladr?o de honras, e menos ainda corruptor de donzellas. Vossa filha seguiu-me esta noute voluntariamente, como está disposta a confessál-o, e, apesar de ha tres horas ser minha mulher, permanece todavia t?o pura como os anjos do céu. Juro-o pela minha espada!

-Mentes como um c?o! gritou fóra de si o velho. Minha filha n?o te seguiria de boa vontade e ainda menos se prestaria a ser esposa de um infame hereje como tu! Recorres a t?o estupida desculpa para te livrares de cahir nas minhas m?os. Mas enganas-te, miseravel! continuou irritado Brabancio, avan?ando um passo mais para Othello, enganaste, se julgas ser-te facil escapar á justi?a e á minha vingan?a. Vês estes homens que me acompanham? accrescentou voltando-se e apontando com o bra?o hirto para os companheiros; pois bastará um signal meu para te arrancarem com os seus punhaes a alma do corpo, se vacilas um só momento em me seguires.

O africano contemplou fixamente, durante um segundo, o encolorizado pae de Desdemona, e no bronzeado rosto deixou transluzir uma express?o terna e compassiva; depois ergueu a poderosa cabe?a com um gesto de le?o e lan?ou um olhar de supremo desprezo aos homens que acompanhavam Brabancio.

Em seguida respondeu com voz meiga e socegada:

-S?o poucos, senhor, para obrigar Othello a que fa?a o que n?o quer, emquanto estas duas m?os possam manejar uma espada ou estrangular um homem, e ao pronunciar estas palavras, o mouro estendeu os atleticos bra?os n'um tal gesto, que todos, até o proprio velho, retrocederam um passo e soffreram uma especie de calafrio que lhes chegou até aos ossos; s?o poucos, repito; seriam necessarios mais homens e, sobre tudo, homens de tempera, differente d'esses que vos acompanham. Mas ha outras raz?es mais poderosas, continuou o formidavel africano com a mesma brandura até ali mantida, que vos impedir?o agora de p?r m?o sobre mim. -Quaes? rugiu o velho cego pela ira. Julgas por ventura que te vaes livrar com as tuas valentias?

-N?o, respondeu friamente Othello; livro-me pelo menos agora, porque assim é a vontade do Doge, que acaba de chamar-me para que compare?a sem a menor demora ante o Conselho dos Dez, o qual, presidido por elle, se acha reunido n'este momento para tratar de assumpto de gravissimo interesse para o Estado, e a respeito do qual, segundo parece, necessitam conhecer a minha opini?o. Agora bem; proseguiu dizendo o mouro deliberadamente, ousarieis opp?r-vos á vontade do Doge e do conselho, e tolher que se executassem as suas ordens, que, como sabeis, s?o sagradas na Republica, expondo-vos, talvez a p?r em perigo a seguran?a do Estado?

-Ceus! Fallarás verdade? exclamou Brabancio desesperado ao ver que a presa estava prestes a escapar-lhe.

-Estes cavalleiros podem responder-te, affirmou o mouro, indicando os commissionados do Doge, que permaneciam a poucos passos de distancia, testemunhas mudas da acalorada scena.

-Assim é, nobre Brabancio, affirmou o que parecia ser o chefe do grupo. Quanto acaba de dizer o general é absolutamente verdade.

O velho senador pareceu ficar um momento atordoado com o peso da noticia.

Mas, de prompto, ergueu a cabe?a, os olhos faiscaram-lhe com a viva satisfa??o da vingan?a satisfeita, e perguntou ao chefe dos commissionados:

-Disseste que o Doge está n'este momento presidindo ao Conselho dos Dez?

-Assim o disse e assim é, nobre Brabancio; respondeu o interpelado.

-Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor accasi?o do que esta para exorál-o a que fa?a justi?a? Por muito grave que seja o assumpto que presentemente o occupa, n?o poderá sel-o tanto que o impe?a de ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de um senador da minha ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou incautamente, no seu seio. Ides á presen?a do Doge, n?o é assim? Pois bem, eu vou tambem e assim ganharei tempo, em vez de o perder, como suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho dirigindo-se a Othello, que n?o ha poder humano que te livre da minha vingan?a! Vamos ter com o Doge e pedir-lhe justi?a!

E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica cidade dos canaes.

Chapter 2 No.2

Othello

Apezar da gravidadade das circumstancias, o Doge n?o poude conter uma exclama??o de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava o conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua. Lan?ou pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:

-Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que n?o tenha ordem expressa de comparecer ante mim?

-Eu, Senhoria-respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o pae de Desdemona.-Eu, que venho pedir-vos justi?a para o irreparavel ultraje que lan?aram nas minhas cans e no meu nome de patriota.

-T?o urgente é o caso e t?o imperioso e vehemente o teu desejo de ver reparado o agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer considera??o, entrares n'este recinto sagrado para todos os cidad?os da Republica?-replicou o Doge com enfado.

-A Vossa prudente e sabia ras?o julgará por si mesma-disse Brabancio sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a Othello que permanecia de pé a seu lado.-Este homem, que a Republica acolheu em hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha, deshonrando-a, deshonrando-me tambem e lan?ando uma mancha indelevel sobre toda a nobreza veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de usar. Justi?a, Senhoria, contra tamanho criminoso! justi?a, se n?o quereis que eu renegue a propria terra em que nasci!

-Tranquillisa-te, bom Brabancio-respondeu o Doge com benevolencia-se é certa a accusa??o que acabas de fazer contra esse homem, contra esse habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas da generosidade do seu cora??o, salvando a Republica, eu te prometto, como cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justi?a te será feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae sobre todos os teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os momentos actuaes s?o em extremo solemnes e as circumstancias gravissimas? Os turcos dirigem-se contra ilha de Chypre, com uma poderosa esquadra, e d'ella se apoderár?o, facilmente se n?o realizarmos um verdadeiro milagre de vontade e de for?a. Agora bem-proseguiu o Doge, com convic??o.-Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha de Chypre? Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina do seu commercio com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o principio da decadencia do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova, Floren?a e o Pontificado saibam isto, cahir?o sobre a orgulhosa soberana do Adriatico como um bando de abutres sobre uma aguia ferida e enferma, para repartir os seus restos e insultar a sua passada grandeza. Immensa e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as calamidades que amea?am a Republica, tu, var?o sabio e prudente, responde: que significa a desgra?a de um individuo, de uma familia, de uma d?r pessoal por grande que seja, comparada com o soffrimento de um povo?

-Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e cega-me a d?r e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se salve a Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou indicando Othello, desde este momento retiro a minha accusa??o e esperarei pacientemente, para lavar a mancha cahida sobre o meu nome, que venham melhores tempos! Veneza e a Republica acima de tudo!

E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do cora??o, enthusiasmo que se communicou instantaneamente a todos os circumstantes, exceptuando Othello, que permaneceu sereno e frio como estatua de bronze. Mas apenas acabou de fallar o pae de Desdemona, e antes que o Doge tivesse tempo de responder-lhe, agradecendo a nobreza da sua conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o bra?o direito, como dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que os membros do Conselho inclinavam a cabe?a, com um gesto de approva??o, come?ou com voz grave e pausada:

-O sabio e prudente Conselho, assim como a Senhoria que o preside, v?o perdoar-me exp?r a minha opini?o a respeito de tudo quanto succede, sem que previamente me tenham auctorizado para tanto.

-Era o que pensava agora fazer, pois n?o foste chamado para outra cousa, heroico Othello, disse o Doge com benevolencia; falla pois, com liberdade absoluta.

-Primeiro que tudo, proseguiu o general, occupar-me-hei, como é de justi?a, do mais importante; quer dizer do que diz respeito ao Estado; depois tratarei da accusa??o que este velho acaba de lan?ar contra mim. Nada receiem! Serei breve, muito breve, porque pouco, na realidade, tenho de dizer com respeito aos dois assumptos. Por outro lado n?o é este o momento opportuno para dispensarmos palavras, mas sim de praticarmos actos; além d'isto a minha linguagem é rude e desataviada de galas.

?A Senhoria de Veneza e o sabio Conselho ignoram decerto que a unica eloquencia de que posso orgulhar-me é a das ac??es.

-Precisamente aquella de que hoje necessita a Republica, observou o Doge gravemente.

-Pois tel-a-ha, respondeu Othello com convic??o absoluta. O que tenho a dizer com rela??o aos turcos que buscam apoderar-se da ilha de Chypre, reduz-se a isto: Montano, a quem deixei como governador na ilha, com plenos poderes para que me substituisse durante curta ausencia, é um militar valente como ha poucos e experimentado como nenhum; adora Chypre como um filho adora a m?e, apesar de n?o ter nascido lá; disp?e de bons elementos de combate e, por muito vigoroso que seja o ataque dos turcos, saberá resistir durante alguns dias, os sufficientes para que, sahindo eu esta mesma noute ou, para melhor dizer, esta manh?, de Veneza, tenha tempo de surprehender os otomanos antes de que logrem p?r nas torres da ilha o estandarte da meia lua.

-E crês, general, perguntou anciosamente o Doge, que disp?es de bastantes recursos para dominar e vencer o grande contingente de homens de guerra e armamento naval com que, segundo noticias fidelissimas recebidas, os turcos se aprestam para a lucta?

-Essas noticias exageram, ou mentem, replicou friamente Othello. O sult?o está gravemente empenhado nas guerras com Castella e com Papa, e n?o pode dispor de grandes elementos de combate. Que Montano resista sómente oito dias, que me sejam favoraveis os ventos, e respondo pela minha cabe?a, que a Republica conservará em seu poder Chypre e dará uma nova e forte li??o ao seu constante e teimoso inimigo, que o manterá na reserva durante muito tempo. Othello, que nunca mentiu, jura-o pela sua lealdade ao Estado.

E o altivo africano contemplou com t?o fria serenidade os individuos do Conselho, que estes sentiram que a confian?a, uma confian?a absoluta, voltava a renascer-lhes nos cora??es.

-Assim pois, perguntou o Doge ao mouro, partirás hoje mesmo para Chypre?

-Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em direc??o á ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o cora??o e a lealdade responder ás accusa??es d'este velho e deixar terminado este assumpto. Pe?o-vos que n?o me negueis o favor de me ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que vou submetter ao vosso recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia morrer na nova empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo quereria que pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lan?ar sobre elle com as suas palavras, ante o Conselho...

-Falla pois, Othello-disse o Doge, com deferencia;-mas, como ha pouco disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, porque n?o ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos s?o preciosos.

-A brevidade convem a todos-disse o africano;-porém mais a mim do que a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e da sorte da minha existencia. N?o receieis pois, Senhoria, e escutem, ou?am-me todos, com os cora??es de homens e toda a consciencia de magistrados, porque é a minha honra, a minha vida e a minha felicidade que jogo n'este momento.

Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em medita??o dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o gesto leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para os individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a lealdade do seu grande caracter, e come?ou em voz grave e pausada, que condizia perfeitamente com a soberba majestade da attitude:

Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da Republica.

-E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a quem a recorda??o do rapto da filha despertara toda a colera que, durante momentos, havia parecido abandonál-o.

-Nego-o, porque n?o é verdade-respondeu friamente Othello-Desdemona deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, para acompanhar seu esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da minha gondola, enla?ava-se com o meu o seu destino ante os altares.

-é mentira, uma infame mentira!-rugiu o velho-A minha filha n?o póde ser a esposa de um c?o hereje como tu!

-Tanto póde, que o é-affirmou categoricamente o mouro, sem perder nem por um momento o sangue frio.-Além d'isso, n?o casou com um hereje, pois creio no Deus dos christ?os, porque é o Deus da mulher que adoro.

-Ent?o é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e artes magicas!-exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é admissivel que uma donzella t?o pura, t?o formosa e delicada como Desdemona, se enamorasse de um horrivel negro como tu?

D'esta vez as palavras do colerico velho feriram por certo alguma fibra sensivel e devéras intima do cora??o de Othello, porque a c?r bronzeada do mouro branqueou durante um segundo, e o general, erguendo mais ainda o alto e poderoso busto, murmurou com voz moderada, mas na qual, apesar de tudo, se sentia vibrar um furac?o de sentimentos ignorados.

-Sempre a mesma phrase! Um horrivel negro! Como se ha-de enamorar uma virgem, bella e pura como Desdemona, de um horrivel monstro como Othello! Ignoro, senhor-continuou o africano dirigindo-se d'esta vez ao senador,-se as mulheres veem mais longe e mais profundo do que os homens, mas para dita nossa e honra sua é preciso acreditar que sim, e que a vossa filha viu a minha alma. A minha alma, ouvem, senhores? que é a de um homem como vós, como a vossa, velho implacavel, como a de todos os homens brancos emfim, e que ainda talvez valha mais do que a de muitos d'esses, porque está firmemente temperada na desventura e na lucta pela existencia.! Uma lucta horrivel, espantosa capaz de aniquillar, o melhor cora??o de toda a nobreza veneziana á qual-continuou com gesto de le?o,-egualo, se n?o supero em ra?a, porque se ella nasceu em ber?o doirado, o brilho de uma cor?a real illuminou meu nascimento. Sim, orgulhoso nobre; sou, quando menos, teu egual, porque descendo de reis, e sou teu superior em valor moral, porque estou purificado pela desgra?a. Vencidos meus paes por um inimigo, n?o t?o poderoso, porem mais astuto e mais cobarde do que elles, fui vendido com meus escravos, como um egual de taes miseraveis. Sim, o le?o foi comprado revolto e mettido entre uma jaula de c?es; mas a escravatura n?o se fez para os le?es e eu fugi da minha jaula matando os guardas e correndo para o deserto, que era o meu ambiente natural. Ali lutei com as féras para disputar-lhes o alimento, e digo-te sinceramente que ellas s?o mais leaes e mais nobres na luta do que a maioria dos homens com quem tenho deparado antes e depois de vencel-as. Mais tarde, farto da solid?o, fui de povo em povo, de na??o em na??o, e desde o estreito de Gibraltar até ao dos Dardanelos, reguei o caminho com sangue de cobardes e lagrimas de cora??es agradecidos. Quando, por ultimo, o Destino me trouxe para entre os vossos, a Republica tremia como presa prestes a ser devorada pelo turco, pelo genovez, pelo florentino, pelo romano, por todos os seus inimigos, emfim. E eu firmei-a; derrotei aquelles que queriam a sua queda para a fazerem em peda?os, dei estabilidade á Republica vacilante, e a minha m?o acostumada a apertar sem tremer a garganta dos tigres, cravou no ponto, mais alto da Europa a bandeira de Veneza.

?Que sangue haverá, pois, na cidade de S. Marcos que possa envergonhar-se de se misturar com o meu?

Calou-se o mouro por um momento, e por toda a salla pareceu vibrar a sua potente voz. Othello continuou, sempre dirigindo-se a Brabancio:

-Tua filha sabia tudo isto, sim, sabia-o, porque eu proprio lh'o havia contado; conhece a minha historia, leu em meus olhos e bebeu nas minhas palavras a formidavel e sangrenta epopeia da minha vida; viu-me tal qual sou, e n?o como me veem os outros, como tu me vês, cego pela ira, e, em vez de achar em mim o monstro a que te referes, viu apenas o homem de cora??o, que sabe triumphar do Destino e dos homens, e come?ou por admirar-me, como um ser que valia mais do que todos os fatuos inuteis e vadios que a rodeavam; para concluir, amou-me com o mesmo amor profundo e infinito com que eu a amo. Este é todo o nosso crime, e por elle pe?o que nos julguem-terminou dizendo, dirigindo-se ao Doge e aos membros do Conselho.

-Tudo quanto disseste nada é mais do que palavras e só palavras!-gritou Brabancio desesperado, pois temia que o prestigio que rodeava Othello inclinasse em seu favor os que tinham de o julgar.-?Os factos fallar?o mais alto do que tudo quanto possas dizer em teu abono! Minha filha! Confessa onde occultaste Desdemona! Minha filha que compare?a ante vós, senhores, e ella desmentirá essa ridicula novella que acaba de contar-vos este homem, para disfar?ar o indigno recurso de que se valeu para desvairar o cerebro e annular a vontade de uma virgem pura e innocente como a propria innocencia!

-é justo-assentiu o Doge, dirigindo-se a Othello.-a tua causa está bem apresentada e melhor defendida por ti mesmo; mas para tratarmos d'ella equitativamente, é necessario ouvir as duas partes. Diz, pois, onde se encontra Desdemona, e nós a faremos comparecer sem perda de tempo para deixar ultimado este assumpto. Porque urge aclarál-o até ao fim; se és realmente, como julgamos, digno da confian?a que em ti deposita a Republica, ao enviar-te hoje de novo a defendel-a contra os seus inimigos, ou se terá raz?o o senador em te accusar com a aspereza com que acaba de fazel-o; em tal caso, as leis do estado, que podem alcan?ar a minha propria senhoria, haviam de alcan?ar-te tambem, fatal e necessariamente. Responde, general, onde está Desdemona?

-A dois passos d'aqui, e nada mais facil, para vós, de que mandal-a comparecer aqui e ouvirdes de seus labios as palavras que h?o-de perder-me ou salvar-me, visto que daes mais valor ao testemunho de uma mulher do que ao juramento de um homem-respondeu Othello n'um tom de sentida amargura.

-Como!-exclamou o Doge t?o surprehendido como todos os circumstantes, e sem prestar atten??o na maneira como o mouro pronunciára as ultimas palavras.-Dizes que está aqui Desdemona?

-Sim-respondeu o general-disse.

-Suponho-replicou gravemente o Doge,-que n?o ignoras que o sitio em que te encontras é o menos a proposito para gracejos?

-N?o gracejo nunca-respondeu com certo desdém Othello-Quando me dispuz a seguir os individuos que me enviaste, e depois de ter ouvido Brabancio insultar-me e amea?ar-me com pedir-vos justi?a contra mim este mesma noute, considerei, como era logico, que necessitaria apresentar a melhor e a unica testemunha de confian?a que póde fallar em meu favor. Por conseguinte, pedi ao meu tenente Cassio que fosse onde estava Desdemona e lhe rogasse em meu nome que o acompanhasse aqui, dizendo-lhe do que se tratava. Ora bem; como estou convencido de que Cassio terá cumprido as minhas ordens, pois é fiel e amigo até á morte, e jámais desobedeceu a quem serve, respondo como já disse, que bastará que que mandeis chamar Desdemona para que esta compare?a ante o Conselho.

Com effeito, apenas o Doge deu a um porteiro ordem de que mandasse entrar na sala a filha do senador Brabancio, esta apareceu vestida de branco, com o traje de noiva que talvez n?o tivesse tido tempo ainda de tirar. Surgiu bellissima na sua pallidez, e serena e firme como estatua de Diana.

Brabancio e todos os circumstantes, exceptuando Othello, soltaram uma exclama??o de surpreza e assombro, ao vel-a apparecer como vis?o celestial, e o Doge disse-lhe com voz affectuosa:

-Approxima-te, preciosa Desdemona, e nada receis, porque a lei e o cavalheirismo te protegem!

A joven aproximou-se com passo certo e firme da mesa do Conselho, sem parecer fixar a atten??o em Othello nem no proprio pae, e parando a respeitosa distancia dos juizes, perguntou:

-Que deseja sua Senhoria de mim?

-Que respondas, sob juramento, ás perguntas que vou fazer-te, sem que o medo ou o pezo, nem nenhuma outra considera??o humana, te fa?am occultar a verdade. Comprehendeste?

-Perfeitamente-respondeu com sangue frio Desdemona-Devo advertir-vos, Senhoria, de que n?o tenho de que recear, e menos de que me envergonhar, e que os meus labios jámais se mancharam com a mentira.

-Acredito e applaudo-te com toda a minha alma-disse o Doge com benevolencia-Agora, responde: conheces esse homem que está a tua direita?-e apontou, indicando Othello.

-Sim, Senhoria, conhece-o e amo-o, porque é meu esposo ante Deus e ante os homens, ha tres horas; juro-o por Christo crucificado, assim como juro que esta noute, por minha propria vontade e sem que ninguem me compellisse nem sequer aconselhasse, abandonei a casa de meu pae para o seguir.

-Mentira! gritou o velho senador desvairado pela colera-Essa mulher está louca, completamente louca! Se assim n?o fosse, nunca se atreveria a dizer, deante de mim, seu pae, semelhantes vergonhas.

-N?o s?o vergonhas, pae e senhor meu-replicou respeitosa mas firmemente a joven;-mas simples verdades: deixei a casa paterna para seguir meu marido, como, ha muitos annos, tu abandonaste aquella que era tua para seguir tua mulher.

-Maldita, maldita sejas, filha desalmada e sem cora??o! Aborre?o-te e amaldi?oo-te, e nunca mais tornarás a vêr teu pae! Juro-o pelos santos Evangelhos e pela fidalguia da minha ra?a. Adeus para sempre, e que a minha maldi??o te persiga por toda a parte!

E completamente transtornado pela desespera??o e pela ira que o suffocava, o implacavel velho abandonou, tremendo e cambaleando, a sala do conselho.

-N?o chores, preciosa Desdemona, disse o Doge affectuosamente á joven, ao vel-a enxugar as lagrimas que lhe inundavam as faces nacaradas.-A colera de teu pae, ainda que injusta até certo ponto, é no entanto explicavel.

?Mas espero que t?o depressa recobre a tranquilidade e o sangue frio, reflectirá e conquistarás de novo todo o seu carinho. No entanto, continuou dirigindo-se a Othello, devolvo-te a estima e a confian?a que sempre tive no teu valor e na tua bem provada lealdade. Damos, pois, por terminado este enfadonho assumpto, e dispoe-te a emprehender viagem sem perda de tempo.

-Viagem! exclamou Desdemona estupefacta. Como, Senhoria! Ides affastar assim de mim, t?o de repente, o meu esposo, deixando-me na solid?o e no abandono mais desconsoladores?

-Assim é necessario, linda Desdemona! respondeu o Doge n'um tom compassivo. Crê que o lamento com toda a minha alma, mas exige-o a salva??o e a honra da Republica.

-E onde o mandaes? perguntou a triste desposada com a maior amargura.

-A Chypre, que está amea?ada pelos turcos, e onde faz falta a presen?a do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.

-Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolu??o inquebrantavel-irei tambem com elle a Chypre. N?o diz o Apostolo que a mulher deve seguir o marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a separar-me d'aquelle que a Providencia collocou no meu caminho.

-Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? observou o Doge.

-N?o me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a morte, respondeu a corajosa joven.

O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente apoiado pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:

-Realmente, n?o vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto n?o receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher de um guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presen?a, longe de diminuir ou quebrantar o meu valor ou os meus talentos militares, multipolical-os-ha até o infinito. Por consequencia, se sua Senhoria e o sabio e prudente Conselho n?o se opp?em a tal resolu??o, levarei minha esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei d'aqui a uma hora. Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os riscos da viagem, pe?o ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os officiaes que me s?o dedicados e que est?o acostumados a combater sob as minhas ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos durante a expedi??o, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago, que s?o meus irm?os de armas, velar?o por minha mulher, como faria sua propria m?e.

Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os officiaes favoritos do general, embarcaram em direc??o á ilha de Chypre.

O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo navio que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo, sobrinho de Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente apaixonado, e a cuja posse n?o renunciava, apezar de Iago lhe haver dado a noticia de que n'aquella madrugada se realisára o matrimonio da joven.

Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu nobre amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto da sua paix?o ao comtemplal-o nos bra?os de outro, riu-se d'elle e quasi o obrigou a que o acompanhasse a Chypre, disfar?ado de marinheiro, promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, n?o lhe desobedecesse em coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que corrompe todas as consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, que nunca excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor, nos bra?os do apaixonado primo.

Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer á custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo Rodrigo, e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o momento de disparar a envenenada flecha destinada a despeda?ar o cora??o do homem generoso que o acolhera sob a sua protec??o e lhe déra a sua amizade e o seu carinho, bem longe de supp?r que abrigava no seio a vibora, que depois havia de causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.

Mas n?o nos adeantemos aos acontecimentos, e sigamos passo a passo o curso da terrivel tragedia que chegou a immortalizar a perfidia de um invejoso e os ciumes de um amante, cujo unico crime consistiu em ser propenso ás paix?es, e disp?r de tempera superior áquella em que está forjada a vulgaridade dos homens.

Chapter 3 No.3

Em Chypre

Duas outras galeras com um bom numero de soldados e infinidade de apetrechos de guerra, acompanhavam a capitanea que levava a insignia de Othello, e na qual este ia com Desdemona, os officiaes e o sobrinho de Brabancio, disfar?ado de marujo.

Com estes tres barcos, sómente, contava o general africano defrontar a poderosa esquadra turca, no caso de dar-se um recontro mais do que provavel, visto que os ottomanos, a avaliar pelas ultimas noticias recebidas no momento do embarque, deviam já navegar nas aguas de Chypre.

Mas o heroismo e o talento militar de Othello suppriam tudo, e as tripula??es dos tres navios confiavam t?o cegamente no chefe, que quasi desejavam esse recontro em vez de o recear.

N?o obstante, a situa??o aggravou-se ao terceiro dia de viagem, até tornar-se desesperada, pois que furiosa tempestade fez sossobrar as duas galeras que acompanhavam a capitanea, e taes destro?os causou n'esta, que, deixando-a raza como um pont?o e pouco menos do que sem governo, pois o leme soffreu tambem graves avarias e as obras mortas ficaram feitas em peda?os, converteu-a em débil joguete das encrespadas e gigantescas ondas, que a faziam dan?ar sobre as espumosas cristas como fragil casca de nós.

Ninguem, no emtanto, perdeu a coragem durante aquelle calamitoso transe, apezar de todos estarem firmemente convencidos de que soára para elles a ultima hora. Era que o exemplo de coragem e sangue frio de Othello e sobretudo de Desdemona, que n?o se apartou do esposo um só momento durante o perigo, seguindo-o por toda a parte com o sorriso nos labios e resolvida a morrer com elle, communicára-se a todos, e ninguem, ainda que a sentisse, queria dar provas de fraqueza, alli onde uma mulher era a primeira a fazer galla do mais extraordinario heroismo.

Mas, por ultimo, no dia seguinte, e depois da noite verdadeiramente horrorosa aquietaram-se os elementos, o furac?o diminuiu a furia e foi pouco a pouco acalmando até converter-se em brisa suave e acariciadora. O mar, que durante vinte horas mortaes parecera um Leviathan furioso, transformou-se, por fim, em Iago tranquillo.

Os afortunados viajantes, salvos por verdadeiro milagre, n?o tardaram em encontrar, junto da desmantelada embarca??o, terriveis e numerosos indicios dos destro?os que havia causado em taes paragens a formidavel tormenta.

Uma coisa, n?o obstante, feriu a viva imagina??o de Othello. Extranhou ver a excessiva abundancia de cadaveres, restos de navios feitos em peda?os e destro?os de toda a especie que fluctuavam sobre as ondas.

Chegou um momento em que a ideia d'esses despojos o atormentára de tal modo, que teve necessidade de communical-a a alguem, pois queria a todo o transe ouvir, a tal respeito, outra opini?o.

Chamou por isto o tenente Cassio e o alferes Iago, e sentando-se com elles na tolda do navio, disse-lhes, mostrando o mar, que cada vez apparecia mais juncado de cadaveres:

-Que me dizeis d'isto? Certo deve ter succedido grande catastrophe, pois de outro modo n?o se explica que haja tantas victimas e tantos restos de navios destro?ados. Que opini?o é a vossa?

-Se fosse a esquadra turca?-atreveu-se a insinuar o tenente Cassio olhando para o chefe, em cujos olhos surprehendeu um relampago de alegria, ao ver que encontrava alguem, e nada menos do que um homem ponderado, que pensava como elle.

-Neptuno foi t?o propicio durante a vossa viagem, general, disse por sua vez Iago com servil adula??o, que n?o admiraria nada que levasse a protec??o que vos dispensou até ao extremo de livrar-vos sem combate dos vossos inimigos.

-De qualquer maneira, respondeu Othello, sorrindo affavelmente ao alferes, seja ou n?o a Providencia que nos auxiliou, é indubitavel que n?o podemos queixar-nos da sorte, e que esta cor?aria dignamente a sua obra e, ao chegar a Chypre, encontrassemos comprovada a opini?o do tenente Cassio que, seja dito com franqueza, foi tambem a minha.

N?o tiveram de esperar pela chegada a Chypre para saberem da destrui??o da esquadra turca, de modo innegavel.

N'aquelle mesmo dia encontraram uma lancha tripulada por seis naufragos, todos soldados otomanos, os quaes, depois de serem recolhidos no navio e tratados com todos os cuidados e atten??es que a sua lamentavel situa??o exigia, agradecidos á generosidade que Othello usava para com elles, lhe contaram minuciosamente todos os detalhes da espantosa catastrophe, na qual desapparecera toda a esquadra, exceptuando duas embarca??es que, partidas e sem léme, acabaram por perder-se no horizonte á vista dos naufragos, sem que pudessem dizer o que f?ra d'ellas; mas a julgar pelo deploravel estado em que as havia posto a tempestade, era mais do que provavel que houvessem acabado por ser tambem tragadas pelo Oceano.

Julgue-se, pois, a impress?o que t?o faustas noticias fariam nos ditosos viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que amea?avam a Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos, pois lhes tinham amea?ado até ent?o a popria vida.

Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada triumphal no bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem conhecida a destrui??o da esquadra turca, o regosijo e a alegria n?o tiveram limites; Othello e Desdemona foram recebidos com o fervente enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a popula??o distincta da ilha, com o governador Montano á frente, correu a visital-os ao palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e franca homenagem de admira??o e de estima.

Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo celebrasse, cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado, t?o feliz como inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que pretendera apoderar-se da ilha.

Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia de Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a noute, pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era essa tambem a primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona, podia encontrar-se a sós e tranquillo com a formosa e virginal esposa.

Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás desordens e escandalos resultantes de todas as festas populares, como para n?o abandonar a vigilancia do porto que, n?o obstante o desastre casual soffrido pelos turcos, era presa demasiado cubi?ada por elles para se descurar, um momento que fosse, observando com semelhante preven??o o famoso e prudente proverbio latino si vis pacem, para bellum, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.

Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria de todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupa??es que os haviam atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das festas que haviam organizado.

Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos conhecidos, que já n?o participavam do regosijo commum, e recolhidos n'um angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da vigilancia do porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto que, a julgar pelo aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia ser de grande interesse para elles.

Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de Desdemona, o qual n?o deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim o ter aconselhado o amigo, como medida de prudencia.

O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que tratavam, e que, como já ter?o advinhado, n?o era outro sen?o o dos desditosos amores da ingenua victima do alferes.

-A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo ao companheiro, asseguro-te que, se n?o f?res o proprio diabo em pessoa, te será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a dia me parece mais enamorada do horroroso marido.

-Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir, segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor atten??o ás palavras do amigo.

-Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas venezianas e genovezas, respondeu Rodrigo.

-Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha, ainda que abrigasse no seio um cora??o mais duro que as afiadas garras do le?o de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clar?o de cobi?a, ao ouvir as palavras do companheiro.

-N?o proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas raz?es: a primeira porque a conhe?o bem e estou certo que n?o é mulher que se venda; e a segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e n?o por natural correspondencia á paix?o que inspira a mulher amada.

-Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso s?o cantatas, b?as, quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por trovadores, depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima é como todas as mulheres, e todas as mulheres s?o como as andorinhas. Namoram-se de tudo quanto brilha; por isso tua prima se enamorou de Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os nobres venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas proezas.

-Que devo ent?o fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com irrita??o n?o isenta de espanto. N?o me asseguraste que Desdemona está enamorada do marido?

-Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por dizer-te que está enamorada, n?o significa semelhante affirma??o que o esteja sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que digo, pois sou homem de experiencia, n?o é amor verdadeiro, mas ficticio; o que poderiamos chamar am?r de imagina??o.

-Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.

-O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a ter encontrado: um amor de imagina??o. O brilho que vê em Othello, e que a deslumbrou, n?o é outra coisa sen?o o que se vê nos heroes dos romances, que é precisamente como se apresenta o marido aos olhos de Desdemona. Ella vê o heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e n?o saberá responder-te.

-Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.

-Simplesmente porque o homem n?o existe para ella nem, felizmente para o que respeita a Othello, se preoccupa de procural-o; no dia em que tal fa?a, o marido está perdido e o mesmo será no dia em que o encontre.

-N?o te comprehendo, interrompeu o joven veneziano, que, como todos os seus eguaes d'essa epocha, estava pouco habituado a torturar o cerebro, sentia enorme confus?o perante semelhante embroglio para elle inintelligivel.

-Porque n?o queres comprehender-me, replicou Yago com a mesma tranquilidade do gato que brinca cem o rato. E se n?o, continuou dizendo, ouve-me attentamente e verás como te explico tudo, em quatro palavras, verás como entendes: tua prima é mulher, n?o é verdade?

-Essa é de cabo de esquadra! exclamou irritado Rodrigo. Pois que outra coisa poderia ser?

-N?o te abespinhes, homem, n?o te abespinhes! De vagar se vae ao longe e nao tardarei em chegar onde quero, disse o alferes que, semelhante n'isto a todos os miseraveis, se comprazia em atormentar a victima. Responde: é mulher ou n?o?

-Quem duvida?

-Ninguem, por certo. Ora como mulher, necessitará de um homem que lhe satisfa?a as exigencias do organismo; um homem que ame fisicamente, entendes-me agora, alma de cantaro? fisicamente, porque o amor fisico é o unico que póde convir á vida de uma mulher, quando as paix?es imaginativas e novelescas, como a agora experimentada por ella, se evaporam e fogem ante a fortaleza brutal dos gritos da carne.

-Bem, de accordo, respondeu Rodrigo que ia come?ando a comprehender o companheiro.-Mas aonde queres tu ir parar com todas essas philosophias?

-Simplesmente a uma conclus?o que n?o admitte duvidas: tua prima está hoje satisfeita e enamorada porque n?o vê mais do que o lado poetico do marido, e ainda n?o se fixou na cara, linguagem, gestos, e no mais que n'elle existe de tosco, de selvagem e de brutal. Mas como o seu amor n?o póde alimentar-se de sonhos, e um beijo dado por uns labios humidos e vermelhos vale mais para uma mulher do que toda a poesia do mundo, no dia em que esse tigre africano despertar torpemente a carne da mulher, o que n'este momento está fazendo, asseguro-te que, ou n?o ha senso commum sobre a terra, ou apenas Desdemona se inteire do que ent?o ignorava, quer dizer, de que tem sexo, o negro estará perdido para ella, completa e irremediavelmente perdido. Talvez, nas suas horas de tédio, o recorde e até care?a d'elle, como se recorda e se carece, em determinados momentos, de uma historia interessante ou de um fragmento de poema; mas, durante os parentesis da realidade, que s?o os maiores da vida, precisamos todos, e ella tambem, coisa mais substanciosa e mais pratica: o gastrónomo, carne fresca e appetitosa que desfa?a nos dentes; e o amante, carne mais fresca e mais appetitosa que lhe palpite nos bra?os! Já vês que n'este pobre mundo tudo é quest?o de carne, meu caro amigo! Ah! ah! ah!

E, ao dizer estas palavras o miseravel soltou uma gargalhada cynica e estrepitosa, gozando em desfolhar, uma a uma, as poucas fl?res da illus?o que ainda vicejavam no cora??o de Rodrigo.

-Assim, pois, continuou dizendo quando acabou de rir, confia em mim e n?o tortures a cabe?a com supplicios inuteis.

?A noiva de Othello será tua, porque assim jurei e n?o falto nunca aos meus juramentos, disse com um sorriso de escarneo quasi imperceptivel. E proseguiu acto continuo:

?Apenas terás de me ir entregando joias e dinheiro, á medida que eu vá pedindo, para captivar com ellas o cora??o de minha mulher, que é o anjo da guarda do Paraiso, e seduzir tambem a cora??o de Desdemona. Já vês que sou imparcial na minha opini?o com respeito a mulheres, terminou o mizeravel, pois que n?o sendo a minha das peores, n?o lhe dou mais valor do que positivamente tem.

-E julgas, realmente, que Desdemona se deixará captivar por fim, com dadivas e presentes? perguntou o infeliz apaixonado, cuja certeza a respeito da virtude da prima come?ava a fraquejar, combatida simultaneamente pelos proprios desejos e pelas perfidas theorias do ruim amigo.

-Dá tempo ao tempo e depois te convencerás do que digo, proseguiu Iago com a firmeza de quem tem certo o triumpho.

?Dá-me tudo o que te pedir e deixa o resto por minha conta. N?o te preoccupes mais com tal assumpto e presta atten??o, e ao dizer estas palavras baixou a voz e adoptou uma attitude mysteriosa; ha outra coisa e outra pessoa que constituem um grande perigo para os teus amores.

-Que queres dizer?-perguntou Rodrigo sobresaltado.

?Explica-te mais claramente porque os teus enigmas apenas servem para me atormentar.

-N?o tens reparado na assiduidade com que o tenente Cassio segue para toda a parte Desdemona, e na singular preferencia que esta lhe dispensa constantemente, mesmo na presen?a do esposo? -é certo! exclamou Rodrigo empallidecendo; até agora ainda n?o tinha dado importancia a semelhantes detalhes; mas acabas de abrir-me os olhos, e n?o ha duvida que tens raz?o de sobra para assim fallares. Que infame! acabará, talvez, por entender-se com Cassio, procurando n'elle o homem a que ha pouco te referias? Se assim f?r, posso perder as ultimas esperan?as, pois o meu amor n?o se verá jámais correspondido!

-Enganas-te, porque estou eu aqui para o evitar respondeu Iago, fingindo carinho affectuoso.-Tenho o meu plano. Esta noute preciso que me ajudes, para varrer esse empecilho, de fórma que n?o torne a molestar-nos em vida.

-Como?-perguntou Rodrigo.

-é muito simples; primeiro que tudo, é perciso fazer que Cassio, perca a estima de que desfructa junto de Othello, e que este o demitta do seu posto de tenente, para dar-m'o. D'este modo, affastado para sempre do general, n?o terá pretexto para approximar-se de Desdemona e todas as suas seduc??es e artificios resultar?o completamente inuteis. Entretanto eu, investido nas func??es do meu novo cargo, poderei converter-me em sombra do mouro e, por conseguinte, de tua prima, e n?o me parece necessario encarecer as vantagens que poderás tirar d'isto para os teus amores.

-é certo!-exclamou o mo?o veneziano, contemplando com admira??o e gratid?o o amigo-Mas como te vais arranjar para levar a cabo o teu plano e em que poderei auxiliar-te?

-Da maneira seguinte: d'aqui a uma hora, pouco mais ou menos, vou cear em companhia de Montano e de Cassio no quartel que existe n'este mesmo edificio. O tenente é t?o mau bebedor que n?o póde resistir a um só copo do riquissimo vinho d'esta ilha. Ora bem; hei de fazer o possivel para que beba dois ou tres, o que bastará para o embriagar como a qualquer mendigo e, em seguida, busca sahir-lhe ao caminho e, sem o provocar, farás que te dirija algum insulto, cousa que n?o será difficil, porque quando está bebedo, é aggressivo. Replicar-lhe-has acto continuo e continuarás discutindo até conseguires que te bata. Como farás tudo isto, procurando n?o te affastares do quartel, onde se effectuará a ceia, gritarás de modo que Montano e eu possamos ouvir-te. Ent?o acudiremos ambos, eu occupar-me-hei de ti, e deixaremos que os dois se entendam, na certeza de que Cassio, homem sereno e senhor de si quando está no estado normal, é indiabradamente provocador e insultante quando se embriaga, o que lhe succede poucas vezes na vida, e n?o deixará de puchar pela espada para responder com ella ás amigaveis indica??es que lhe dirija Montano; fará sangue, certamente, e ent?o entrarei eu em scena para armar tal escandalo, que Othello terá de inteirar-se necessariamente do caso. Ora bem; como n?o transigiria nem com o proprio filho em pontos de disciplina, surprehenderá Cassio em falta grave, precisamente no momento de guarda, e affirmo-te que o teu provavel rival n?o tornará a p?r no peito a divisa de tenente, que passará a ser minha, e que, a partir d'esta noute, poderás viver completamente tranquillo.

-E estás bem seguro do teu plano?-perguntou Rodrigo ao alferes, quando este acabou de narrar o infame projecto, que o joven veneziano escutára com profunda atten??o.

-Certissimo-respondeu Iago-Só preciso que prestes o servi?o que te pe?o.

-Conta comigo-prometteu o sobrinho de Brabancio, decidido a tudo para conseguir o amor de Desdemona.

-Ent?o, m?os á obra-respondeu o alferes levantando-se e apertando a m?o do companheiro.-N'este mesmo sitio estás perfeitamente para fazeres quanto te indiquei, porque Cassio sahirá por aquella porta-apontou, indicando uma que havia a poucos metros de distancia.-Espera-o aqui, executa fielmente as minhas instru??es, e n?o duvides de que o triumpho será nosso.

E, acto continuo, o miseravel despediu-se do ingenuo Rodrigo e correu a p?r em pratica o diabolico plano que concebera, n?o para ajudar o companheiro nos seus amores, como promettera, mas para perder um innocente a quem invejava, e supplantal-o no posto e no affecto de Othello.

*

* *

Duas horas depois, o sino de alarme tocava desabaladamente no quartel situado junto da doca do porto, pondo em alvoro?o toda a ilha, que come?ava a entregar-se ao somno passada a agita??o da festa, e obrigando a saltar do leito, em sobresalto, o proprio Othello, que repousava docemente entre os bellissimos bra?os de Desdemona.

CAPITULO IV

O traidor

A minuciosa exposi??o que Yago fizéra a Rodrigo do plano que tinha in-mente, bastaria para que os nossos leitores tivessem noticia exacta de quanto havia succedido durante as duas horas que passaram desde a separa??o dos dois amigos até o momento em que o inesperado toque do sino de alarme levou a inquieta??o e o desassocego a todos os habitantes de Chypre, incluindo n'este numero o proprio Othello.

Mas, se, para maior clareza da narra??o é imprescindivel por um lado conhecer a descrip??o pormenorisada do succedido e assim chegar ao desenlace d'esta tragica historia sem uma solu??o de continuidade que prejudicaria notavelmente a comprehens?o dos factos; pelo outro, seria impossivel, omittindo tal narra??o, seguir passo a passo as interessantes e accidentadas peripecias do complicado drama cuja base principal assenta na ambi??o e na inveja de uma alma perversa, nascida para a infamia e para o crime.

Assim, sigamos Iago no momento em que, ao separar-se do primo de Desdemona, entrou no quartel onde, á entrada, o estavam esperando para a ceia o tenente Cassio e o nobre Montano, governador da ilha de Chypre e representante da Republica Veneziana, na ausencia de Othello.

-Boa noite, prudente Cassio; saude e prosperidade, illustre Montano, cumprimentou o alferes ao entrar, dirigindo-se aos companheiros e superiores.

-Gra?as a Deus que vieste; julgavamos que tivesses esquecido que te esperavamos! exclamou Cassio ao vêr entrar o amigo.

-Pelo que prevejo, interrompeu Montano esbo?ando um sorriso malicioso, este bom Iago, apezar de ter uma esposa deveras formosa, n?o faz má cara ás mulheres do proximo, especialmente quando s?o jovens lindas; e como abundam em Chypre as que reunem estas duas qualidades, gra?as sejam dadas ao Am?r e a Venus, certamente se atrazou, dando uma volta pelas ruas da ilha, com o perverso proposito de render alguns cora??es mais do seu gosto.

-Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago esbo?ando um sorriso intencionado, de que só elle percebeu a transcendencia. Quanto a mim detesto as saias, por instincto de conserva??o, e n?o trocaria uma só garrafa de bom vinho de Chypre por todas as mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que vivem na ilha.

-Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer duas affirma??es duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á minha boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só existe na tua imagina??o, pois confesso-te que, até agora, n?o tenho na minha folha de servi?os uma só conquista que valha referencia.

-Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.

?Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma pra?a que mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.

-N?o te comprehendo, respondeu Cassio com estupefac??o t?o profunda como sincera retratada no semblante.

-Saibamos, saibamos que pra?a é essa e veremos se é digna de disputal-a o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.

-Se elle guarda segredo, n?o sou eu que tenho o direito de desvendal-o, disse hypocritamente o alferes.

-Guardo segredo porque n?o sei a que aventura te referes, respondeu Cassio de boa fé. Explica-te, pe?o, porque conseguiste intrigar-me.

-Modestia, pura modestia, discre??o levada até á mudez! disse rindo o alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido nos bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente outro rumo á intencional charada, cada vez me conven?o mais de que o mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o somos.

-Porquê? perguntou Montano com estranheza.

-Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com impaciencia, o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte tambem declaro que n?o vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia. Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com meia duzia d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos depois heroicamente pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente, fallando de mulheres, isto é, do assumpto menos substancial e mais perigoso que pode tratar-se entre cavalleiros.

-Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.

-Nem mais nem menos do que n'outras occasi?es e nem menos nem mais do que o merecem, disse Iago.

E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam sobre a mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel antiguidade, a julgar pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha, abriu-a e encheu de riquissimo e perfumado vinho os copos dos companheiros e o d'elle. Seguidamente e sem dizer palavra, bebeu-o de um trago e fez estalar a lingua com a placida express?o de um bebedor satisfeito.

Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o tenente Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os ligeiramente com o dourado nectar.

-Como! exclamou Iago apparentando indigna??o e assombro ao ver que o seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo t?o cheio como o levantára. N?o bebes comnosco, ou n?o aprecias este vinho, herdeiro directo da sagrada ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus amigos do Olympo? ignoras, por ventura, desgra?ado, que o vinho de Chypre foi consagrado pela historia, atravez dos seculos, até que vencendo o seu rival Falerno, teve a honra de toldar com frequencia o cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas alegrias de Alcibiades, de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico e de inspirar os versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em Popêa para a expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos amorosos com os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um peccado de lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, apesar de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado que honres o historico vinho como nós o honramos.

-Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.

-Porquê? perguntou com curiosidade Montano. é talvez algum juramento?

-N?o, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece sómente a que o vinho me ataca de tal modo a cabe?a, que basta um copo para transtornar-me por completo e fazer de mim um homem absolutamente diverso de que sou no estado normal.

-Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que n?o te succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir, mandar-te-hemos deitar n'um f?fo e confortavel leito, ou ent?o rir-nos-hemos se te der para nos insultar.

-Um homem embriagado é um ente desprezivel, e por cousa alguma d'este mundo consentiria em chegar a semelhante e lastimoso estado.

-Pois bem, disse deliberadamente Iago; ceêmos; de qualquer forma, affirmo que saberei obrigar-te a brindar comnosco, dado o caso que o nosso exemplo n?o te leve por motu proprio a provar o historico nectar.

Acto continuo serviram-se os primeiros pratos, e durante minutos apenas se ouviu o ruido produzido pelos dentes ao triturarem os tenros ossos das presas que devoraram.

Inesperadamente Iago levantou-se e enchendo os dois copos que ainda estavam vasios, pegou no d'elle e brindou:

-Pelo feliz matrimonio do nosso general e para que nunca veja perturbado com a mais ligeira nuvem o céu de seus amores com a bella Desdemona.

E dirigindo-se a Cassio, accrescentou:

-Atreve-te a recusar este brinde, e asseguro-te que Othello nunca te perdoará a descortezia, se um dia vier a sabel'a.

Cassio vacillou um segundo; mas, instado por Montano, que juntou os seus rogos aos do alferes, pegou no copo e bebeu-o de um trago dizendo:

-á saude do general, e pela eterna felicidade do seu matrimonio!

E em seguida cahiu na cadeira, sombrio e taciturno, como arrependido de ter quebrado t?o facilmente a resolu??o de permanecer sobrio.

Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversa??o do alferes e pela alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o primeiro voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse levantando o seu:

-Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das suas armas sobre todos os inimigos!

Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem despejar o seu, disse em tom resoluto:

-D'esta vez n?o beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado, e por isso espero que n?o insistam mais.

-Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes teem ouvidos, que n?o quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de ter brindado pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente affirmará, continuou, sem parecer notar o olhar colérico que lhe dirigia o companheiro, que n?o passas d'um adulador egoista, que pretende afagar os poderosos, para medrar á sombra d'elles, e que, como florentino afinal, te importa pouco que a Republica triumphe ou seja derrotada pelos seus inimigos.

Cassio cravou no miseravel um olhar amea?ador e apertando convulsivamente os queixos um contra o outro, como para conter as palavras que estavam prestes a escapar-lhe dos labios, pegou no copo e bebeu nervosamente até á ultima g?tta.

Outra vez proseguiu a scena, e foi ent?o Montano quem, excitado já pelas liba??es, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse apresentando o seu:

-Pela total ruina do poderio turco, e para que o le?o de S. Marcos destroce, definitivamente, nas suas garras, a orgulhosa meia lua!

O tenente Cassio, sem que em tal momento tivesse ninguem que o provocasse, foi o primeiro a tocar no copo do nobre anfitri?o.

Mas, apenas bebeu o vinho que continha, soltou uma blasphemia, e cravando no alferes os olhos esgazeados, cuspiu-lhe á cara este insulto:

-Iago, és um miseravel!

Immediatamente arremessou o copo contra o solo e sahiu, cambaleando.

-é melhor seguil-o, pois vae em mau estado e pode praticar qualquer disparate! observou prudentemente Montano.

-N?o te preoccupes com elle, illustre amigo, replicou Iago com indifferen?a, Já desabafou commigo e agora irá direitinho deitar-se e curtir a bebedeira.

?Conhe?o-o perfeitamente, pois ha muito tempo que o acompanho e sei que isto lhe succede com frequencia.

-Como! exclamou Montano admirado. Pois n?o nos affirmou que nunca bebe?

-Ora! respondeu o miseravel. Isso dizem por causa do general todos os bebedos que resistem pouco e teem, além de medo, mau vinho!

?Aposto dez escudos de ouro em como terás encontrado em tua vida muitos homens, que, como Cassio, teem, poderiamos assim chamar-lhe, o pudor da bebedeira, porque, quando recobram a raz?o, se envergonham da conducta que tiveram durante o estado de embriaguez.

?Isto, porem, rematou Iago, com malevola inten??o, n?o os impede de tornar a beber, fazendo-se algo rogados para cobrir as apparencias e desculpar o juramento que costumam fazer a miudo, e de que se arrependessem nas occasi?es opportunas.

-é certo! disse Montano convencido. Confesso, porém, ter chegado a acreditar ser Cassio um homem de caracter, incapaz das ridiculas pechas dos espiritos fracos. Desprezo os homens que n?o teem o valor da convic??o das suas qualidades e dos seus vicios, e nunca pensei que o tenente de Othello pertencesse a semelhante classe de individuos.

-Porque n?o o conheces, volveu perfidamente Iago. Quanto a mim, estou habituado a estas scenas, e, como sempre que bebe, me insulta, ou?o os ultrages como quem escuta a chuva. Isto te foi dado observar ha pouco.

-Sem duvida, disse Montano n'um tom affectuoso. Bem pode dizer esse bebedo que tem em ti um verdadeiro amigo.

-Sim, estimo-o, respondeu Iago, e prefiro, por isso, que desabafe comigo, a que o fa?a com outro qualquer; pois o insulto poderia acarretar-lhe desgosto sério, como já por vezes tem estado a ponto de succeder-lhe, quando n?o me encontro junto d'elle.

-Mas, p?e-se de tal modo quando bebe? Perguntou Montano.

-é verdadeiramente insupportavel; para qualquer outro que n?o tenha a minha paciencia, torna-se aggressivo e turbulento, e n?o ha meio de reprimir-lhe as insolencias sen?o castigando-o severamente.

-N'esse caso, observou Montano em tom de pezar, repito que fizemos mal em o deixar sair d'aqui... Quem sabe, se...

N?o poude terminar a phrase, porque n'aquelle momento faziam-se ouvir, n?o longe d'ambos, os gritos espantosos de um homen que pedia auxilio desesperadamente, e antes que tivessem tempo de se refazerem da surpreza, entrou na sala, com flecha, um individuo vestido de marinheiro, que vinha seguido de perto pelo tenente Cassio. Este proferia a tropel blasphemias e maldi??es agitando a espada que empunhava.

-Hei de espetar-te como um frango, meu grande tratante! gritou o tenente ao entrar em casa, apóz o marinheiro, o qual, como já ter?o adivinhado n?o era outro sen?o Rodrigo, que havia seguido fielmente as instruc??es dadas por Iago para a execu??o do plano.

-Socorro, socorro, que me mata! gritou Rodrigo com voz que reboou por todo o edificio, despertando os homens de armas.

-Alto ahi, amigo Cassio! exclamou Montano severamente. O que fazes n?o é proprio de cavalleiro!

-Se ha aqui alguem que n?o seja cavalleiro, esse és tu, covarde defensor de malandrins, respondeu gritando Cassio, emquanto amea?ava de tal modo Montano com a ponta da espada, que o defensor de Chypre teve de dar um salto para traz e arrancar da que trazia para defender-se, pois corria o risco de ter o peito atravessado pela lamina do adversario.

Limitou-se, porém, a aparar os ataques furiosos que lhe dirigia o tenente, completamente fóra de si, emquanto Rodrigo, Iago e os soldados que haviam acudido, armavam tal barulho com as exclama??es e gritos, que o escandalo n?o tardou em propagar-se desde o porto até ás primeiras ruas da ilha cujos pacificos habitantes perguntavam assustados o que se passava, julgando-se amea?ados por qualquer invas?o de turcos.

Entretanto seguia Montano defendendo-se dos ataques do tenente. Mas, num movimento que fez, ao aparar terceira estocada, teve a desgra?a de ferir-se, ficando a descoberto, e recebendo em pleno peito a ponta da espada do adversario, que se lhe enterrou duas pollegadss na carne.

Cahiu no solo o nobre patriota, emtanto que os soldados conseguiam desarmar Cassio, que ficára como attonito ao ver Montano por terra. Entretanto Iago escapou-se sem ser visto e logrou assim chegar até o sitio onde estava a sineta de alarme, pela qual puxou furiosamente por bom espa?o de tempo.

Os repetidos e violentos toques acabaram de p?r em alvoro?o toda a ilha, cujos moradores saltavam apressados dos leitos, tomados do maior panico.

Armou-se uma confus?o indescriptivel, e um dos primeiros a abandonar o repouso e armar-se foi Othello, que, depois de acalmar quanto possivel a inquieta??o de Desdemona, sahiu do palacio, seguido de alguns officiaes, para inquirir as causas de semelhante escandalo nocturno.

N?o tardou em averiguar que a origem do reboli?o partira do corpo da guarda situado no porto; e quando, ao apresentar-se alli, encontrou Montano ferido, Cassio desarmado e preso de um atordoamento indiscriptivel, que lhe impedia dar qualquer explica??o, e Iago lamentando-se tragicamente do occorrido, ficou profundamente admirado; n?o tardou, porém, em succeder ao assombro uma cólera tal, que fez estremecer de terror quantos conheciam os terriveis arrebatamentos de tal homem, exceptuando o alferes que, longe de atemorizar-se ao ver o general dementado pela colera, sentiu o maior jubilo, enfor?ando-se todavia para n?o o dar a conhecer, porque, por muito, que devesse regosijar-se ao ver o exito alcan?ado pelo seu infame plano, a manifesta??o mais ligeira de tal regosijo teria sido uma imprudencia que lhe podia custar cara.

Conseguintemente, em vez de se mostrar satisfeito, accentuou mais ainda a tristeza da attitude e o tom das lamenta??es, e quando Othello lhe ordenou severamente que o informasse de todo o occorrido, o miseravel fez um relato permenorisado, tratando de desculpar apparentemente o amigo, mas, na realidade, aggravando de tal modo a sua conducta e as consequencias possiveis do escandalo a que havia dado logar em taes circumstancias, empregando phrases t?o campciosas como intencionadas, lamentando com t?o bem simulada sinceridade que por uma ligeira imprudencia, segundo elle dizia, se tivesse chegado até ao extremo de tocar o sino de alarme e interrompido o somno do seu general; fez resaltar, em seguida, com, t?o perfida astucia, o desastroso effeito que a grave ferida do nobre compatriota podia causar nos habitantes da ilha, ainda que, segundo accrescentou, Cassio nunca fizera tal cousa a n?o ser sob o imperio da embriaguez; apresentou n'uma palavra, t?o avultados os factos, fingindo diminuil-os, que, quando acabou a narra??o, condimentada com protestos de lealdade para com Othello e de sincero affecto para Cassio, o general completamente enganado pelas palavras do traidor, e muito mais irritado contra o tenente do que antes de ter ouvido Iago, estendeu-lhe afectuosamente a m?o, e disse:

-Vejo que te conduzes para comigo com a mesma prudencia e fidelidade de sempre, emquanto este homem, e indicou Cassio que permanecia a alguma distancia, aguardando ordens e já completamente sereno, abusa da minha confian?a pelo modo indigno como procedeu esta noute.

?Pois bem: saberei dar a cada um o que em justi?a lhe corresponde. Tu, meu bom e fiel Iago, n?o continuarás muito tempo sendo alferes, prometto; e quanto ao que diz respeito, accrescentou levantando a voz e dirigindo-se a Cassio, a partir d'este momento ficas exonerado do teu cargo de tenente e privado da minha amizade, de que t?o indigno te mostraste.

-Mas general, tratou de intervir hipocritamente Iago, emquanto lhe brilhava nos olhos um fugitivo relampago de infernal alegria, vêde que o castigo é excessivo para a falta!

-Se é, ou n?o só me compéte julgal-o, replicou Othello. Silencio e acompanha-me ao Palacio.

E, levando após si o traidor e o jubiloso alferes, Othello abandonou o corpo da guarda, deixando Cassio, entregue á desespera??o que lhe causava o ignominioso castigo que acabava de soffrer e ver-se privado do affecto e estima de um homem a quem realmente amava como a irm?o.

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