Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, can?ado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no campo.
-Meus peccados, boa tarde!-dizia elle para a mulher, com um sorriso a affectar seriedade.
Vinha logo o pequeno, o Manuel, de m?os postas pedindo-lhe a ben??o.
-Deus te aben?oe.
-Pae, olhe que o ?Sult?o?... ia a dizer o pequeno.
-Bem sei! atalhava logo o Thomé.-O ?Sult?o? é um maroto e tu és outro.
E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de meia-lua, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a gaveta do p?o, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo, resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:
-é que por este caminho n?o tenho um dia descan?ado... Nem uma hora...
Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
-...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A modos que vou já can?ando...
Mas o Thomé n?o era homem que dissesse estas coisas de cora??o. Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava sem ir campos fóra, madrugador como um melro.
-Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé encolhendo os hombros, como quem está desgostoso com um genio assim.
Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra que dava para a rua, arrega?ado, em mangas de camisa, muito á vontade.
Costume velho do Thomé:-mal se sentava, mastigando o ?boccado?, dizia logo para o filho:
-Ouves, Manuel? Bota cá fóra o ?Sult?o?.
O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roli?os, e punha-se a pular de contente, dizendo cá da rua:
-?Sult?o?! Sae cá p'ra fóra, ?Sult?o?!
No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta baixa, destacava-se ent?o a cabecita parda de um jumento, orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de palpebras pestanudas...
E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,-um grande riso de alegria nas fei??es amorenadas, contente de ver o seu ?Sult?o?.
Mas o pequeno jumento n?o avan?ava um passo, divertindo-se em arreliar o Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de quadrupede de boa ra?a, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono...
Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava gra?a. E punha-se ent?o a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e desdenhoso jumento-o p?o e o queijo esquecidos n'uma das m?os, na outra a navalha de meia-lua:
-Ent?o, ?Sult?o?, n?o vens?
-N?o! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada na soleira, zap!
-Zangado, ?Sult?o?? perguntava o lavrador.-De mal comigo?
E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á vontade...-que n?o fosse vel-o o ?Sult?o?... Mettia entre dentes um pedacito de queijo, logo uma codea de p?o, e fazendo umas grandes rugas na testa, de quem come?a a zangar-se, voltava-se ent?o muito serio:
-Ficas ahi, ?Sult?o?? Já n?o és meu amigo?
O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pesco?o, parece que fazendo-se humilde...
-Ent?o se és, anda d'ahi. Olha...-E mostrava um pedacito de p?o.-P'ra ti se vieres...
O ?Sult?o? dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar, o Thomé carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe n?o dava o p?o. E desfechando-lhe emfim a amea?a de o vender a um cigano, entrava a tratal-o por senhor-s?r ?Sult?o?...
Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas baixas, pesco?o cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perd?o da arrelia.
Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir como um perdido.
-Diabo do gerico! diabo do rat?o! Capaz é elle de fazer rir as pedras, o mariola!-E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela.
No emtanto, o ?Sult?o? ia avan?ando, muito ronceiro, até que tocava com o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o:
-Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se voltar.-Cuidas talvez que te n?o conhe?o, cuidas? Já te n?o quero, vae-te!
Mas como que irreflectidamente, fingindo n?o querer, chegava-lhe ao focinho um pedacito do p?o, o melhor da fatia. ?Sult?o? lan?ava um olhar obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o bei?o superior, a tremer, e roubava-lh'o da m?o.
Pazes feitas! Era ent?o rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito estridulas.
-Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.a Josefa.-Até pareces doido!
-Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava o Thomé, n'uns grandes gestos.-Vamos que eu lhe n?o queria dar da merenda? Ladr?o, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.
Era precisamente o que o Thomé queria:-ver o ?Sult?o? a brincar.
...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes causticantes e chuvas torrenciaes.
Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das ?partidas? e ?diabruras? do ?Sult?o?! ás vezes, o pequeno jumento, ferido n?o sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n'um alarido o rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos, descal?os, alguns quasi nús, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o-como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre todos voava o ?Sult?o?, apupado, perseguido, acclamado, na malta espavorida dos inimigos...
-?Sult?o?! eh lá! ?Sult?o?!
Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, n?o lhe desse na b?lha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle, tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se n?o deixar atropellar investia com o ?Sult?o? de bra?os abertos, o que era, já se vê, um modo de o abra?ar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde se deixava cair,-derrotado!
-P'ra lá, ?Sult?o?! p'ra lá! fazia ent?o o Thomé, oppondo-lhe os pés, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir como um perdido.
Ent?o o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos rapazes o aviso de se arredarem-?porque era doido, aquelle demonio?!...
Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um c?o, certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os saltos do costume, respondendo com uma amea?a de pinotes á surpresa da viandante.
-Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o Thomé, com ares de zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma verdasca:-?Sult?o?! venha já p'r'aqui! intimava.
E se encontrava um c?o? Se encontrava um c?o, ia logo direito a elle, muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um cumprimento humilde de focinho. O c?o regougava, desconfiado, entreabrindo a dentu?a, preparando a sua dentada. N?o dava o ?Sult?o? signaes de medo, e humilde proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada ganhava o terreno perdido-fitando impassivel o c?o... O bruto formava ent?o o salto, regougando forte, o pêllo eri?ado; e ao investir para a primeira dentada, salvava-o de um pulo o ?Sult?o?, evitando-o, até que por compaix?o lhe dava um pequenino coice, ?mais feitio que outra coisa?, pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:
-Eh! valente! gritava-lhe ent?o o Thomé.
E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo ao correr a caravelha:
-N?o ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem primeiro descer a vêr o ?Sult?o?,-de candeia na m?o esquerda, e na direita, contra o sovaco, a bella quarta do gr?o, acogulada.
Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.a Josefa tinha de intervir ent?o, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
-Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que s?o horas.
E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que fallou,-historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo desgosto que o ?Sult?o? lhe n?o respondesse:
-Boas noites!
* * *
Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao cortelho, de manh? cedo, e n?o encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de enorme-gelada...
-ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.-ó Josefa!
A mulher assomou á janella, sobresaltada.
-Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
-Que te roubaram o quê? fez a sr.a Josefa, muito attonita.
-O burro, o ?Sult?o?! Vem cá ver que m'o roubaram!
E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descal?o, romperam todos tres na gritaria, defronte do cortelho vazio:
-á d'el-rei! á d'el-rei! á d'el-rei!
Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.
Mas em v?o! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra:
-Nada!...
Vocês lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito castanhos, quasi louros, que morava defronte da redac??o, lembram-se? A boa da rapariga era nossa amiga, pois n?o era? Sempre benevola e complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas balburdias e algazarras...
Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e encantadora-a de n?o mostrar jamais na sua amisade preferencia por algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irm?, ou mesmo nossa m?e, pois que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e brando...
N?o sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao escriptorio.
-Ent?o esses cabulas? ent?o esses marotinhos? Doente, algum?
-Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá...
-Ora vejam!-fazia ella quasi escandalisada.
Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um tête-à-tête que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que chamando-lhe por tu e ella a nós!
Como eu me lembro!
Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil perguntas que lhe faziamos, e ent?o uma grande paciencia inexhaurivel. Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade singela do seu cora??o de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel, toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante.
Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me n?o lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, é que nós como que a consideravamos uma companheira de redac??o, especie de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda d'escriptorio!) e, assomando á janella, a n?o viamos na sua, diziamos quasi sem querer, mas invariavelmente:
-Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa da freira de Quebra-Costas-d'essa lembram-se vocês... No emtanto, deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...-coitada!-...a primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, ?estive aqui, estive alli, fui a umas compras com a mam??, um pouco ruborisada e confusa, como se na realidade a sua obriga??o fosse estar alli a aturar-nos. Por pouco ella nos n?o pedia de m?os postas que lhe perdoassemos, a boa da rapariga.
E nós ent?o galhofeiros, brincalh?es:
-Sem mais aquellas, D. Maricas! A congrega??o risca-lhe a falta, ora essa!...
E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:
-Pois sim, mas é que ás vezes...
-ás vezes quê?...
?N?o! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...?
-Pois n?o era verdade-perguntavamos-lhe-que ella adorava aquella troupe de bohemios?
-S?o todos muito bons rapazes-dizia já a sorrir.-Todos me tractam muito bem...
E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se illuminava de prazer e sorria de intima gratid?o. Mas porque sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?
Quando nos via em palestras interminaveis, nas liba??es do congnac e do café, ouvia-se lá da janella um pschiu! muito sibilado.
-Que manda a D. Maricas? é servida?
E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:
-Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
O cuidado que lhe dava o jornal!
-Ora faz favor de n?o fallar em coisas tristes? Olhem agora que lembran?a, o jornal!
Ella ent?o, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.
E por fallar em provas:-a Maricas sabia todos os signaes das emendas, todos.
-Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra.
-Risco por cima, risco á margem, e um d cortado; é facil.
-Um m de pernas para o ar, e esta?
-Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber...
Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe ent?o a vontade, e mal escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella, acenando-lhe com o papel:
-Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo.
á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com um bravo! e recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um cigarro.
A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia a gomma nos dias de expedi??o. Que ricas cintas e que bella gomma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita atirava-se-lhe da janella.
-Maricas, ahi vae ainda fresquinho!
-'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanh?.
Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga.
-Durma bem, ouviu?
E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito bom, ?escripto com muita gra?a e muito bem?, como ella dizia.
Nos ser?es que faziamos e que por via de regra n?o passavam de um interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redac??es... Mas da Maricas ninguem tinha que dizer sen?o bem; era a privilegiada n'aquellas sess?es de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em algazarra-um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de viol?o. E era de vêr o Santos Mello, d'olhos cerrados e cabe?a á banda, como cantava a sua quadra predilecta:
Sei cantigas mysteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lirios dizem ás rosas,
Que as rosas me vêm dizer.
Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio.
?Com mil demonios! n?o viam que a Maricas n?o podia pregar olho...?
Todavia...-ó suprema bondade!-...ella nunca se queixava quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes que as cadeiras tinham caido.
?Ora viam?! N?o a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse; palavra d'honra! d'óra ávante...?
Ella ent?o acudia logo, como a remediar uma grande desgra?a:
-N?o, n?o, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora essa...
* * *
Pois, meus amigos, a boa da Maricas-morreu! vocês n?o sabiam! E morreu tysica, a desgra?ada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas m?ositas de marfim...
Pobre Maricas!
Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella tinha ido?!...
Mal diria eu que estavas no cemiterio, t?o longe e t?o só! porventura na valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde,-onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resigna??o:
-...?Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem?...
Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era triste... Mas porque foi que nos n?o disseste, pobresinha! que n'essa phrase singela ia a revela??o do presentimento que tinhas da tua morte prematura?! Triste crean?a que nós n?o mais veremos!
Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me n?o dizes-bravo!-ora n?o?...
* * *
...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella rebentem fl?res, s?o talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as seivas...
Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á porta do José Grillo
Truz! truz! truz!
Os de casa acordaram, sobresaltados.
-Schiu! nem pio!-fez o José Grillo para a mulher.-Moita!
-Truz! truz! truz!
Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo pae.-Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria divertir...
Mas logo outra vez na porta:
-Truz! truz!
-Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de alguem que fugia.
-Eu n?o te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir-explicou elle para a mulher.
Mas palavras n?o eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham vindo p?r z?rro...
-ó mulher, queres tu ver que ha novidade?
De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do casebre.
-Elle que demonio de embrulho...?
Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma crean?a, envolta em dois trapinhos muito velhos.
-Coitadinho! fez o ganh?o achegando ao peito a creancinha.
-Grandes cadellas!-E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a gente da casa.
-Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os bons dias á gente!
Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo mettera a crean?a na cama, visto que a pobresinha estava gelada...
-Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:
-Que se n?o demore, ouves? que se lhe paga aquillo que f?r.
Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a saia amarella deitada pela cabe?a, de bra?os cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
-ó mulher, nada de afflic??es, é tal e qual como se fosse nosso, faz de conta...-observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da femea.
Ella só redarguiu que nosso era um modo de fallar. Seria d'elle, mais de qualquer desavergonhada...
O José Grillo, que estava a enfiar as cal?as, parou no servi?o e pregou-lhe uma gargalhada.
-Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo.
A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um bra?o, levou-a ao pé da crean?a, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho d'elle.
-O pequeno?... mas é que pode ser cachopa-disse o José Grillo para a mulher.-E certificando-se:-Nada! é rapaz.
Seguiu-se uma alterca??o. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela sua salva??o que ?o crian?o? era filho do seu homem.
-Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, bra?os no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo pesco?o n'um geito de sobrepeliz.-Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!
-Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz-disse-lhe de lá o José Grillo, muito fleugmatico, debru?ado sobre a crean?a.
Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalha?o, muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para ella e disse-lhe muito solemne:
-Pois assim me Deus salve como n?o é meu o rapaz.
Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.
-Juras pelas cinco chagas, ó homem?
-Juro pelas cinco chagas.
-Assim te Deus dê saude, ó José?
-Assim me Deus dê saude.
-Preto sejas tu como o teu chapeu?
-Preto seja eu como o meu chapeu.
A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da Concei??o, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.
Depois desabafou, muito aliviada:
-Ai!
O José Grillo poz-se a rir.-?O demonio da Joanna, com ciumes!?
-Mas ciumes de quê, ó mulher? n?o farás favor de me dizer de que diabo tens tu ciumes?-perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo deante da mulher desconfiada.
A outra, muito delambida, redarguiu com ironia-?que o seu homem era um santinho...?-O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo, reguingou d'alto:
-Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que engeitou este...
Aqui, fez uma suspens?o; depois perguntou, muito lampeira:
-Mas quem seria a grande cadella?
Poz-se ent?o a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas:
-Precisava ser enforcada, a tua m?e; quem quer que é tem mesmo entranhas de lobo.
O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do José Grillo.
-é fome, coitadinho! o infeliz inda n?o sabe que coisa é mamar-disse contristado o lavrador.
Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.
-Tua irm?, tua irm? é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá fazer? Ouves? n?o me dirás que diabo vens tu cá fazer?-E deu um bofet?o na filha, ?para que soubesse dar o recado?.
A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga n?o tinha culpa. A irm? é que a mandara para levar a crean?a, porque ella, adoentada, fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...
-Só se lhe queres tu dar de mamar-insistiu ainda o José Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.
A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:
-Credo, homem! essas coisas n?o se dizem, nem por gra?a.
-Eu sei lá se n?o se dizem?-observou o lavrador, muito zangado.-Dá cá d'ahi o pequeno.
Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O lavrador depol-o nos bra?os da Dorotheia, com mil cuidados, e depois elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse bem quente.
-Roda forte, ouves? E diz lá a tua m?e que eu de tarde por lá appare?o, p'ra ver isto do ajuste.
A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga:
-ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.
Ent?o poz-lhe os farrapos ao hombro-uns peda?os miseraveis de velha chita-e a Dorotheia partiu onde á irm?.